When you get back on a Saturday night

And the room is caving in

Do you look like me? Do you feel like me?

Do you turn into your effigy?


Do you dance like this forever?


Tranz

Gorillaz


9 de fevereiro de 2026. Inhumas, município no estado de Goiás, distante cerca de 35 a 45 km da capital Goiânia. Nascia a pequena Mia, filha do casal Leonora e Lorenzo. Veio ao mundo logo pela manhã, saudável e cercada de atenção. Por consideração à amizade que tinham com Xiao Mei, os dois fizeram questão de convidá-la para conhecer a bebê quando retornassem para casa. Xiao Mei aceitou imediatamente, feliz por ter sido lembrada.


Naquele mesmo dia, ela também havia feito algo importante para a própria vida: matriculou-se no Bacharelado em Ciência e Tecnologia de Alimentos no Instituto Federal de Goiás Campus Inhumas. Estudaria à noite depois do expediente na padaria. Seria uma rotina cansativa, disso ela sabia. Acordar cedo, trabalhar o dia inteiro, pegar ônibus e ainda enfrentar aulas até tarde da noite. Como Raví Pereira, seu amigo viciado em League of Legends, diria: “dormir não dá experiência, mesmo”. E Xiao Mei não queria continuar sendo apenas uma atendente, a “a menina da padaria” pelo resto da vida.


Imagina poder comprar um bom computador gamer para jogar durante todas as suas férias com seu melhor amigo? Raví Pereira era o seu melhor amigo, e eles raramente jogavam juntos. Ainda mais que ela se identificava um pouco com o Sett...


E o curso de Ciência e Tecnologia de Alimentos prometia formar profissionais dotados de conhecimentos técnico-científicos na área de alimentos, para atuarem na obtenção, transformação e beneficiamento das matérias-primas de origem animal e vegetal. Tem muito mercado de trabalho, eles disseram. Inclusive, poderia evoluir na própria padaria que já trabalha há anos.


Alguma coisa de útil precisava aprender a fazer. Afinal, poderia garantir estabilidade para sempre na padaria? Seu emprego estaria garantido até a aposentadoria? Vai saber. O mundo mudava rápido demais. As pessoas eram descartadas rápido demais.


Xiao Mei também nunca se enxergou como uma mulher especialmente bonita. Pelo menos não dentro do padrão que parecia existir em qualquer lugar do mundo. Na Ásia era assim. No Brasil também. Onde quer que fosse, sempre existiria alguém pronta para chama-la de gorda mesmo ela nem estando tão acima do peso assim. Não era alta, elegante e magra como uma Gisele Bündchen. Às vezes, observava garotas perfeitas nas redes sociais e se perguntava se algum homem olharia para ela daquela forma algum dia.


Sendo que uma moça adulta, com 1,60 de altura e 70 kg não estaria tão ruim assim, estaria? Ainda mais trabalhando o dia todo com comida gostosa. Estaria tão ruim assim? Mesmo sendo a estilosa da padaria, com suas mechas roxas que se destacavam quando o vento tocava em seus cabelos? Não poderia pensar apenas nisso.


Na volta da matrícula, passou em uma lojinha simples do centro e comprou um ursinho de pelúcia pequeno e fofinho para Mia. Depois foi direto para o trabalho, onde passou o resto do dia atendendo clientes normalmente, embalando sonhos e broas de sal e de doce, cortando frios e ouvindo conversas alheias.


Xiao Mei notou algo diferente naquela semana, o que não era nada de ruim: clientes diferentes passaram a frequentar a padaria. Turistas? Talvez. Turistas sempre seriam bem vindos, para conseguirem girar mais o comércio na cidade.


Homens altos, sérios, bem vestidos. Algumas mulheres elegantes também apareceram por lá usando perfumes e óculos escuros enormes e coloridos. Eram tão estilosas! Não tinham cara de moradores dali.


Todos cochichavam, como bons fofoqueiros que eram. Quem eram aquelas pessoas? Por que pareciam ter vindo diretamente da Europa para aquele bairro tão comum de Inhumas? Ninguém sabia responder.


O sábado, 14 de fevereiro, finalmente chegou. Sem se esquecer de deixar sua localização para Raví, como sempre fazia por segurança, Xiao Mei foi visitar a família Mancini levando o ursinho de pelúcia para Mia e uma pequena cesta de pães preparada pela padaria. Era algo simples. Durante o caminho inteiro, ficou preocupada imaginando se uma família tão sofisticada consideraria o presente pobre demais. Contudo, Leonora abriu um sorriso tão sincero ao ver a cesta que Xiao Mei quase ficou sem reação.


