A Million on My Soul

5 Morte ao Coração


Cedo nesta manhã, quando você bateu na minha porta. Você disse que precisaríamos da sua ajuda. E agora estamos aqui. Eu e o demônio, caminhando lado a lado — disse Sky, olhando-a pelo canto de olho. Pelo momento que tiveram no apartamento, Grim parecia a conhecer bem, mas não deixava de sentir um certo receio. Ela não iria lhe fazer mal, iria?

— Admiro sua coragem, não está com medo, está duvidosa — concluiu Demise, arrumando o casaco de pele.

— Perdão, mas duvidosa de quê exatamente?

— Se eu posso levar sua alma.

Houve um silêncio enquanto as duas andavam em passos sincronizados pelo parque vazio. A loira aproximou-se do parapeito do lago, descansando as mãos.

A tarde e o sol já morno apalpava a pele das duas, deixando destaque na pele pálida de Demise.

— O que vai fazer?

— Sei que você quer se esconder dele, mesmo não querendo, não é de seu feitio esse tipo de reação. Mas eu posso deixá-la invisível. Ele não poderá mais te seguir ou qualquer pessoa relacionada a você.

Sky agora tinha se interessado de verdade, queria a todo custo ficar longe de seu alcance. Mas no fundo estava desconfiada, era um demônio afinal.

— Qual o seu preço? — perguntou decisiva.

— Absolutamente nada. O meu preço vem depois, quando contarem toda essa história, eu estarei lá — enquanto falava, mantinha um sorriso ganancioso nos lábios, lasciva, seus olhos brilhavam como um pôr do sol no inferno.

— Ah, então é isso, reconhecimento.

— Ou eu poderia simplesmente pegar sua alma, porém Grim certamente me mataria por isso, não é? — gargalhou como se tivesse contado uma piada suja. — Então, você aceita?

Suspirou, o olhar desconfiado dizia tudo, então levou alguns segundos tomando um pouco de coragem.

— Eu aceito.

Demise rapidamente fincou a unha afiada no braço direito dela, soltando um pequeno gemido de dor. A cor escarlate do sangue escorrendo logo sumiu, cicatrizando em uma pequena tira. Ela verificou o trabalho, até que era bem discreto.

— Se minha mãe me visse agora ela surtaria. Sempre afirmou que não confiava em demônios, pois tudo que vocês fazem é destruir.

— Nós dizemos a mesma coisa sobre vocês humanos.

Sky maneou a cabeça e virou-se para seguir caminho junto à ela, mas deu de cara com Ethan, com os cabelos pouco grisalhos e a barba bem feita. Muito bonito como sempre.

— Policial Ethan, como vai?

— Sky, está tudo bem? Estava sangrando...

Ela olhou com nervosismo para o braço, escondendo a minúscula marca.

— Então você viu... — a loira murmurou, dando um passo à frente, os olhos faiscando.

Ethan estava na polícia há mais anos do que poderia recordar, tinha o costume de desvendar as pessoas pelo semblante, quase nunca errava e isso era sua carta na manga. Jamais tinha acontecido uma exceção, a não ser por aquela mulher de aparência cativante. Tinha, de certa forma, ficado sem jeito após a primeira cruzada de olhares. Para ele, aqueles olhos eram únicos e sabiamente manipuláveis, sabia que carregava mistério e perigo com alguns assuntos sujos nas costas, apenas esperando ser julgada, e não pelo juiz.

— Hum, não foi nada — Sky pigarreou aproximando-se dele, deixando Demise para trás.

Ethan piscou algumas vezes, voltando a si. Queria falar, só que as palavras não vinham, então cruzou os braços e bateu o pé direito no chão.

— Está hesitando em perguntar o óbvio, então sim, eu estou bem e não falo isso para que pare de se preocupar. Ela se foi e dói.

— Eu estava prestes a falar sobre seus novos amigos mas ora, isso esclarece algumas coisas.

Ela foi pega de surpresa, não fazia ideia que ele estava a par da situação.

— Novos amigos?

— Sim, aquele garoto de cabelos pretos e um homem com um sotaque britânico. O garoto, ele atendeu a porta quando passei lá outro dia — ele sorriu de lado. — Está aprontando, Sky?

