A Metamorfose de Onevelion
5 Tokyo Sniper
Falar sobre mim é uma tarefa difícil, porque tanta coisa aconteceu e continua acontecendo na minha vida, que torna impossível sair contando tudo detalhadamente, mas se eu abordar apenas dos pontos de vista mais importantes da coisa, talvez seja mais descritivo. Então imagine um garoto para essa história, vamos lá.
Aos 11 anos, um garoto começa a finalmente tomar forma de sua vida. É difícil, ele não está pronto, não sabe de metade das coisas que vai aprender a cada ano de sobrevivência, inclusive acreditando fortemente na vivência. É um sonhador nato. Apesar de ainda não saber de quase nada, ele já tinha vivido muita coisa até os seus 11 anos. Sua família sempre foi pobre, e todos os seus anteriores 10 anos de vida, foram dentro de casa, sem poder sair muito para brincar, sem possibilidade alguma de se divertir como outras crianças normais. Seu maior divertimento, era quando os seus tios pegavam videogames de amigos emprestados, e aí, quando deixavam, ele jogava alguma coisinha por alguns 40 minutos; as vezes duravam duas horas e era o tempo mais precioso do mundo para ele. Você sabe do que eu estou falando, todos que tem poucas condições, sabem disso. É difícil ter um videogame, é difícil ter um lazer. Seus pais, ou seja lá quem for seu responsável, tem medo de que você saia de dentro de casa e se foda lá fora. Não importa o quanto você cresça, vai continuar sendo a criança deles... Por mais que você pague as contas, arrume a casa, e faça seja lá o que for... Esse garoto estava inserido em tudo isso, mas não era perceptível aos seus 11 anos, e é de lá que começa sua nova jornada.
Um dos seus tios, que trabalhava há uns 3 anos antes, numa casa de videogames, acabou ganhando um PlayStation 3 do dono. Uau, isso era incrível, principalmente pra o garoto. Seu tio não era um cara ruim, ele sempre deixava o videogame lá pra o garoto jogar, e como era desbloqueado, o garoto jogou muita coisa que estava naquele HD. Era um mundo infinito de possibilidades, e é claro que seus jogos favoritos eram qualquer God of War que estivessem ali, mas principalmente, foi ótimo quando teve o Ascension. Os olhos dele brilhavam, ele achava o jogo incrível, se divertia bastante, gostava muito das mecânicas, não parava de falar do jogo para os colegas da escola particular que ele estudava, e é basicamente isso. A história parece ser centralizada em videogames, mas é porque, até esse momento, é onde ele mais esteve inserido e submerso. Infelizmente também é importante ressaltar que o seu tio acabou se tornando um evangélico devoto, vários anos depois, e passou a falar mal de videogames em algumas ocasiões, apesar de outras vezes parecer que gosta de videogames... É tudo muito estranho... É como se ele estivesse lutando contra isso, mas ao mesmo tempo, mudar de personalidade para agradar os outros sempre pareceu o melhor a se fazer, e talvez até mesmo por medo de "ir para o inferno" por não estar na igreja.
