A Missão
29 Ele Me Odeia
Notas iniciais
Terminei de tomar banho. Vesti uma calça de moletom azul escuro e uma regata preta. Sequei meus cabelos e saí de meu quarto, descendo as escadas. Jack estava na cozinha, e de lá vinha um cheiro muito bom. Me encostei na bancada ao lado do fogão, e Jack sorriu ao me ver.
– O que tá fazendo?! — Perguntei olhando a massa cremosa escura na panela em que ele mexia.
– Brigadeiro de colher — Ele respondeu dando um sorriso divertido.
– Hum que delícia!! — Eu respondi batendo palmas — Mas... Pensei que não soubesse cozinhar.
– Eu disse que sei algumas coisas. Mas... Vê se tá no ponto — Ele disse pegando um pouco do brigadeiro na colher e soprando.
Ele, como se eu fosse uma criança de 5 anos começou á dizer '' abre a boquinha, aqui vêm o trenzinho '', e eu ri, pegando a colher da mão dele e experimentando o brigadeiro. Estava uma delícia! Os ingredientes estavam na porção certa e tinha pedaços de amêndoas bem pequenos. Arregalei os olhos e gemi alto, dizendo:
– Que delícia!! Jack, esse é o melhor brigadeiro que eu já comi!!
Ele riu.
– Eu aprendi com a minha vó, ela têm uma receita secreta. No aniversário do Rudy no ano passado eu quem fiz os beijinhos e os brigadeiros, mas infelizmente o Rudy era alérgico á amêndoas, e tivemos que jogar tudo fora de última hora. Daí compramos os doces mesmo.
– Que pena. Então... No meu aniversário acho que vou contratar você pra fazer os doces — Eu disse rindo baixo.
– Pode contratar, o cozinheiro Jack está á sua disposição!
Rimos. Jack desligou o fogo e despejou o chocolate numa tigela de vidro, colocando por cima chocolate granulado. Quando ele foi guardar o pacote e estava destraido, peguei uma colher e enchi a mesma com o brigadeiro. Quando Jack olhou para mim disse:
– Ei! Volta aqui com isso! — Ele correu atrás de mim, e eu fugi, rindo.
Ele me perseguiu quase que pela casa inteira, até que consegui despista-lo. Parei no corredor do andar de cima, ofegante. Me encostei na parede e estava pronta para comer o brigadeiro na colher, quando de repente o Jack aparece, na minha frente, como uma assombração. Dei um grito e quase deixei a colher cair. Jack riu e me cercou, se aproximando cada vez mais.
– Jack quer me matar? Pô; tô aqui bem tranquila e você chega do nada!!
Ele me prensou na parede. Nossos corpos estavam colados. Ele fitou a colher com o brigadeiro.
– Na na ni na não Jack! — Eu disse — Você não vai comer meu brigadeiro!
– Não é o brigadeiro que eu quero comer — Ele disse me olhando maliciosamente.
– Seu malicioso! — Eu disse rindo, e podendo notar as mãozinhas de Jack descerem sobre meus quadris, me deixando arrepiada como ele sempre faz.
Comi o brigadeiro de uma só vez, fazendo caras e boas de prazer, só para provocar o Jack. O mesmo riu baixo e aproximou seu rosto meu, roçando nossos lábios de leve. Nem liguei e continuei a comer o brigadeiro, que por sinal estava uma delícia. Mas ele esfregou seu corpo no meu, me fazendo colar na parede, e aprofundou o beijo, fazendo o brigadeiro, que estava em minha boca, ir para a sua. Depois ele separou nossos lábios.
– Essa é melhor forma de comer brigadeiro — Ele disse rindo da minha cara.
O fuzilei com os olhos e separei nossos corpos, e fui em direção á sala. Me sentei no sofá e liguei a TV. Jack pegou um pacote de cookies e se sentou ao meu lado, me oferecendo o biscoito. Aceitei e começamos á ver TV.
– Você me disse que tinha novidades — Jack disse.
– Sim! Primeiro: Eu fui finalista do papel principal da peça.
– Hãn? Mas não era pra ser só hoje os testes?
– Bem... As outras meninas acabaram perdendo o papel por não serem boas o suficiente. Mas a professora foi gentil com elas e lhes deu o papel de amigas da personagem principal. Então sobrou apenas eu e a panaca da Jennifer — Eu disse com nojo o nome dela.
Jack riu.
– Parabéns! Mas, ela é tão boa assim?! — Ele perguntou.
– A Jennifer?! Mais ou menos... Quer dizer... Sim, ela é muito boa! Mas, eu irei supera-la.
