A Million Faces
5 I think I'm lost.
Notas iniciais
A S.W.A.T. apareceu e carregou o homem louco para longe de nós. Eu esperei que o local fosse rodeado por pessoas para conseguir escapar entre a multidão e correr de volta para o hotel. Tirei meu scarpin e carreguei-o na mão durante o trajeto até a saída da arena. Minha cabeça começou a rodar e eu tive de me encostar em uma parede qualquer para me acalmar. Era a adrenalina que estava diminuindo e causando aquela queda de pressão. Minha visão ficou turva e eu abaixei-me o máximo que pude até permitir que o peso do meu corpo fosse sustentado pela ponta dos pés. Joguei o sapato no chão e passei a mão na testa. Que merda eu havia feito?
A imagem do que acontecera a poucos minutos rodava em minha mente repetidas vezes feito um filme. Por que ousei me expor daquela forma? O que eu tinha na cabeça? Já não me bastava a S.H.I.E.L.D. na minha cola em Moscou, eu precisava colocar os holofotes sobre mim e gritar: "Ei otários, observem como eu consigo salvar o dia!".
─ Snow! ─ alguém me chamou a uma distância razoavelmente longe. Era Delon acompanhado de dois seguranças ─ sendo que um deles estava bem zangado.
─ E aí, camarada. ─ sorri fraco para ele, enquanto voltava a ficar de pé carregando meus sapatos comigo.
─ O que foi aquilo? Por que você... ─ ele estava exasperado, seu cabelo estava uma bagunça, a gravata estava solta, os primeiros botões de sua camisa abertos e seu paletó se quer podia ser visto por perto ─ Eu pensei que... Eu cheguei a pensar...
Revirei os olhos e comecei a caminhar na direção deles. Fui pega de surpresa quando ele me puxou para um abraço apertado.
─ Ei! ─ protestei, empurrando-o para longe ─ Eu estou bem, ok? ─ franzi o cenho ─ Não precisamos desse sentimentalismo todo.
Ele passou a mão no cabelo e me olhou irritado.
─ Não precisa desse sentimentalismo? Não precisa desse sentimentalismo? O que você acha que eu pensei quando vi minha melhor... a melhor... Você correndo no meio daquele monte de pessoas armada com uma cara de maníaca?
Coloquei as mãos na cintura e o encarei friamente, indisposta a entrar no joguinho sentimental.
─ Não sei, talvez que eu estivesse afim de dar uns tiros na cara daquele retardado? ─ indaguei, cética.
Delon bufou e deixou de me encarar por um tempo.
─ Às vezes eu me esqueço que você é uma máquina de combate fria e sem coração e não uma mulher.
Cruzei os braços.
─ E eu sempre achei que fossem as mulheres que tinham alteração de humor, e não os homens. ─ olhei para ele, agora ainda mais zangada.
Ambos estávamos a flor da pele. No fundo eu sabia que não deveria jogar toda aquela raiva em Delon, afinal não era ele meu alvo, porém foi inevitável.
─ Vamos voltar para o hotel antes que a imprensa chegue acompanhada do Homem de ferro. ─ pela primeira vez na vida, vi Delon se preocupar com sua imagem. Será mesmo que era com a imagem dele que estava preocupado? Eu não sei.
✥✥✥
Até que Delon tentou dirigir rápido o suficiente para chegar antes dos repórteres, mas não foi possível. Quando chegamos lá, os abutres já estavam a postos para pegar qualquer um que ousasse passar por aquelas portas.
─ Me deixe perto da entrada dos funcionários, por favor. ─ pedi assim que percebi que ele não ia parar o carro.
─ Vamos nos instalar em outro hotel. ─ Delon falou, de repente ─ Vou pedir ao Francis que leve nossas coisas a esse novo hotel. Será mais fácil assim. ─ ele pesquisou outras alternativas no GPS e marcou um novo ponto.
Assenti, agradecida por ele ter tido uma ideia melhor. Só depois de passar pelo Hotel de Paris que percebi que não estava afim de dividir o mesmo espaço que Natasha... Oh não! Ela ia dizer a eles! Ia contar a eles o que eu fiz. Pior. Onde eu estava.
─ Me leve ao aeroporto! ─ gritei de imediato ─ Por favor, Delon. Preciso chegar ao aeroporto.
Ele franziu o cenho, pasmo com meu pedido.
─ Já disse a você, iremos a um outro hotel para que não sejamos...
─ Você não está me entendendo. ─ grunhi ─ Preciso ir embora de Monte Carlo. Agora!
─ Você é que não está me entendendo. ─ ele parou o carro em um cruzamento, esperando um caminhão atravessá-lo ─ Nós iremos para outro...