Na escola particular, o garoto até que tinha bastante amigo, e um deles tinha síndrome de down, o que foi uma coisa difícil para lidar no início. O garoto não tinha muita mobilidade com isso, nunca tinha sido ensinado sobre nada, nem mesmo sabia quais eram os comportamentos de pessoas com essa complicação, mas mesmo assim, ambos foram ótimos amigos, até mesmo melhores amigos dentro daquele ambiente. O garoto enxergava total sinceridade no amigo, e eles dividiam paixões básicas por Transformers, Linkin Park, Dragon Ball e alguns artistas de pagodão da Bahia, que é um ritmo bem nichado e específico, mas eles adoravam; é cultural. Ambos se divertiam um com o outro constantemente, sem medo de ser feliz, só curtindo seus gostos e compartilhando um com o outro. Como eles eram pobres, uma das maiores felicidades era quando tinha 'Tela Quente', na 'Rede Globo', dia de segunda-feira, porque aí eles poderiam conversar sobre um filme novo, ou nem tão novo assim... Um dos dias mais revoltantes da vida daquele garoto, que ele não consegue se esquecer nunca, foi quando seu amigo se declarou para a menina que todo mundo tratava como uma das mais bonitas da escola, e é claro, a mais bonita da sua sala, mas ela foi bastante preconceituosa, e ele chorou de canto, dava pra perceber. O fato da "garota mais bonita da escola" ser uma desgraçada sem coração, pode parecer a coisa mais clichê do mundo, mas é, elas existem, e não teriam como não existirem, porque é óbvio que historicamente, socialmente, qualquer pessoa minimamente colocada em qualquer pedestal que seja, se engrandecerá de alguma forma, a não ser que ela já tenha tato social o suficiente para reconhecer seu lugar como pessoa, mas é claro que essa garota não era o 'Keanu Reeves'. Ela poderia simplesmente ter dito que eles eram grandes amigos e que não podia corresponder os sentimentos dele, até porque ela já tinha 12 anos, então não era algo tão impossível assim de se dizer, ela já não era mais criança, mas ao invés de ser racionalmente normal, o que eu estou erroneamente exigindo de uma pré-adolescente fútil, ela foi uma filha da puta do caralho, e era assim que o garoto se referia a ela sempre que podia, cara a cara ou não. Eles chegaram a brigar feio, verbalmente, e é claro que o garoto levou suspensão por chamar uma colega de classe, de vagabunda, de puta, de preconceituosa, e de lixo humano. Não que isso faça alguém levar suspensão, mas ele falou na frente da diretora, então deu merda, e ele não tava nem aí, por mais que isso fosse lhe acarretar problemas em casa.
Ridículamente e comicamente, por mais que esse garoto tenha levado isso consigo pra o resto da vida e nunca consiga esquecer, ele também foi bastante preconceituoso por muito tempo. Sua família era extremamente religiosa, carregada de conceitos estranhos, que o garoto logo se apossou, porque não tinha o que fazer... Quem te cria, é o seu guia. Toda piada homofóbica que ele podia fazer, por mais baixa e desprezível que fosse, ele fazia, principalmente por achar que estava fazendo algo correto. "Como um cara deixa de gostar de mulher pra gostar de homem? Que péssima escolha", era o que ele pensava, além de pensar que era pecado também, e por aí vai. O garoto sofreu bullying a vida inteira, mas nem sequer pensava na possibilidade de entender o lado dessas pessoas, nem mesmo tentava parar pra refletir, e isso seguiu nos seus 11, 12, 13, 14, 15... Só parou aos 19, acredite, ele sempre foi muito burro. Tiveram muitos empecilhos no caminho, muita coisa pra foder mais ainda a mente dele, e ele estava tentando deixar de ser burro, então ocasionalmente ele deixaria de ser preconceituoso também. Não dá pra ser inteligente e preconceituoso ao mesmo tempo.
Aos 12 anos, entrou no ginásio, e achou super difícil ter vários professores espalhados pra cada matéria, mas seu caderno personalizado do God of War Ascension era maravilhoso, e supostamente te protegeria de todo descuido de estudo, porque era um caderno incrível, e o primeiro e único caderno personalizado de alguma coisa, que o garoto teve, além dos tradicionais companheiros de guerra: os cadernos de surfistas. Certamente esse garoto não sabia de nada, e ia continuar assim, porque estudar era difícil demais pra ele. Vários assuntos chatos e pouca didática, mesmo estando em um colégio particular que era relativamente caro. Ele brigou muito durante o início do ginásio, todo mundo inventava mentiras com o nome dele, caçoava do seu cabelo cacheado e meio crespo, viviam tirando sarro do seu peso... Consegue imaginar toda essa situação? Pois é, esse garoto sou eu. Juntando de novo toda a ideia do narrador com o autor e etc. Nesse ponto da história, neste capítulo, você já entendeu isso, acredito eu, então leve esse garoto a um pensamento mais profundo seu, e se coloque na posição dele, que quando foi removido do colégio particular e daquele ginásio tão difícil e terrível, acreditou que a melhor forma de lidar com as injustiças da vida, era cometendo elas.
