A Missão do Anjo
5 O Julgamento do Anjo.
A Missão do Anjo.
O Julgamento do Anjo.
O Juiz fixou seu olhar de uma maneira fria na Figura que estava parada em frente à sua enorme cadeira. A Figura, entretanto, tremia diante o olhar frio lançado a sua pessoa. O grande Juiz balançou a cabeça e bateu o martelo na mesa, fazendo o som do baque ecoar por todo o Purgatório. Todas as Figuras que estavam sentadas no banco das testemunhas fecharam os olhos em sincronia, recusando-se a ver a Figura condenada ser consumida pelas chamas do Julgamento antes de desfazer-se em cinzas.
— O Julgamento da Figura da Miséria está encerrado. – o Juiz falou alto e claro, fazendo todas as Figuras abrirem os olhos e o encararem ansiosas. – O próximo julgamento será da mestiça Mary Jane Whiles.
— O momento se aproxima a cada delicioso segundo que se passa.— a Figura da Tristeza murmurou solitariamente, encolhendo-se e choramingando em seu canto.
— Quando eu soar o martelo do julgamento, tragam-me a filha do Arcanjo Oliver para que possa ser julgada e ter sua sentença! – o grande líder falou decidido, depositando seu martelo sobre sua mesa. Todas as Figuras silenciosamente concordaram, olhando entre si, ansiosas para ouvir o ressoar da batida do poderoso martelo.
. . . .
O Arcanjo Gabriel estremeceu ao parar o carro em frente o portão de entrada da escola de Creek Hill, um sentimento ruim floresceu em seu peito mas tentou ignora-lo quando Mary Jane Whiles virou-se e lhe deu um sorriso de despedida antes de descer do carro e fechar a porta do mesmo, logo correndo em direção a um grupo de garotas que já entrava no prédio.
— Bom dia! – Mary Jane cumprimentou-as com um delicioso sorriso enquanto era retribuída. Apertou o ombro de Helena Strife antes de virar-se e correr pelos corredores, em direção a sua sala.
Enquanto corria pelos corredores, a mestiça de sardas cumprimentava a todos que lhe lançavam sorrisos e acenos. Ao chegar em sua sala, acalmou-se e entrou calmamente, sorrindo ao ver que metade da turma já estava lá. Seus olhos percorreram por todo o cômodo até encontrar uma figura vestida de preto, sentada no fundo da sala enquanto passava os olhos sobre as linhas do caderno sem um mínimo de interesse.
— Arthur! Bom dia! – Arthur Miles ergueu os olhos e deu de ombros, voltando a se concentrar em seu caderno. Mary Jane deixou sua mochila em cima de sua cadeira antes de caminhar calmamente até a mesa do ex-caçador, que sequer fez menção de olha-la. – Tudo bem com você?
— Tudo como sempre. – Arthur respondeu rapidamente, deixando que a conversa seguisse rumo com a liderança da garota de cabelos louros.
— Eu queria lhe agradecer pela noite passada, por ter me acompanhado até em casa. – um sorriso tímido e envergonhado postou-se nos lábios da garota, enfim conseguindo chamar a atenção de seu novo amigo. – Não sei o que se passava na minha cabeça quando eu saí de casa numa hora daquelas, mas muito obrigado por me ajudar!
— Apenas fiz o que mais me pareceu certo. – Arthur respondeu com a típica voz rouca, voltando a prestar atenção no caderno.
Mary Jane piscou algumas vezes antes de rir suavemente, virando-se e caminhando em direção a seu devido lugar quando o sinal ressoou pela escola inteira. Em poucos minutos, todos os alunos se encontravam na sala, organizando-se em seus devidos lugares enquanto a professora entrava calmamente na sala, cumprimentado todos os alunos.
— Estamos atrasados no conteúdo! – a professora de cabelos louros falou rapidamente, tirando seu livro da bolsa e procurando a página desejada. – Abram seus livros na página cinquenta e três! Quem gostaria de ler?
— Eu! – um dos alunos do fundo ergueu a mão, sorrindo realizado quando a professora lhe permitiu o início da leitura.
Enquanto acompanhavam a leitura em seus próprios livros, a mestiça de cabelos louros repentinamente sentiu-se estranha, um leve tremor percorrendo seu corpo. Olhou brevemente para o relógio, vendo que passara poucos minutos das sete e meia da manhã. Seus olhos castanhos vagaram pela sala inteira, a procura de algo que pudesse lhe ser suspeito.