Não esperei ele terminar.
Abri a porta do carro e comecei a andar em direção oposta ao novo hotel que estava marcado no GPS do Audi TT.
Merda nenhuma que vou deixar um homem mandar na minha vida. Ainda mais Delon.
─ Snow! ─ ele gritou do carro, mas não me virei.
Tirei da minha bolsa ─ que Delon devolveu-me assim que entramos no carro ─ meu celular e disquei os números que eu sabia de cor.
─ Alô? ─ Sophie e seu sotaque sulista tão conhecidos atendera o telefone.
─ Sophie, é a Kate. Eu preciso de um favor imenso. ─ comecei a explicar a ela que eu tinha perdido a carteira em Moscou e precisava do número do meu cartão de créditos.
─ Nossa... que saco em Kate? ─ Sophie comentou enquanto revirava meu apartamento em New York ─ Você está voltando para casa?
─ H-hm. ─ afirmei ─ Por isso preciso do dinheiro.
─ Já cancelou seus cartões de crédito? Espera... Kate sua carteira está aqui.
Droga.
─ Essa é outra carteira, Sophie. Eu perdi minha carteira de... viagens. ─ mordi a língua na expectativa de que ela caísse nessa.
─ Ah, é mesmo. Eu lembro que você comentou sobre não levar cartões em viagem. ─ ela parecia sorrir, aliviada por mim ─ Bom, vou enviar seus dados por mensagem, pode ser?
Entrei no primeiro banco que encontrei e concordei com o que ela tinha oferecido.
─ Ah, antes que você desligue preciso te contar uma coisa.
Revirei os olhos.
Aquele não era um bom momento para as fofocas da Sophie.
─ Sim?
─ A nova remessa de livros importados acabou de chegar e apareceram novos compradores para o café... O que eu faço com as remessas?
Bufei.
─ Imprima as etiquetas e deixe tudo no meu apartamento. E quanto aos compradores, pode derrubar capuccino sem querer, a vontade neles. ─ pude sentir Sophie sorrir, animada com a ideia.
─ Certo, certo. Nos vemos em breve Kate.
─ Nada de fazer faixas no aeroporto. ─ alertei.
Ouvi uma gargalhada aguda.
─ Sem problemas.
Um funcionário do banco se aproximou no momento em que a mensagem de Sophie chegou.
─ Senhorita... ─ ele esperou que eu me apresentasse
Puxei de dentro da bolsa minha identidade de Kate Heastings e mostrei a ele.
─ Senhorita Heastings ─ ele pareceu satisfeito ─ o que posso fazer por você?
─ Na verdade, só preciso usar o caixa eletrônico. ─ sorri da forma mais educada que consegui enquanto ele me acompanhava ao caixa eletrônico.
Saquei uma boa quantia de dinheiro e saí do banco às pressas.
Parado, do lado de fora estava Delon, dessa vez sem seus seguranças, acompanhado de seu Audi.
Revirei os olhos.
─ O que foi agora?
Delon abriu a porta do carona e sorriu, humilde.
─ Desculpe, docinho. Eu me alterei mais cedo. ─ lançou-me seu olhar pidão e esperou.
─ Foi assim que você conquistou suas treze mulheres, não é? ─ zombei e sorri, condescendente a seu esforço. Delon nunca pedia desculpas. Não de verdade.
Ele soltou uma gargalhada, contente com o clima, beijou minha bochecha e sorriu.
─ Sabe, se você fosse gentil assim com suas esposas, talvez elas ainda estivessem com você.
─ Minhas mulheres estavam comigo pelo meu dinheiro. ─ ele lembrou-me enquanto fechava a porta após eu entrar no carro ─ Você é diferente.
Esperei que ele entrasse no carro e começasse a dirigir para falar:
─ Mas eu também estou com você pelo dinheiro. ─ ri quando ele fez uma careta, fingindo desgosto pela revelação.
─ Mas você não reclama de mim o tempo todo. Principalmente depois do sexo.
─ Ei! ─ olhei feio para ele ─ Não vamos fazer sexo.
Delon tornou a gargalhar.
─ Você diz isso por enquanto. Espera só eu te dar um buquê de rosas e um par de brincos.
Revirei os olhos.
─ Vale lembrar que eu já lhe dei um par de brincos. Agora só faltam as rosas.
Soquei seu braço levemente e voltei-me para a rua a nossa frente.
─ Às vezes me esqueço de como você é boa em fingir ser uma máquina e não uma mulher, Snow. ─ ele reformulou a frase que havia dito não muito tempo atrás.
Bufei teatralmente e ele riu.
─ Cale a boca e dirija.
✥✥✥
Eram exatas 20hrs quando Delon bateu na minha porta.