Ele sorriu.
– Mais alguma novidade?
– Sim!! Depois que saí da escola, fui á uma cafeteria e sabe quem trabalha lá?! — Eu disse com empolgação.
– Quem?! — Ele perguntou franzindo as sobrancelhas.
– O Cody!! — Eu respondi com um sorriso.
Jack revirou os olhos.
– Eu não gosto desse cara.
– Porque?!
– Porque ele fica dando em cima de você.
– Deixa de ser chato! — Eu disse jogando o travesseiro do sofá na cara dele — Ele é só um amigo, e ele é super legal!
– Sei, muito legal...
Mostrei a língua para Jack que retribuiu minha ação.
– E outra coisa: Eu ganhei um emprego na cafeteria que ele trabalha!
– O que?! Kim, porque fez isso?!
– Porque eu preciso de um emprego ué! E a SIE não pode ficar nos bancando. Se vamos passar um ano aqui, que seja em boas condições financeiras!
– O problema não é o trabalho, e sim o Cody!
– Lá vem você... Jack! Me escuta! — Eu disse pagando sua mão — Mesmo que o Cody goste de mim, saiba que é de você que eu gosto. Se ele tentar qualquer aproximação, é claro que eu nunca vou aceitar! O Cody é meu amigo! Entenda! Eu nunca vou te trair, porque é você que eu amo. Serei e sou fiel á você!! Tudo bem?!
Ele ficou em estado de choque. Não entendi direito.
– É- é — é tudo bem... — E depois ele largou minha mão, correndo pra cozinha.
Fiquei parada sem entender nada. Porque ele agiu assim? Eu apenas disse que nunca o trairia. Franzi as sobrancelhas e tirei a conclusão: Tem algo de errado com Jack.
Fui até a cozinha e vi que ele estava se servindo do brigadeiro que tinha feito. Peguei uma tigela e também me servi.
– Jack... — Eu disse.
– Que foi?!
– Tem alguma coisa de errado com você?
– Não, nada de errado — Ele disse rapidamente.
– Jack tem sim! Você tá estranho, aconteceu alguma coisa? Por favor, me fala!
– Olha Kim... — Ele parou por um instante, como se estivesse pensando nas palavras certas — Eu te amo. Você não faz ideia. Você é tudo que eu tenho agora. Estou longe da minha família, dos meus amigos, das pessoas com que eu mais me importo. Agora só tenho você, o único raio de sol na minha vida, a única coisa com que eu me importo agora. E eu não quero que ninguém te roube de mim.
Olhei para ele por um instante. Ele me olhava com um certo medo, como seu eu fosse espanca-lo. Mas eu fiz algo completamente diferente: O abracei. Sorrindo, sussurrei em seu ouvido:
– Awn Jack. Você nunca vai me perder. Nós dois estamos passando por esse momento difícil, mas vamos sair disto juntos. Eu também te amo. Muito, muito, muito!!
Saí do abraço e ele sorria. O mesmo colocou delicadamente suas mãos em meu rosto e me deu um selinho demorado.
– Eu vou ficar no meu quarto! — Eu disse subindo as escadas.
Quando passei pelo corredor, me veio uma coisa na cabeça: Quando cheguei, o Jack não deixou eu ver o quarto dele. Pelo contrário, assim que abriu a porta, fechou a mesma rapidamente, como se estivesse escondendo alguma coisa. Estranhei, e de fininho abri a porta do quarto dele, a fechando atrás de mim.
Me espantei. O quarto estava uma bagunça. Havia várias coisas espalhadas pelo chão, como se tivesse acontecido um terremoto. A cama também estava toda desarrumada. Lençóis estavam espalhados por todos os lados, alguns travesseiros estavam no chão...! Até que, senti um cheiro estranho. De perfume. Ok, tá certo que o Jack usa perfume, mas aquele aroma era muito forte e parecia ser... Feminino. Seria Jasmim talvez?! O que?! Jack usa perfume de mulher?! Não, lógico que não. Ele é meio alérgico á perfumes tão fortes, por isso usa colônias bem fraquinhas. Me passou uma coisa na cabeça: Será que de fato uma mulher estava no quarto dele?! Só isso explicaria o cheiro de Jasmim e quarto todo bagunçado... Não! O Jack nunca iria me trair! Ele já disse isso centenas de vezes... Peraí, agora as coisas fazem sentido: Por isso ele ficou tão nervoso quando eu cheguei; por isso que não deixou eu ver seu quarto; e... Ele ficou estranho quando agora á pouco eu disse que nunca iria trai-lo. Seria peso na consciência?!