— Certo... então, turma, os antigos homens, vividos há mais de mil anos atrás, usavam um básico método para diferenciarem seus pertences. – a professora brevemente explicou, virando-se e pegando um giz branco, pondo-se a escrever no quadro negro. – Mas o que isso tem a ver com o nosso assunto trabalhado? Sabemos que este método beneficiou-os em sua vida, e como estamos estudando a história destes povos, gostaria de ouvir a resposta de cada um.
— Talvez o nosso nerd saiba responder! – um garoto de cabelos negros arrepiados falou em alto tom, fazendo com que todos dessem risadas. O suposto nerd olhou brevemente para aquele que falara, lançando lhe uma ameaça silenciosa.
— Ora, seu...!
— Oh, por favor, não vamos começar a brigar! – Helena Strife intrometeu-se na conversa, olhando maliciosamente para os dois colegas.
Enquanto uma discussão se iniciava entre os jovens, Arthur direcionou seus olhos a Mary Jane, estranhando seu profundo silêncio – seria comum a mestiça interromper-se e dizer algo como “brigar é algo inútil!”. Quando estava prestes a chamar sua atenção, viu-a endireita-se na cadeira, empurrando os ombros para trás, como se tivesse levado um choque.
Instintivamente, o jovem Miles preparou-se para levantar da cadeira, ignorando o olhar curioso de quem estava sentado atrás de si. Assim como os olhos negros do viajante, Mary Jane percebeu um vulto mover-se rapidamente pela sala, parando em frente ao quadro e apontar o dedo na direção de Arthur, mostrando seu sorriso malicioso em contraste com a pele negra.
— Corta essa. – Arthur empunhou sua arma em mãos, mirando na direção da Figura. Com tal aviso, a professora notou a presença do ser, espantando-se e correndo para perto dos alunos, que enfim calaram-se e olhavam aquele ser com expressões horrorizadas.
A Figura apenas balançou o dedo antes de inclinar-se para frente e desaparecer, reaparecendo ao lado de Arthur; em um movimento rápido, suas mãos esguias moveram-se ao pescoço fino do garoto, apertando-o e empurrando o corpo mediano contra a parede.
— Qual... é... – o jovem Miles de cabelos negros sorriu debochadamente, tentando livrar-se do aperto da Figura – não poderia sequer pensar em atirar contra ela, temia em machucar algum inocente.
— Ei, sua coisa feia! – a Figura balançou a cabeça quando sentiu um giz ser jogado em sua direção, virando-se para encontrar a mestiça de cabelos louros parada em frente ao quadro, com suas estupendas asas negras a vista. Sua expressão era fria assim como o brilho em seus olhos – duro, decidido. – Sabe brincar de pega-pega?
“Tola...”
— É claro que sabe! – Arthur lançou lhe um olhar assustado – ela não estava pensando em...? – Mas vamos mudar um pouco as regras, hm? Vai ser o seguinte: você corre e eu vou atrás para te pegar! Vamos ver quem será o ganhador!
A Figura pareceu ponderar por alguns minutos antes de afastar-se de Arthur, deixando-o cair sobre a cadeira ofegante e com uma breve sensação de aperto em seu pescoço. Sorriu interessada, aceitando a proposta daquele que logo teria o seu decido julgamento. Mary Jane estreitou os olhos e fez uma contagem regressiva em sua cabeça.
“3...2...1!”
O ser criado de sensações negativas soltou uma breve risada antes de disparar em direção a janela, pulando-a. Mary Jane o seguiu, subindo em seu parapeito e pulando, logo reaparecendo no ar, voando atrás da ágil Figura, que pulava sobre os carros. Arthur respirou fundo antes de levantar-se e correr em direção a porta, mas foi rapidamente puxado pelo pulso.
— Arthur, não se atreva a fazer isso! – direcionou seus olhos negros e raivosos a figura preocupada de Helena Strife, que lhe apertava o pulso com força, como se quisesse impedir a vontade do garoto de ir atrás da mestiça. – É muito perigoso, pode acabar se ferindo!
— Eu já enfrentei criaturas piores! – o jovem Miles berrou, ignorando os olhares curiosos e assustados que foram direcionados a si. – Não posso deixar que a Whiles faça isso sozinha! Você pode não ter visto, Strife, mas os braços dela são cobertos de cicatrizes, todas causadas por estas malditas Figuras!
