Se fosse qualquer outro dia, ela teria contestado na hora que ele era louco, completamente surtado. Um garoto que gostava de inventar histórias sem graça para assustar pessoas fracas. Mas não naquele dia, era tudo verdade.
Ele desceu da pedra, dando a volta e parando bem onde os sapatos estavam.

Sky saiu do lago, percebendo que não sentia mais frio, não sentia a pele pinicando pedindo por calor.

— Eu sei que você odeia o frio. Então eu tirei isso de você.

Sky piscou algumas vezes, confusa. Ele sentou-se na grama e começou a mexer no celular dela.

— Hey, isso é meu! — protestou, sem êxito.

— Hm, bom gosto musical... Pink Floyd... Floyd não é o nome do seu gato?

— Me dê isto! — tomou o objeto com rapidez das mãos dele, notou que eram pequenas. — E como sabe o nome do meu gato?

— Eu sei de tudo, Sky.

— Se sabe de tudo então me responda uma coisa. — ele observava cada movimento seu. — Eu morri? Isto é o limbo?

— Ah, foram duas perguntas.

— Não importa, se sabe apenas me responda — começou a ficar agitada. Ele suspirou, levantando-se.

— Não, você não morreu e aqui não é o limbo. Você está mais viva do que nunca.

Sky não entendeu o que tinha acontecido. Ela escorregou e sentiu uma agonia imensa para respirar, disso podia acreditar.
Enquanto tentava formar uma explicação, observou um pedaço da tatuagem na clavícula dele, com metade de fora. Era a mesma que admirou no dono do casaco, e se encontrava exatamente no mesmo local.

— Um homem gorducho que meu deu este casaco tinha a mesma tatuagem... — divagou baixinho, o suficiente pra ele ouvir.

— Não é tatuagem, é uma marca. E aquele era eu! Não sou gorducho — torceu os lábios.
Andou pela gramado, as folhas secas do Outono cobria todo o chão, dando uma coloração incrível ao lugar. Subiu em cima da mesa amadeirada em um pulo, como se fosse levíssimo.

— Emagreceu tanto de um dia pro outro? — ela deu uma gostosa gargalhada.

— Deveria sorrir mais, é um lindo sorriso — disse enquanto girava na mesa. Sky observou as veste dele, a cor preta cobria quase toda a pele clara e limpíssima, sem um arranhão ou cicatriz. Na verdade, a cor era quase uma característica nele, principalmente os olhos.

Ele desceu e parou à sua frente.

— Se você de fato é a morte, está aqui para me levar? — indagou, retirando o casaco e entregando-lhe a peça, mas ela tinha se esquecido que vestia um vestido branco caro e marcava todo o corpo curvilíneo. Ele pareceu estar chocado com a pergunta.

— Na verdade, fique com o casaco. Considere como um presente que salvou sua vida — notou a ironia da situação. Sky não tinha entendido absolutamente nada. — Ainda está com isso em mente?

— Então o que aconteceu? Eu senti...

— Eu não poderei te levar hoje, ou amanhã, ou depois de amanhã — interrompeu. — Ou no dia seguinte, ou no dia que vai seguir do dia seguin...

— Eu entendi, mas por quê?

— Bem, digamos que eu perdi uma coisa importante pra que isso aconteça — ele sentou-se no acento acoplado da mesa.

— E o que seria?

— Minha foice.

Ela arqueou as sobrancelhas e abriu a boca de maneira como se fosse contestar o que ele tinha dito. Mas então gargalhou, se derreteu. Queria falar mas sentia-se sem fôlego e a barriga começou a doer. Ele apenas ficou sentado, de maneira seria, esperando ela terminar.

— Ah não, não sinto minhas bochechas — fez uma massagem superficial. — Foice... Pfff... — e voltou a rir.

— Ok, ok, é o suficiente, estou dando o fora. Procure outro alguém pra levar sua alma — disse levantando-se.

— Não, espere. Não vá, fazia tempo que eu não ria assim, me desculpa! — Sky calçou os sapatos e pegou os pertences com pressa. Correu na direção que ele caminhava, pondo-se ao lado. Ela é menor que ele e aparentava ter vinte anos nas costas.

— Onde a perdeu?

— Eu não sei, em um momento eu estava com ela, em outro não. Estou impedido de fazer muita coisa.

— Mas espera, milhões de seres morrem todos os dias na terra, e nesse momento várias delas estão, então como, se você está aqui?

— Há outros meios de levar uma alma para o outro lado.

Sky ficou esperando ele contar mais, coisa que não aconteceu.

— Você aceitou isso muito rápido.

— Se eu não tivesse aceitado que a morte veio até mim na forma de um garoto asiático, eu estaria condenada a loucura ainda dentro do lago. Talvez batesse a cabeça com força em uma pedra e gritasse "O poder de Deus te ordena!"