— Como você adivinhou? Eu amo essas cestas de pão! E tem broa de sal!


— E agora não é exatamente época de você se preocupar com dieta —comentou Lorenzo com um sorriso divertido. — Pode aproveitar à vontade.


A conversa seguiu leve e agradável. Mia dormia tranquilamente no colo da mãe enquanto os três conversavam sobre assuntos comuns do bairro, sobre noites mal dormidas com recém nascidos e sobre como a bebê era bonita.


Xiao Mei nunca mais tocou no assunto do suposto tiro ou qualquer outro assunto desagradável. Nem queria. Havia escutado outras coisas, e discutir aquilo era perda de tempo.


Mesmo assim, enquanto observava discretamente a casa, percebeu detalhes difíceis de ignorar. Algumas partes das paredes pareciam recém reformadas. A tinta era um pouco mais nova em certos pontos. Pequenas diferenças que talvez ninguém notasse.


Ela não perguntou nada. Só ficou pensando quantas balas poderiam ter atingido aqueles lugares. Não estaria sendo gamer e dorameira em excesso, será? Raví já havia a alertado sobre isso. Primeiro ponto: parar de ser tão fanática por Vincenzo. Segundo ponto: parar de querer viver tanto em um mundo de fantasia. Por mais que a vida real seja um completo tédio, ainda é a vida real.


E Raví já tinha reparado em algo irônico na vida de Xiao Mei. No âmbito do trabalho, Xiao Mei conseguia ser a pessoa mais sociável, doce e autônoma possível. Além de fofoqueira profissional, claro. Entretanto, era a sua própria concentração que fazia isso, como se fosse um alter ego que a dominasse para o bem de seus boletos a serem pagos.


Quem a visse vivendo como uma jovem comum, fora do trabalho, mesmo nas instituições de ensino, ela era simplesmente a Xiao Mei nervosa de sempre. Tímida. Excelente profissional, excelente vendedora que conseguia convencer qualquer pessoa a comprar o mundo em poucas palavras, ao mesmo tempo que ela sentia a tristeza de não poder comprar o mundo ela mesma. O conseguir arquitetar um plano de dominação mundial a ser vendido por qualquer um disposto a comprar.


Tudo talvez porque Xiao Mei não seja facilmente impressionável. Gostar de fofocas por gostar, gostar de fofocar porque é divertido rir da desgraça alheia, não por se impressionar. Não se impressionar facilmente nos deixa mais realistas, já que tudo realmente pode acontecer, mas deixa tudo extremamente monótono. O que é qualquer novidade para quem está acostumado com o arco íris no céu? Impressionar não é a mesma coisa de não temer, quando o perigo está perto.


Como a gente espera inclusive o perigo a cada esquina, então a gente se prepara psicologicamente para ele. O Gabinete de Curiosidades de Guilherme Del Toro poderia estar em qualquer lugar. Ou melhor, O Conto de Aia e Hannibal Lecter poderiam estar em qualquer lugar, com “monstros” escondidos no peito de qualquer pessoa.


Não ser facilmente impressionável nos tornaria realistas, ao mesmo tempo que gostaríamos de fazer parte de um dorama, para sair dessa rotina tão monótona. Felizmente, era um sentimento que Raví e Xiao Mei entendiam perfeitamente.



See yourself in Cupid's lake

Chipped in your head

Do you indicate to satellites

Passing by the edge?



Final de março de 2026. Xiao Mei já frequentava a faculdade todas as noites, desde o início do mês. Saía da padaria completamente esgotada, com cheiro de pão e café grudado na roupa, e seguia direto para a universidade carregando xerox e olheiras, as quais rezava para que nunca se tornassem profundas. A rotina compensaria, não significando que não se tornaria cansativa e que acabaria esquecendo muito de suas fantasias.


Não teria mais tanto tempo para ser dorameira, embora sentisse falta disso quase todos os dias. Às vezes chegava em casa querendo apenas deitar na cama e rever Goblin pela milésima vez, chorando pelas cenas românticas como se fosse a primeira. Ou então assistir novamente Beleza Verdadeira enquanto comia besteiras escondida de madrugada.


Rainha das Lágrimas ainda permaneceria intocada na sua lista. Talvez nas férias. Talvez quando sua vida deixasse de parecer um eterno ciclo de trabalho, ônibus e sono mal dormido.


Felizmente, ainda existia uma coisa que ainda conseguia lhe dar energia: fofoca. Mesmo em seu curso, a chinesa conseguia ter algumas fofocas: alunos que se odiavam, turmas que perdiam visitas técnicas graças às piadinhas de mal gosto, casais de namorados e muito mais.