— Esqueça isso, Arthur!
— Não! Mary Jane precisa de ajuda!
— Se quer tanto ajudar a Mary Jane, então pare de ficar ao redor dela, temendo que ela quebre como uma boneca de porcelana barata! – a frase o pegou desprevenido, tirando todos os seus válidos argumentos. Helena respirou fundo antes de continuar seu sermão. – Arthur, eu sei sobre as cicatrizes e como Mary Jane é protegida pelos anjos. Em todos esses anos, nenhum mestiço se atreveu a aprofundar a existência dos anjos como Mary Jane faz. Pense bem, Arthur, você conhece algum outro anjo que diga abertamente suas regras?
— Não... – o garoto murmurou, mantendo seu olhar firme na garota.
— E conhece algum anjo ou mestiço que se aventure atrás das Figuras como Mary Jane?
— Não...
— Entendeu agora o porquê de que não se deve intrometer-se quando ela se arrisca? Mary Jane sofre com a ausência do pai, e tenta provar que logo conseguira encontrar sua missão como anjo para que, enfim, as pessoas a vejam como alguém crescida, e não como uma criança indefesa! – a jovem Strife suspirou pesadamente. – Pelo o que sei, o pai dela sacrificou-se para que ela pudesse viver entre os humanos, sempre acreditando que ela conseguiria encontrar sua missão. É por isso que você, Arthur, não pode ficar ao redor dela, cercando-a como se a cada momento algo viesse para destruí-la! Sei que quer protege-la, eu também quero, mas já está na hora de deixarmos ela provar seu verdadeiro potencial como anjo.
— Quando ela encontrar a missão, – o viajante murmurou pensativo, desviando momentaneamente o olhar. – ela se tornara um anjo e vai parar de ser a protegida... é isso, certo?
— “Ser a protegida até que é legal, mas sinto-me invalida quando reflito sobre isso. Parece que todos me veem como uma boneca de porcelana, que deve ser cuidada vinte e quatro horas por dia, para que não me quebre. Isso meio que é chato.”. – Helena falou detalhadamente, fazendo o olhar de Arthur voltar-se a si. – Foi ela mesma que disse isso... Arthur, se nos dois queremos ajudar a nossa amiga, devemos deixa-la fazer a parte dela... vamos fazer a nossa! É o mínimo que possamos fazer!
Arthur Miles se encontrou em um sério momento de reflexão. Helena estava certa, como sempre, mas algo naquela sutil frase de Mary Jane o intrigou. Não sabia bem o que lhe deixou pensativo, mas o fez pensar sobre suas próprias atitudes. Nos primeiros anos, seguidos de dias, o garoto de cabelos negros simplesmente odiava a jovem mestiça, mas porquê?
Porque Mary Jane Whiles tinha tudo o que, um dia, Arthur Miles perdeu – ela tinha uma família que a amava, pessoas que a amava, um grupo considerado grande de anjos para protege-la, enquanto Arthur, em sua devida época, não tinha mais ninguém além de si mesmo. Quando a garota tentou se aproximar de si, não lhe deu chances de sequer trocarem uma palavra, pois logo chegou a odiando, temendo-a por seus sorrisos.
Mas nunca se passou por sua cabeça que, apesar de sua etnia, Mary Jane continuava sendo uma parcela humana, com sentimentos e emoções, que extravasavam quando bem queriam. Nunca se passou por sua cabeça que sua vida fosse perfeita como imaginava que fosse – nunca que Arthur parou para pensar se Mary Jane enfrentava algum demônio interno.
Helena Strife lhe fez abrir os olhos para uma realidade completamente diferente, onde Mary Jane Whiles não era perfeita. Sendo mestiça, anja, demônio, vidente, o que quer que fosse, ela nunca seria perfeita – seria apenas Mary Jane Whiles, seria apenas ela mesma.
— Me solte, Strife, está deixando seus germes em mim. – Helena sorriu com a frase, tratando de soltar o garoto. Arthur endireitou-se e olhou para todos os rostos surpresos que se encontravam na sala. – Alguém aqui conhece o professor de química do terceiro ano?
— Eu conheço! – alguém do fundo gritou enquanto levantava-se de sua cadeira e erguia a mão.