— O que?! Não! — negou. — E o que te faz pensar que eu estaria? — Sky raramente ficava envergonhada, mas suas bochechas ardiam e ela sentia isso muito bem, além de que era a primeira vez de Ethan vendo tal coisa acontecer. — Mas você foi capaz de vê-lo? Impossível.

— Parece que aquele garoto não está se escondendo tão bem quanto parece. Os pais devem estar preocupados.

— Está tudo bem, mas ele mas vem sendo um amigo muito prestativo pra mim. E por acaso eu tive a ligeira impressão de que você quer que eu apronte algo — impôs. Ethan levantou as mãos em sinal de inocência.

— De qualquer forma, tenho que te avisar que está havendo ocorrências e boatos de pessoas que relatam serem ameaçadas pela própria... vamos se dizer anjo da "morte" — ele fez questão de fazer as aspas com os dedos. — Todos dizem uma coisa diferente. Agora, na delegacia, ninguém está levando isso a sério, mas estou com uma certa intuição, uma pulga atrás da orelha. Poderia ser algum louco encapuzado, certo? — Ethan esperou uma reposta dela, mas estava muito chocada pra isso, então agitou levemente a cabeça. — Há algo errado?

— Hã... Não, apenas me passou algumas coisas pela cabeça. Sim, claro, isso é realmente perigoso.

Os olhos castanhos pousaram nela com admiração. Estava aguentando muito bem toda aquela situação, na verdade sempre esteve. Desde o falecimento dos pais, o que não faltava nela era perseverança, esperava de verdade que nunca tivesse que um dia perder isso, pois era o que a fazia especial.

Um suspiro profundo e cansado escapou da boca dele quando olhou o relógio, tinha muita coisa pra fazer ainda.

— Eu tenho que ir. Tome cuidado nessas ruas, Sky. Até mais — acenou, seguindo com certa pressa pela rua movimentada.

— Até mais... — disse baixinho para si mesma, ele já estava longe.

O barulho do salto foi ficando mais forte a cada passo firme. Demise parou ao lado dela, pondo gentilmente a mão no ombro.

— Já quis matar alguém pelo simples motivo de ser descuidado? — perguntou Sky, os batimentos cardíacos acelerados e a tensão que colocava nos punhos fechados demonstrava toda a raiva que estava sentindo.

— Não se pode acabar com o imortal, afinal é imortal.

Ela pegou dois cigarros do maço dentro da bolsa, acendendo um. O outro ofereceu a garota.

— Não fumo.

Demise tragou uma vez bem forte antes de soltar o ar pra cima.

— Como foi parar junto à morte? Ele pode parecer realmente bom a primeira vista mas é um monstro, garota. Você deveria odiá-lo, e tem razões pra isso.

Sky não se conteve em olhá-la diretamente na íris verde. Eles eram esmeraldinos como a cor do anel brilhante no dedo indicador, e apesar de muito bonito e mortífero, não conseguia sentir medo.

— Bem, quando você acredita que alguém é um monstro, e você os trata como você acha que eles merecem, talvez eles se tornem o monstro que você pensou que eles eram — respondeu antes de se sentar no banco da praça.

Demise a observou, não tinha sido a reposta que estava esperando mas era a que iria se contentar no momento. E todo o conceito criado por ela tinha mudado, entendia o motivo que levou Grim a se aproximar. Ele gosta desse tipo de gente, as melhores delas.

Sky mordeu o lábio inferior, se recostando no banco. Deu uma bela olhada ao redor e no fundo queria que as almas fosse capazes de ver também.

Crianças brincando, adolescentes trocando carícias, adultos discutindo sobre algum assunto trivial. Poluição, aquecimento, violência e... Morte. Sentado bem ao lado dela. Ficou espantada ao vê-lo.

Como sempre vestia preto — blusa gola alta, casaco e botas, sendo que a última peça ela achou familiar, sendo usada por outra pessoa. Demise assistia tudo enquanto ia para o segundo cigarro.

— Estava procurando por mim? — perguntou ele, bastante sorridente. Parecia alegre, diferente de hoje cedo.

— Estava procurando outra coisa, mas como eu poderia não estar procurando por um sorriso assim? — a voz exalava sarcasmo, só que era mais que verdade.

