Não sou boa no inglês. Mas me formei com louvor no cursinho do meu bairro, o que me leva a crer que o essencial eu devo saber, não é? O básico vai ter que servir nos dias em que eu estiver em Nova Iorque. Não ligo de passar mico, falando errado, mas eu realmente preferia não errar.

Sabe como é, né? Eu passei dois anos naquele cursinho, não foram seis meses nem um ano, não, foram DOIS anos e mais de 2500 pilas que saíram do bolso dos meus pais mãos de vaca. Não é possível que tenham me ensinado errado ou que eu esqueça tudo de uma hora para outra.

Enfim…

— Bec, você vai comprar presentes para mim? — pergunta minha irmã Lorena, empoleirada sobre minha cama. A convenci que era uma boa ideia me ajudar a fazer minhas malas, mas a pirralha prefere ficar pulando na minha cama. Depois ela quebra e vai achar ruim quando eu for dormir com ela… digo é nada.

Estou andando de um lado para outro, pela casa inteira, vendo se não estou esquecendo de nada. A probabilidade de que eu esqueça minhas calcinhas é enorme, por isso verifico de novo a mala — na verdade, são as malas, mas ninguém precisa saber disso.

Mulher prevenida vale por duas. Eu sempre acho que estou esquecendo algo. E geralmente estou certa. Merda! O que será que vou esquecer dessa vez?

— Lola, não tenho grana pra presente — eu digo. — Vou ficar na casa da tia Angelina e meu pagamento vai ser com as tarefas de casa. Se eu tiver que trazer presentes, vai ser uma bala de hortelã pra cada um.

— Ah, Bec, bala de hortelã eu posso comprar na venda do seu Antônio.

— Ótimo, assim não preciso comprar.

Ela pula da cama e sai pisando duro. Essa pirralha. Só porque eu vou de férias para Nova Iorque não quer dizer que eu tenha dinheiro. Foi tia Angelina quem me convidou e eu nem queria aceitar por conta da nossa falência, mas ela insistiu e insistiu, disse que me dá dinheiro para o que eu precisar.

Só que é realmente uma droga você sair de férias e não ter um tostão furado. Se ela tivesse me avisado com antecedência, tipo, no começo do ano, eu teria juntado a minha mesada, catado moedas pela casa que nem a Lola, assaltado a carteira da minha mãe, pedido umas notas ao meu pai ou pedido trabalho ao seu Antônio. Aí eu teria alguma coisa na carteira. Mas ela me convenceu, fui olhar o que eu tinha guardado: 103 reais e 95 centavos.

Não dá pra sobreviver um mês com isso, não.

Ela tem um restaurante bem famoso de onde tira o seu sustento, mas eu não quero abusar. Eu me sinto péssima com essa situação. A sorte — e o milagre, pois estamos falando do seu Alceu Mão-fechada — é que papai me deu uma graninha, contada, mas deu, eu consegui um desconto nas passagens e vou me controlar para não torrar o restante assim que entrar numa loja. Vou até evitar as lojas.

Pobre é osso, viu?! Nunca tem nada e vive querendo comprar o mundo.

— Rebeca! — minha mãe grita da sala. Particularmente, esse é jeito dela de falar com as pessoas. Não importa se você está a quinze metros ou quinze centímetros, ela vai meter o grito na sua cara. Fica esperto se um dia você cruzar com a dona Rosana pela rua: ela é uma senhora de 37 anos, cabelo louro escuro bagunçado igual palha de vassoura velha, cheinha, com dobrinhas graciosas escapando pelo cós da calça, um metro e meio e cara de quem não dorme a uns duzentos anos. — Você já arrumou tudo? É melhor que esteja pronta ou vai acabar perdendo o voo!

O meu voo está marcado para daqui doze horas — eu viajo às vinte e duas horas deste domingo — e ela sabe disso porque foi ela quem comprou as passagens. Ou minha mãe é uma mãe muito boa ou está querendo se livrar de mim. Não tenho certeza se quero descobrir qual é a opção certa. O mais provavel é que ela esqueceu o horário, como ela é professora de faculdade, a cabeça anda cheia, seria de se esperar.

— Já terminei, mãe! — grito de volta. Ou eu acho que terminei. Eu ainda tenho tempo pra conferir e reconferir tudo umas quinze vezes, mas eu sei que quando eu chegar na casa da minha tia, eu vou dar por falta de algo. Eu não tenho dinheiro sobrando sequer pra comprar balas, então é bom que eu não esqueça de artigos importantes.

Fiz uma listinha para não esquecer o que botar e quais peças de roupa levar. Tive que pedir ajuda a Marina e Giulia, minhas melhores amigas e, claro, joguei a questão no Google: que roupa levar para férias em Nova Iorque. Uma furada total!

Com base no clima — julho é o auge do verão por lá —, eu fiz minha própria listinha;

Cinco semanas (trinta e dois dias)

Quatro calças jeans, cinco leggins e quatro meias-calças;

Seis shorts de tecidos e modelos diferentes;

Trinta calcinhas, e dez sutiãs;

Cinco camisetas, cinco blusinhas de caimento moderno e cinco croppeds ;

Oito vestidos de modelos diferentes;

Quatro blusas de mangas compridas;

Três pares de tênis, cinco meias, três sapatilhas e duas botas;

Três moletons;

Dois conjuntinhos de dormir;

Minha câmera fotográfica — amor da minha vida!;

Celular, carregador, fones de ouvido;

Passaporte, visto e todos os documentos precisos e necessários.

No mais, é só lavar as que eu sujar, né? É pra isso que existe, água, sabão e máquina de lavar.

Confere. Confere e confere.

Olho para minhas malas satisfeita e depois para a lista novamente. Todos os itens estão riscados, o que quer dizer que tudo está organizado e que, pela fé de Deus, eu não estou esquecendo minhas calcinhas. Me jogo em minha cama de braços abertos. Essas serão as melhores férias da minha vida!

Estados Unidos da América, aqui vou eu…

Quer dizer, ainda não.

Lola volta ao meu quarto e me entrega o porquinho dela, onde ela junta cada centavinho que encontra pela casa. Seu rostinho está contorcido e eu já prevejo lágrimas.

— Por que está me dando? — pergunto, me sentindo horrível de repente.

— Eu não sei quanto tem dentro — diz, olhando para porquinho rosa que tem a cara torta. Mais parece uma mistura de cavalo com porco. — Você leva e vê o que pode comprar pra trazer pra mim.

Oh, meu Deus, eu vou chorar! É muita fofura para uma criança só.

— Não precisa, Lola — digo, devolvendo o cofrinho. Eu não sou esse tipo de irmã mais velha, eu jamais pegaria as economias da minha irmã de quatro anos, mesmo que fosse pra comprar algo pra ela. — O papai me deu dinheiro. É suficiente para comprar um presentinho pra você. O que vai querer?

— Um ursão bem grandão! — ela abre os braços para enfatizar. O que mais seria? O quarto dela está repleto de bichinhos de pelúcia, o que me mata, porque eu sou alérgica e basta encontrar a porta do quarto aberto pra me dá uma espirradeira de horas.

Me abaixo para lhe dar um abração apertadão.

— Então, eu vou trazer um ursão bem grandão!

***

Eu devo estar muito sexy com essa calça amarela — bem Restart mesmo — com uma mancha horrível de achocolatado centralizado bem no meio da bunda, exatamente no meio, na risquinha, onde se divide as bandinhas. Parece que eu fiz cocô nas calças.

Mas é tudo culpa da Lorena que derramou seu achocolatado na cadeira da cozinha, eu não vi a desgraceira, sentei em cima, e saí correndo quando Marina me ligou, avisando que estava me esperando na portaria do meu prédio.

Nem ela ou Giulia notaram a meleca antes pra que eu pudesse me trocar, e agora eu tenho que sobreviver a esses olhares. Eu sei que metade deles não é por causa da mancha — bom, talvez noventa por cento seja por causa da mancha —, é porque eu não sou mais a única virgem da escola. Hahahaha!

Não é engraçado que os seus colegas de escola frequentem a mesma lanchonete ao mesmo tempo e saibam de algo que, aparentemente, devia ser íntimo seu?

Aparentemente.

Meu príncipe, mais conhecido como Hugo Marins, o belo par de olhos verdes, cabelos ruivos, macios como seda, fez questão de contar a todos o que fizemos — e o que não fizemos, porque, segundo o bonito “você não é tão safada quanto eu pensei” para certas coisas. O que deu a ele o direito de inventar — a uns dois sábados atrás.

Minha vida íntima se tornou pública. A história caiu nos ouvidos de todos, TODOS, os professores da escola, me intimaram a ir a diretoria, me forçaram a conversar com a diretora que também é psicóloga, acreditando que eu estava planejando meu suicídio. Chamaram minha mãe depois de eu rastejar no chão implorando pra que não lhe dessem esse desgosto, porque eu não estava dando a mínima para aquela porcalhada toda.

Ninguém me ouviu. Minha mãe foi chamada, meu pai veio em seu encalço. Minha mãe ficou decepcionada, “por que você não me contou que pretendia entrar pra essa vida, Rebeca? Eu teria te aconselhado melhor. Olha o que fizeram como você”. Na mente dela, eu tinha acabado de entrar pra uma seita satânica. Eu só transei com um cara idiota. E nem foi bom, foi apressado. Eu não senti nada além de desconforto. NADA. Decepcionada. Eu disse isso a ele na frente da escola toda, ele não gostou muito.

Ouvi dizer que melhora com o tempo. E com a prática. Acho que o Hugo precisa praticar mais.

Ah, e só pra esclarecer: ele me largou no dia seguinte. Me trocou pela minha prima, a garota que me ajudou a ficar com ele. A que dizia “meu casal” quando nos via chegar juntos na escola.

Quer um conselho? Não confie em quem diz “meu casal” com toda uma intimidade que claramente não existe. É sério. Eu nem era amiga da Danila, a minha prima. O Hugo só acreditou que fosse uma boa ideia pedir a ela pra vir falar comigo. Na minha cabeça, os dois já estavam de enrosco antes de eu entrar de gaiata nessa história.

É por esse belíssimo motivo que eu não estou preocupada com repercussão em cima disso. O Hugo não me forçou a nada, eu não tinha o sonho de que a minha primeira transa fosse a coisa mais perfeita do mundo, eu só queria experimentar. Aconteceu. Descobri que o Hugo é um cachorro e não tão certinho como eu achei que ele fosse.

Se querem saber, ele é quem devia se preocupar com as voltas que o mundo dá, porque a minha consciência está tranquilíssima.

— Olha só quem está aqui — diz Marina, com voz enojada, assim que entramos na lanchonete e sentamos em nossa mesa.

Tenho que levantar a cabeça para ver de quem ela está falando. Imaginei que fosse um dos seus ex’s pra ela usar o seu pior tom, mas Marina só está falando do novo casalzinho do momento: Hugo e Danila, sentados na outra extremidade do lugar, junto da rodinha que os cercam em todos os lugares.

— Que filhos da puta! — resmunga Giulia. Esse é o mais novo xingamento preferido dela. Giulia vai usar ele pelo resto do ano. Muda a cada semestre. Até mês passado era “energúmenos”. Até os professores ela xingava assim. É muito engraçado. Quero só ver quando as aulas retornarem e ela chamar eles de filhos da puta — porque ela vai chamar — e ir parar na diretoria.