— Ótimo, então você vai procura-lo! – o que se pronunciou rapidamente concordou, agindo somente no modo automático. – E lembre-se de dizer a ele que contate imediatamente alguém do conselho dos anjos, e que informe o ocorrido.
Enquanto Arthur pensava em sua próxima ordem, Helena viu com satisfação um dos alunos correr para fora da sala, a procura do suposto professor.
— Todos vocês peguem seus celulares agora. – ouviu-se um farfalhar de mochilas e bolsas antes que todos estivessem com seus devidos celulares em mãos. – Mandem mensagens para todos que conhecem, dizendo que permaneceram em sala de aula até a decisão da diretora.
Enquanto todos digitavam a mensagem para seus devidos contatos, a professora rapidamente se juntou, discando o número da secretaria, batendo as unhas nervosamente sobre a parede.
— Bom dia. Aqui é a professora de ciências humanas e educacionais, Helen McCafiel. Preciso urgentemente entrar em contato com a diretora. É um caso grave, envolvendo uma das estudantes de minha classe.
— Você está fazendo um ótimo trabalho. – Helena tocou o ombro de Arthur, sorrindo timidamente. – Mary Jane ficara orgulhosa quando souber disso.
— Espero que esta maldita Whiles esteja viva até você contar essa grande novidade. – o jovem Miles respondeu secamente, afastando-se da jovem Strife e logo ditando a próxima ordem.
. . . .
Com toda a certeza de que aquela Figura era rápida e ágil, conseguindo desviar dos mínimos obstáculos que lhe impediam. Mary Jane Whiles continuava a perseguir a Figura, temendo que a mesma pudesse prejudicar alguém. Com um impulso em seus pés, aproximou-se da Figura a ponto de raspar suas unhas sobre a aura negra antes de desviar de uma árvore, mas vendo com nitidez quando aquele ser desprezível adentrou o bosque da universidade.
Sequer em pensar duas vezes, a mestiça pôs seus pés no chão e adentrou o bosque, franzindo o cenho ao facilmente reconhecer as pegadas da Figura. Seguiu tais rastros até chegar a uma pequenina área aberta, onde se encontrava uma antiga Igreja pedra, provavelmente abandonada recentemente, já que seu interior estava em perfeito estado. Adentrou a construção, sem se preocupar se estaria em um solo perigoso.
Estranhamente, havia manchas recentes de sangue no chão. Mary Jane abaixou-se e tocou o líquido carmesim com a ponta de seus dedos, estranhando ao senti-lo quente.
“Ah, mestiça... como você é ingênua!”
A mestiça de cabelos louros rapidamente se virou para encarar a Figura, mas mal teve tempo de pensar quando viu a mesma jogar-se em sua direção, empurrando-a com certa força. Mary Jane esperou a queda mas, estranhamente, a mesma não veio ao seu encontro – tudo o que sentiu foi um vento bater em sua nuca antes de perceber que caía em um abismo.
. . . .
A queda foi longa, sem dúvidas, mas o tombo que levou foi ainda pior. Mary Jane Whiles ergueu o rosto com certa dificuldade, percebendo os milhares de penas negras caídas no chão, estendendo-se até onde sua visão conseguia chegar. Hesitou por breves momentos antes de olhar para suas asas – apenas seus dois “ossos” estavam ali, completamente nus de penas. Arregalou os olhos e ofegou dolorida, apoiando-se em seus cotovelos.
Não demorou muito até dois anjos dotados entrassem em seu campo de visão, ambos imersos na escuridão do lugar com suas armaduras de ferro. Ambos seguravam lanças que logo dirigiam-se a Mary Jane, em um pedido silencioso de que a mesma se levantasse do chão. Um pouco hesitante, a mestiça levantou-se do chão, sentindo seus músculos doerem devido à queda.
— Temos ordens para designa-la até o Juiz, mestiça! – um dos guardas rosnou com sua voz grossa e profunda, claramente como uma ordem, enquanto empurrava a garota de cabelos louros para a frente, fazendo-a tropeçar. – Vamos andando! Temos um longo julgamento a frente!
— Um julgamento? – Mary Jane sussurrou horrorizada, sendo forçada a caminhar em direção a seu destino. Enquanto caminhava a passos hesitantes, a mestiça tropeçava algumas vezes, tossindo fracamente ao sentir a dor alastrar-se por suas omoplatas, exatamente onde estavam as bases de suas assas. – Mas porquê... o que eu fiz para receber um julgamento?