Xiao Mei amava ouvir as histórias absurdas dos clientes da padaria. Casamentos fracassados de desconhecidos, traições mal escondidas, brigas entre famílias, vizinhos que sumiam do nada, comerciantes falidos, amantes secretos. Tudo parecia interessante para ela. Às vezes, era questionada de por que não entrou em um curso de jornalismo, pois ela teria inúmeros furos para reportagens.


Conforme Raví, Xiao Mei logo se tornaria uma repórter famosa, onde seria reconhecida como a maior jornalista investigativa da televisão brasileira. Seu rosto aparecia em todos os canais. Universidades disputavam sua presença em palestras. Podcasts imploravam por entrevistas exclusivas. Estudantes a observavam como se fosse uma lenda viva do jornalismo contemporâneo.


As pessoas comentariam:


“Ela desmascarou políticos.”


“Ela solucionou crimes.”


“A Xiao Mei é praticamente imparável.”


Na imaginação de Raví, até sua postura mudava. Usava roupas elegantes, maquiagem impecável e falava diante das câmeras com uma confiança quase intimidadora. Nem parecia a garota cansada que passava o dia inteiro servindo café e pão francês. Só que Xiao Mei gostava demais de trabalhar com a indústria alimentícia. Era uma dualidade de querer sair daquela vida de apenas atendente de padaria com amar aquele cheiro.


Naquela manhã, a realidade ainda era a velha padaria de sempre. O cheiro de pão quente tomava o ambiente enquanto os clientes fofocavam perto do balcão. E aquela fofoca era do estilo que mais interessava Xiao Mei:


— Xiao Mei! É verdade que a Leonora engravidou de outro homem? — Questionou Joana, naquela pergunta típica das senhoras que moram no interior e não perdoam absolutamente ninguém. Segredo nenhum era tão secreto para essas senhoras idosas.


— Uai, amiga, se isso for verdade, eu não fiquei sabendo, não. A Mia é a cara do pai. Teria traído com quem?


— Menina, tá rolando esse rumor pelo bairro todo! — Respondeu Duda, irmã mais nova de Joana.


— Eu vejo a Leonora se matando de trabalhar. Não imagino ela com tempo nem para o próprio marido! Ela venceu um processo criminal recente paras vítimas daquele caso horrível. Foi a Leonora quem colaborou diretamente com a polícia na prisão de Benjamin Rothschild.


— Aquele assassino em série que aterrorizou Goiânia?


— Sim, ele mesmo. Sorte que ele tava lá na capital, não por aqui. O Benjamin que matou aquelas estudantes jovens. Dizem que a investigação dela encontrou padrões que nem a polícia tinha percebido ainda. Depois da captura, deportaram ele pra Inglaterra, que era o país de origem dele.


As clientes ficaram em silêncio por alguns segundos, como se apenas mencionar o nome do criminoso deixasse o ambiente árduo. Como um assunto desses não pesa o clima?


Após um breve momento, Joana suspirou e decidiu questionar em voz mais baixa:


— Xiao Mei... sua vizinha já perdeu algum processo na vida?


A jovem levantou os olhos lentamente.


— Aliás — continuou a cliente — você já reparou que todos os inimigos daquele casal acabam mortos, presos ou deportados?


Xiao Mei continuou a encarando e não respondeu. Como contrariar aquela ideia? Preferiria não resmungar sobre os tiros que ouviu. Só continuou embalando os pães em silêncio enquanto sentia um desconforto estranho crescer dentro do peito. Talvez fosse coincidência. Quantas coincidências deixavam de parecer coincidências?


Cultivate your hunger, before you idealize

Motivate your anger, to make them all realize

Climbing the mountain, never coming down

Break into the contents, never falling down


Akeboshi


Talvez fosse coincidência. Quantas coincidências deixavam de parecer coincidências?


Xiao Mei pensava nisso enquanto conectava o celular no Wi-Fi da universidade federal antes do início da aula. O campus estava barulhento naquela noite, cheio de estudantes cansados carregando mochilas, copos de café (mesmo às 19 horas) e sonhos ambiciosos demais para quem dormia tão pouco. Alguns riam alto pelos corredores. Outros reclamavam de provas e professores. A vida seguia normalmente para todo mundo.


Menos dentro da cabeça dela.


Ao conectar no Wi-Fi, decidiu abrir os sites de notícia rapidamente. Sua intenção era dar uma olhada rápida, até que o rosto de Leandro Souza aparece novamente estampado nas manchetes.