— Eu vou querer uma porção grande de fritas e milkshake de chocolate — eu falo, olhando para o menu, que eu já tenho decorado e que é muito mais interessante do que o que está a minha volta. — E é melhor uma de vocês se oferecer pra pagar porque o dinheiro que eu tenho, eu vou levar pra Nova Iorque.

— Então é verdade? — pergunta a voz de satanás. Mais uma vez sou obrigada a levantar a cabeça, não para descobrir quem é a dona, mas porque eu não acredito na petulância da garota. Danila da Silva. — Você vai pra New York?— ela enrola a língua pra ficar com sotaque. — A tia Rosana me contou, mas eu não acreditei. De onde você tiraria dinheiro? Onde você vai ficar?

Dona Rosana já foi fazer fofoca, credo. A mulher não se controla.

— A tia Angelina, conhece? Ela mora lá?

Nas férias do final do ano passado, a mãe da Danila — que é irmã do papai e da tia Angelina —, uma sujeita desequilibrada que adora competir com a minha mãe em qualquer coisa, pediu a tia Angelina pra que convidasse a filha pra passar uns dias com ela. Nossa tia, por outro lado, disse que não poderia porque ia viajar com o marido. Danila deu escândalo por quase um mês. “Eu quero ir pra New York! Que infernooo!” Bem birrenta.

— Ela não vai te aguentar uma semana — dispara. A inveja aqui atinge graus alarmantes. — Aposto que vai te botar em um avião no mesmo dia.

— Ela não vai precisar fazer isso, eu tenho duas pernas que servem pra caminhar. Mas foi ela quem me convidou — dou de ombros —, eu não contaria com isso. Qualquer coisa eu te aviso se a sua macumba der certo.

Ela ri, toda dissimulada.

— Não preciso fazer macumba pra ferrar com a sua vida, Rebeca. Você já é ferrada por si só.

— Claro que não. Você só acha que “roubar” o Hugo de mim é uma grande tacada, mas eu vou te contar um segredo: você me fez um grande favor. Agora sai do meu pé, chulé.

Danila se inclina sobre a nossa mesa e apoia as mãos nela pra ficar de frente comigo.

— Ele diz que eu faço melhor.

Eu fico besta com isso. Gente, é sério?

— Ele disse que me amava — respondo. — Você não passa de mais uma otária, Danila. Cai fora dessa enquanto é tempo.

— E eu é que sou a otária? Você caiu na lábia de um cara que disse te amar menos de duas semanas após o primeiro beijo…?

Penso que responder a isso seja uma perda de tempo, o que faz o meu próximo ato ser ainda pior: eu acerto a minha mão espalmada bem no meio da cara da Danila, que, por sua vez, pula para trás horrorizada. Oh, meu Deus! Eu não fiz isso!

A minha queimando diz que eu fiz sim. Será que foi tão forte assim?

A rodinha dela agora está nos rodeando. Giulia leva a mão a boca e Marina ri. E o restante da turma apenas me olha como se eu tivesse acabado de dar um tiro em alguém.

Adeus ao que restou da minha vida social.

***

Gostaria de saber quem convidou o meu pai para esta conversa familiar. Porque, pelo que eu sei, ele deixou de pertencer a ela depois que trocou a minha mãe, uma mulher trabalhadora, independente, um mulherão da porra, por um projetinho de gente que nem se formou na faculdade ainda.

— Rebeca, você bateu na sua prima? — esbraveja ele.

Estamos eu, ele e minha mãe sentados na sala da nossa casa para debater o que aconteceu. Mamãe levou Lorena pra brincar no parquinho lá embaixo e pediu pra vizinha cuidar dela, pra que ela não escutasse a conversa. Eu preferia estar brincando no parquinho também.

— Alceu, você pode baixar o tom da sua voz, por favor? — sentencia minha mãe. Não é uma pergunta, é uma ameaça. Eu adoro a minha mãe, é sério. O mundo não a merece. — Eu não chamei você aqui pra brigar coma a sua filha, mas pra conversar.

Claro que é culpa dela este homem estar agora na nossa sala de estar — que não é mais dele há dois anos —, me encarando como se eu acabasse ter sido presa por roubar maquiagens no shopping. Nem vou comentar o quão desnecessária é a sua presença nem o fato de a minha mãe ter chamado ele.

— Mãe, você disse que era uma conversa familiar — eu resmungo. — O que esse senhor está fazendo aqui?

— Rebeca, não fale assim do seu pai…

Penso em falar “que pai?”, mas a coisa já está mais que feia para o meu lado, então me limito a grunhir de raiva. Não tem o menor cabimento ela ter chamado ele, eu não matei ninguém — mas queria muito. Não roubei nenhum banco.

— Vai responder por que bateu na sua prima? — questiona ele. O meu pai está mais gordo de que quando o vi na semana passada, já faz um tempo que eu noto que ele vem está usando roupas mais largas, mas só agora percebi que o negócio é bem mais sério. Ele está quase obeso; gordinho ele sempre foi, há fotos da sua infância, adolescência e ele já tinha esses quilinhos. Só que piorou bastante depois do divórcio, parece que o único esforço que ele tem feito é o de sair do sofá para pegar cerveja na geladeira. — Ou eu vou ter ligar pra sua tia dizendo que você não vai mais nessa viagem?

Aí, pegou pesado. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas, claro que o seu Alceu não joga limpo. Ele adoraria pedir que eu devolvesse o dinheiro que ele me deu, mas, mesmo que essa viagem seja cancelada, ele não o terá de volta, nunca mais, nem um centavo.

— Bati porque ela mereceu — eu digo. — E não me arrependo. Se não tivessem tirado ela da minha frente, teria batido mais.

Os amiguinhos da Danila a arrastaram para longe, e o Huguinho veio me perguntar se eu estava louca. Eu respondi que devo ter ficado, pra aceitar transar com ele… acho que se não fosse a Giulia a Marina do meu lado, ele teria me batido. Aí sim, eu teria cometido um crime. Posso apanhar de um homem, mas ele levaria o dobro. Se não de mim, de um mafioso qualquer que aceitasse menos de cem reais pra dar umas pancadas nele.

— Está vendo a sua filha, Rosana? — O meu pai aponta para mim, olhando fixamente para mamãe, sentada em outro sofá. — É essa a menina que vai passar um mês em outro país? Eu vou cancelar essa viagem.

Ele já está pegando o seu celular quando a mamãe diz:

— Vai coisa nenhuma, Alceu. Converse com ela como gente grande. Sabe o que significa a palavra diálogo? A Rebeca vai nessa viagem, eu já comprei as passagens e não tem reembolso. A menos que você queira me pagar o dinheiro que eu gastei.

Está vendo? É a minha mãezona. E ela conhece muito bem todos os pontos fracos desse macho que de alfa só tem o A e o L no começo do nome. Se ele soubesse o quanto as passagens custaram, provavelmente teria um infarte. Eu quase tive um infarte. Não pensei que pudesse ser tão caro.

— Eu bati naquela mequetrefe porque ela estava me insultando por conta do que o Hugo me fez. Eu não tenho sangue de barata. E se mais alguém vier com esse papinho sem noção, vai apanhar também.

— Não é na porrada que se resolve os problemas, Rebeca — critica ele. Falou o cara que vive querendo bater nos amigos só por perder no jogo de sinuca do bar.

— Você, por acaso, já tentou manter uma conversa civilizada com a Danila? — eu pergunto. Desconfio de que nem meu pai saiba o que é uma conversa civilizada, tudo com ele é na base do grito, parece a mamãe. Deve ter sido os anos de convivência, ou foi isso que os uniu. Vai saber. — É uma naja destilando veneno pra todos os lados. Eu não a suporto.

— Só me prometa que vai se comportar nessa viagem.

— Tá ok, eu prometo. — eu digo, enfezada. Não quero perder minhas férias, Deus me livre! — Não é como se eu saísse por aí batendo nas pessoas sem precisão, pai. A Danila que me provocou.

— Está bem. Que horas que você viaja?

Ah não, ah não.

— Dez da noite. Por quê?

— Eu vou te levar até o aeroporto — responde. — Passo aqui às sete. O trânsito no domingo costuma ser uma coisa horrível, e como a sua viagem é internacional vai precisar ainda de mais tempo.

Pior não pode ficar. Ele vai me escoltar até o aeroporto.

Quando ele sai, mamãe diz:

— Viu? Uma conversa educada. — E vai para a cozinha, terminar de lavar a louça do almoço.

Passo o resto da tarde trancada no quarto organizando minha playlist de músicas desconhecidas que eu baixei para poder escutar quando estiver no avião. Escolho artistas que ninguém nunca ouviu falar pra não ficar repetitivo, monto uma lista bonitinha.

Pego livros de romances nacionais que minha mãe costuma comprar nas bancas para mim e revistas de fofoca da Marina, atualizadas.

Eu vou passar mais de doze horas em um avião com gente que eu nem conheço, ainda por cima fazendo paradas pelo caminho, o que só piora, eu preciso levar algo que vá fazer passar o tempo. Baixo umas séries, filmes, jogos no celular. Alguma coisa vai ter que servir pra acelerar a viagem.

Enfim chega o tão aguardado momento e eu preciso fazer com que minha irmã pare de chorar e me largue para que e possar embarcar.

— Lola, você vai me fazer perder o avião — eu digo, tentando desprender os braços da criatura que se agarrou ao meu pescoço e não solta nem por um decreto. Ela soluça no meu ouvido e tenho certeza de que está me babando toda.

— Eu vou ficar sozinha. — Ela me aperta mais. Vou morrer sem folego, pronto. — Não vai, Bec.

Minha mãe agarra ela pela cintura e puxa.

— Lola, vem. Pare de fazer drama, a sua irmã não vai embora pra sempre. Ela voltar no final do mês.

Com muito custo, a pirralha vai com ela.

Giulia e Marina não param de rir.

— Eu quero que você me traga ótimos presentes — diz Marina ao me abraçar.

— Um óculos de sol da melhor marcar está ótimo pra mim — Giulia fala, se juntando ao abraço. — Não acredito que você vai pra Nova Iorque! Isso é tão chique!

— Não é você que vai pra Petrópolis com seus pais? — digo eu. — É só uma cidade como outra qualquer.

— Viu? — Marina aponta o dedo na minha cara. — Nem foi ainda e já está toda besta.

Reviro os olhos.

— E vê se tira muitas fotos — pede Giulia. Ah, sim, fotos é que não vai faltar nessa viagem. Afinal, eu também preciso atualizar meu blog que já está quase mofando de tão abandonado que está. E de que maneira eu poderia revivê-lo senão com cliques perfeitos de uma cidade americana?!

— Rebeca, olha o horário. — Meu pai indica o seu relógio. Meu voo sai daqui duas horas e dez, é mais do que suficiente. Mas ele estava certíssimo; o trânsito não colaborou, saímos de casa sete horas em ponto e levamos cinquenta minutos pra conseguir chegar ao Aeroporto Internacional Pinto Martins.

Dou um último abraço em todo mundo, sem lágrimas — só as da Lorena, ela é muito dramática —, porque eu não vou para outro mundo, estou saindo de férias e não poderia estar mais feliz. Eu me dirijo a fila para fazer o check-in que é enorme, apesar de ser domingo de noite, mas não me importo. Porque…

Ai, meu Deus. Eu estou indo pra Nova Iorque!

Sai do meu pé, chulé!

