A Milady de Sueseen
4 O desabrochar da felicidade
O silencio reinava no castelo.
O inverno estava se preparando para dizer adeus e deixar a primavera reinar.
Aquela noite fatídica havia demarcado a alma de todos naquele salão.
Um filho.
Primogênito.
Fruto inocente de uma armação vil.
Armação que fora desmascarada alguns dias depois que Sir Juan entrou no quarto de Elisabeth:
“ — Milady?
— Sim Sir?
— Eu gostaria que soubesse que eu e meu irmão estenderemos nossa estadia no castelo.
— Claro. São bem vindos.
Ela voltou a olhar pela janela distraidamente quando a porta se fechou. Por um minuto, não conseguiu conter as lagrimas e quando percebeu estava com a cabeça no ombro de Sir Juan soluçando.
— Elisabeth...não deve ficar assim. Tudo tem uma solução. Veja, as vezes achamos que sabemos o que é o amor, mas logo em seguida descobrimos que não passava de uma mera alegria instantânea. – Ele segurou seu rosto e secou suas lagrimas. – O amor, Elisabeth, é uma faca de dois gumes. E às vezes temos que nos machucar para poder amar.
— Não acha que já me machuquei o bastante?
— Eu sei que sim. Mas diga-me, o que achas de declinar da dor e deixar que um novo amor a banhe?
Ela o olhou sem entender ao certo o que ele estava dizendo, então apenas se afastou e pediu para ficar sozinha pois queria descansar.
Naquela noite, durante o jantar, Fiory se sentou a mesa.
— Eu pensei em alguns nomes Thomas. Se for menina, quero chama-la de Teodora. Significa presente de Deus. Mas se for menino, o que sei que vai ser, quero chama-lo de Lian. Em homenagem ao seu pai. O que você acha?
Thomas a encarava sem dizer nada. Suas pupilas estavam dilatadas e suas veias eram visíveis.
— Sabe o que acho? – Vanessa começou a falar enquanto amassava uma batata em seu prato. Ela era a única que não havia perdido o apetite. – Que este filho que esta em seu ventre não é de Sir Thomas.
Fiory ficou vermelha e se levantou batendo na mesa.
— Como ousa insinuar tal coisa?
Vanessa apenas sorriu para ela e continuou a comer.
Elisabeth se levantou e todos a acompanharam.
— Marido, eu preciso deitar. Pode trazer uma bandeja com algo para eu comer?
— Claro minha amada.
Elisabeth seguiu escada acima, mas pela risada de Vanessa, soube que Fiory havia ficado enfurecida.
Seu plano era ter Sir Thomas apenas para ela, mas Elisabeth estava decidida. Amava Thomas e não o deixaria.
Dois dias se passaram e Elisabeth percebera que Sir Edgar e Vanessa passavam muito tempo juntos. Quando ele não estava com Vanessa, estava com Camile. A pequena logo se tornou o brilho do olhar de Sir Edgar e em certo momento, Sir Thomas comentou com a esposa que Sir Edgar a muito tempo havia sofrido de uma doença e essa o deixara estéril. Ele jamais poderia ter herdeiros e isso machucava sua alma de forma profunda.
Poucos dias antes da primavera invadir o continente, Vanessa entrou no salão como uma leoa a procura sua caça, e para a surpresa de todos que estavam se aquecendo em frente a lareira, ela avançou em cima de Sir Juan.
— Eu deveria mata-lo! – Thomas segurava a mulher com dificuldade e se perguntava se algum espírito maligno havia possuído o corpo dela. – Mas não...eu não vou tirar esse prazer dele.
— Vanessa, se acalme! – Elisabeth havia tomado Camile dos braços de Sir Edgar e tentava esconder o rosto da criança. – Clarke! Venha aqui! Leve Camile!
Quando a menina se foi no colo de Clarke, Vanessa se acalmou e encarou Juan que não se abalara com as ameaças.
— Por quê?
Ele apena sorriu e encarou Elisabeth:
— Eu a amo. E o amor nos leva a fazer loucuras.
Thomas rosnou:
— O que diabos esta acontecendo aqui e como ousa dizer isso para a minha mulher?
Vanessa se afastou de Juan e se pôs ao lado da prima:
— Você dormiu sim ao lado de Fiory, mas por que desmaiou no lombo do cavalo e Sir Juan o trouxe para dentro e o colocou naquele quarto. O filho que ela carrega não é seu. É dele. A gestação dela esta muito avançada para o dia do acontecimento. Ou essa criança é dele, ou de qualquer outro coitado.
— Você é muito inteligente para uma mulher. Quem lhe contou?
— O filho do cavalariço. Ele estava nos estábulos mascando fumo escondido dos pais e viu quando vocês chegaram. Viu também quando Fiory se aproximou e disse que não podiam perder a oportunidade.
