A Missão do Anjo

3 O Terceiro Ato do Anjo.


A Missão do Anjo.

O Terceiro Ato do Anjo.

Arthur Miles admirou por breves segundos a bela casa de Mary Jane Whiles, vendo que apesar de uma estrutura básica de dois andares, continuava a ser luxuosa em seu estilo simples. A mãe da mestiça, pelo o que pareceu, cultivava muito bem o pequeno jardim da frente, que sempre andava com a grama cortada e as flores belíssimas como sempre, além de um pequeno pinheiro em frente a uma janela, que parecia ser o mais verde.

A cor da casa era branca, tornando-se destaque entre as outras duas casas, dando um ar de calma, uma sensação de leveza.

— Cheguei~ – a garota de cabelos louros cantarolou ao adentrar a casa, guiando Arthur até a sala. Virou-se rapidamente para o jovem de cabelos negros, indicado para o mesmo sentar-se no sofá. – E então, Arthur, quer beber alguma coisa? Se estiver com fome, basta apenas me avisar, certo? Minha mãe fez uma gelatina deliciosa!

— O que é... gelatina? – Mary Jane se espantou com a pergunta, percebendo que seu espanto resultou em um longo suspiro vindo do moreno. – Desculpe por não saber o que é isso... na minha era, digamos assim, já estávamos começando a sermos controlados pelos demônios, então não tínhamos muitas opções de comida, era tudo muito... selecionado. Os agricultores daquela época estavam sumindo como um passe de mágica, então não tínhamos muita produção.

— Não, não, Arthur, está tudo bem! – a mestiça afobou-se, balançando ambas mãos enquanto colocava sua mochila em cima do sofá. – Perdoe-me pela minha falta de compreensão, eu só fiquei surpresa com a sua pergunta. – a loira tossiu fracamente, sorrindo docemente. – Mas gelatina é considerada uma sobremesa, sabe... tem de várias cores, e acho que os gostos são os mesmos, mas vai saber, né...

— ... Continue. – o jovem Miles franziu o cenho, interessando-se pela explicação. Mary Jane afobou-se um pouco antes de sentar-se ao lado do garoto, sorrindo docemente.

— A gelatina, antes de ser preparada, é apenas um pozinho dentro de um saquinho. – a mestiça fez alguns gestos com a mão, vendo o ex-caçador assentir com a cabeça. – Prepara-la é muito fácil, eu mesmo faço algumas! Gostaria de experimentar, ao menos, um pouco?

— Acho que mais tarde. – Arthur respondeu envergonhado, franzindo o nariz com toda aquela atenção sendo dirigida para sua pessoa. – Você não deveria cuidar desse seu machucado aí?

— Que machucado? – ah, aquela voz grossa e arrogante fez com que Mary Jane perdesse a cor de seu rosto, tendo um Arthur completamente confuso ao ver a perda de cor no rosto da mestiça.

Como se temesse ver o que estava atrás de si, olhou hesitante por cima do ombro, vendo Lúcifer aparecer na sala, sem suas asas à vista, com os braços cruzados em frente ao peito e uma carranca em seu rosto. Os olhos negros do anjo caído direcionaram-se exatamente ao machucado de Mary Jane, que rapidamente colocou sua mão sobre o mesmo, impedindo que o tio visse mais do que o necessário.

— Eu não consigo acreditar, Mary Jane! – Lúcifer vociferou, cerrando os punhos claramente irritado. – Nós lhe avisamos mais de cem vezes, garota, para que você ficasse longe dessas malditas Figuras! Não importa se é ou não filha de Oliver, não é seu direito de impedi-las, deixe isso com os anjos!

— Tio Lúcifer, por favor, não na frente das visitas! – Mary Jane exclamou ofendida, apontando para Arthur.

— Não precisa se preocupar comigo, velhote. – Arthur acenou para o anjo caído, que suavizou sua expressão ao olhar a careta despreocupada do jovem Miles.

— ... Gostei de você, moleque. – aquela fala fez com que Mary Jane lançasse um olhar ofendido ao anjo de asas negras, perguntando-se porque o mesmo nunca havia dito aquilo – diretamente – a ela. – Mas não importa qual seja sua desculpa ou se este moleque estava com você, este machucado é grave, Mary Jane! Cabeças irão rolar se seu pai descobrir que se machucou!