Não sou boa no inglês. Mas me formei com louvor no cursinho do meu bairro, o que me leva a crer que o essencial eu devo saber, não é? O básico vai ter que servir nos dias em que eu estiver em Nova Iorque. Não ligo de passar mico, falando errado, mas eu realmente preferia não errar.

Sabe como é, né? Eu passei dois anos naquele cursinho, não foram seis meses nem um ano, não, foram DOIS anos e mais de 2500 pilas que saíram do bolso dos meus pais mãos de vaca. Não é possível que tenham me ensinado errado ou que eu esqueça tudo de uma hora para outra.

Enfim…

— Bec, você vai comprar presentes para mim? — pergunta minha irmã Lorena, empoleirada sobre minha cama. A convenci que era uma boa ideia me ajudar a fazer minhas malas, mas a pirralha prefere ficar pulando na minha cama. Depois ela quebra e vai achar ruim quando eu for dormir com ela… digo é nada.

Estou andando de um lado para outro, pela casa inteira, vendo se não estou esquecendo de nada. A probabilidade de que eu esqueça minhas calcinhas é enorme, por isso verifico de novo a mala — na verdade, são as malas, mas ninguém precisa saber disso.

Mulher prevenida vale por duas. Eu sempre acho que estou esquecendo algo. E geralmente estou certa. Merda! O que será que vou esquecer dessa vez?

— Lola, não tenho grana pra presente — eu digo. — Vou ficar na casa da tia Angelina e meu pagamento vai ser com as tarefas de casa. Se eu tiver que trazer presentes, vai ser uma bala de hortelã pra cada um.

— Ah, Bec, bala de hortelã eu posso comprar na venda do seu Antônio.

— Ótimo, assim não preciso comprar.

Ela pula da cama e sai pisando duro. Essa pirralha. Só porque eu vou de férias para Nova Iorque não quer dizer que eu tenha dinheiro. Foi tia Angelina quem me convidou e eu nem queria aceitar por conta da nossa falência, mas ela insistiu e insistiu, disse que me dá dinheiro para o que eu precisar.

Só que é realmente uma droga você sair de férias e não ter um tostão furado. Se ela tivesse me avisado com antecedência, tipo, no começo do ano, eu teria juntado a minha mesada, catado moedas pela casa que nem a Lola, assaltado a carteira da minha mãe, pedido umas notas ao meu pai ou pedido trabalho ao seu Antônio. Aí eu teria alguma coisa na carteira. Mas ela me convenceu, fui olhar o que eu tinha guardado: 103 reais e 95 centavos.

Não dá pra sobreviver um mês com isso, não.

Ela tem um restaurante bem famoso de onde tira o seu sustento, mas eu não quero abusar. Eu me sinto péssima com essa situação. A sorte — e o milagre, pois estamos falando do seu Alceu Mão-fechada — é que papai me deu uma graninha, contada, mas deu, eu consegui um desconto nas passagens e vou me controlar para não torrar o restante assim que entrar numa loja. Vou até evitar as lojas.

Pobre é osso, viu?! Nunca tem nada e vive querendo comprar o mundo.

— Rebeca! — minha mãe grita da sala. Particularmente, esse é jeito dela de falar com as pessoas. Não importa se você está a quinze metros ou quinze centímetros, ela vai meter o grito na sua cara. Fica esperto se um dia você cruzar com a dona Rosana pela rua: ela é uma senhora de 37 anos, cabelo louro escuro bagunçado igual palha de vassoura velha, cheinha, com dobrinhas graciosas escapando pelo cós da calça, um metro e meio e cara de quem não dorme a uns duzentos anos. — Você já arrumou tudo? É melhor que esteja pronta ou vai acabar perdendo o voo!

O meu voo está marcado para daqui doze horas — eu viajo às vinte e duas horas deste domingo — e ela sabe disso porque foi ela quem comprou as passagens. Ou minha mãe é uma mãe muito boa ou está querendo se livrar de mim. Não tenho certeza se quero descobrir qual é a opção certa. O mais provavel é que ela esqueceu o horário, como ela é professora de faculdade, a cabeça anda cheia, seria de se esperar.

— Já terminei, mãe! — grito de volta. Ou eu acho que terminei. Eu ainda tenho tempo pra conferir e reconferir tudo umas quinze vezes, mas eu sei que quando eu chegar na casa da minha tia, eu vou dar por falta de algo. Eu não tenho dinheiro sobrando sequer pra comprar balas, então é bom que eu não esqueça de artigos importantes.

Fiz uma listinha para não esquecer o que botar e quais peças de roupa levar. Tive que pedir ajuda a Marina e Giulia, minhas melhores amigas e, claro, joguei a questão no Google: que roupa levar para férias em Nova Iorque. Uma furada total!

Com base no clima — julho é o auge do verão por lá —, eu fiz minha própria listinha;

Cinco semanas (trinta e dois dias)

Quatro calças jeans, cinco leggins e quatro meias-calças;

Seis shorts de tecidos e modelos diferentes;

Trinta calcinhas, e dez sutiãs;

Cinco camisetas, cinco blusinhas de caimento moderno e cinco croppeds ;

Oito vestidos de modelos diferentes;

Quatro blusas de mangas compridas;

Três pares de tênis, cinco meias, três sapatilhas e duas botas;

Três moletons;

Dois conjuntinhos de dormir;

Minha câmera fotográfica — amor da minha vida!;

Celular, carregador, fones de ouvido;

Passaporte, visto e todos os documentos precisos e necessários.

No mais, é só lavar as que eu sujar, né? É pra isso que existe, água, sabão e máquina de lavar.

Confere. Confere e confere.

Olho para minhas malas satisfeita e depois para a lista novamente. Todos os itens estão riscados, o que quer dizer que tudo está organizado e que, pela fé de Deus, eu não estou esquecendo minhas calcinhas. Me jogo em minha cama de braços abertos. Essas serão as melhores férias da minha vida!

Estados Unidos da América, aqui vou eu…

Quer dizer, ainda não.

Lola volta ao meu quarto e me entrega o porquinho dela, onde ela junta cada centavinho que encontra pela casa. Seu rostinho está contorcido e eu já prevejo lágrimas.

— Por que está me dando? — pergunto, me sentindo horrível de repente.

— Eu não sei quanto tem dentro — diz, olhando para porquinho rosa que tem a cara torta. Mais parece uma mistura de cavalo com porco. — Você leva e vê o que pode comprar pra trazer pra mim.

Oh, meu Deus, eu vou chorar! É muita fofura para uma criança só.

— Não precisa, Lola — digo, devolvendo o cofrinho. Eu não sou esse tipo de irmã mais velha, eu jamais pegaria as economias da minha irmã de quatro anos, mesmo que fosse pra comprar algo pra ela. — O papai me deu dinheiro. É suficiente para comprar um presentinho pra você. O que vai querer?

— Um ursão bem grandão! — ela abre os braços para enfatizar. O que mais seria? O quarto dela está repleto de bichinhos de pelúcia, o que me mata, porque eu sou alérgica e basta encontrar a porta do quarto aberto pra me dá uma espirradeira de horas.

Me abaixo para lhe dar um abração apertadão.

— Então, eu vou trazer um ursão bem grandão!

***

Eu devo estar muito sexy com essa calça amarela — bem Restart mesmo — com uma mancha horrível de achocolatado centralizado bem no meio da bunda, exatamente no meio, na risquinha, onde se divide as bandinhas. Parece que eu fiz cocô nas calças.

Mas é tudo culpa da Lorena que derramou seu achocolatado na cadeira da cozinha, eu não vi a desgraceira, sentei em cima, e saí correndo quando Marina me ligou, avisando que estava me esperando na portaria do meu prédio.

Nem ela ou Giulia notaram a meleca antes pra que eu pudesse me trocar, e agora eu tenho que sobreviver a esses olhares. Eu sei que metade deles não é por causa da mancha — bom, talvez noventa por cento seja por causa da mancha —, é porque eu não sou mais a única virgem da escola. Hahahaha!

Não é engraçado que os seus colegas de escola frequentem a mesma lanchonete ao mesmo tempo e saibam de algo que, aparentemente, devia ser íntimo seu?

Aparentemente.

Meu príncipe, mais conhecido como Hugo Marins, o belo par de olhos verdes, cabelos ruivos, macios como seda, fez questão de contar a todos o que fizemos — e o que não fizemos, porque, segundo o bonito “você não é tão safada quanto eu pensei” para certas coisas. O que deu a ele o direito de inventar — a uns dois sábados atrás.

Minha vida íntima se tornou pública. A história caiu nos ouvidos de todos, TODOS, os professores da escola, me intimaram a ir a diretoria, me forçaram a conversar com a diretora que também é psicóloga, acreditando que eu estava planejando meu suicídio. Chamaram minha mãe depois de eu rastejar no chão implorando pra que não lhe dessem esse desgosto, porque eu não estava dando a mínima para aquela porcalhada toda.

Ninguém me ouviu. Minha mãe foi chamada, meu pai veio em seu encalço. Minha mãe ficou decepcionada, “por que você não me contou que pretendia entrar pra essa vida, Rebeca? Eu teria te aconselhado melhor. Olha o que fizeram como você”. Na mente dela, eu tinha acabado de entrar pra uma seita satânica. Eu só transei com um cara idiota. E nem foi bom, foi apressado. Eu não senti nada além de desconforto. NADA. Decepcionada. Eu disse isso a ele na frente da escola toda, ele não gostou muito.

Ouvi dizer que melhora com o tempo. E com a prática. Acho que o Hugo precisa praticar mais.

Ah, e só pra esclarecer: ele me largou no dia seguinte. Me trocou pela minha prima, a garota que me ajudou a ficar com ele. A que dizia “meu casal” quando nos via chegar juntos na escola.

Quer um conselho? Não confie em quem diz “meu casal” com toda uma intimidade que claramente não existe. É sério. Eu nem era amiga da Danila, a minha prima. O Hugo só acreditou que fosse uma boa ideia pedir a ela pra vir falar comigo. Na minha cabeça, os dois já estavam de enrosco antes de eu entrar de gaiata nessa história.

É por esse belíssimo motivo que eu não estou preocupada com repercussão em cima disso. O Hugo não me forçou a nada, eu não tinha o sonho de que a minha primeira transa fosse a coisa mais perfeita do mundo, eu só queria experimentar. Aconteceu. Descobri que o Hugo é um cachorro e não tão certinho como eu achei que ele fosse.

Se querem saber, ele é quem devia se preocupar com as voltas que o mundo dá, porque a minha consciência está tranquilíssima.

— Olha só quem está aqui — diz Marina, com voz enojada, assim que entramos na lanchonete e sentamos em nossa mesa.

Tenho que levantar a cabeça para ver de quem ela está falando. Imaginei que fosse um dos seus ex’s pra ela usar o seu pior tom, mas Marina só está falando do novo casalzinho do momento: Hugo e Danila, sentados na outra extremidade do lugar, junto da rodinha que os cercam em todos os lugares.

— Que filhos da puta! — resmunga Giulia. Esse é o mais novo xingamento preferido dela. Giulia vai usar ele pelo resto do ano. Muda a cada semestre. Até mês passado era “energúmenos”. Até os professores ela xingava assim. É muito engraçado. Quero só ver quando as aulas retornarem e ela chamar eles de filhos da puta — porque ela vai chamar — e ir parar na diretoria.