— Oh, pare! Vai me deixar envergonhado.

Sky tinha um palpite na ponta da língua e queria arriscar.

— Está assim porque a Soren deixou você usar um dos sapatos dela?

Ele cruzou as pernas, balançou o pé direito e analisou o calçado bem detalhadamente.

— Sim! Só que ela não sabe.

— Eu gostei — afirmou ela, lembrando que a fase gótica tinha passado e preferia deixar o assunto bem guardado.

Demise livrou-se do restante do fumo e pigarreou, chamando a atenção dos dois. Seu trabalho tinha sido devidamente feito, e sem imperfeições. Estava mais que na hora de partir.

— Foi bom te conhecer Sky. Talvez ele me encontre, então acho que nos veremos em breve — disse, se referindo a Chasan. Ele iria atrás dela, disso tinha toda certeza, pois todo objetivo dele vira necessidade.

Em instantes, Demise sumiu sem deixar vestígios entre uma árvore e outra, sorte que não tinha ninguém observando.

— Grim, Ethan disse que viu você e a sua outra versão em casa. E que você atendeu a porta quando ele esteve lá. Pensei que eu tinha dito para ser discreto e que as pessoas não podiam te ver.

Pensou um pouco, levantou todo inquieto, logo depois sentou-se ao lado dela novamente, mas estava a deixando apreensiva.

— As pessoas, inclusive você, podem me ver porque eu permito. Ele deve ser uma daquelas pessoas que conseguem me ver espontaneamente — agora ela estava confusa, então ele tratou de explicar. — Animais conseguem sentir certas presenças, conseguem ficarem alertas quando há perigo, mas o perigo sou eu. Pode acontecer também com humanos e eles são capazes de me ver na forma que eu permito que você me veja. — ele esfregou a cabeça. — Na verdade, isso é raro de acontecer.

— Quem foi o primeiro?

— Um rapaz chamado Justice Cartier, ótima pessoa — divagou nos pensamentos, começando a sentir uma pontada de nostalgia.

— Mas como?

— Você consegue me ver? Sim. Tudo de mim? Provavelmente não. Ninguém nunca realmente pôde e...

— E isso faz de você a morte. Claro Grim, ninguém pode desvendá-lo, você é imprevisível afinal. Você vem e bate na porta e entra quando muitas vezes não tem permissão de entrar, você invade qualquer lugar. Mas quem irá denunciar?

As palavras vieram quase automaticamente da garganta, e não conseguia parar, também não percebeu que estava chorando até sentir uma gota pousar nos lábios cheios, o gosto salgado e pesado. Então tinha sobrado algumas gotas afinal.

Grim se levantou, e sem olhá-la, ele lhe deu a mão.

— Vem, vamos embora — disse ainda com a mão estendida. A voz dele era em tonalidade baixa, quase tímida. O sol deu um certo brilho a seus cabelos negros.

Sky limpou timidamente a face, dando-lhe a mão. A dele é pequena, macia e quente, em contraste com os anéis que usava. Pretos. Metálicos. Frios.

Enquanto andavam em silêncio — a não ser pelo som opaco que os sapatos faziam ao tocar o solo, Grim começou a refletir sobre o que alguém falaria. Pensou em confortá-la sobre os pais, mas estaria apenas remoendo o acontecido. No final das contas resolveu ficar em silêncio, o tempo iria resolver, ele sempre resolvia.

Ela adiantou os passos quando chegaram no quarteirão, andando na frente. Pegou as chaves de casa, mas hesitou quando percebeu que já estava destrancada, reconhecendo a voz de um certo anjo caído, mas a outra era apenas familiar demais, entrou com Grim logo atrás.

Sua prima Louise estava sentada junto à Soren, que mantinha as asas totalmente a vontade como de costume, sem preocupação alguma. Uma faca de ponta descansava em cima da mesa de centro enquanto as duas conversavam como se conhecessem a muito tempo e estavam apenas colocando o papo em dia, com Floyd entre elas, deitado enquanto limpava o pelo alaranjado.

— O que está fazendo aqui? — questionou Sky, chamando a atenção das duas.

Louise levantou rapidamente, abraçando a prima que raramente a visitava. E agora sabia o motivo.

— Oh Deus, você está bem?! Me desculpe, eu não fazia ideia do que estava acontecendo!