Eu fui gordofóbico, LGBTfóbico, sexista, machista, e um grande, mas um imenso e absoluto mentiroso. Óbvio que não me orgulho de nada do que fui, e olho pra trás com vontade de esganar o meu eu do passado, mas ele existiu com o bom propósito de me transformar em alguém melhor. Perdi as pessoas a minha volta cada vez mais, me tornei um cara solitário, desisti da escola em 2015 pra viver uma fantasia evangélica numa igreja quadrangular, principalmente porque eu estava perdendo de ano inevitavelmente na escola, já que a professora de matemática tinha acabado de chegar no final do ano, e passado umas avaliações que valiam pelo ano inteiro; só me restou ir fazer algo de útil espiritualmente, acreditava eu. Bati a laje da igreja junto com a galera, e teve uma feijoada massa demais pra gente comer depois disso, fui pra diversas igrejas diferentes com todo mundo, a gente se divertia bastante, e teve até um acampamento, mas isso não foi tão bom quanto parece. Eu namorei uma mulher de 19 anos, quando ainda tinha 14, e foi uma merda. As idades não batiam, as coisas não estavam fluindo, terminamos em apenas duas semanas, e tudo que fica na minha cabeça é que sofri pedofilia e abuso psicológico. Ela exigia um cara mais adulto e mais centrado, um cara que precisava não jogar videogame, não assistir animes, ou fazer qualquer outra merda que adolescente ama fazer pra caralho, e eu era isso tudo que ela não queria que eu fosse. Isso me ferrou demais.
Conheci uma garota super legal pelo WhatsApp, em um grupo que me colocaram no final de 2015, e a pessoa tinha uma conexão tão forte comigo, de um jeito que eu nunca tinha encontrado na vida, mas infelizmente não deu certo, porque eu estava traumatizado. Eu não queria outro relacionamento que me proibísse de viver como eu gostaria, e eu me sinto absurdamente aliviado por ter escapado dele em apenas duas semanas, mas não foi o suficiente pra me sentir seguro pra namorar com uma pessoa novamente. É estranho dizer que eu nunca vi a Julia pessoalmente, mas é, eu nunca vi. Só nos falamos pelo WhatsApp, e eu nunca tive coragem de ir vê-la, e olha que eu enrolei bastante pra tentar tomar coragem de fazer isso, mas infelizmente não consegui, porque esse trauma não me deixava. Um dia ela me mandou uma mensagem pelo Facebook, dizendo que me viu na rua, em uma lanchonete, de costas, e não conseguiu me chamar, por puro respeito a mim, por saber que eu não conseguiria me comportar normalmente perto dela. Ela disse que estava chorando por isso, e eu nunca vou me esquecer.
Eu saí da igreja depois disso, me mudei pra um local não tão distante de onde eu estava antes, mas muito perigoso pra ficar saindo sempre. Criei um canal no YouTube aos 15 anos pra falar sobre Dragon Ball, que era a coisa que eu mais gostava no mundo, se não, eu não teria escrito Onevelion, e depois eu expandi esse canal pra falar sobre mais animes, porque em 2016, tudo que eu tinha morando longe dos amigos, foi isso. O fato de ser um mentiroso nato antes de entrar na igreja, já tinha me feito perder muitos amigos, e nesse momento, até os novos que eu tinha conquistado, se foram... Sei que a minha vida não é tão merda quanto a vida da Anne Frank, pra que eu esteja escrevendo um capítulo autobiográfico na minha história antológica e maluca, mas eu ainda acho que valha a pena desabafar. Talvez existam pessoas na mesma situação que eu...
Em 2018 eu conversei com a Julia novamente, e ela já estava tão madura... Uma pessoa totalmente transformada, enquanto eu ainda estava vivendo um ambiente submerso na irrealidade e escapismo artístico, navegando em animes e análises no YouTube, me debruçando em servidores do Discord, e em tanta coisa que, por mais que eu não me orgulhe tanto, foram as que me salvaram de uma tristeza profunda e uma possível morte por isso. A Julia ainda me queria, mesmo que eu não tivesse nenhuma coragem de ir adiante, mesmo que eu fosse um idiota por ter feito ela chorar um dia; ela ainda me queria... E ela tentou... Ela tentou de novo, mas aí um problema maior começou a culminar na minha cabeça. Na época, ela trabalhava na Ford, e porra... Eu sempre fui um pobre fodido, sabe? Só moro com a minha vó, desde muito tempo, tenho que conviver com essa situação, tenho que cuidar dela mesmo sem conseguir arranjar um emprego, e é ela quem basicamente cuida de mim, mas lá estava a Julia, trabalhando na Ford. Que foda, que ótimo! Eu realmente estava feliz por ela, mas não podia estar mais triste por mim mesmo, porque eu nunca iria aceitar ter um relacionamento com uma pessoa que estivesse trabalhando, só sendo 1 ano mais velha do que eu... Não enquanto eu mesmo não estivesse trabalhando também. Isso era inaceitável pra mim, porque eu não poderia fazer nada pra gastar no relacionamento, e ela provavelmente gastaria comigo. Não quis me submeter a isso. Perdi ela mais uma vez, e dessa vez foi pra sempre.