— Claro, claro...a ideia veio dela. No dia em que eu cheguei na verdade. Passamos a noite juntos e ela me pediu ajuda para separa-los. Se sua esposa fosse qualquer outra, eu teria matado aquela mulher no mesmo instante. Mas não...Elisabeth ganhou meu coração no momento em que ela colocou o cordão que eu lhe dei.
Ele deu um passo na direção de Elisabeth, mas Sir Thomas o agarrou pelo pescoço.
— Como pode? Éramos amigos!
Mesmo sufocando, Sir Juan ainda ria. E continuou assim quando Sir Thomas o soltou e cambaleou para trás com uma adaga enterrada no ombro esquerdo.
Enquanto Elisabeth gritava, Vanessa e Edgar seguravam Sir Thomas.
Poucas horas depois, estavam com o doutor que lhes dizia que não acreditava como Sir Thomas ainda estava vivo.
— O que irão fazer com o desgraçado que fez isso?
— Ele é meu irmão. – Edgar encarava Elisabeth agarrada a mão do marido ao lado da cama. – O desgraçado.
— Sinto muito Sir. Não quis ofender.
— Acredite Doutor, a ofensa é ter o mesmo sangue que ele.
Na madrugada, Thomas acordou e apertou a mão da esposa.
— Onde ele está?
— Não se mexa.
— Onde esta aquele desgraçado?
— Não sabemos. Ele e Fiory sumiram. Mandei metade dos nossos guardas atrás deles.
— Apenas metade?
— A guarda pessoal de Vanessa esta toda atrás dele. Mas ordenei que alguns ficassem para nossa proteção. Camile também esta aqui, Vanessa foi junto nas buscas com Edgar.
Sir Thomas se deitou novamente e suspirou.
— Como ainda estou vivo?
— O Doutor é bom no que faz e Deus não permitiria que você partisse sem conhecer seu filho.
— O filho não é meu Elisabeth. Juan disse que se deitou com ela.
— Não falo do filho que ela carrega.
Ele a encarou e quando ela sorriu, lagrimas escorreram do rosto de Thomas.
— Por Deus mulher, não brinque com isso.
— Não estou brincando. Eu queria te contar, mas as coisas aconteceram muito rápido e...bem, pelo menos agora você sabe. E quero deixar algo bem claro Sir Thomas, esta proibido de morrer antes que me dê muitos filhos!
Ele riu e ela o beijou.
— Minha amada, eu lhe darei quantos filhos quiser!
A noite se foi e o dia amanheceu mais quente derretendo a neve pouco a pouco. Quando Elisabeth desceu para preparar o café da manha da pequena Camile, Vanessa e Juan entraram no salão.
— Como ele esta? Posso vê-lo? Deus, que vergonha!
— Não se envergonhe Sir. Você não deve pagar os pecados do seu irmão. Ele ainda esta dormindo, mas assim que acordar eu o chamarei. Como foram as buscas?
— Achamos Fiory. – Edgar encarou Vanessa que continuou falando – Ela estava nas ruínas da capela, morta. O bebê foi arrancado do seu útero provavelmente com ela ainda viva. Ambos estão sendo trazidos para serem enterrados devidamente. Perdemos o rastro de Juan, mas encontraremos!”
A primavera trouxe o esquecimento do acontecido, mas a preocupação do sumiço de Juan ainda pairava secretamente sobre todos. Edgar havia partido para esclarecer os fatos para a família e Vanessa voltara para casa. Todos os dias pela manha, Elisabeth levava flores a antiga capela para a alma da criança, e sempre acompanhada de dois guardas, ordens explicitas de Sir Thomas. Ela deixava as flores na pequena mancha de sangue que a terra absorvera, e rezava pela alma do pequeno. Naquela manhã, enquanto saia dos escombros, encontrou os dois guardas caídos ao chão com os pescoços cortados. Uma navalha foi colocada em seu pescoço e uma voz inesquecível lhe sussurrou ao pé do ouvido:
— A maternidade lhe cai bem
— Juan...o que você quer?
— O que eu sempre quis. Você!
— Thomas vai mata-lo!
— Quando ele se der conta que você sumiu, estaremos longe.
Ele a virou e acariciou sua barriga.
— Primeiro, vamos nos livrar do bastardo. Não se preocupe, eu já fiz isso antes. Mas tomarei conta de você.
Ele jogou Elisabeth no chão e antes de fazer qualquer movimento, uma lamina atravessou seu pescoço.
— Nunca mais vai encostar na minha esposa!
Thomas puxou de volta a espada e abraçou Elisabeth, escondendo seu rosto da chacina.
4 anos depois
O sol quente queimava a pele de Elisabeth e do jovem Felix de apenas cinco meses.
Thomas estava com os gêmeos, Dayane e Loren no rio. Ao longe Edgar e Camile brincavam.
— Esta feliz prima?
Vanessa suspirou e olhou para a filha correndo atrás do novo pai.
— Como nunca achei que seria. E você?
O pequenino choramingou em seu colo e ela sorriu:
— Como sempre mereci ser.
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