Aos poucos o lugar foi ganhando um pouco de luz, dando a visão de uma típica sala de julgamento, com bancos para telespectadores, um grupo de bancos para as testemunhas e uma grande mesa para o Juiz. Os guardas forçaram Mary Jane a ficar de joelhos no chão frio de madeira, forçando-a encarar os olhos poderosos e intimidadores do Juiz.
— A mestiça está aqui! A mestiça está aqui!— uma das Figuras gritou, causando um alvoroço em todas as outras.
— Quietas! – o Juiz vociferou irritado, batendo o martelo sobre a tampa de sua mesa. – Muito bem, mestiça Mary Jane Whiles, filha do Arcanjo Oliver e da humana Jane Whiles... espero que esteja preparada para receber seu devido e justo julgamento.
— Julgamento? Mas porquê? – sem se importar com os avisos de ambos guardas, a mestiça perguntou quase em um tom de desespero, ignorando os olhares satisfeitos que as Figuras lançavam em sua direção. – O que eu fiz para merecer um julgamento?
— Seus atentados contra as Figuras são um crime para todos, até mesmo para aqueles que você ama. – o Juiz falava lentamente, balançando o martelo em seus dedos. – Pense bem, Mary Jane, o que mais poderia lhe levar a um julgamento? Mas antes de responder a esta pergunta, responda-me outra coisa, em primeiro lugar... você sabe o que leva um anjo, ou um mestiço, a ser levado ao réu?
— Quando as atitudes de ambos não agradam o Conselho dos Anjos, se não me engano, senhor. – a garota de cabelos louros respondeu prontamente, perguntando-se se havia feito algo que desagradasse o Conselho.
— Exatamente, Mary Jane, certamente que sua resposta está correta. Quando a atitude de ambos for muito imprudente e que desagrade o Conselho dos Anjos, o Conselheiro é obrigado a tomar medidas drásticas, onde resulta o banimento do anjo do céu e o cancelamento da procura da missão do mestiço. – os olhos grandes e impiedosos do Juiz pareciam olhar através da alma da mestiça, fazendo-a engolir um seco. – É assim que anjos e mestiços são considerados como caídos.
— Tio Lúcifer... – a jovem Whiles ofegou surpresa, mordendo o lábio inferior. – Espere um pouco, senhor, mas minhas ações não desagradaram o Conselho dos Anjos, e o Conselheiro não está desapontado comigo! Porque, mesmo assim, receberei um julgamento?
— Tenha mais respeito com o Juiz, sua insolente! – um dos guardas ameaçou agredir a garota, mas parou ao perceber o olhar severo do Juiz.
— Mary Jane Whiles, você expôs um mundo além dos olhos humanos, colocou nossa existência em risco. – o grande homem falava lentamente, com um sorriso cínico em seus lábios, claramente debochando da expressão de desespero que surgiu no rosto pálido de Mary Jane. – Em tantos anos, nenhum anjo ou mestiço se atreveu a colocar palavras para fora, mas você, sua insolente, desobedeceu essa tradição, e colocou nossos segredos em exposição!
As Figuras cochichavam entre si, apenas para provocar Mary Jane, deixando alguns É tudo culpa dela escapar em um tom de voz mais alto.
— Humanos, anjos, mestiços e Figuras poderiam viver em harmonia se você não tivesse sido tão desobediente...
Ao ouvir tal sentença, Mary Jane abandonou as preocupações que lhe restavam, dando lugar a uma raiva incontrolável tomar conta de si. Humanos e Figuras poderiam viver em harmonia, em paz? É claro que não podiam, tal coisa seria claramente impossível. Figuras se alimentavam de sensações e sentimentos negativos que apenas os humanos guardavam para si, isso as tornava em seres fortes e poderosos.
Suas únicas fraquezas eram as Graças dos anjos e mestiços, que incapacitava tais seres horrendos de se alimentarem de suas negações. Tal descoberta originou a eterna guerra entre seres Celestiais e seres Negativos – ou Figuras, seu nome popular dado por seu criador.
— Não... – Mary Jane murmurou insegura, sentindo aos poucos a coragem tomar forma em seu corpo. – Não, você está errado, seu ser caído!