Quando ele descobriu que eu queria ir embora, me implorou por um jantar, afirmando que conseguiria me esconder da imprensa. Mal sabia ele que esse era o menor dos meus problemas.
Eu abri a porta e o encarei. Balancei a cabeça, em desgosto quando reparei no que ele realmente tramava. O problema não era o terno preto de luxo que usava, muito menos a corrente dourada que aparecia por detrás da camisa aberta no colarinho. Ainda menos o cabelo penteado em um topete arrumadinho e sem um fio se quer fora do lugar.
─ Gostou? ─ ele sorriu, tentando me obrigar a entrar na jogada.
O problema ali era o buque de rosas.
Um buque quase tão grande que pensei por um instante que teria de abrir a outra porta para que ele passasse com aquilo tudo para meu quarto. As rosas eram de um vermelho vivo, quase reluzia quando a luz batia em suas pétalas. Pareciam tão abertas e decididas a brilharem esta noite...
Fechei a cara.
─ Não vamos transar, Delon. ─ peguei a rosa e joguei na mesa disposta na entrada da suíte.
O sorriso dele cresceu a medida que minhas feições diminuíam.
─ Veremos, minha querida Snow. Veremos.
Enlacei meu braço ao seu e deixei ser guiada pelo corredor em direção ao elevador.
Um elevador repleto de espelhos, por sinal.
As quatro paredes refletiam a imagem que representava Delon acompanhado de uma mulher loira, irritada, usando um vestido vermelho sangue, longo e tomara que caia, que delimitava perfeitamente todas as curvas definidas de seu corpo. O cabelo estava preso em um coque muito bem feito, permitindo que alguns poucos cachos caíssem e esbanjassem sua naturalidade. Sua maquiagem era elaborada, feita especialmente para exibir a beleza que ela raramente gostava de revelar aos outros.
Era até estranho pensar que aquela mulher elegante ali refletida era eu.
─ Posso dizer que estou muito surpreso por vê-la em uma roupa que não seja preta? ─ ele zombou enquanto saíamos do elevador e caminhávamos para a saída do hotel.
─ Sinceramente? Não. Ainda estou zangada pelas rosas.
─ Você está zangada o tempo inteiro, Snow.
─ É um efeito colateral de ser sua amiga. ─ deixei um sorriso abusado escapar de meus lábios.
─ Não, não. É um efeito colateral de ser Snow.
O restaurante que ele escolheu para o jantar, acabou provando ser muito bom.
Já havíamos passado do prato de entrada quando ele começou com o falatório desnecessário.
─ Você acredita no amor? ─ ele disse aquilo como se fosse a primeira pergunta que surgiu em mente.
Bufei.
─ Que foi? Você acredita? ─ ergui uma das sobrancelhas e o olhei com curiosidade.
Ele riu.
─ Não... Claro que não! Amor é coisa de criança. É uma fantasia que os pais criam para iludir os filhos que o felizes para sempre pode ser real.
Voltei-me para apreciar o jantar novamente, porém fui interrompida por mais uma pergunta.
─ Você já ficou tão curioso em relação a alguém a ponto a perseguir essa pessoa sem precisar ser paga para isso?
Delon sempre soube de meus serviços.
Em algumas raras ocasiões eu compartilhava com ele uma ou outra atividade pela qual eu era contratada. Ele quase sempre fazia força para fingir desinteresse, mas seus olhos brilhavam de curiosidade quando eu não contava um ou dois detalhes.
Dei de ombros, em resposta a sua questão.
─ Nunca? Sério?
─ Nunca fui curiosa, Delon. E, certamente, nunca me conectei a ninguém a ponto de persegui-la por aí. ─ beberiquei um pouco mais do meu segundo copo de bloody mary.
─ Ah, fala sério, Snow. Só uma vezinha na vida. Você, toda poderosa assim. Deve ter encontrado alguém que valesse a pena ser perseguido.
Acabei deixando escapar uma risada.
─ Que foi? Você perseguia suas esposas antes do casamento? ─ zombei e ele revirou os olhos.
─ Não. Contratei detetives particulares para isso. ─ um sorriso debochado cresceu em seus lábios ─ Faço isso toda vez que pretendo me aproximar de alguém.
Levei aos lábios um pedaço da massa que nos foi servida enquanto Delon me encarava com um olhar suspeito.
─ Que foi? ─ perguntei de boca vazia.
Ele ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços sobre a mesa.
─ Kate Heastings é um nome bem peculiar, sabia?
Engasguei com o ar.
O desgraçado havia me investigado.
Aquele nome, em questão, era um dos poucos que gostaria de manter em segredo. Na verdade só haviam dois nomes que gostaria de proteger.
