A Million on My Soul
9 Morte à Primeira Conexão
Naquela madrugada, tudo que tinha para dar errado, deu. Quase atropelaram um grupo de pessoas perdidas no meio de toda escuridão, arruaceiros que se aproveitavam da situação acabaram quebrando a janela dianteira, exatamente onde Soren estava sentada. Já na autoestrada, um pneu furou, fazendo com que parassem no acostamento, e por um mínimo de descuido, Floyd fugiu pela janela quebrada, voltando espontaneamente uma hora depois, tirando de Sky um dos maiores ataques de desespero que já veio a acontecer.
Seguiram viagem em direção à capital. Apenas Grim — que dirigia — e Sky estavam acordados. Faltava apenas cinco minutos para três e meia da manhã, estando três horas seguidas em autoestrada. Com tudo escuro lá fora, o ar gelado da noite entrava pela pequena fresta na janela dela, enchendo seus pulmões. O pequeno animalzinho de cor laranja dormia em seu colo.
— Por que já começa tudo dando errado? — ela perguntou. Grim olhou para trás rapidamente, percebendo que estava acordada.
— Bem, não vou lhe bajular com palavras de conforto agora. Nós tínhamos consciência de que seria assim.
— Eu sei! Sei que ele é o inimigo e que nem mesmo vai considerar meu aniversário.
— Pois é uma data simbólica. — observou a situação com precisão. — É importante pra você e uma data comemorativa grande. Deixando todo o conceito das almas de lado, ele está mandando um recado.
— E como ele nos encontrou?
— Na verdade isso nunca chegou a acontecer. Quando houve aquele encontro perto do Million Dollar Saloon, Chasan soube que você residia nas redondezas. Então resolveu fazer ali o espetáculo do jeito que ele gosta — Grim riu, mesmo não tendo a mínima graça. — Mesmo se você não estivesse naquele local, naquele momento, ele sabia que você receberia a mensagem.
— Então ele fez tudo aquilo, uma cidade inteira em caos no Ano Novo, só para chamar atenção.
— Exatamente. E estamos indo para a capital pois deixei um pequeno e discreto rastro do lado oposto do nosso destino.
Ela preferiu não perguntar o que era. Estava muito bem assim.
— Demise está bem?
Por um milésimo no tempo, Grim hesitou.
— Nah, ela está bem.
Mas ela tinha noção de que não era exatamente assim. A marca no braço ardia levemente e parecia ligeiramente mais fraco. Agora, seu interior preocupado com um demônio, isso era demais — mas afinal, era muito boa até nisso —. Por hora, precisava manter em mente apenas em chegar em segurança, já estavam se aproximando.
A ansiedade morava no peito, fazendo-a suar nos pés e mãos. Tudo era novo e não fazia ideia do que viria a seguir.
Deitou a cabeça no banco e fechou os olhos, tentando novamente dormir, mais uma vez sem sucesso.
Chegaram na capital ainda antes do sol nascer. Discretamente, pois ainda se falavam do ocorrido na outra cidade. Se acomodaram em um hotel um pouco caro para o orçamento dela, mas era o único nas redondezas que permitia animais. De bônus, tinha uma piscina e Wi-Fi.
Se dividiram em pares. Os quartos eram espaçosos, com uma decoração razoável. Nada comparado ao conforto de sua casa, mas a cama confortável valia absolutamente tudo. Deitou-se nela, aproveitando, ainda não sentindo sono, muito pelo contrário. Deixou sua prima e seu bichinho no quarto para explorar o hotel, andando sem rumo.
Seu passeio acabou dando no lobby. Pinturas famosas do Renascimento cobriam as paredes. A grande lareira aquecia e servia de fraca iluminação para a sala vazia. Não se parecia nada em como esses hotéis ficavam em temporada de festividades.
Deu mais um passo, até sentir que tinha mais alguém ali, em pleno e total silencio. Uma uma presença oculta em uma poltrona, era Grim.
Ele olhava fixamente as chamas ardentes, parecia tão interessado no estalar da madeira queimando que pela primeira vez não sentiu ela se aproximando.
— Bu! — gritou, falhando em assustá-lo.
— Não funciona.
Sentou-se ao seu lado, retirando os sapatos.
— Não consegue dormir? — perguntou ele.
— Estou com sono, mas quando deito minha cabeça em um travesseiro, algo volta para minha mente novamente. — Grim a olhou, esperando que ela continuasse. — Em um momento na festa, Soren contou-me que ele retirou suas asas.
— Soren morreu uma vez, mas não falamos sobre isso. Ela nunca tinha contado para ninguém.
— Ela está vulnerável, não está? Percebi que raramente dorme, quase nunca. Mas agora dormiu toda viagem, e continua. Suas asas estão caindo. Temos que fazer alguma coisa.
— Ela é orgulhosa, Sky — cruzou as pernas. — Soren esperou que as nuvens se separassem, que a chuva parasse, que o sol brilhasse, a deslumbrasse e a salvasse de tudo isso. Mas estava cansada de esperar, então resolveu enfrentar a tempestade, mesmo que a molhasse até os ossos. É isso que está fazendo agora. De certa forma, sinto que devo a ela. Sabia que Chasan não era uma boa companhia para ela naquela época, e eu tentei avisá-la. Sim eu tentei, mas a verdade é que ela sempre temeu a mim, e ele sabia. Então a fez provar um pouco disso indiretamente. De mim.
Passou as mãos pelos cabelos de modo desesperado, respirando fundo.
— Ei, não é sua culpa que ele fez isso com ela!
— Sim, eu sei. Todo mundo me disse isso, mas não posso deixar de me sentir culpado. Sinto-me terrível.