— Mais respeito com o Juiz, mestiça! – não conseguiu identificar quais dos dois guardas havia gritado com ela, mas Mary Jane pouco se importou – quem era ele para lhe parar naquele momento?
— Você está errado, Juiz, sempre esteve! Meu pai criou as Figuras para que elas pudessem absorver as energias negativas dos humanos! Mas por sua causa, por sua maldita influência sobre elas, transformou-as em seres abomináveis! Você é que deveria ser o anjo caído, seu insolente!
Enquanto o Juiz endireitava-se, surpreso com a revelação da mestiça, em um ato de desespero, a garota virou-se para trás e correu, passando por entre a brecha que havia entre ambos corpos dos guardas. Ambos arregalaram os olhos e rosnaram pedidos para que parasse, enquanto corriam atrás de Mary Jane. As Figuras levantaram-se, causando o maior alvoroço.
Mary Jane cruzou pelo salão de julgamento, vendo-se enfim diante de um outro abismo, tão semelhante a algo sem fim, uma escuridão do começo ao fim. Suas asas estavam completamente inúteis naquele momento, então a jovem de cabelos louros só tinha duas opções – permitir-se cair naquele abismo ou ser pega pelos guardas do Juiz.
A mestiça olhou brevemente para trás, vendo os guardas aproximarem cada vez de si. Respirou fundo antes de dar um passo falso de proposito, deixando-se cair e submeter-se a escuridão. As Figuras levantaram-se revoltadas, exigindo que ambos guardas fossem atrás. Ambos pararam a beira do enorme abismo, vendo abismados a garota desaparecer, deixando seu grito diminuir aos poucos.
O único que estava realmente neutro com aquela situação era o Juiz – ele sabia, em breve, ele a condenaria.
. . . .
Arthur Miles já estranhava a demora de Mary Jane Whiles, que desaparecera por quase dia inteiro. Seguindo as dicas de Helena Strife, o jovem viajante dirigiu-se a um velho hotel que ainda estava com os negócios em dia, mesmo que seu movimento fosse constante parado. Ao entrar na recepção, viu como os negócios não estavam indo as alturas – o lugar cheirava a mofo, a mobília era mais do que antiga e parecia estar sendo consumida por cupins, e havia apenas um velho homem de cabelos ralhos sentado em uma das poltronas, tremendo enquanto segurava sua bengala.
Dirigiu-se ao balcão de informações, encontrando uma bela recepcionista a espera, digitando algo em seu computador absurdamente novo. A jovem de cabelos ruivos olhou-o interessada, sorrindo docemente ao facilmente reconhece-lo.
— Como vai, meu jovem. Bem-vindo ao hotel Haven, um paraíso para o seu descanso. – sua voz era cortês e suave, quase como uma melodia. – Como posso ajudá-lo?
— Uma certa guria chata titulada como Helena Strife me recomendou a vir até aqui, sabe. – Arthur falou casualmente, como se estivesse falando algo para um amigo íntimo. A mulher sorriu compreensiva, já abrindo alguns arquivos em seu potente computador. – Acho que a senhorita deve conhece-la, Charlie, já que você é um dos anjos do Conselho Celestial.
— Você é uma figura rara, meu jovem Arthur. – Charlie sorriu travessa, passando um dedo por sua auréola. – Como posso ajudá-lo? Precisa de algo?
— Uma informação, para ser mais exato... seria possível que você procurasse pela localização de uma certa mestiça?
— Isso é totalmente possível para mim, querido. – Charlie riu suavemente, virando-se para a grande tela da máquina tecnológica. – Consigo localizar qualquer ser devido sua áurea e, ou graça. Apenas passe-me o nome da mestiça.
— Maneiro... então poderia me dizer onde a mestiça Mary Jane Whiles, filha do Arcanjo Oliver, se encontra neste exato momento?
Charlie pôs-se a procurar pela mestiça indicada, manuseando o teclado com rapidez e agilidade, enquanto vagava os olhos pelos registros. Com momentos de espera, Arthur virou-se para encarar o velho homem que tossia fracamente, sentindo uma leve pontada de pena daquele pobre ser humano; um chiado surpreso o atraiu a anja, que virou-se a ele com uma breve expressão de surpresa e desconforto em seu rosto.
— E então? – o jovem Miles perguntou enquanto arqueava uma sobrancelha, incomodado com o silencio da mais velha.