— Eu vou querer uma porção grande de fritas e milkshake de chocolate — eu falo, olhando para o menu, que eu já tenho decorado e que é muito mais interessante do que o que está a minha volta. — E é melhor uma de vocês se oferecer pra pagar porque o dinheiro que eu tenho, eu vou levar pra Nova Iorque.

— Então é verdade? — pergunta a voz de satanás. Mais uma vez sou obrigada a levantar a cabeça, não para descobrir quem é a dona, mas porque eu não acredito na petulância da garota. Danila da Silva. — Você vai pra New York?— ela enrola a língua pra ficar com sotaque. — A tia Rosana me contou, mas eu não acreditei. De onde você tiraria dinheiro? Onde você vai ficar?

Dona Rosana já foi fazer fofoca, credo. A mulher não se controla.

— A tia Angelina, conhece? Ela mora lá?

Nas férias do final do ano passado, a mãe da Danila — que é irmã do papai e da tia Angelina —, uma sujeita desequilibrada que adora competir com a minha mãe em qualquer coisa, pediu a tia Angelina pra que convidasse a filha pra passar uns dias com ela. Nossa tia, por outro lado, disse que não poderia porque ia viajar com o marido. Danila deu escândalo por quase um mês. “Eu quero ir pra New York! Que infernooo!” Bem birrenta.

— Ela não vai te aguentar uma semana — dispara. A inveja aqui atinge graus alarmantes. — Aposto que vai te botar em um avião no mesmo dia.

— Ela não vai precisar fazer isso, eu tenho duas pernas que servem pra caminhar. Mas foi ela quem me convidou — dou de ombros —, eu não contaria com isso. Qualquer coisa eu te aviso se a sua macumba der certo.

Ela ri, toda dissimulada.

— Não preciso fazer macumba pra ferrar com a sua vida, Rebeca. Você já é ferrada por si só.

— Claro que não. Você só acha que “roubar” o Hugo de mim é uma grande tacada, mas eu vou te contar um segredo: você me fez um grande favor. Agora sai do meu pé, chulé.

Danila se inclina sobre a nossa mesa e apoia as mãos nela pra ficar de frente comigo.

— Ele diz que eu faço melhor.

Eu fico besta com isso. Gente, é sério?

— Ele disse que me amava — respondo. — Você não passa de mais uma otária, Danila. Cai fora dessa enquanto é tempo.

— E eu é que sou a otária? Você caiu na lábia de um cara que disse te amar menos de duas semanas após o primeiro beijo…?

Penso que responder a isso seja uma perda de tempo, o que faz o meu próximo ato ser ainda pior: eu acerto a minha mão espalmada bem no meio da cara da Danila, que, por sua vez, pula para trás horrorizada. Oh, meu Deus! Eu não fiz isso!

A minha queimando diz que eu fiz sim. Será que foi tão forte assim?

A rodinha dela agora está nos rodeando. Giulia leva a mão a boca e Marina ri. E o restante da turma apenas me olha como se eu tivesse acabado de dar um tiro em alguém.

Adeus ao que restou da minha vida social.

***

Gostaria de saber quem convidou o meu pai para esta conversa familiar. Porque, pelo que eu sei, ele deixou de pertencer a ela depois que trocou a minha mãe, uma mulher trabalhadora, independente, um mulherão da porra, por um projetinho de gente que nem se formou na faculdade ainda.

— Rebeca, você bateu na sua prima? — esbraveja ele.

Estamos eu, ele e minha mãe sentados na sala da nossa casa para debater o que aconteceu. Mamãe levou Lorena pra brincar no parquinho lá embaixo e pediu pra vizinha cuidar dela, pra que ela não escutasse a conversa. Eu preferia estar brincando no parquinho também.

— Alceu, você pode baixar o tom da sua voz, por favor? — sentencia minha mãe. Não é uma pergunta, é uma ameaça. Eu adoro a minha mãe, é sério. O mundo não a merece. — Eu não chamei você aqui pra brigar coma a sua filha, mas pra conversar.

Claro que é culpa dela este homem estar agora na nossa sala de estar — que não é mais dele há dois anos —, me encarando como se eu acabasse ter sido presa por roubar maquiagens no shopping. Nem vou comentar o quão desnecessária é a sua presença nem o fato de a minha mãe ter chamado ele.

— Mãe, você disse que era uma conversa familiar — eu resmungo. — O que esse senhor está fazendo aqui?

— Rebeca, não fale assim do seu pai…

Penso em falar “que pai?”, mas a coisa já está mais que feia para o meu lado, então me limito a grunhir de raiva. Não tem o menor cabimento ela ter chamado ele, eu não matei ninguém — mas queria muito. Não roubei nenhum banco.

— Vai responder por que bateu na sua prima? — questiona ele. O meu pai está mais gordo de que quando o vi na semana passada, já faz um tempo que eu noto que ele vem está usando roupas mais largas, mas só agora percebi que o negócio é bem mais sério. Ele está quase obeso; gordinho ele sempre foi, há fotos da sua infância, adolescência e ele já tinha esses quilinhos. Só que piorou bastante depois do divórcio, parece que o único esforço que ele tem feito é o de sair do sofá para pegar cerveja na geladeira. — Ou eu vou ter ligar pra sua tia dizendo que você não vai mais nessa viagem?

Aí, pegou pesado. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas, claro que o seu Alceu não joga limpo. Ele adoraria pedir que eu devolvesse o dinheiro que ele me deu, mas, mesmo que essa viagem seja cancelada, ele não o terá de volta, nunca mais, nem um centavo.

— Bati porque ela mereceu — eu digo. — E não me arrependo. Se não tivessem tirado ela da minha frente, teria batido mais.

Os amiguinhos da Danila a arrastaram para longe, e o Huguinho veio me perguntar se eu estava louca. Eu respondi que devo ter ficado, pra aceitar transar com ele… acho que se não fosse a Giulia a Marina do meu lado, ele teria me batido. Aí sim, eu teria cometido um crime. Posso apanhar de um homem, mas ele levaria o dobro. Se não de mim, de um mafioso qualquer que aceitasse menos de cem reais pra dar umas pancadas nele.

— Está vendo a sua filha, Rosana? — O meu pai aponta para mim, olhando fixamente para mamãe, sentada em outro sofá. — É essa a menina que vai passar um mês em outro país? Eu vou cancelar essa viagem.

Ele já está pegando o seu celular quando a mamãe diz:

— Vai coisa nenhuma, Alceu. Converse com ela como gente grande. Sabe o que significa a palavra diálogo? A Rebeca vai nessa viagem, eu já comprei as passagens e não tem reembolso. A menos que você queira me pagar o dinheiro que eu gastei.

Está vendo? É a minha mãezona. E ela conhece muito bem todos os pontos fracos desse macho que de alfa só tem o A e o L no começo do nome. Se ele soubesse o quanto as passagens custaram, provavelmente teria um infarte. Eu quase tive um infarte. Não pensei que pudesse ser tão caro.

— Eu bati naquela mequetrefe porque ela estava me insultando por conta do que o Hugo me fez. Eu não tenho sangue de barata. E se mais alguém vier com esse papinho sem noção, vai apanhar também.

— Não é na porrada que se resolve os problemas, Rebeca — critica ele. Falou o cara que vive querendo bater nos amigos só por perder no jogo de sinuca do bar.

— Você, por acaso, já tentou manter uma conversa civilizada com a Danila? — eu pergunto. Desconfio de que nem meu pai saiba o que é uma conversa civilizada, tudo com ele é na base do grito, parece a mamãe. Deve ter sido os anos de convivência, ou foi isso que os uniu. Vai saber. — É uma naja destilando veneno pra todos os lados. Eu não a suporto.

— Só me prometa que vai se comportar nessa viagem.

— Tá ok, eu prometo. — eu digo, enfezada. Não quero perder minhas férias, Deus me livre! — Não é como se eu saísse por aí batendo nas pessoas sem precisão, pai. A Danila que me provocou.

— Está bem. Que horas que você viaja?

Ah não, ah não.

— Dez da noite. Por quê?

— Eu vou te levar até o aeroporto — responde. — Passo aqui às sete. O trânsito no domingo costuma ser uma coisa horrível, e como a sua viagem é internacional vai precisar ainda de mais tempo.

Pior não pode ficar. Ele vai me escoltar até o aeroporto.

Quando ele sai, mamãe diz:

— Viu? Uma conversa educada. — E vai para a cozinha, terminar de lavar a louça do almoço.

Passo o resto da tarde trancada no quarto organizando minha playlist de músicas desconhecidas que eu baixei para poder escutar quando estiver no avião. Escolho artistas que ninguém nunca ouviu falar pra não ficar repetitivo, monto uma lista bonitinha.

Pego livros de romances nacionais que minha mãe costuma comprar nas bancas para mim e revistas de fofoca da Marina, atualizadas.

Eu vou passar mais de doze horas em um avião com gente que eu nem conheço, ainda por cima fazendo paradas pelo caminho, o que só piora, eu preciso levar algo que vá fazer passar o tempo. Baixo umas séries, filmes, jogos no celular. Alguma coisa vai ter que servir pra acelerar a viagem.

Enfim chega o tão aguardado momento e eu preciso fazer com que minha irmã pare de chorar e me largue para que e possar embarcar.

— Lola, você vai me fazer perder o avião — eu digo, tentando desprender os braços da criatura que se agarrou ao meu pescoço e não solta nem por um decreto. Ela soluça no meu ouvido e tenho certeza de que está me babando toda.

— Eu vou ficar sozinha. — Ela me aperta mais. Vou morrer sem folego, pronto. — Não vai, Bec.

Minha mãe agarra ela pela cintura e puxa.

— Lola, vem. Pare de fazer drama, a sua irmã não vai embora pra sempre. Ela voltar no final do mês.

Com muito custo, a pirralha vai com ela.

Giulia e Marina não param de rir.

— Eu quero que você me traga ótimos presentes — diz Marina ao me abraçar.

— Um óculos de sol da melhor marcar está ótimo pra mim — Giulia fala, se juntando ao abraço. — Não acredito que você vai pra Nova Iorque! Isso é tão chique!

— Não é você que vai pra Petrópolis com seus pais? — digo eu. — É só uma cidade como outra qualquer.

— Viu? — Marina aponta o dedo na minha cara. — Nem foi ainda e já está toda besta.

Reviro os olhos.

— E vê se tira muitas fotos — pede Giulia. Ah, sim, fotos é que não vai faltar nessa viagem. Afinal, eu também preciso atualizar meu blog que já está quase mofando de tão abandonado que está. E de que maneira eu poderia revivê-lo senão com cliques perfeitos de uma cidade americana?!

— Rebeca, olha o horário. — Meu pai indica o seu relógio. Meu voo sai daqui duas horas e dez, é mais do que suficiente. Mas ele estava certíssimo; o trânsito não colaborou, saímos de casa sete horas em ponto e levamos cinquenta minutos pra conseguir chegar ao Aeroporto Internacional Pinto Martins.

Dou um último abraço em todo mundo, sem lágrimas — só as da Lorena, ela é muito dramática —, porque eu não vou para outro mundo, estou saindo de férias e não poderia estar mais feliz. Eu me dirijo a fila para fazer o check-in que é enorme, apesar de ser domingo de noite, mas não me importo. Porque…

Ai, meu Deus. Eu estou indo pra Nova Iorque!

Sai do meu pé, chulé!