Hoje eu não sinto mais nada pela Julia, e na verdade namoro com a Daniele, uma pessoa incrível que eu espero levar pra minha vida, e mesmo que isso possa não acontecer, já valeu a pena até aqui. Como eu amo ela, e como ela me faz feliz!!! Tudo é extremamente maravilhoso com ela do meu lado, não sinto como se tivesse sofrido bullying ou repressão durante minha vida inteira, e finalmente consegui me livrar daquele trauma que eu tive com a Vitória de 19 anos. Especificar nomes pode ser antiético, mas essa é a minha autobiografia, foda-se.
Eu fiquei tão ferrado por causa disso, que toda pessoa que eu conhecia, que tinha algum relacionamento com uma pessoa mais nova, eu estava achando normal, apesar de ficar tenso sempre que tocavam nesses assuntos. Me isolei por causa disso tudo e continuei acreditando na bíblia até 2020, quando a pandemia veio, tornando meus 19 anos em uma experiência pós-traumática e triste, que pouco a pouco foi se transformando em uma libertação mental. Eu saí de uma prisão de ideais religiosos, eu saí de uma prisão sentimental e traumática quanto a relacionamentos, e eu saí da LGBTfobia, graças a uma amiga incrível chamada Marie, que se descobriu abertamente para nós durante todo o processo pandêmico, e teve muita paciência comigo, que estava enfrentando essa barreira de deixar de acreditar em tudo que foi ensinado a mim há anos e anos, para seguir uma nova perspectiva de vida. Eu era um escroto, e definitivamente não merecia tantos esforços de tanta gente, mas eu recebi esses esforços... Eu sou grato.
Essa é a minha vida, picotada em muitos parágrafos, mas ainda há algo que eu quero contar pra vocês. Um dia, em um sábado, estava voltando pra casa, depois de levar a minha namorada no ponto de ônibus pra que ela fosse pra casa dela. No caminho de volta, eu resolvi pegar um trajeto que eu não costumo mais andar, desde que parei de ir pra uma escola por ali em 2018, porque sim, além de fodido financeiramente, eu só terminei os estudos em 2022. Aquele trajeto me trazem tantas lembranças... As coisas mudaram totalmente por ali. A quadra agora está reformada com um gramado sintético no chão, perfeito pra criançada da periferia brincar, e isso é maravilhoso. Em volta da quadra, tem uns desenhos grafitados, e a árvore tão curta que tinha ali, cresceu. Depois desse local, tem uma ladeira que desce e sobe de um lado pra o outro, como se fosse um bumerangue. Sempre achei isso bem doido, mas a rua é totalmente desse jeito. Ela estava vazia, mesmo sendo 18:30, e eu tive dificuldades pra subir a ladeira por conta do sedentarismo. A rua que sucede essa ladeira, estava, como sempre, repleta de bandeirolas de São João acima dela. É uma rua estreita, e as luzes dos postes batendo nas bandeirolas coloridas, refletindo suas cores em mim, foi extremamente aconchegante. Ao passar pra outra rua que tinha a minha frente, vi uma casa com árvores, muitas folhas em volta, a coisa mais linda, como um pedaço da natureza exigindo seu lugar de volta, de onde nunca devia ter saído pra dar lugar a sociedade. Eu sempre penso nessas coisas.