Até que eu vi uma coisa aparecendo de baixo da cama... Me agachei e peguei o mesmo. Segurei um grito, colocando a mão na boca. Me vieram milhares de sentimentos. Raiva, dor, arrependimento, tristeza, ódio, mágoa. Fiquei vermelha, os punhos cerrados, e me deu uma vontade de me jogar de um precipício. Minha vida tinha acabado, literalmente. Descobri que o amor da minha vida, que me jurou lealdade, o homem á quem um dia quero ter como meu marido, me traiu. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. E olhei para a peça de roupa íntima em minha mão. Era uma calcinha. Sim, era de fato. Branca e de renda, e eu tenho absoluta certeza que não tenho nenhuma calcinha branca de renda. Até que ouço a maçaneta da porta sendo aberta.
Jack olha pra mim. Com uma expressão confusa. Até que seu olhar se foca na peça de roupa íntima em minha mão, e ele fica totalmente vermelho. As veias de seus braços de engrossam, ele cerra os punhos e fixa seu olhar em mim. Com uma voz grave e alta ele grita:
– O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO NO MEU QUARTO?!!
Olho totalmente indignada pra ele. Como ele pode ser tão cínico?!
– O QUE?! JACK, ME EXPLICA ISSO AQUI!! — Eu disse me levantando e balançando a calcinha no ar.
– Você não tem que ficar mexendo nas minhas coisas!!! Muito menos entrar no meu quarto sem permissão!
– Como é que é?!! — Eu gritei, já estava a ponto de enforca-lo.
– Você é muito enxerida mesmo viu?!!
– JACK CALA ESSA BOCA AGORA!! — Eu disse dando um tapa em sua cara.
Ele colocou a mão no rosto, e nervoso, pegou em meus pulsos de forma bruta e me prensou na parede, me impedindo de fugir.
– PORQUE FEZ ISSO?! — Ele gritou na minha cara.
– PORQUE VOCÊ É UM IDIOTA, IMBECIL, GROSSO, VAGABUNDO, E EU TE ODEIO!!!!
– CALA ESSA BOCA!!! VOCÊ NÃO PODE FALAR ASSIM COMIGO!!!
– AH É?! QUER DIZER QUE A VAGABUNDA COM QUEM VOCÊ TRANSOU A TARDE INTEIRA PODE FALAR ASSIM COM VOCÊ E EU NÃO?!!
– VOCÊ NÃO SABE DE NADA!!!
– SEI SIM!!! E ESSA CALCINHA É DE QUEM?!! SUA?!! PORQUE MINHA NÃO É!! VIROU GAY AGORA JACK?!
Ele apertou suas mãos mais ainda, machucando meus pulsos.
– Você tá me machucando — Eu disse um pouco assustada. Não tenho medo de homem nenhum, mas o Jack era bem mais forte que eu.
– Então fica quieta e para de falar besteira!
– Eu não vou parar Jack! Nossa, você realmente está mostrando quem realmente é. Se finge de bonzinho, legalzinho, bom moço, mas não passa de um monstro!! Seu covarde!! Traidor!! Agora tenho nojo de você! Como teve coragem de me trair?!!! Mentiroso, canalha... — Minha fala foi interrompida por uma ação da qual eu não esperava. Ele me deu um tapa na cara.
– E você?!! Fica iludindo os outros!! Diz que me ama, mas olha o que pensa de mim!! Você não é ninguém Kim!! Uma loirazinha metida e burra!! Só quer ficar seduzindo os outros! Se acha, mas não é tudo isso não!! E você? Deve ter pegado o Cody a tarde inteira também, e depois quer falar de mim?!! Eu me arrependo de ter te amado!! Me arrependo até de ter te conhecido!! Se pudesse voltar o relógio, desde aquele dia que nos conhecemos, teria deixado a maça cair no chão, e ainda iria rir da sua cara!!! Eu te odeio Kim!!! Te odeio!!
O coração parou. Meu corpo parou. O amor acabou. As lágrimas desceram sem permissão. A mágoa também. Ele me machucou. Profundamente. Ele me odeia. Essa frase ficou gravada na minha memória.
Me soltei de suas mãos e o empurrei. Abri a porta do quarto, jogando a calcinha no chão. Dei uma última olhada em seus olhos. Não tinham mais o mesmo brilho apaixonado. Ele era apenas mais um traidor.
Fechei a porta com brutalidade, e me tranquei no meu quarto. Escorreguei pela porta, caindo em prantos.
Ele me odeia.
Acabou tudo.
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