Não sou boa no inglês. Mas me formei com louvor no cursinho do meu bairro, o que me leva a crer que o essencial eu devo saber, não é? O básico vai ter que servir nos dias em que eu estiver em Nova Iorque. Não ligo de passar mico, falando errado, mas eu realmente preferia não errar.

Sabe como é, né? Eu passei dois anos naquele cursinho, não foram seis meses nem um ano, não, foram DOIS anos e mais de 2500 pilas que saíram do bolso dos meus pais mãos de vaca. Não é possível que tenham me ensinado errado ou que eu esqueça tudo de uma hora para outra.

Enfim…

— Bec, você vai comprar presentes para mim? — pergunta minha irmã Lorena, empoleirada sobre minha cama. A convenci que era uma boa ideia me ajudar a fazer minhas malas, mas a pirralha prefere ficar pulando na minha cama. Depois ela quebra e vai achar ruim quando eu for dormir com ela… digo é nada.

Estou andando de um lado para outro, pela casa inteira, vendo se não estou esquecendo de nada. A probabilidade de que eu esqueça minhas calcinhas é enorme, por isso verifico de novo a mala — na verdade, são as malas, mas ninguém precisa saber disso.

Mulher prevenida vale por duas. Eu sempre acho que estou esquecendo algo. E geralmente estou certa. Merda! O que será que vou esquecer dessa vez?

— Lola, não tenho grana pra presente — eu digo. — Vou ficar na casa da tia Angelina e meu pagamento vai ser com as tarefas de casa. Se eu tiver que trazer presentes, vai ser uma bala de hortelã pra cada um.

— Ah, Bec, bala de hortelã eu posso comprar na venda do seu Antônio.

— Ótimo, assim não preciso comprar.

Ela pula da cama e sai pisando duro. Essa pirralha. Só porque eu vou de férias para Nova Iorque não quer dizer que eu tenha dinheiro. Foi tia Angelina quem me convidou e eu nem queria aceitar por conta da nossa falência, mas ela insistiu e insistiu, disse que me dá dinheiro para o que eu precisar.

Só que é realmente uma droga você sair de férias e não ter um tostão furado. Se ela tivesse me avisado com antecedência, tipo, no começo do ano, eu teria juntado a minha mesada, catado moedas pela casa que nem a Lola, assaltado a carteira da minha mãe, pedido umas notas ao meu pai ou pedido trabalho ao seu Antônio. Aí eu teria alguma coisa na carteira. Mas ela me convenceu, fui olhar o que eu tinha guardado: 103 reais e 95 centavos.

Não dá pra sobreviver um mês com isso, não.

Ela tem um restaurante bem famoso de onde tira o seu sustento, mas eu não quero abusar. Eu me sinto péssima com essa situação. A sorte — e o milagre, pois estamos falando do seu Alceu Mão-fechada — é que papai me deu uma graninha, contada, mas deu, eu consegui um desconto nas passagens e vou me controlar para não torrar o restante assim que entrar numa loja. Vou até evitar as lojas.

Pobre é osso, viu?! Nunca tem nada e vive querendo comprar o mundo.

— Rebeca! — minha mãe grita da sala. Particularmente, esse é jeito dela de falar com as pessoas. Não importa se você está a quinze metros ou quinze centímetros, ela vai meter o grito na sua cara. Fica esperto se um dia você cruzar com a dona Rosana pela rua: ela é uma senhora de 37 anos, cabelo louro escuro bagunçado igual palha de vassoura velha, cheinha, com dobrinhas graciosas escapando pelo cós da calça, um metro e meio e cara de quem não dorme a uns duzentos anos. — Você já arrumou tudo? É melhor que esteja pronta ou vai acabar perdendo o voo!

O meu voo está marcado para daqui doze horas — eu viajo às vinte e duas horas deste domingo — e ela sabe disso porque foi ela quem comprou as passagens. Ou minha mãe é uma mãe muito boa ou está querendo se livrar de mim. Não tenho certeza se quero descobrir qual é a opção certa. O mais provavel é que ela esqueceu o horário, como ela é professora de faculdade, a cabeça anda cheia, seria de se esperar.

— Já terminei, mãe! — grito de volta. Ou eu acho que terminei. Eu ainda tenho tempo pra conferir e reconferir tudo umas quinze vezes, mas eu sei que quando eu chegar na casa da minha tia, eu vou dar por falta de algo. Eu não tenho dinheiro sobrando sequer pra comprar balas, então é bom que eu não esqueça de artigos importantes.

Fiz uma listinha para não esquecer o que botar e quais peças de roupa levar. Tive que pedir ajuda a Marina e Giulia, minhas melhores amigas e, claro, joguei a questão no Google: que roupa levar para férias em Nova Iorque. Uma furada total!

Com base no clima — julho é o auge do verão por lá —, eu fiz minha própria listinha;

Cinco semanas (trinta e dois dias)

Quatro calças jeans, cinco leggins e quatro meias-calças;

Seis shorts de tecidos e modelos diferentes;

Trinta calcinhas, e dez sutiãs;

Cinco camisetas, cinco blusinhas de caimento moderno e cinco croppeds ;

Oito vestidos de modelos diferentes;

Quatro blusas de mangas compridas;

Três pares de tênis, cinco meias, três sapatilhas e duas botas;

Três moletons;

Dois conjuntinhos de dormir;

Minha câmera fotográfica — amor da minha vida!;

Celular, carregador, fones de ouvido;

Passaporte, visto e todos os documentos precisos e necessários.

No mais, é só lavar as que eu sujar, né? É pra isso que existe, água, sabão e máquina de lavar.

Confere. Confere e confere.

Olho para minhas malas satisfeita e depois para a lista novamente. Todos os itens estão riscados, o que quer dizer que tudo está organizado e que, pela fé de Deus, eu não estou esquecendo minhas calcinhas. Me jogo em minha cama de braços abertos. Essas serão as melhores férias da minha vida!

Estados Unidos da América, aqui vou eu…

Quer dizer, ainda não.

Lola volta ao meu quarto e me entrega o porquinho dela, onde ela junta cada centavinho que encontra pela casa. Seu rostinho está contorcido e eu já prevejo lágrimas.

— Por que está me dando? — pergunto, me sentindo horrível de repente.

— Eu não sei quanto tem dentro — diz, olhando para porquinho rosa que tem a cara torta. Mais parece uma mistura de cavalo com porco. — Você leva e vê o que pode comprar pra trazer pra mim.

Oh, meu Deus, eu vou chorar! É muita fofura para uma criança só.

— Não precisa, Lola — digo, devolvendo o cofrinho. Eu não sou esse tipo de irmã mais velha, eu jamais pegaria as economias da minha irmã de quatro anos, mesmo que fosse pra comprar algo pra ela. — O papai me deu dinheiro. É suficiente para comprar um presentinho pra você. O que vai querer?

— Um ursão bem grandão! — ela abre os braços para enfatizar. O que mais seria? O quarto dela está repleto de bichinhos de pelúcia, o que me mata, porque eu sou alérgica e basta encontrar a porta do quarto aberto pra me dá uma espirradeira de horas.

Me abaixo para lhe dar um abração apertadão.

— Então, eu vou trazer um ursão bem grandão!

***

Eu devo estar muito sexy com essa calça amarela — bem Restart mesmo — com uma mancha horrível de achocolatado centralizado bem no meio da bunda, exatamente no meio, na risquinha, onde se divide as bandinhas. Parece que eu fiz cocô nas calças.

Mas é tudo culpa da Lorena que derramou seu achocolatado na cadeira da cozinha, eu não vi a desgraceira, sentei em cima, e saí correndo quando Marina me ligou, avisando que estava me esperando na portaria do meu prédio.

Nem ela ou Giulia notaram a meleca antes pra que eu pudesse me trocar, e agora eu tenho que sobreviver a esses olhares. Eu sei que metade deles não é por causa da mancha — bom, talvez noventa por cento seja por causa da mancha —, é porque eu não sou mais a única virgem da escola. Hahahaha!

Não é engraçado que os seus colegas de escola frequentem a mesma lanchonete ao mesmo tempo e saibam de algo que, aparentemente, devia ser íntimo seu?

Aparentemente.

Meu príncipe, mais conhecido como Hugo Marins, o belo par de olhos verdes, cabelos ruivos, macios como seda, fez questão de contar a todos o que fizemos — e o que não fizemos, porque, segundo o bonito “você não é tão safada quanto eu pensei” para certas coisas. O que deu a ele o direito de inventar — a uns dois sábados atrás.

Minha vida íntima se tornou pública. A história caiu nos ouvidos de todos, TODOS, os professores da escola, me intimaram a ir a diretoria, me forçaram a conversar com a diretora que também é psicóloga, acreditando que eu estava planejando meu suicídio. Chamaram minha mãe depois de eu rastejar no chão implorando pra que não lhe dessem esse desgosto, porque eu não estava dando a mínima para aquela porcalhada toda.

Ninguém me ouviu. Minha mãe foi chamada, meu pai veio em seu encalço. Minha mãe ficou decepcionada, “por que você não me contou que pretendia entrar pra essa vida, Rebeca? Eu teria te aconselhado melhor. Olha o que fizeram como você”. Na mente dela, eu tinha acabado de entrar pra uma seita satânica. Eu só transei com um cara idiota. E nem foi bom, foi apressado. Eu não senti nada além de desconforto. NADA. Decepcionada. Eu disse isso a ele na frente da escola toda, ele não gostou muito.

Ouvi dizer que melhora com o tempo. E com a prática. Acho que o Hugo precisa praticar mais.

Ah, e só pra esclarecer: ele me largou no dia seguinte. Me trocou pela minha prima, a garota que me ajudou a ficar com ele. A que dizia “meu casal” quando nos via chegar juntos na escola.

Quer um conselho? Não confie em quem diz “meu casal” com toda uma intimidade que claramente não existe. É sério. Eu nem era amiga da Danila, a minha prima. O Hugo só acreditou que fosse uma boa ideia pedir a ela pra vir falar comigo. Na minha cabeça, os dois já estavam de enrosco antes de eu entrar de gaiata nessa história.

É por esse belíssimo motivo que eu não estou preocupada com repercussão em cima disso. O Hugo não me forçou a nada, eu não tinha o sonho de que a minha primeira transa fosse a coisa mais perfeita do mundo, eu só queria experimentar. Aconteceu. Descobri que o Hugo é um cachorro e não tão certinho como eu achei que ele fosse.

Se querem saber, ele é quem devia se preocupar com as voltas que o mundo dá, porque a minha consciência está tranquilíssima.

— Olha só quem está aqui — diz Marina, com voz enojada, assim que entramos na lanchonete e sentamos em nossa mesa.

Tenho que levantar a cabeça para ver de quem ela está falando. Imaginei que fosse um dos seus ex’s pra ela usar o seu pior tom, mas Marina só está falando do novo casalzinho do momento: Hugo e Danila, sentados na outra extremidade do lugar, junto da rodinha que os cercam em todos os lugares.

— Que filhos da puta! — resmunga Giulia. Esse é o mais novo xingamento preferido dela. Giulia vai usar ele pelo resto do ano. Muda a cada semestre. Até mês passado era “energúmenos”. Até os professores ela xingava assim. É muito engraçado. Quero só ver quando as aulas retornarem e ela chamar eles de filhos da puta — porque ela vai chamar — e ir parar na diretoria.