Eu estou vivo. Eu ainda posso presenciar coisas boas. Até um asfalto novo, super bem colocado, com uma faixa amarela ou branca em cor viva e ressaltada, sob a luz da lua e dos postes, em frente a um supermercado de uma grande franquia, me deixa contente. Me sinto vivo, me sinto humano. É estranho, mas este sou eu, e falando nessa experiência urbana, eu recomendo pra todos vocês o álbum Tokyo Sniper, da banda Ryusenkei, que tem uma capa simples, mas tão humana e tão linda, de uma moça com roupa atlética, no meio da noite deserta, em uma pista de corrida super bem asfaltada, e que me traz uma sensação inexplicavelmente, e realmente inexplicavelmente, surreal e incrível. Sei que pode soar extremamente aleatório que eu saia citando um álbum de 'city pop' do nada! Não é aleatório. Ouvir esse álbum, me remete a uma sensação que dá coragem de vir te contar, meu caro leitor, tudo que eu definitivamente não sairia contando para todo mundo tão facilmente. Eu não vejo como removê-lo destas citações.
Existe um vídeo no YouTube, do canal "Xearching For Sounds", que é basicamente esse álbum colocado lá, inteirinho, por alguém. Os comentários desse negócio são muito melancólicos e nostálgicos pra mim, principalmente por conta da melodia das músicas, sendo que eu nunca ouvi esse álbum quando era mais novo, e também nunca visitei o local da fotografia da capa do álbum. O mais estranho disso tudo, é que essa melancolia e nostalgia pra mim, é aconchegante. É como se eu estivesse vivendo, novamente, os únicos momentos de paz e felicidade que eu tive na minha vida, que foi a minha infância, apesar de tão sofrível. Estranho, porque, na verdade, não foram os únicos, mas eu sinto como se tivessem sido. É uma espécie de falsa memória, falsa sensação... Meus melhores momentos foram de 2013 para 2019, com certeza. Minha adolescência foi ótima e divertida, desleixada, largada, apesar dos pesares também. 2010, 2014 e 2018 foram anos maravilhosos na minha vida, e seguindo essa linha, 2022 também, e eu geralmente só percebo depois que o tempo passa. 2022 eu terminei a escola, consegui um videogame que eu sempre quis desde criança, e comecei a namorar com a melhor pessoa que eu poderia encontrar na minha vida. Estou esperando o que 2026 tem reservado pra mim, e já estou tornando este capítulo datado!
Talvez eu tenha dito só um monte de baboseiras aleatórias, não tem como explicar o que tá aqui dentro de mim pra ninguém... Mas eu ainda tento. Queria deixar de pensar tanto, de ser tão filosófico, de ser tão metafórico, de ser tão entregue aos sentimentos, de ser tão submerso nisso... Mas não consigo. Sempre fui assim, desde quando me encantava profundamente e eternamente, porque até hoje me lembro e me encanto, com alguns cenários de desenhos ou jogos, com o estilo de arte de cada um deles individualmente. Como eu queria ter sido um ser humano de berço de ouro, como eu queria ter a oportunidade imensa de me esforçar publicamente pra dizer o que sinto sobre as coisas que consumo e que vivo, para todos. Eu nunca terei um público imenso pra expressar quem eu sou e o que eu consumo, e isso me aflige MUITO, apesar de eu estar sendo negligente com o que alcancei. Peço perdão a todos os meus inscritos e amigos por isso. Eu só queria ser eu mesmo pra que todo mundo pudesse ver minhas idéias, mas talvez, se rico eu fosse, só seria um imbecil, preconceituoso, com ideais religiosos torpes, e amargurado com coisas pequenas. Era para isso que eu estava caminhando... Ser pobre tem suas vantagens.