— Há! O Exorcista! — ele estalou os dedos, entendendo sua referência. — Eu posso mudar meu rosto se quiser.

— Não, assim está bom.

— Mas você não pediu nenhuma prova.

— A marca que você tem, minha mãe tinha me falado sobre ela. Você a levou também — explicou, o tom da voz agora era baixo e melancólico.

Os dois ficaram em silêncio enquanto andavam pela rua que já começava a ficar movimentada.

— Eles podem te ver?

— Se eu permitir, sim.

— E está permitindo agora ou eu pareço que estou conversando sozinha?

Depois da ideia, ele ficou tentado a fazer isso.

— Você faz muitas perguntas, Sky.

— Sim, faço. Aliás, como eu te chamo? De morte? Sr. morte?

— Grim.

— Grim? Como grim reaper?

Ele concordou, parando de andar repentinamente, fazendo-a parar também.

— Aonde estamos indo? — perguntou, olhando ao redor.

— Eu só estou seguindo você — respondeu.

— Sou eu que estou te seguindo.

— Você saiu de lá primeiro, eu o segui.

Ele continuou andando, e ela retomou os passos, ficaram novamente em silêncio, até Sky quebrá-lo.

— Eu vou ajudá-lo a encontrar sua foice — disse com rapidez. Meio precipitada, mas não tinha nada a perder.

— E eu ficarei eternamente grato — ele colocou as mãos nos bolsos.

— Eternamente, não é...

O dia permanecia contraditório, pra começar falava com a morte, em carne e osso.

— Você é esquelético que usa uma túnica preta com uma foice enorme? — perguntou quase rindo novamente, puxou o ar pra dentro tentando fazer passar.

— Que pergunta antiquada, Sky.

— Desculpe.

— Posso ficar na sua casa? — ele perguntou com toda a simplicidade do mundo.

— Que pergunta antiquada! Talvez. Gosta de gatos e arte da renascença?

— Sim.

Nesse momento lembrou que Floyd situava-se com Chaim.

— Ah não! Floyd não está em casa, eu o deixei com um amigo.

— Então temos que ir buscá-lo.

Os dois seguiram correndo até o metrô, se apertando em meio de tantas pessoas indo para seus devidos compromissos.

Andaram mais alguns quilômetros até estarem no Brooklyn.
Sky pensou que demoraria até sua reencarnação para ver tudo aquilo novamente, nem que fosse pelo Google Maps.

Foram direto para a casa de Chaim. Ela bateu na porta e não demorou muito pra se abrir. Com o gatinho nos braços e os cabelos grandes e bagunçados deram indícios que tinha acabado de levantar.

— Oi Chaim! — cumprimentou ela. — Parece que você tem algo que me pertence.

— Caim?! Não acredito! — Grim perguntou com um sorriso enorme no rosto.

— Quem?! — Sky praticamente gritou. Chaim piscou algumas vezes.

— Grim, há quanto tempo. Como vai a vida de ceifador?

— Muito bem. E você, como vai a vida de assassino? — os dois se fitaram por alguns segundos. A tensão gigantesca no ar.

— O que está acontecendo? Vocês se conhecem?

— Sim! — responderam em uníssono.

— Sky, só retire a consoante "h" do nome dele — pediu Grim, então a ficha de Sky caiu.

— Acho melhor vocês entrarem.

Sky o seguiu com pressa, sem cerimônias, mas Grim ficou pra trás. Chaim suspirou.

— Grim, eu te concedo a entrada nesta casa — disse em voz alta, só então ele entrou.

— Eu não posso entrar em uma casa quando o ser e a alma não estão prontos pra ir — ele explicou para ela, que olhava tudo com perplexidade.

— Sky! — Arabella veio correndo, pulando nos braços de Sky, beijando sua bochecha. — E Grim... — o desânimo na voz era evidente.

— Como está, Abel?

— Abel?!

— Agira retire a primeira vogal "a", logo depois a letra "r", um dos "l's" e o último "a".

Sky obedeceu, fazendo a retirada das letras de cabeça, então novamente a ficha caiu, e com força. Os dois eram Caim e Abel, filhos de Adão e Eva.

Ela procurou o sofá e se apoiou.

— Não acredito... Eu namorei um assassino... — dizia em choque.

— Vocês namoraram? Uau, que momento — comentou O Ceifador, passando as mãos pelos cabelos negros.

Arabella sentou-se ao lado dela, esfregando-lhe as costas em silêncio.

— Sky, você me aceitou por ser a morte mas está em choque por ele ser Caim.

— Você não colocou a boca nele! — gritou, irritadiça com toda aquela loucura. Começou a querer sair dali correndo.

— Por que encontrei o Floyd na porta hoje mais cedo?

— Longa história Caim, mas vamos deixar pra outro dia. Ela precisa dele então passe pra cá...

Pegou o animal com cuidado e ficou brincando com o bichinho.