— Eu vou querer uma porção grande de fritas e milkshake de chocolate — eu falo, olhando para o menu, que eu já tenho decorado e que é muito mais interessante do que o que está a minha volta. — E é melhor uma de vocês se oferecer pra pagar porque o dinheiro que eu tenho, eu vou levar pra Nova Iorque.

— Então é verdade? — pergunta a voz de satanás. Mais uma vez sou obrigada a levantar a cabeça, não para descobrir quem é a dona, mas porque eu não acredito na petulância da garota. Danila da Silva. — Você vai pra New York?— ela enrola a língua pra ficar com sotaque. — A tia Rosana me contou, mas eu não acreditei. De onde você tiraria dinheiro? Onde você vai ficar?

Dona Rosana já foi fazer fofoca, credo. A mulher não se controla.

— A tia Angelina, conhece? Ela mora lá?

Nas férias do final do ano passado, a mãe da Danila — que é irmã do papai e da tia Angelina —, uma sujeita desequilibrada que adora competir com a minha mãe em qualquer coisa, pediu a tia Angelina pra que convidasse a filha pra passar uns dias com ela. Nossa tia, por outro lado, disse que não poderia porque ia viajar com o marido. Danila deu escândalo por quase um mês. “Eu quero ir pra New York! Que infernooo!” Bem birrenta.

— Ela não vai te aguentar uma semana — dispara. A inveja aqui atinge graus alarmantes. — Aposto que vai te botar em um avião no mesmo dia.

— Ela não vai precisar fazer isso, eu tenho duas pernas que servem pra caminhar. Mas foi ela quem me convidou — dou de ombros —, eu não contaria com isso. Qualquer coisa eu te aviso se a sua macumba der certo.

Ela ri, toda dissimulada.

— Não preciso fazer macumba pra ferrar com a sua vida, Rebeca. Você já é ferrada por si só.

— Claro que não. Você só acha que “roubar” o Hugo de mim é uma grande tacada, mas eu vou te contar um segredo: você me fez um grande favor. Agora sai do meu pé, chulé.

Danila se inclina sobre a nossa mesa e apoia as mãos nela pra ficar de frente comigo.

— Ele diz que eu faço melhor.

Eu fico besta com isso. Gente, é sério?

— Ele disse que me amava — respondo. — Você não passa de mais uma otária, Danila. Cai fora dessa enquanto é tempo.

— E eu é que sou a otária? Você caiu na lábia de um cara que disse te amar menos de duas semanas após o primeiro beijo…?

Penso que responder a isso seja uma perda de tempo, o que faz o meu próximo ato ser ainda pior: eu acerto a minha mão espalmada bem no meio da cara da Danila, que, por sua vez, pula para trás horrorizada. Oh, meu Deus! Eu não fiz isso!

A minha queimando diz que eu fiz sim. Será que foi tão forte assim?

A rodinha dela agora está nos rodeando. Giulia leva a mão a boca e Marina ri. E o restante da turma apenas me olha como se eu tivesse acabado de dar um tiro em alguém.

Adeus ao que restou da minha vida social.

***

Gostaria de saber quem convidou o meu pai para esta conversa familiar. Porque, pelo que eu sei, ele deixou de pertencer a ela depois que trocou a minha mãe, uma mulher trabalhadora, independente, um mulherão da porra, por um projetinho de gente que nem se formou na faculdade ainda.

— Rebeca, você bateu na sua prima? — esbraveja ele.

Estamos eu, ele e minha mãe sentados na sala da nossa casa para debater o que aconteceu. Mamãe levou Lorena pra brincar no parquinho lá embaixo e pediu pra vizinha cuidar dela, pra que ela não escutasse a conversa. Eu preferia estar brincando no parquinho também.

— Alceu, você pode baixar o tom da sua voz, por favor? — sentencia minha mãe. Não é uma pergunta, é uma ameaça. Eu adoro a minha mãe, é sério. O mundo não a merece. — Eu não chamei você aqui pra brigar coma a sua filha, mas pra conversar.

Claro que é culpa dela este homem estar agora na nossa sala de estar — que não é mais dele há dois anos —, me encarando como se eu acabasse ter sido presa por roubar maquiagens no shopping. Nem vou comentar o quão desnecessária é a sua presença nem o fato de a minha mãe ter chamado ele.

— Mãe, você disse que era uma conversa familiar — eu resmungo. — O que esse senhor está fazendo aqui?

— Rebeca, não fale assim do seu pai…

Penso em falar “que pai?”, mas a coisa já está mais que feia para o meu lado, então me limito a grunhir de raiva. Não tem o menor cabimento ela ter chamado ele, eu não matei ninguém — mas queria muito. Não roubei nenhum banco.

— Vai responder por que bateu na sua prima? — questiona ele. O meu pai está mais gordo de que quando o vi na semana passada, já faz um tempo que eu noto que ele vem está usando roupas mais largas, mas só agora percebi que o negócio é bem mais sério. Ele está quase obeso; gordinho ele sempre foi, há fotos da sua infância, adolescência e ele já tinha esses quilinhos. Só que piorou bastante depois do divórcio, parece que o único esforço que ele tem feito é o de sair do sofá para pegar cerveja na geladeira. — Ou eu vou ter ligar pra sua tia dizendo que você não vai mais nessa viagem?

Aí, pegou pesado. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas, claro que o seu Alceu não joga limpo. Ele adoraria pedir que eu devolvesse o dinheiro que ele me deu, mas, mesmo que essa viagem seja cancelada, ele não o terá de volta, nunca mais, nem um centavo.

— Bati porque ela mereceu — eu digo. — E não me arrependo. Se não tivessem tirado ela da minha frente, teria batido mais.

Os amiguinhos da Danila a arrastaram para longe, e o Huguinho veio me perguntar se eu estava louca. Eu respondi que devo ter ficado, pra aceitar transar com ele… acho que se não fosse a Giulia a Marina do meu lado, ele teria me batido. Aí sim, eu teria cometido um crime. Posso apanhar de um homem, mas ele levaria o dobro. Se não de mim, de um mafioso qualquer que aceitasse menos de cem reais pra dar umas pancadas nele.

— Está vendo a sua filha, Rosana? — O meu pai aponta para mim, olhando fixamente para mamãe, sentada em outro sofá. — É essa a menina que vai passar um mês em outro país? Eu vou cancelar essa viagem.

Ele já está pegando o seu celular quando a mamãe diz:

— Vai coisa nenhuma, Alceu. Converse com ela como gente grande. Sabe o que significa a palavra diálogo? A Rebeca vai nessa viagem, eu já comprei as passagens e não tem reembolso. A menos que você queira me pagar o dinheiro que eu gastei.

Está vendo? É a minha mãezona. E ela conhece muito bem todos os pontos fracos desse macho que de alfa só tem o A e o L no começo do nome. Se ele soubesse o quanto as passagens custaram, provavelmente teria um infarte. Eu quase tive um infarte. Não pensei que pudesse ser tão caro.

— Eu bati naquela mequetrefe porque ela estava me insultando por conta do que o Hugo me fez. Eu não tenho sangue de barata. E se mais alguém vier com esse papinho sem noção, vai apanhar também.

— Não é na porrada que se resolve os problemas, Rebeca — critica ele. Falou o cara que vive querendo bater nos amigos só por perder no jogo de sinuca do bar.

— Você, por acaso, já tentou manter uma conversa civilizada com a Danila? — eu pergunto. Desconfio de que nem meu pai saiba o que é uma conversa civilizada, tudo com ele é na base do grito, parece a mamãe. Deve ter sido os anos de convivência, ou foi isso que os uniu. Vai saber. — É uma naja destilando veneno pra todos os lados. Eu não a suporto.

— Só me prometa que vai se comportar nessa viagem.

— Tá ok, eu prometo. — eu digo, enfezada. Não quero perder minhas férias, Deus me livre! — Não é como se eu saísse por aí batendo nas pessoas sem precisão, pai. A Danila que me provocou.

— Está bem. Que horas que você viaja?

Ah não, ah não.

— Dez da noite. Por quê?

— Eu vou te levar até o aeroporto — responde. — Passo aqui às sete. O trânsito no domingo costuma ser uma coisa horrível, e como a sua viagem é internacional vai precisar ainda de mais tempo.

Pior não pode ficar. Ele vai me escoltar até o aeroporto.

Quando ele sai, mamãe diz:

— Viu? Uma conversa educada. — E vai para a cozinha, terminar de lavar a louça do almoço.

Passo o resto da tarde trancada no quarto organizando minha playlist de músicas desconhecidas que eu baixei para poder escutar quando estiver no avião. Escolho artistas que ninguém nunca ouviu falar pra não ficar repetitivo, monto uma lista bonitinha.

Pego livros de romances nacionais que minha mãe costuma comprar nas bancas para mim e revistas de fofoca da Marina, atualizadas.

Eu vou passar mais de doze horas em um avião com gente que eu nem conheço, ainda por cima fazendo paradas pelo caminho, o que só piora, eu preciso levar algo que vá fazer passar o tempo. Baixo umas séries, filmes, jogos no celular. Alguma coisa vai ter que servir pra acelerar a viagem.

Enfim chega o tão aguardado momento e eu preciso fazer com que minha irmã pare de chorar e me largue para que e possar embarcar.

— Lola, você vai me fazer perder o avião — eu digo, tentando desprender os braços da criatura que se agarrou ao meu pescoço e não solta nem por um decreto. Ela soluça no meu ouvido e tenho certeza de que está me babando toda.

— Eu vou ficar sozinha. — Ela me aperta mais. Vou morrer sem folego, pronto. — Não vai, Bec.

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Minha mãe agarra ela pela cintura e puxa.

— Lola, vem. Pare de fazer drama, a sua irmã não vai embora pra sempre. Ela voltar no final do mês.

Com muito custo, a pirralha vai com ela.

Giulia e Marina não param de rir.

— Eu quero que você me traga ótimos presentes — diz Marina ao me abraçar.

— Um óculos de sol da melhor marcar está ótimo pra mim — Giulia fala, se juntando ao abraço. — Não acredito que você vai pra Nova Iorque! Isso é tão chique!

— Não é você que vai pra Petrópolis com seus pais? — digo eu. — É só uma cidade como outra qualquer.

— Viu? — Marina aponta o dedo na minha cara. — Nem foi ainda e já está toda besta.

Reviro os olhos.

— E vê se tira muitas fotos — pede Giulia. Ah, sim, fotos é que não vai faltar nessa viagem. Afinal, eu também preciso atualizar meu blog que já está quase mofando de tão abandonado que está. E de que maneira eu poderia revivê-lo senão com cliques perfeitos de uma cidade americana?!

— Rebeca, olha o horário. — Meu pai indica o seu relógio. Meu voo sai daqui duas horas e dez, é mais do que suficiente. Mas ele estava certíssimo; o trânsito não colaborou, saímos de casa sete horas em ponto e levamos cinquenta minutos pra conseguir chegar ao Aeroporto Internacional Pinto Martins.

Dou um último abraço em todo mundo, sem lágrimas — só as da Lorena, ela é muito dramática —, porque eu não vou para outro mundo, estou saindo de férias e não poderia estar mais feliz. Eu me dirijo a fila para fazer o check-in que é enorme, apesar de ser domingo de noite, mas não me importo. Porque…

Ai, meu Deus. Eu estou indo pra Nova Iorque!