Como resposta de sua fala, um trovão estralou no céu com violência, fazendo o anjo caído estremecer violentamente, sentindo nitidamente a pressão violenta que formava-se no ar. Engoliu um seco enquanto aproximava-se do sofá e colocava ambas mãos em cima do machucado de Mary Jane, concentrando ali um pouco de energia – o suficiente para cicatrizar o machucado.

Arthur via o processo de cura com os olhos brilhando, totalmente fascinado no poder que os anjos daquela época possuíam. Quando Lúcifer afastou-se de sua sobrinha, os olhos negros do jovem Miles arregalaram-se ao ver as marcas de garras cicatrizadas, quase sumindo entre a pele pálida da mestiça. A jovem Whiles de longos cabelos louros sorriu agradecida ao tio enquanto tirava o casaco e deixava-o sobre o braço do sofá, deixando seus pequenos e delicados braços à vista, em contraste com a manga de seu vestido branco com detalhes pretos.

Por um momento, o ex-caçador perguntou-se o porquê de tantas marcas de cicatrização estarem presentes principalmente nos ombros da jovem mestiça, que parecia completamente alheia sobre eles. Percebendo o olhar curioso sobre as marcas de sua sobrinha, Lúcifer logo adiantou-se a explicar.

— Os ataques das Figuras são constantes, e como este ser não me escuta, sempre acaba se machucando em algum lugar.

— Eu só quero ajudar! – Mary Jane inflamou suas bochechas antes de franzir o nariz divertida. – Mas agora, irei ajudar o Arthur no nosso trabalho de História, né!?

Arthur apenas resmungou enquanto incomodava-se minimamente com aquela simples frase. O anjo caído observou atentamente enquanto ambos retiravam seus cadernos da mochila, abrindo no dia exato das regras que deveriam serem seguidas para a construção do cartaz.

— Precisamos criar uma personagem com identidade, construindo uma história para que ela possa fazer parte de uma trajetória. – Arthur resumiu o trabalho, olhando brevemente para o homem de cabelos negros. – Talvez você tenha alguma história interessante, velhote.

— Ah, o tio Lúcifer tem muitas histórias interessantes! – a mestiça exclamou, olhando animadamente para o tio, que assentiu lentamente. – O senhor não se incomodaria de nos dar uma ideia, né?

— Eu tenho uma história perfeita para o trabalho de vocês, crianças. – o anjo caído respondeu calmamente, quase em um tom nostálgico. – Talvez será um pouco meloso para você, moleque, mas Mary Jane ama essa história... é como uma simples e impertinente humana conseguiu mudar o coração orgulhoso e frio de um anjo caído.

— Um tanto quanto fantasiosa, se olhar por um lado mais lógico...

— Arthur, essa é a minha história favorita! Não estrague o clima, seu bobo!

— Enfim, eu a conheci quando ela veio atrás de mim, com a proposta de fazermos um trato. Naquela época, quando Mary Jane não passava de apenas um pequeno feto, fazia meus contratos à moda antiga: sua alma em troca de algo que pudesse lhe beneficiar. Um tanto medieval, vocês devem estar se perguntando, mas foi isso que permitiu-me ficar mais perto dela. – o anjo contava quase que nostalgicamente, sorrindo aos poucos enquanto aprofundava-se. – Aquela garota, Ally Madson (1) era uma mulher impertinente, mas o maior dos desafios! Enquanto eu, um jovem anjo metido a gostosão, tinha todas as mulheres ao meu redor, a minha amada Madson apenas me olhava torto e dava as costas, seguindo em direção a uma casa cheia de... pessoas loucas!

— Tia Ally era como uma mercenária! – Mary Jane comentou em voz baixa, atraindo a atenção de Arthur.

— É claro que eu tentei faze-la me amar a força, mas não deu certo... acabei levando uma katana no coração e uma clara ameaça de ter minha cabeça em uma bandeja de prata! Mas, sabe crianças, com o tempo, aquele coraçãozinho frio foi derretendo aos poucos, digamos por este jeito... bastou apenas ter seus pensamentos em ordem que ela logo percebeu o que acontecia ao redor. – Lúcifer soltou uma baixa risada. – Depois disso, tudo parecia um mar de rosas... não éramos um casal normal, é claro, estávamos longe de ser isso! Quando uma de minhas fãs jogava-se para cima de mim, era quase que brutalmente desfigurada por ela!