─ Quem é Kate Heastings? ─ perguntei, por fim, disfarçando minha surpresa.
Delon terminou seu quarto copo de wisky e resolveu entrar no jogo.
─ Uma mini-empresária novaiorquina, dona de uma café-teca escondida entre os bairros calmos e pacíficos da grande New York. ─ ele lançou-me seu olhar de caçador. Olhar utilizado somente quando ele dava em cima das mulheres de alguns pubs que frequentávamos.
─ E... O que faz você trazer essa novaiorquina a tona? ─ prossegui fingindo inocência e nem um pouco interessada no assunto.
─ Eu estou muito interessado nela. Já faz um bom tempo. ─ ele revelou, por fim ─ É sagaz, inteligente, possui um humor impecável... Fora que quando ela decide largar as roupas pretas para usar algo mais... ousado... Ah... ─ ele suspirou ─ ela me enlouquece. ─ o tom de voz de Delon era baixo e soava de forma sedutora.
─ Então você deveria ter convidado essa tal de Kate... é Kate o nome dela? ─ franzi o cenho, fazendo de conta que estava confusa ─ Enfim ─ dei de ombros ─, essa mulher para jantar. E não eu. Snow Noël. Britânica. Nem um pouco com vontade de viver em New York. Nascida e criada na linda Londres. Assassina de aluguel... Falsária. Posso até ser sagaz e, com toda certeza, inteligente. Mas meu humor não é impecável. É pura e simplesmente alterado. Fora que não sou o tipo de mulher que deseja enlouquecer um homem que já foi casado treze, se não, mais vezes.
Nada do que eu disse fez Delon perder aquele brilho malicioso no olhar.
─ Adoro quando você se faz de desentendida. É, possivelmente, uma das coisas que eu mais gosto em você.
Revirei os olhos.
─ E eu adoro de quando você é apenas um milionário, dependente de meus serviços, disposto a pagar qualquer preço para ter minha proteção. ─ rebati ─ E, obviamente, é a única coisa que gosto em você.
Delon, por fim, foi atingido. Arrumou sua postura e tentou disfarçar seu olhar afetado. Deixou escapar um suspiro frustrado e voltou-se para sua comida.
E a vitória é minha, mais uma vez.
Mas a noite ainda não tinha terminado.
Durante nossa volta para o hotel, percebi que não deveria ter dado a graça de ter feito algumas apostas com Delon em nossa parada em um bar. Havia perdido quase todas elas. O que era bem raro, mas com o humor negro em que me encontrava, não era capaz de pensar corretamente. No total foram mais de treze copos de tequila, alguns de vodka russa, um coquetel com gosto de bala de menta e uma garrafa inteira de cerveja brasileira.
O resultado disso foi tontura. Muita tontura.
Delon me carregava para minha suíte, sorrindo animado com as coisas que eu podia observar e comentar durante o caminho.
─ Eu odeio esse vestido. ─ falei por fim ─ Dá pra acreditar que esssssa merda ficou me pinicando o jantar inteiro? Mas eu queria ficar bonita, ssssabe? Sssei lá. Deu vontade ─ dei de ombros, eu acho.
Fitei Delon e seu cabelo bagunçado.
Nossa... como ele era lindo. Fora que os olhos cor de de mar estavam com aquele brilho travesso que eu tanto gostava. Eu poderia beijá-lo agora.
─ Então me beije. ─ Delon parou, de repente e segurou-me pelos braços, fitando meus olhos de forma intensa.
─ Essspera... Eu disssse isssso alto? ─ perguntei, surpresa. Minha nossa, será que ele conseguia ler meus pensamentos?
Vou pensar em uma coisa idiota. Quero ver se ele adivinha.
O rato roeu a roupa do rei de roma.
É. Acho que não leu, porque quando parei para perceber, nossos lábios já estavam colados.
E quando pude tomar fôlego para protestar, já estava jogada na king size da sua suíte.
Como eu havia parado ali?
─ Não vou transar com você, Delon. ─ consegui dizer antes que ele voltasse a me beijar.
Ele sorriu, brevemente. Desabotoou a camisa, deixando a mostra todo seu peitoral definido e a tatuagem de um dragão que ele vivia se gabando. Deslizou a mão pelo meu corpo e terminou de tirar o meu vestido que nem se quer percebi que já estava quase sem ele. Seus lábios roçaram em meu pescoço enquanto sua mão passeavam em minha coxa em movimentos suaves que, ouso dizer, provocaram arrepios leves em meu corpo inteiro.
─ Tudo bem. ─ ele sussurrou em meu ouvido ─ Então deixe que eu transo com você.
E no fim das contas...
Nós transamos.
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