Sai do meu pé, chulé!

Não sou boa no inglês. Mas me formei com louvor no cursinho do meu bairro, o que me leva a crer que o essencial eu devo saber, não é? O básico vai ter que servir nos dias em que eu estiver em Nova Iorque. Não ligo de passar mico, falando errado, mas eu realmente preferia não errar.

Sabe como é, né? Eu passei dois anos naquele cursinho, não foram seis meses nem um ano, não, foram DOIS anos e mais de 2500 pilas que saíram do bolso dos meus pais mãos de vaca. Não é possível que tenham me ensinado errado ou que eu esqueça tudo de uma hora para outra.

Enfim…

— Bec, você vai comprar presentes para mim? — pergunta minha irmã Lorena, empoleirada sobre minha cama. A convenci que era uma boa ideia me ajudar a fazer minhas malas, mas a pirralha prefere ficar pulando na minha cama. Depois ela quebra e vai achar ruim quando eu for dormir com ela… digo é nada.

Estou andando de um lado para outro, pela casa inteira, vendo se não estou esquecendo de nada. A probabilidade de que eu esqueça minhas calcinhas é enorme, por isso verifico de novo a mala — na verdade, são as malas, mas ninguém precisa saber disso.

Mulher prevenida vale por duas. Eu sempre acho que estou esquecendo algo. E geralmente estou certa. Merda! O que será que vou esquecer dessa vez?

— Lola, não tenho grana pra presente — eu digo. — Vou ficar na casa da tia Angelina e meu pagamento vai ser com as tarefas de casa. Se eu tiver que trazer presentes, vai ser uma bala de hortelã pra cada um.

— Ah, Bec, bala de hortelã eu posso comprar na venda do seu Antônio.

— Ótimo, assim não preciso comprar.

Ela pula da cama e sai pisando duro. Essa pirralha. Só porque eu vou de férias para Nova Iorque não quer dizer que eu tenha dinheiro. Foi tia Angelina quem me convidou e eu nem queria aceitar por conta da nossa falência, mas ela insistiu e insistiu, disse que me dá dinheiro para o que eu precisar.

Só que é realmente uma droga você sair de férias e não ter um tostão furado. Se ela tivesse me avisado com antecedência, tipo, no começo do ano, eu teria juntado a minha mesada, catado moedas pela casa que nem a Lola, assaltado a carteira da minha mãe, pedido umas notas ao meu pai ou pedido trabalho ao seu Antônio. Aí eu teria alguma coisa na carteira. Mas ela me convenceu, fui olhar o que eu tinha guardado: 103 reais e 95 centavos.

Não dá pra sobreviver um mês com isso, não.

Ela tem um restaurante bem famoso de onde tira o seu sustento, mas eu não quero abusar. Eu me sinto péssima com essa situação. A sorte — e o milagre, pois estamos falando do seu Alceu Mão-fechada — é que papai me deu uma graninha, contada, mas deu, eu consegui um desconto nas passagens e vou me controlar para não torrar o restante assim que entrar numa loja. Vou até evitar as lojas.

Pobre é osso, viu?! Nunca tem nada e vive querendo comprar o mundo.

— Rebeca! — minha mãe grita da sala. Particularmente, esse é jeito dela de falar com as pessoas. Não importa se você está a quinze metros ou quinze centímetros, ela vai meter o grito na sua cara. Fica esperto se um dia você cruzar com a dona Rosana pela rua: ela é uma senhora de 37 anos, cabelo louro escuro bagunçado igual palha de vassoura velha, cheinha, com dobrinhas graciosas escapando pelo cós da calça, um metro e meio e cara de quem não dorme a uns duzentos anos. — Você já arrumou tudo? É melhor que esteja pronta ou vai acabar perdendo o voo!

O meu voo está marcado para daqui doze horas — eu viajo às vinte e duas horas deste domingo — e ela sabe disso porque foi ela quem comprou as passagens. Ou minha mãe é uma mãe muito boa ou está querendo se livrar de mim. Não tenho certeza se quero descobrir qual é a opção certa. O mais provavel é que ela esqueceu o horário, como ela é professora de faculdade, a cabeça anda cheia, seria de se esperar.

— Já terminei, mãe! — grito de volta. Ou eu acho que terminei. Eu ainda tenho tempo pra conferir e reconferir tudo umas quinze vezes, mas eu sei que quando eu chegar na casa da minha tia, eu vou dar por falta de algo. Eu não tenho dinheiro sobrando sequer pra comprar balas, então é bom que eu não esqueça de artigos importantes.

Fiz uma listinha para não esquecer o que botar e quais peças de roupa levar. Tive que pedir ajuda a Marina e Giulia, minhas melhores amigas e, claro, joguei a questão no Google: que roupa levar para férias em Nova Iorque. Uma furada total!

Com base no clima — julho é o auge do verão por lá —, eu fiz minha própria listinha;

Cinco semanas (trinta e dois dias)

Quatro calças jeans, cinco leggins e quatro meias-calças;

Seis shorts de tecidos e modelos diferentes;

Trinta calcinhas, e dez sutiãs;

Cinco camisetas, cinco blusinhas de caimento moderno e cinco croppeds ;

Oito vestidos de modelos diferentes;

Quatro blusas de mangas compridas;

Três pares de tênis, cinco meias, três sapatilhas e duas botas;

Três moletons;

Dois conjuntinhos de dormir;

Minha câmera fotográfica — amor da minha vida!;

Celular, carregador, fones de ouvido;

Passaporte, visto e todos os documentos precisos e necessários.

No mais, é só lavar as que eu sujar, né? É pra isso que existe, água, sabão e máquina de lavar.

Confere. Confere e confere.

Olho para minhas malas satisfeita e depois para a lista novamente. Todos os itens estão riscados, o que quer dizer que tudo está organizado e que, pela fé de Deus, eu não estou esquecendo minhas calcinhas. Me jogo em minha cama de braços abertos. Essas serão as melhores férias da minha vida!

Estados Unidos da América, aqui vou eu…

Quer dizer, ainda não.

Lola volta ao meu quarto e me entrega o porquinho dela, onde ela junta cada centavinho que encontra pela casa. Seu rostinho está contorcido e eu já prevejo lágrimas.

— Por que está me dando? — pergunto, me sentindo horrível de repente.

— Eu não sei quanto tem dentro — diz, olhando para porquinho rosa que tem a cara torta. Mais parece uma mistura de cavalo com porco. — Você leva e vê o que pode comprar pra trazer pra mim.

Oh, meu Deus, eu vou chorar! É muita fofura para uma criança só.

— Não precisa, Lola — digo, devolvendo o cofrinho. Eu não sou esse tipo de irmã mais velha, eu jamais pegaria as economias da minha irmã de quatro anos, mesmo que fosse pra comprar algo pra ela. — O papai me deu dinheiro. É suficiente para comprar um presentinho pra você. O que vai querer?

— Um ursão bem grandão! — ela abre os braços para enfatizar. O que mais seria? O quarto dela está repleto de bichinhos de pelúcia, o que me mata, porque eu sou alérgica e basta encontrar a porta do quarto aberto pra me dá uma espirradeira de horas.

Me abaixo para lhe dar um abração apertadão.

— Então, eu vou trazer um ursão bem grandão!

***

Eu devo estar muito sexy com essa calça amarela — bem Restart mesmo — com uma mancha horrível de achocolatado centralizado bem no meio da bunda, exatamente no meio, na risquinha, onde se divide as bandinhas. Parece que eu fiz cocô nas calças.

Mas é tudo culpa da Lorena que derramou seu achocolatado na cadeira da cozinha, eu não vi a desgraceira, sentei em cima, e saí correndo quando Marina me ligou, avisando que estava me esperando na portaria do meu prédio.

Nem ela ou Giulia notaram a meleca antes pra que eu pudesse me trocar, e agora eu tenho que sobreviver a esses olhares. Eu sei que metade deles não é por causa da mancha — bom, talvez noventa por cento seja por causa da mancha —, é porque eu não sou mais a única virgem da escola. Hahahaha!

Não é engraçado que os seus colegas de escola frequentem a mesma lanchonete ao mesmo tempo e saibam de algo que, aparentemente, devia ser íntimo seu?

Aparentemente.

Meu príncipe, mais conhecido como Hugo Marins, o belo par de olhos verdes, cabelos ruivos, macios como seda, fez questão de contar a todos o que fizemos — e o que não fizemos, porque, segundo o bonito “você não é tão safada quanto eu pensei” para certas coisas. O que deu a ele o direito de inventar — a uns dois sábados atrás.

Minha vida íntima se tornou pública. A história caiu nos ouvidos de todos, TODOS, os professores da escola, me intimaram a ir a diretoria, me forçaram a conversar com a diretora que também é psicóloga, acreditando que eu estava planejando meu suicídio. Chamaram minha mãe depois de eu rastejar no chão implorando pra que não lhe dessem esse desgosto, porque eu não estava dando a mínima para aquela porcalhada toda.

Ninguém me ouviu. Minha mãe foi chamada, meu pai veio em seu encalço. Minha mãe ficou decepcionada, “por que você não me contou que pretendia entrar pra essa vida, Rebeca? Eu teria te aconselhado melhor. Olha o que fizeram como você”. Na mente dela, eu tinha acabado de entrar pra uma seita satânica. Eu só transei com um cara idiota. E nem foi bom, foi apressado. Eu não senti nada além de desconforto. NADA. Decepcionada. Eu disse isso a ele na frente da escola toda, ele não gostou muito.

Ouvi dizer que melhora com o tempo. E com a prática. Acho que o Hugo precisa praticar mais.

Ah, e só pra esclarecer: ele me largou no dia seguinte. Me trocou pela minha prima, a garota que me ajudou a ficar com ele. A que dizia “meu casal” quando nos via chegar juntos na escola.

Quer um conselho? Não confie em quem diz “meu casal” com toda uma intimidade que claramente não existe. É sério. Eu nem era amiga da Danila, a minha prima. O Hugo só acreditou que fosse uma boa ideia pedir a ela pra vir falar comigo. Na minha cabeça, os dois já estavam de enrosco antes de eu entrar de gaiata nessa história.

É por esse belíssimo motivo que eu não estou preocupada com repercussão em cima disso. O Hugo não me forçou a nada, eu não tinha o sonho de que a minha primeira transa fosse a coisa mais perfeita do mundo, eu só queria experimentar. Aconteceu. Descobri que o Hugo é um cachorro e não tão certinho como eu achei que ele fosse.

Se querem saber, ele é quem devia se preocupar com as voltas que o mundo dá, porque a minha consciência está tranquilíssima.

— Olha só quem está aqui — diz Marina, com voz enojada, assim que entramos na lanchonete e sentamos em nossa mesa.

Tenho que levantar a cabeça para ver de quem ela está falando. Imaginei que fosse um dos seus ex’s pra ela usar o seu pior tom, mas Marina só está falando do novo casalzinho do momento: Hugo e Danila, sentados na outra extremidade do lugar, junto da rodinha que os cercam em todos os lugares.

— Que filhos da puta! — resmunga Giulia. Esse é o mais novo xingamento preferido dela. Giulia vai usar ele pelo resto do ano. Muda a cada semestre. Até mês passado era “energúmenos”. Até os professores ela xingava assim. É muito engraçado. Quero só ver quando as aulas retornarem e ela chamar eles de filhos da puta — porque ela vai chamar — e ir parar na diretoria.