— Sua esposa era uma mulher um tanto quanto possessiva. – o jovem Miles deu de ombros, arrancando uma gostosa risada do anjo caído.

— Não, moleque, não éramos casados! Mantínhamos um relacionamento de noivos, por assim dizer. Acredite, esses olhos nem sempre foram negros.

— Como?

— Os olhos do tio Lúcifer eram vermelhos! Um carmesim muito belo, pelo o que mamãe sempre me contou! – Mary Jane respondeu nostálgica, mas logo um sorriso melancólico surgiu em seus lábios finos. – Mas depois da morte da tia Ally...

— Ela morreu como a mais bela mulher que sempre foi. – Lúcifer completou, sorrindo tristemente enquanto guiava sua mão até o bolso de sua calça social, sentindo um pequeno crucifixo guardado ali. – Eu não poderia ficar prolongado a vida de minha amada Madson, pois não podia fazer isso... seu contrato era de eu apenas fornecer habilidades a ela, e não uma vida prolongada. Ela não escolheu a imortalidade, mas viveu como um verdadeiro imortal. Depois de sua morte, tão digna quanto uma canção de verão, esses olhos tornaram-se negros.

— ... – Arthur manteve-se quieto quando a narrativa acabou, respirando fundo antes de tomar coragem o suficiente para comentar. – Podemos tirar algum núcleo disso aí e criar uma história.

— Algo dramático, cheio de amor e reviravoltas, como o romance do tio Lúcifer! – Mary Jane inclinou-se para frente, quase grudando seu rosto no do jovem Miles. Lúcifer franziu o nariz ao ouvir as folhas das árvores balançarem calmamente –um sinal de que Oliver estava feliz. – E com um final bem peculiar, como a mudança de alguma coisa!

— Vou deixá-los a sós. – Lúcifer riu internamente ao ver os dois adolescentes discutindo sobre o trabalho, com diferença de uma Mary Jane afobada e um Arthur completamente calmo. Dirigiu-se até a cozinha e olhou brevemente para o céu, franzindo o nariz. – Está feliz agora, Oliver?

. . . .

Certo, e por que vocês criaram um final tão dramático para a personagem de vocês? – a professora de História perguntou calmamente, vendo a dupla entreolhar-se e olhar brevemente para o cartaz. – Porque, então, essa personagem não teve um final bom, mas também, não ruim?

— Queríamos retratar também a mudança de uma vida real, e não fictícia. – Helena Strife respondeu calmamente, gesticulando com uma das mãos. – Na ficção, o final sempre possui aquele final que parece tudo perfeitamente ensaiado. No nosso trabalho, fizemos nossa personagem ter um final muito parecido com a realidade, onde ela possa então se parecer com uma pessoa com uma identidade histórica.

— Muito bem, meninas. – a professora de cabelos negros parabenizou-as, anotando algumas coisas que seriam importantes para a nota de ambas. Ao passar por uma das mesas, Helena exclamou baixinho com Mary Jane Whiles, que a parabenizou pela apresentação. – Certo, agora... Mary Jane Whiles e Arthur Miles! Trouxeram o trabalho?

Não bastou responder, pois ambos já estavam na frente da sala. Abriram o cartaz e cada um segurou uma ponta, com Mary Jane lançando um olhar animado ao jovem Miles, que apenas mordeu o lábio inferior.

— Não acredito que aquele esquisitão fez o trabalho com a fofa da Whiles! – um dos garotos do fundão reclamou com seu colega, obviamente com ciúmes.

— Muito bem, Arthur e Mary, podem começar.

— Você quer começar? – a mestiça de sardas perguntou baixo a Arthur, que negou com a mão livre. Sorriu abertamente e virou-se para sua turma, que olhavam atentamente, à espera do início da apresentação. – Nossa personagem se chama James Jackson, sendo ele um jovem camponês durante o Feudalismo. James vivia com seus pais e seus cinco irmãos em uma casa perto das extremidades do castelo – uma grande parcela daquilo que produziam era entregue a família nobre.