— Ah! Wle é tão macio... — praticamente se esfregava ao gato, mas Floyd não reclamou, parecia gostar dele.

— Você irá levá-lo? — perguntou Chaim.

Grim soltou um longo suspiro, teria que ficar explicando a mesma coisa.

— Eu não faria tal coisa, e estou impedido de fazer. Estou sem minha foice e a Sky vai me ajudar a encontrá-la.

— Boa sorte com isso então.

Ainda sentada, Sky olhou para Arabella com espanto.

— Arabella, ele te matou mesmo? Como pôde? — perguntou enquanto fitava a pura íris cor mel.

— É mais complexo que isso Sky.

— Então como... — parou de falar, tentando ligar alguma coisa pra fazer o mínimo de sentido.

— Caim, eu acho que a quebramos — avisou Arabella com preocupação.

Então Grim perdeu a paciência, foi na direção de Sky e pegou sua mão ainda com o gato nos braços.

— Até mais, vocês dois — saiu e bateu a porta com força. Sky ficou calada, ainda tinha muito que processar.

Andaram até o outro quarteirão, local onde ela morava. A mulher da livraria a cumprimentou como de costume, soltando uma piscadela quando viu quem encontrava-se ao lado. Sky arregalou os olhos, negando com a cabeça.

— O que ela está dizendo?

— Nada, vamos! — tentou disfarçar, mas a senhora acenou pra ele, que inocentemente acenou de volta.

Sky parou na porta da casa onde Liv morava, lamentando em silêncio. Sentia mais saudades do que poderia demonstrar, ainda iria demorar um pouco para se encontrarem.

Pegou as chaves e abriu a porta, observando tudo do jeito que deixou. Ela entrou na residência, mas Grim apenas ficou lá fora, parado.

— Grim, eu te concedo a entrada nesta casa.

Só então ele entrou, observando todos os detalhes do apartamento. Pisou com os pés descalços no chão amadeirado e no tapete cor vinho macio. Gostou da sensação. Gostou dos quadros nas paredes, das plantas em cada cômodo, das cores tomando contraste em tudo.

Colocou o gatinho no chão e começou a explorar a casa. Sacada, cozinha, sala... Quando se conheceram, não negava que esteve interessado nela, agora mantinha interessado em seus interesses e a chance de conhecê-la de verdade. Sabia que ela se sentia amargurada e melancólica, mas ainda não era hora, ainda não.

Continuou perambulando pelos cômodos, tinha apenas um quarto, pequeno mas muito bonito e organizado, quadros e flores permaneciam presentes ali também, a cama chamou sua atenção. Era grande e aconchegante, não pensou duas vezes antes de se jogar nela.

— Você é pior que o Floyd, espalhafatoso demais — ela apareceu na porta de braços cruzados.

— Sky, não acredito que você iria deixar essa cama pra ninguém — protestou, rolando na cama.

Ela se sentou na beirada, tirando os sapatos e dando a si mesma um minuto pra pensar.

— O que vou fazer agora?

— Me ajudar.

— Não vê o quanto isso é absurdo? Eu, ajudando a morte a encontrar sua foice.

— Bem, você dizendo desse jeito dói. Mas você sabe...

— É inevitável! — disseram juntos.

Grim não sabia o que falar para fazê-la melhorar.

— Quero te explicar da forma mais simples e direta. Todos esses seres como anjos, demônios, nefilim, eles existem de verdade. E me ajudar a encontrar o que preciso poderá ser perigoso — avisou, sentado-se ao lado dela.

— E o que eu tenho a perder? — ela chegou num ponto crítico. Grim não sabia a resposta, mas concordava mostrar o que ela perderia.

Sky não ficou com raiva ou rancor da morte, e isso era o que não entendia, depois de perder tantas pessoas especiais e significativas, pensou que deveria encarar tudo aquilo de maneira áspera, só que não sentia-se assim, para seu espanto. A morte a deixou viver propositalmente?

— Sei o que você está pensando. Ainda não é sua hora, Sky. Mesmo que eu estivesse com minha foice, não poderia levá-la.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.

— Já que você é a morte, como é a vida?

— Não sei, eu nunca à encontrei e não imagino como seja. Mas dizem que a vida é muito bonita.

Os dois riram, de fazer a barriga doer. Sky permanecia adorando os trocadilhos.

— Estão se divertindo enquanto o submundo entra em colapso? — uma voz firme e feminina pegou os dois com espanto. Sky mais uma vez se viu estática, em um completo estado de choque. Quando todas aquelas surpresas iriam acabar? Mal sabia que estava sendo o começo.

Uma mulher de cabelos pretos apareceu na sacada do quarto. Asas negras e abertas cobriam suas costas, apontadas pra cima, de onde ela tinha caído permanentemente, direto dos céus.

— Ah Soren, você não imagina quanto — disse ele, abrindo a porta de vidro, deixando a corrente de ar que as asas faziam entrar.