— Eu vou querer uma porção grande de fritas e milkshake de chocolate — eu falo, olhando para o menu, que eu já tenho decorado e que é muito mais interessante do que o que está a minha volta. — E é melhor uma de vocês se oferecer pra pagar porque o dinheiro que eu tenho, eu vou levar pra Nova Iorque.

— Então é verdade? — pergunta a voz de satanás. Mais uma vez sou obrigada a levantar a cabeça, não para descobrir quem é a dona, mas porque eu não acredito na petulância da garota. Danila da Silva. — Você vai pra New York?— ela enrola a língua pra ficar com sotaque. — A tia Rosana me contou, mas eu não acreditei. De onde você tiraria dinheiro? Onde você vai ficar?

Dona Rosana já foi fazer fofoca, credo. A mulher não se controla.

— A tia Angelina, conhece? Ela mora lá?

Nas férias do final do ano passado, a mãe da Danila — que é irmã do papai e da tia Angelina —, uma sujeita desequilibrada que adora competir com a minha mãe em qualquer coisa, pediu a tia Angelina pra que convidasse a filha pra passar uns dias com ela. Nossa tia, por outro lado, disse que não poderia porque ia viajar com o marido. Danila deu escândalo por quase um mês. “Eu quero ir pra New York! Que infernooo!” Bem birrenta.

— Ela não vai te aguentar uma semana — dispara. A inveja aqui atinge graus alarmantes. — Aposto que vai te botar em um avião no mesmo dia.

— Ela não vai precisar fazer isso, eu tenho duas pernas que servem pra caminhar. Mas foi ela quem me convidou — dou de ombros —, eu não contaria com isso. Qualquer coisa eu te aviso se a sua macumba der certo.

Ela ri, toda dissimulada.

— Não preciso fazer macumba pra ferrar com a sua vida, Rebeca. Você já é ferrada por si só.

— Claro que não. Você só acha que “roubar” o Hugo de mim é uma grande tacada, mas eu vou te contar um segredo: você me fez um grande favor. Agora sai do meu pé, chulé.

Danila se inclina sobre a nossa mesa e apoia as mãos nela pra ficar de frente comigo.

— Ele diz que eu faço melhor.

Eu fico besta com isso. Gente, é sério?

— Ele disse que me amava — respondo. — Você não passa de mais uma otária, Danila. Cai fora dessa enquanto é tempo.

— E eu é que sou a otária? Você caiu na lábia de um cara que disse te amar menos de duas semanas após o primeiro beijo…?

Penso que responder a isso seja uma perda de tempo, o que faz o meu próximo ato ser ainda pior: eu acerto a minha mão espalmada bem no meio da cara da Danila, que, por sua vez, pula para trás horrorizada. Oh, meu Deus! Eu não fiz isso!

A minha queimando diz que eu fiz sim. Será que foi tão forte assim?

A rodinha dela agora está nos rodeando. Giulia leva a mão a boca e Marina ri. E o restante da turma apenas me olha como se eu tivesse acabado de dar um tiro em alguém.

Adeus ao que restou da minha vida social.

***

Gostaria de saber quem convidou o meu pai para esta conversa familiar. Porque, pelo que eu sei, ele deixou de pertencer a ela depois que trocou a minha mãe, uma mulher trabalhadora, independente, um mulherão da porra, por um projetinho de gente que nem se formou na faculdade ainda.

— Rebeca, você bateu na sua prima? — esbraveja ele.

Estamos eu, ele e minha mãe sentados na sala da nossa casa para debater o que aconteceu. Mamãe levou Lorena pra brincar no parquinho lá embaixo e pediu pra vizinha cuidar dela, pra que ela não escutasse a conversa. Eu preferia estar brincando no parquinho também.

— Alceu, você pode baixar o tom da sua voz, por favor? — sentencia minha mãe. Não é uma pergunta, é uma ameaça. Eu adoro a minha mãe, é sério. O mundo não a merece. — Eu não chamei você aqui pra brigar coma a sua filha, mas pra conversar.

Claro que é culpa dela este homem estar agora na nossa sala de estar — que não é mais dele há dois anos —, me encarando como se eu acabasse ter sido presa por roubar maquiagens no shopping. Nem vou comentar o quão desnecessária é a sua presença nem o fato de a minha mãe ter chamado ele.

— Mãe, você disse que era uma conversa familiar — eu resmungo. — O que esse senhor está fazendo aqui?

— Rebeca, não fale assim do seu pai…

Penso em falar “que pai?”, mas a coisa já está mais que feia para o meu lado, então me limito a grunhir de raiva. Não tem o menor cabimento ela ter chamado ele, eu não matei ninguém — mas queria muito. Não roubei nenhum banco.

— Vai responder por que bateu na sua prima? — questiona ele. O meu pai está mais gordo de que quando o vi na semana passada, já faz um tempo que eu noto que ele vem está usando roupas mais largas, mas só agora percebi que o negócio é bem mais sério. Ele está quase obeso; gordinho ele sempre foi, há fotos da sua infância, adolescência e ele já tinha esses quilinhos. Só que piorou bastante depois do divórcio, parece que o único esforço que ele tem feito é o de sair do sofá para pegar cerveja na geladeira. — Ou eu vou ter ligar pra sua tia dizendo que você não vai mais nessa viagem?

Aí, pegou pesado. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas, claro que o seu Alceu não joga limpo. Ele adoraria pedir que eu devolvesse o dinheiro que ele me deu, mas, mesmo que essa viagem seja cancelada, ele não o terá de volta, nunca mais, nem um centavo.

— Bati porque ela mereceu — eu digo. — E não me arrependo. Se não tivessem tirado ela da minha frente, teria batido mais.

Os amiguinhos da Danila a arrastaram para longe, e o Huguinho veio me perguntar se eu estava louca. Eu respondi que devo ter ficado, pra aceitar transar com ele… acho que se não fosse a Giulia a Marina do meu lado, ele teria me batido. Aí sim, eu teria cometido um crime. Posso apanhar de um homem, mas ele levaria o dobro. Se não de mim, de um mafioso qualquer que aceitasse menos de cem reais pra dar umas pancadas nele.

— Está vendo a sua filha, Rosana? — O meu pai aponta para mim, olhando fixamente para mamãe, sentada em outro sofá. — É essa a menina que vai passar um mês em outro país? Eu vou cancelar essa viagem.

Ele já está pegando o seu celular quando a mamãe diz:

— Vai coisa nenhuma, Alceu. Converse com ela como gente grande. Sabe o que significa a palavra diálogo? A Rebeca vai nessa viagem, eu já comprei as passagens e não tem reembolso. A menos que você queira me pagar o dinheiro que eu gastei.

Está vendo? É a minha mãezona. E ela conhece muito bem todos os pontos fracos desse macho que de alfa só tem o A e o L no começo do nome. Se ele soubesse o quanto as passagens custaram, provavelmente teria um infarte. Eu quase tive um infarte. Não pensei que pudesse ser tão caro.

— Eu bati naquela mequetrefe porque ela estava me insultando por conta do que o Hugo me fez. Eu não tenho sangue de barata. E se mais alguém vier com esse papinho sem noção, vai apanhar também.

— Não é na porrada que se resolve os problemas, Rebeca — critica ele. Falou o cara que vive querendo bater nos amigos só por perder no jogo de sinuca do bar.

— Você, por acaso, já tentou manter uma conversa civilizada com a Danila? — eu pergunto. Desconfio de que nem meu pai saiba o que é uma conversa civilizada, tudo com ele é na base do grito, parece a mamãe. Deve ter sido os anos de convivência, ou foi isso que os uniu. Vai saber. — É uma naja destilando veneno pra todos os lados. Eu não a suporto.

— Só me prometa que vai se comportar nessa viagem.

— Tá ok, eu prometo. — eu digo, enfezada. Não quero perder minhas férias, Deus me livre! — Não é como se eu saísse por aí batendo nas pessoas sem precisão, pai. A Danila que me provocou.

— Está bem. Que horas que você viaja?

Ah não, ah não.

— Dez da noite. Por quê?

— Eu vou te levar até o aeroporto — responde. — Passo aqui às sete. O trânsito no domingo costuma ser uma coisa horrível, e como a sua viagem é internacional vai precisar ainda de mais tempo.

Pior não pode ficar. Ele vai me escoltar até o aeroporto.

Quando ele sai, mamãe diz:

— Viu? Uma conversa educada. — E vai para a cozinha, terminar de lavar a louça do almoço.

Passo o resto da tarde trancada no quarto organizando minha playlist de músicas desconhecidas que eu baixei para poder escutar quando estiver no avião. Escolho artistas que ninguém nunca ouviu falar pra não ficar repetitivo, monto uma lista bonitinha.

Pego livros de romances nacionais que minha mãe costuma comprar nas bancas para mim e revistas de fofoca da Marina, atualizadas.

Eu vou passar mais de doze horas em um avião com gente que eu nem conheço, ainda por cima fazendo paradas pelo caminho, o que só piora, eu preciso levar algo que vá fazer passar o tempo. Baixo umas séries, filmes, jogos no celular. Alguma coisa vai ter que servir pra acelerar a viagem.

Enfim chega o tão aguardado momento e eu preciso fazer com que minha irmã pare de chorar e me largue para que e possar embarcar.

— Lola, você vai me fazer perder o avião — eu digo, tentando desprender os braços da criatura que se agarrou ao meu pescoço e não solta nem por um decreto. Ela soluça no meu ouvido e tenho certeza de que está me babando toda.

— Eu vou ficar sozinha. — Ela me aperta mais. Vou morrer sem folego, pronto. — Não vai, Bec.

Minha mãe agarra ela pela cintura e puxa.

— Lola, vem. Pare de fazer drama, a sua irmã não vai embora pra sempre. Ela voltar no final do mês.

Com muito custo, a pirralha vai com ela.

Giulia e Marina não param de rir.

— Eu quero que você me traga ótimos presentes — diz Marina ao me abraçar.

— Um óculos de sol da melhor marcar está ótimo pra mim — Giulia fala, se juntando ao abraço. — Não acredito que você vai pra Nova Iorque! Isso é tão chique!

— Não é você que vai pra Petrópolis com seus pais? — digo eu. — É só uma cidade como outra qualquer.

— Viu? — Marina aponta o dedo na minha cara. — Nem foi ainda e já está toda besta.

Reviro os olhos.

— E vê se tira muitas fotos — pede Giulia. Ah, sim, fotos é que não vai faltar nessa viagem. Afinal, eu também preciso atualizar meu blog que já está quase mofando de tão abandonado que está. E de que maneira eu poderia revivê-lo senão com cliques perfeitos de uma cidade americana?!

— Rebeca, olha o horário. — Meu pai indica o seu relógio. Meu voo sai daqui duas horas e dez, é mais do que suficiente. Mas ele estava certíssimo; o trânsito não colaborou, saímos de casa sete horas em ponto e levamos cinquenta minutos pra conseguir chegar ao Aeroporto Internacional Pinto Martins.

Dou um último abraço em todo mundo, sem lágrimas — só as da Lorena, ela é muito dramática —, porque eu não vou para outro mundo, estou saindo de férias e não poderia estar mais feliz. Eu me dirijo a fila para fazer o check-in que é enorme, apesar de ser domingo de noite, mas não me importo. Porque…

Ai, meu Deus. Eu estou indo pra Nova Iorque!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.