Claro, como poderia... pensou.

— Você precisava contar?

Soren levantou as mãos em defesa.

— Eu achei que foi preciso.

— Por que não me ligou, eu... eu poderia...

— Está tudo bem, Lou, não há com o que se preocupar.

Louise olhou ao redor, ou melhor, para os dois e todo aquele cenário. A confusão era clara em seu rosto, então Sky achou sua obrigação começar a explicar. Grim assistia tudo em silêncio, era o que fazia de melhor quando estava em uma situação.

— Eu preciso que vocês esperem lá fora... — ela olhou para a prima — Até eu resolver isso.

Os dois saíram sem questionar, mas Soren fez questão de levar o gatinho junto com ela.

Sky se acomodou ao lado da prima, tendo uma básica noção do que iria ser mais adiante.

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Grim sentou nos degraus em frente à casa, Soren o acompanhou. Estava quase anoitecendo e o ar frio fez ele esfregar algumas vezes as mãos.

— O que mais disse a ela? — concluiu de forma acusadora.

— Por que quer saber?

— Não pode sair falando sobre nós, Soren. Não pode sair por ai com suas asas abertas, por mais que goste, isso pode trazer problemas para nós... — parou e pensou um pouco no que estava prestes a falar — E pra ela.

— E agora está preocupado.

— Não comece isso!

Soren esfregou as têmporas repetitivamente, de modo impaciente.

— Quero um cigarro — ela desejou.

— Mas você não fuma.

— Você não questionou isso com a Sky, não foi?

Ele a olhou com desdém, puxou o ar para dentro já sem paciência. Essa era a maior qualidade dela, provocar, incitar. E na maioria das vezes não conseguia com ele, mas estavam falando de outra pessoa.

— Você se importa com ela, e não apenas por conta da alma — continuou. Quanto mais ela falava, as reações dele iam respondendo tudo. — A considera... Até mais do que eu.

— Espera, isso é ciúmes, Soren?

— Sim! — gritou. Grim não esperava uma resposta tão simples e direta, ela não era disso.

— Eu a considero, primeiramente por ela ser uma humana, mas agora é diferente, muito diferente, muito mais além de qualquer coisa que já aconteceu. Ela é especial, com ou sem alma... Ela é especial pra mim. Você está comigo há tanto tempo que ninguém poderia contar, e aquela mulher lá dentro acabou de chegar, então eu quero conhecê-la. Eu quero entender mais a causa dela ter vindo me procurar.

Soren se sentiu um pouco conformada com sua resposta sincera, só que ela se conhecia, tendo certeza que esse assunto viria em pauta mais uma vez.

Ficaram em silêncio, ouvindo as vozes que saiam de dentro do apartamento até a porta ser aberta, e Floyd pular dos braços dela, esfregando seu torso em Sky, que deu sinal para que entrassem.

Louise parecia mais calma por fora, mas por dentro ainda estava tensa. Pelo que a prima havia lhe contado, a morte estava morando com ela e a mesma havia se oferecido para procurar sua foice. Desacreditaria se não fosse a Sky no meio da situação, ela sempre se metia com essas coisas, desde pequena. Isso a seguia, e ela os seguia.

— Bem, vamos começar novamente. Grim, Soren, esta é Louise, minha prima — suspirou, sentando-se de modo cansado.

Grim sentou-se ao lado de Louise, inteiramente fascinado em tudo na mulher, afinal estava conhecendo o primeiro parente de sangue de Sky.

Louise é apenas três anos mais velha que a prima, muito bonita e aparentava ser encantadora. Como deve ser a alma dela? Talvez possa conter a mesma essência que a alma da Sky... Assim Grim pensou.

— Como é ser prima dela? — perguntou ele, muito de perto. — Você recebe algum tipo de tratamento especial, porque até agora comigo, nada.

— Hã, não... Acho que nós dois recebemos o mesmo tipo de atenção.

Grim franziu o cenho, não conformado com a simples resposta.

— Você dorme com ela? — perguntou inocentemente. Sky engasgou com a própria saliva, Soren fez um grande esforço para não rir, mas Louise foi a única completamente chocada.

— Você está dormindo com a morte?!