— É algo meio complicado de se dizer, meu querido. – Charlie olhou brevemente para o velho homem, que ressonava tranquilamente na poltrona. Tomou uma respiração funda antes de olhar bem no fundo dos olhos negros de Arthur, passando a mensagem de que o assunto era sério. – Sinto lhe informar, meu querido, mas a mestiça Mary Jane Whiles encontra-se no Purgatório, à espera de seu julgamento.
Demorou alguns bons minutos para que Arthur Miles processasse a informação passada – Purgatório? À espera de seu julgamento?
— Como? – Arthur enfim perguntou, incrédulo, olhando assustado para a tela do computador – sem erros, em um item que dizia Localização, estava claramente escrito Purgatório (espera de julgamento). – Isso só pode ser um engano, Charlie! Sei muito bem que Mary Jane não faria nada de errado para ser julgada!
— Sinto muito, querido. – Charlie respirou fundo, balançando a cabeça enquanto fechava todas as abas de pesquisa. – Mas posso lhe dar um conselho... sei muito bem quem é a filha do Arcanjo Oliver, e sei que ela é a garota mais doce do mundo. Dentre tantos outros ela é a mais pura. É claro que ela não merece ser julgada... porque não se senta naquele sofá? – a anja apontou para um velho sofá cor de creme, repleto de almofadas cafonas. – Talvez possa esperar até a decisão chegar.
Soltando um último suspiro cansado, Arthur dirigiu-se ao velho sofá, metendo-se entre todas aquelas almofadas exageradamente decoradas. Remexeu-se até encontrar uma posição confortável em meio aquele mar de pano, não tardando a encostar a cabeça em uma delas – o cheiro que exalava parecia ser de banana.
. . . .
Sequer se importando com a dor que sentia devido a mais uma longa queda, Mary Jane Whiles sentou-se sobre o chão abandonado daquele escuro abismo, consumido pela eterna escuridão. Sentia como a região onde estavam suas asas doía, e como aqueles seus dois suportes tornaram-se absurdamente leves devido à falta de penas.
Sem se importar com os machucados, a mestiça pôs-se a pensar em todos que conhecia – será que seus colegas estavam bem? E sua professora, que parecia tão abalada pelo atraso no conteúdo? E Arthur Miles, o jovem viajante abandonado na escuridão, estava bem depois de tudo aquilo? Tais coisinhas a faziam rir consigo mesma, percebendo que sempre colocou os outros a sua frente.
Mas era isso que um anjo deveria fazer, certo? Não devia ser vaidoso e se importar consigo mesmo, deveria ser solidário e estender a mão ao próximo, ignorando se sua pessoa estava em uma situação pior. Um anjo nunca deveria se opor ao dever da humanidade, ao dever de proteger aquelas criaturinhas tão bobas e frágeis.
Mesmo que significasse sacrificar a si mesma, Mary Jane assumiu naquele abismo que estaria disposta a cair nas mais profundas escuridões para provar que realmente, de coração, se preocupava com a humanidade – não era um acaso por causa de sua missão como anjo, mas sim que tais seres mortais eram sua família, alguns tão gentis que a mestiça os amava como irmãos.
Bastou aquela sua pequena e mísera afirmação para que uma estrondosa luz se iluminasse naquele abismo, fazendo Mary Jane colocar o braço em frente aos olhos, claramente assustada e surpresa com aquela luz tão repentina. Quando o clarão baixou, sobrando apenas um sombreado de luz dourada, a mestiça viu o anjo que era a figura da mais pureza absoluta.
As asas douradas refletiam anos de experiência, assim como os longos cabelos loiros plainados, que caiam como uma cascata luminosa pelas costas. O manto branco com pequenas cruzes bordadas em suas mangas, juntamente com a vistosa auréola banhada em graça, mostrava á mestiça de cabelos louros que aquela anja era uma verdadeira guardiã da graça e bondade.
— A pequena Whiles... – o ser celestial murmurou com sua voz doce e calma, provocando a mais profunda paz naquele abismo. – Prazer em lhe conhecer, mestiça, sou Serafim, a guardiã das missões e compromissos. Provedora da paz entre todas as épocas e quebras na linha do tempo. Digo-lhe com coração, minha amada, que a sua confissão mostrou que sua graça é algo iluminado pela doçura e afeto a milhares de humanos. Sua paixão em protege-los demonstrou ser maior do que a de muitos. Mas você está sofrendo, certo? Sua dor lhe atrapalha e lhe impede, mas você consegue afoga-la...