— James conheceu uma jovem camponesa quando ajudava a recolher os produtos de outras famílias, para todos juntarem e entregaram aos conselheiros do rei. – a voz de Arthur era baixa e no tom perfeito de um narrador, que encantara um grupo de amigas sentadas perto da janela. – Seu nome era Alysson Becker, uma jovem de longíssimos cabelos negros. Podemos dizer que foi amor à primeira vista.

— No começo, as tentativas de chamar a atenção de Alysson não deram tão certo, pois ela sempre o olhava com uma certa frieza. – Mary Jane sorriu sacana ao perceber que todos da sala interessaram-se naquela parte – quem dera se todos ali soubessem que aquela história era verdadeira, mas de um jeito completamente diferente. – Contudo, bastou apenas uma parcela de tempo para o coração dela começar a importar-se com James, onde ambos começaram a finalmente conversar.

— O amor deles começou como uma verdadeira tartaruga, mas logo foi-se desenvolvendo. Entretanto, em uma reviravolta na vida deles, Alysson adoeceu e morreu pouco tempo depois. – o viajante do tempo mudou o peso para só outro pé, coçando a bochecha com o indicador. – Mas é claro que o amor de James nunca acabou depois da perda de sua amada... algumas coisas mudaram em sua vida, mas ele continuou seguindo-a. Anos depois, James morreu por causa de uma grave doença que o pegou totalmente desprevenido.

A professora anotou algumas coisas em seu caderno de notas, parabenizando a dupla. A sala encheu-se de aplausos, que logo cessaram quando os dois dirigiam-se aos seus devidos lugares. Arthur sentou-se em sua mesa, no fundo da sala, suspirando longamente até ver a movimentação de uma cabeleira loira ao seu lado, e um sorriso radiante dirigir-se a sua pessoa.

— Mary Jane, – a professora lhe chamou a atenção, sorrindo fracamente. – gostaria de sentar-se aí, ao lado de Arthur?

— Sim, é claro! – o sorriso de orelha a orelha da mestiça convenço a professora que um dia for de seu devido lugar não mataria nenhum aluno. O garoto que reclamara antes olhou feio para o jovem Miles, que percebeu o olhar odioso sobre si, sorrindo de canto e mostrando seu dedo do meio, em um sinal rude. – Ei, Arthur! Que tal se, no próximo trabalho, fizermos juntos?

O rubor nas bochechas repletas de sardas de Mary Jane convenceu ao garoto que o certo seria concordar com a proposta; aceitou com apenas um gesto com a mão, que resultou em uma doce risada da mestiça de longos cabelos louros.

— Muito bem, silêncio! – a professora falou em voz alta quando a próxima dupla uniu-se em frente à sala. – Certo, meninos, podem começar.

. . . .

O Purgatório não passava de apenas um velho templo com aparência de uma sala de julgamento, com bancos e um enorme pedestal, onde o Juiz repousava. Sentados nos bancos das testemunhas, as Figuras conversavam em voz alta, quase gritando, sem se importarem se incomodavam o Juiz.

— Você viu! Você viu! – a Figura da Ganância comentou rapidamente, abanando-se com um leque de ouro. – Aquela mestiça é um perigo para nós!

— Eu disse! Eu disse! – a Figura do Egoísmo cantarolou orgulhosa, balançando suas mãos. – Deveríamos dar um fim na vida miserável daquela garota! Poderíamos, então, vagar livremente pelo mundo humano!

— Os anjos... a mestiça... – a Figura da Tristeza choramingou em seu canto, sentindo um aperto em seu peito. – São maus... eles machucam os meus irmãos... sinto-me tão sozinha sem meus amados irmãos...

— Maldita! Maldita! – a Figura da Maldade gargalhou histericamente, colocando ambas mãos em suas bochechas negras. – Irei destruir aquele belo rostinho corado! Queimarei aqueles belos cabelos! Ela sofrera!

— Pobre Mentira. – a Figura da Solidão murmurou inquietamente, batendo seus dedos no banco. – Pobre Mentira... tão jovem... tão maldosa.

— Vamos rasgar aquele corpo pequeno dela! – a Figura do Preconceito exclamou decidida, sorrindo abertamente.

— Calem a boca! – a voz grossa do Juiz soou como um grito enraivecido, fazendo com que todas as Figuras se calassem e voltassem aos seus devidos lugares. – Em breve, a mestiça Mary Jane Whiles terá o seu julgamento!