A terceira faixa do Tokyo Sniper é uma das coisas mais aconchegantes que já ouvi na minha vida, e é uma pena que eu nunca vou conseguir expressar isso pra ninguém, da forma que eu sinto. Não importa quantas palavras diferenciadas eu utilize pra tentar explicar os sentimentos que explodem um a um, a cada nota que é tocada nessa música. É uma espécie de samba, bossa nova, jazz fusion, rítmicamente dançante, vibrante, mas ao mesmo tempo que grita tanto pra mim: "ei, somos os anos 2000 tentando, em nostalgia, reproduzir tudo que já fez sucesso um dia, e você faz parte daqui, mas voce não pode voltar mais, ninguém pode... Siga seu caminho". Um abraço de mãe e um beijo de despedida, que eu sempre volto pra experienciar, como um bom filho pródigo. A quinta faixa do álbum é uma experiência tão absurda com aquele início meio triste, parecendo trilha sonora de Os Cavaleiros do Zodíaco, e depois os acordes do baixo muito tensos, dando toda a melodia de contraste necessária pra voz calma e sublime da cantora, transformando o ambiente em algo agridoce, entre melancolia e grandeza musical... Quando vai se aproximando do refrão, a música fica estranhamente épica e, dá uma sensação de superação de obstáculos e/ou problemas, ao mesmo tempo que tudo volta a estaca zero quando a segunda parte da música começa a tocar, porque é basicamente a mesma linha de baixo e voz sublime do início.
Eu falo demais, mas mesmo assim não vou conseguir explicar minha experiência com isso, e o melhor de tudo é que esses últimos 3 parágrafos, é basicamente todas as mensagens que eu digitei e enviei pra minha namorada enquanto reescutava Tokyo Sniper. Coitada, tão ocupada e precisando focar na faculdade e nos estudos, e eu enchendo a cabeça dela com essas coisas. Suas respostas foram:
— Porque tá falando de 2026 já? — e eu acho que deve ser porque eu não consigo parar de pensar no futuro, ao invés de só viver o presente.
— Pode falar tudo, meu bolinho. — esse apelido é muito fofo, e é extremamente fofo também, que ela não se incomode de ler tanta coisa assim, enquanto precisa estar estudando. Eu amo ela.
— Eu adoro isso. — foi o que ela disse, quando eu me referi a estar tão submerso filosoficamente e metaforicamente nos meus pensamentos, e sinceramente, acho que isso é uma benção e maldição ao mesmo tempo.
— Acho lindo isso. — quando eu disse que eu aprecio cenários e estética desde pequeno.
— Mas você tem um público. Você pode comunicar pra quem te assiste. Ter menos pessoas te ouvindo não te faz menos comunicador. — minha namorada sabe muito, e é muito mais grata ao meu público do que eu... O homem realmente nunca sabe se comportar corretamente em seu devido lugar e agradecer pelo que tem.
— Entendo essa dor de não saber se expressar, mas tenho esperança de um dia conseguir. - hahaaaaa, ela também não consegue. É engraçado e até mesmo soa como um abraço, por saber que eu não estou sozinho nessa, mas ao mesmo tempo quero tirar a gente dessa. Espero que eu consiga, pra me tornar um namorado realmente bom, mesmo que ela já acredite que eu seja tão bom.
Ela falou poucas coisas, mas foram palavras vindas de dentro, de uma pessoa cansada de seu cotidiano, cansada de sua vida familiar fadada a estresse e nenhum entendimento, cansada de ter que se forçar a estudar pra ser alguém na vida... Minha namorada se esforça muito por nós dois, e tira forças de onde não tem. Eu amo muito ela. Todos os seus esforços pelo nosso relacionamento, pelos nossos passeios, principalmente pela nossa ida ao Bon Odori, um evento de cultura japonesa bastante interessante, que apesar de também ser interessante pra ela, claramente é algo que me encanta mais do que encantaria a ela, e mesmo assim ela se preocupou com tudo. As cartas que ela me escreveu, uma no meu aniversário e outra no dia dos namorados, mostrando que sim, ela se importa, e tudo que vem de dentro dela, se faz presente para mim. Ela é atenciosa, graciosa, e preocupada demais comigo, o que até assusta, pois não quero que ela crie ansiedade por minha causa, mas preocupação com o parceiro de relacionamento acaba sendo algo inevitável, né?