Serafim estendeu suas mãos e tocou de relance os suportes de Mary Jane, fazendo-a fechar os olhos ao sentir uma gostosa sensação amornar seu corpo. Enquanto respirava fundo e falava entre breves pausas, a guardiã sorriu e igualmente fechou os olhos, concentrando-se em seu trabalho.
— Sua confissão foi o que me trouxe aqui, minha jovem. Seu amor tão notável pela humanidade foi a chave de sua descoberta, de seu lugar no mundo. – Mary Jane sentiu quando suas asas ficaram novamente pesadas. Abriu os olhos devagar, olhando por cima dos ombros antes de abrir a boca em surpresa – suas asas, negras aos traços dos mestiços, estava quase que novinha em folha, suas preciosas e belas penas negras em seus respectivos lugares. As mãos pequenas de Serafim vagaram até o topo de sua cabeça, chamando a atenção da de olhos castanhos. – Sua missão como anjo foi finalmente alcançada, Mary Jane Whiles. Mesmo permanecendo como uma mestiça, a partir de hoje és considerada como uma verdadeira anja.
Faltou pouco para Mary Jane quase ter um treco ao ver a bela e grandiosa auréola que pairava acima de sua cabeça, em um contraste perfeito com seus longos cabelos louros.
— Boa sorte, minha querida anja. – Serafim despediu-se com tais últimas palavras, desaparecendo e tendo sua imagem substituída por uma bela pena dourada, que caiu no chão.
Mary Jane não fazia ideia de quanto tempo havia se passado, talvez minutos ou horas, quando finalmente conseguiu assimilar tudo e levantar-se do chão, colocando-se de pé e olhando maravilhada para suas asas, mais belas e graciosas do que antes. A realidade lhe abateu quando seus dedos finos tocaram o símbolo de que sua missão havia sido alcançada.
Um lampejo de realidade atravessou no rosto da jovem Whiles, que repuxou os cantos de sua boca em um gigantesco sorriso maravilhado.
— Eu, Mary Jane Whiles, encontrei minha missão como anjo! – a garota falou em um generoso tom de voz alto, extravasando sua alegria e realização. – É claro, porque eu nunca percebi isso antes? Minha missão como anjo é proteger e amar a humanidade, demonstrar o quão importo-me com todos!
. . . .
Quando os guardas do Juiz ainda se perguntavam o que fariam para alcançar aquela que estava caída naquele abismo consumido pela escuridão, lançaram-se para trás ao ver um borrão passar por eles, subindo aos céus em direção ao início da entrada daquele lugar. As Figuras entraram em uma séria discussão, exigindo que algo fosse feito. O Juiz simplesmente crispou os lábios, contrariado, vendo com certo desgosto quando um de seus ajudantes lhe entregou uma folha recentemente impressa, destacado nos status da jovem Whiles.
— Maldita... – o Juiz declarou irritado, estralando os dedos enquanto recostava-se em sua cadeira.
. . . .
Charlie manejava o teclado com maestria quando recebia novas notificações sobre atualizações de todos os seres envoltos de áureas e graças. Arregalou os olhos surpresa quando abriu a aba sobre a jovem mestiça que Arthur Miles tanto procurava. E falando no de cabelos negros, virou-se para encara-lo acabando de se espreguiçar de tanto esperar.
— Tenho boas notícias para você, meu querido. – o dito cujo de olhos negros levantou-se do sofá, percebendo que o velho já sairá dali há tempos. – E sobre aquela garota que você procurava.
— Mary Jane? – Arthur murmurou incrédulo, caminhando até o balcão de recepção, deitando o peito sobre a tampa do balcão. Charlie apenas sorriu carinhosamente, passando de breve os olhos pelas linhas de informações.
— Sim, meu querido. Parece que a mestiça Mary Jane Whiles está se dirigindo a residência dos Whiles, creio que sua casa.
Sem se importar se anja concluiria sua frase, Arthur esquivou-se do balcão e correu sem pensar suas vezes em direção a porta de entrada, saindo por ela e correndo pelas ruas do final de tarde, quase início de noite, de Creek Hill. Charlie sorriu bobamente, balançando a cabeça enquanto voltava a seu trabalho, apenas pensando sobre o reencontro daqueles dois.
Fale com o autor