O silêncio correu entre as paredes de todo hotel, sendo interrompida pelos mínimos estalos da fonte de calor. Estava pensando naquela confissão que acabara de ouvir, a qual até pouco tempo ainda era uma questão em aberto. Aquela sua forma humana tinha a capacidade de sentir.
Com o amanhecer finalmente lá fora, trouxe um sol não muito quente. Sky deitou-se encolhida no sofá, e junto com aquele silêncio, ele pôs a cabeça ao lado da sua, assim ela finalmente pegou no sono.
✦✧✦✧
No auge da manhã, tomaram café juntos. Todos agindo normalmente, mesmo sabendo que nada estava normal. Algo tinha mudado desde que deixaram tudo para trás — uma coragem desconhecida ou uma tolice que sempre esteve presente.
Para ocupar o tempo, ela resolveu ver televisão, desligando logo em seguida. Noticiavam a mesma coisa durante aquelas últimas horas, e era de se esperar. Em seu celular, as notificações se dividiam entre mensagens de felicitações e questionamentos de onde estaria. Algumas dessas eram de Chaim, preocupado, lotando sua caixa de mensagem.
Finalmente atendeu a ligação dele, revelando tudo que estava acontecendo e o que estava para acontecer, mesmo não tendo a absoluta certeza de que seus planos dariam certo.
— Entre tantas outras perguntas, porque todos os seus aniversários são caóticos? – perguntou ele, quebrando o clima de tenso na conversa.
E realmente era, então não segurou uma fraca risada. Em sua mente vieram lembranças do passado, onde apontava, ou se atrasava, ou quando até mesmo faltava em sua própria festa. E como ela queria ter faltado nessa.
— Dessa vez não foi minha culpa. Acontece é que eu estou tentando ter uma coisa, mas estão fazendo de tudo para me impedir. Não vai acontecer.
Houve um silêncio inquieto do outro lado da linha, seguido de um suspiro pesado.
— Fica bem, Sky — foi tudo o que disse, pois sabia que a esse ponto, nada que falasse iria fazê-la mudar de ideia.
— Obrigada.
Segurou o celular com as duas mãos, colocando no bolso.
— Após esta mensagem, para onde vamos?
O Ceifador estava parado logo atrás, mas ele não vez fez um ruído se quer até aquele instante.
— É ela — apresentou-lhe uma foto velha e amarelada, muito antiga. Ele, com ajuda de Soren, tinham passado quase dois meses inteiros pesquisando todas as pessoas que carregava o considerável título dentro dela. Coincidindo — ou obra do destino —, uma delas séria sua bisavó.
Christie Walker. Costureira, negra e à frente do seu tempo. Nasceu em Nova Orleans em 1880, durante a era dourada e cresceu diante do primeiro grande crime da máfia na cidade, vindo a falecer durante o Ano Novo de 1909 aos 29 anos, sendo sepultada na capital. Mesmo assim, pelos poucos retratos em sépia que existia, sentia uma grande conexão entre as duas.
— Você está pronta?
— Não importa o que aconteça agora, eu não me arrependo de nada — disse com um sorriso suave.
Saíram na calada da noite, em silêncio, deixando Louise no hotel. Sendo sincera, não sabia o que sentia. Um misto de confusão? Certamente. Nervosismo? Pavor? Mas eles lhe asseguraram que estariam ali com ela. Uma tentativa de tranquilizar? Porque não deu certo. Em absoluto. Mesmo assim, foram a pé até o Cemitério Waltz, entrando sorrateiramente pelos fundos. Uma neblina clara e densa cobria as sepulturas, acompanhado com uma pequena camada de neve espalhados na grama recém aparada.
Grim respirou fundo todo aquele ar, parecia extasiado, tendo prazer em estar ali, confirmou isso quando sorriu. Um largo e belo sorriso.
— Ah! — abriu os braços. — Me sinto em casa.
Ele foi na frente, dedilhando os nomes das pessoas falecidas com a ponta dos dedos, pulando de lápide em lápide, rodando todo o local da mesma forma que fez quando se conheceram perto do lago. Sentia-se leve novamente, sentando em cima de uma lápide juntamente com Soren.
— O que fazemos agora? — o anjo caído perguntou. Suas asas firmes em suas costas a cobriam como uma manta.
— Na verdade, o que ela fará agora.
— Hã, Grim, olha pra ela. Está mais perdida que nós.
— Não, ela só precisa encontrar a lápide da Christie.
— Então ajude-a.
— E porque você não vai?
Ela a olhou de forma ameaçadora, então começaram a discutir. Poderiam ficar ali horas e horas até o sol começar a clarear os nomes, e então encontrarem uma solução.
— Eu acho que vocês já encontram — interrompeu Sky, apontando para onde eles se sentaram — Estão em cima nela.
De fato, era aonde sua bisavó foi sepultada, com o nome dela, coberto com algumas ervas daninhas e flores que nasceram naturalmente. Estava abandonado e ainda assim, de certa forma, ainda havia algum sinal de vida.
Não parecia uma lapide frágil, mas uma grande rachadura se abriu antes de descerem, separando o nome do sobrenome, junto com a separação do dia em que nascera e o ano da morte. Todos iguais.
— Oh! — Soren espantou-se.
Eles observaram algo mudar. Além da atmosfera, uma pequena fenda se formou.
— É isso! — Sky estava admirada. Ela tinha descoberto exatamente o que fazer.
Chegou para mais perto, onde tocou a fenda com os dedos. O que ouviu antes de apagar foram as duas vozes gritando com temor o seu nome.
Fale com o autor