Sempre queremos estar juntos, sempre queremos viver essa experiência de estar abraçado, deitado, juntos, conectados como só duas pessoas que se amam imensamente e querem compartilhar seus segredos uma com a outra. Sabemos coisas um do outro que ninguém imagina, temos nossa vida a dois mais secreta e guardada a sete chaves do que as pessoas possam imaginar, temos nossa preservação amorosa em imensidão, e é tudo tão maravilhoso, divertido, aconchegante e arrebatador. Estar nos braços dela é como estar finalmente sob as asas de um anjo que a bíblia tanto me prometeu existir... Aquele anjo que, verdadeiramente, estaria ali para cuidar de mim. Me sinto inclinado a fazer tudo por ela, a viver tudo por esse amor, e acho que vale totalmente a pena. A simplicidade dela, em suas palavras e em tudo que faz, é muito melhor do que qualquer complexidade vazia de sentimentos que a maioria das pessoas estão dispostas a exercer em qualquer relacionamento atualmente, e é muito bom estar com alguém tão simples e cheia de sonhos.
Eu ainda estava reescutando o álbum e pensando nisso tudo, até que escutei a oitava e penúltima faixa do álbum enquanto escrevia o oitavo parágrafo e comecei a me emocionar. Uau, dois oitavos, só agora que percebi isso. Coincidência que transforma o momento em um ciclo infinito, falando simbolicamente e filosoficamente... Bizarro. Eu não chorei demais, mas é uma merda pensar todos os dias que uma pessoa sofreu por sua causa, mesmo que você não tenha culpa dessa situação toda. Isso continua martelando na minha cabeça, mesmo depois de tanto tempo, além do fato de uma amiga minha de infância que faleceu em 2017, uma semana depois de dizer que queria me ver, e eu recusei porque ela não estava seguindo meus conselhos de parar de ir na casa da ex-sogra. Eu me sinto um merda por isso. Não dei adeus a ela e poderia ter impedido essa fatalidade, se tivesse visto-a. Ela foi levar a filhinha pra ex-sogra ver, e sim, ela já era mãe mesmo com 16 anos. A namorada do ex dela, colocou veneno no chá dela, e ela ficou hospitalizada por um tempo, mas não resistiu. Eu nem pude ir ao velório, porque tinha uma prova no dia. Realmente, eu só fiz escolhas erradas, e talvez nisso a bíblia tenha razão: o homem se queixa de suas escolhas. Meses depois desse ocorrido, entro no Facebook às duas da manhã e descubro que outra amiga minha havia falecido, de câncer no pulso, e eu nem sabia que isso tinha acontecido... O pior é que já tinha acontecido há dois meses! Ninguém me contou, ninguém entrou em contato. Sinto remorsos por tudo isso, até hoje, e provavelmente vou conviver com isso pra o resto da vida.
Onevelion também fica como uma vontade incessante de voltar atrás e mudar as coisas, mas principalmente, como um lembrete de que o que foi feito, já foi feito. Não há como voltar, não adianta tentar mudar, não adianta tentar corrigir, não adianta nada disso. Do mesmo jeito que aquele legado da minha história totalmente mal escrita sobre Dragon Ball, está aí pra todos verem, e pra que eu aprenda com os meus próprios erros de escrita, Onevelion também grita pra mim que essa é a solução da minha vida: seguir em frente. Obrigado Julia, obrigado Emily, obrigado Rayane, obrigado Marie, e principalmente, obrigado Daniele, por estar comigo sempre; as mulheres definitivamente fazem toda a diferença na vida de um homem, e sempre marcam ele. Tokyo Sniper é realmente um dos maiores álbuns que já ouvi na minha vida, uma das coisas mais importantes pra mim. Não tinha como falar da minha vida sem falar desse álbum, não tinha como jogar esse monte de informações para você, caro leitor, sem te deixar mais confuso ainda pelo fato estranho de ter um álbum de música sendo referenciado durante todas essas coisas, mas é porque, de alguma forma, sinto como se fosse parte da trilha sonora da minha vida, que me ajuda a pensar de forma mais complexa e profunda em tudo que vivi, e está aí, toda essa condensação maluca das coisas mais importantes e memoráveis da minha vida, que não deixam meus pensamentos em paz. Obrigado às mulheres que passaram pela minha vida e sofreram o que não mereciam. Eu dedico esse capítulo-auto-biográfico-análise-de-álbum-desabafo a todos que passaram pela minha vida. Eu dedico a mim, a minha história e a qualquer um que tenha sofrido coisas parecidas, ou iguais, quem sabe... Lembre-se: sempre é possível recomeçar.
Fale com o autor