Sky ainda se recuperando, tentou o mais rápido possível explicar.

— N-não, não é bem assim, ele está dormindo na minha cama — ela ficou de pé, vendo que falar alguma coisa iria apenas piorar as coisas — Por Deus, Grim, cala a boca.

— Mas você dorme com ela? — insistiu ele, recebendo um olhar contrariado de Sky.

— Nós costumávamos, quando éramos pequenas. Quando ela dormia lá em casa ou na casa de férias da nossa avó... Você lembra Sky, quando dormimos na casa da avó e...

— E subíamos naquela enorme árvore e sempre acabávamos pegando no sono. No dia seguinte nossas roupas estavam imundas e a avó nos colocava de castigo — ela riu. — Sinto saudades daquele tempo. E por que você veio até aqui?

— Estava de passagem, e como você mora no centro pensei em te ver. Não entendo o motivo de termos nos distanciado. E agora com toda essa história da sua alma... Como isso aconteceu?

— Na verdade ninguém sabe — Sky deu de ombros. — Ninguém sabe o motivo disso ter acontecido ou o porque existe mil almas na minha alma. Sabia que tenho até outro nome? Me chamam de A nascida do Amanhecer. Legal, não?

— Perigoso, não? — respondeu. Grim assentiu automaticamente para concordar com Louise, até porque ele achava o nome legal.

Soren era a única calada naquele momento, meio distante de tudo. Na verdade, sua mente estava passando milhares de coisas e possibilidades do que estava prestes a fazer.

— Sky, eu posso tocar em você?

Ela respondeu de maneira inocente, não entendendo muito bem o propósito da repentina pergunta. Louise observava tudo quietamente, apenas Grim se encontrava meio em alerta, já que não tinha ideia do que aquela anjo caído estava prestes a fazer. Então Soren colocou as mãos entre o peito e a cabeça dela, fazendo uma ligação poderosa entre o coração e a mente.

Sky sentiu uma vibração vindo de dentro, bem do fundo do coração ardente. Tristeza, alegria, choro, risos, paixão, desolação... Eram as almas encontradas dentro dela, cada uma delas, passando como um vídeo acelerado pela mente das duas.

Parecia um trabalho feito a mão na maior calmaria e tempo do mundo, perto de um oceano transbordando, foi o que Sky sentiu quando uma lágrima daquele oceano salgado de sentimentos caiu em sua bochecha, terminando entre o queixo fino, concluindo a última alma.

As duas se afastaram rapidamente com a respiração pesada. Sangue escorria pelo nariz do anjo, mas nada tinha acontecido com a outra.

— O que houve? — perguntou Louise, amparando a prima.

— Eu vi... todos dentro de mim. Como alguns mal tiveram tempo para viver. E eu vi ela...

Louise ainda sem entender a abraçou, mas Grim levantou bruscamente, indo em direção a Soren, que limpava o sangramento nasal.

— Se quiser mesmo saber mais, vai ter ser forte em vê-los, em visitar seus túmulos, em aceita-los — disse Soren de maneira áspera para que soubesse que aquilo não era uma piada ou simples brincadeira, e claro, Sky entendia perfeitamente o que estava acontecendo, tinha a sensação que entendia desde sempre, mas tinha sido pega de surpresa.
Todas aquelas pessoa que testemunhou tinha uma vida, uma família, alguém para se apoiar, muitas delas nem tinham chegado a sentir o calor do sol no rosto ou a luz do luar iluminando à milhões de quilômetros da terra, nunca aproveitaram um comum toque de carinho, e isso a deixou triste. Sentiu-se estúpida por quase jogar isso fora mais uma vez. Precisava de um tempo, então em silêncio, se recolheu para o quarto, trancando-se la dentro.

Grim sentiu-se, de certa forma, melancólico, Soren apesar de toda aquela capa de aço que a cobria, sentiu-se abalada, Louise mesmo entendendo o mínimo, sabia como ela se sentia, eram família afinal.

A anjo caído resolveu ir embora, tomando os sapatos a força dos pés de Grim. Sobraram apenas os dois na sala.

— Você vai ficar? — perguntou Louise.

— Vou, estou morando aqui. Você vai ficar?

— Sim — afirmou — Até ter certeza que ela está bem, e não da boca pra fora.