No início do ano, Leonora havia comentado casualmente que odiava Leandro. Na época, Xiao Mei não deu tanta importância. Afinal, metade da cidade parecia odiar alguém. Todo o estado de Goiás sobrevivia de desafetos políticos, traições e fofocas mal escondidas. Em Inhumas, não seria diferente.


Na notícia, Leandro era acusado de assassinar a própria esposa.


À primeira vista, o caso parecia apenas mais um crime passional daqueles que a imprensa transforma em espetáculo. Conforme algumas versões divulgadas, Leandro alegava ter descoberto uma traição. Um casamento que antes parecia perfeito teria se tornado um inferno particular. Pelo menos era essa a narrativa que aparecia nos jornais sensacionalistas.


Só que existia um problema: muitos detalhes não encaixavam.


Havia provas indicando que Leandro sequer estava próximo de casa no momento da morte da esposa. Câmeras, registros e testemunhos pareciam sustenta-lo, indicando que ele estava na capital na data do assassinato. E mesmo assim, pouco a pouco, toda a opinião pública começou a virar contra ele. Os jornais o tratavam quase como um monstro. Leonora insistia que ele tinha ligação com a máfia.


Xiao Mei conhecia Leandro havia anos. Claro que a chinesa preferia não ter opinião em primeira instância, apenas enviando o link da notícia no WhatsApp de Raví. Nada poderia dizer a ela que Leandro não era ciumento; apenas sabia que ele frequentava a padaria praticamente desde que ela começou a trabalhar lá. Sempre conversador, sempre sabendo das melhores fofocas da cidade.


Qual empresário sonegava imposto? Qual loja lavava dinheiro? Qual político traía a esposa? Leandro sabia de tudo e adorava contar, plausível de ter sido o motivo para alguma vingança.


A proximidade entre os dois aumentou ainda mais quando ele se elegeu vereador em 2024. Apesar de ter perdido força política depois, muita gente acreditava que ele teria grandes chances nas eleições de 2028. Xiao Mei votou nele em 2024 e havia prometido votar nele no futuro.


Leandro falava constantemente sobre educação pública, melhorias urbanas e segurança nos bairros mais pobres. Parecia genuinamente preocupado com a cidade. Ou talvez fosse apenas bom demais em convencer pessoas, tão bom quanto Xiao Mei era boa vendedora. Vai saber?


O problema era que Leonora também parecia sempre certa.


Os dias passaram rápidos. A cobertura jornalística crescia cada vez mais. Programas policiais discutiam o caso diariamente. Na faculdade, alguns professores chegaram a comentar o assunto nos intervalos das aulas.


Então veio a notícia da prisão. Depois, a pior de todas: no dia 26 de maio, Leandro Souza morreu na cadeia. Suicídio.


Quando Xiao Mei leu aquilo na tela do celular, ficou parada por longos segundos sem conseguir reagir. O barulho da universidade pareceu desaparecer completamente ao seu redor. Só restava o vento entrando pela janela entreaberta da sala vazia, junto ao murmúrio distante da cidade, quase respeitando aquele momento.


My knee is still shaking like I was twelve

Sneakin' out the classroom, by the back door

A man railed at me twice, though

But I didn't care

Waiting is wasting, for people like me


Don't try to live so wise

Don't cry cause you're so all right

Don't dry with fakes or fears

'Cause you will hate yourself in the end


Início de junho chegou trazendo um cansaço quase insuportável para Xiao Mei. A faculdade consumia suas noites, a padaria consumia seus dias e até suas pernas pareciam mais pesadas ultimamente. Sua mãe dizia que ela precisava dormir mais. Xiao Mei achava que precisava era de umas trinta horas extras por semana.


Naquele primeiro final de semana do mês, resolveu visitar os pais. Fazia tempo que não passava mais de algumas horas com eles. Assim que entrou na casa da família, ouviu imediatamente a mãe reclamar que ela estava trabalhando demais e se alimentando mal.


Engraçado. Na rua, chamavam Xiao Mei de fofinha, com aquelas coxas grossas. Em casa, sua mãe insistia que ela estava abatida e sem comer direito. Afinal, qual era a verdade? Às vezes nem ela sabia mais como enxergar o próprio corpo.


Durante o almoço, a mãe colocou comida demais no prato dela como sempre fazia. Xiao Mei reclamou, embora comesse tudo mesmo assim, como uma garotinha de 8 anos super obediente. Gostava daquela sensação de conforto que só comida caseira feita por mamãe conseguia trazer. O pai perguntou sobre a faculdade, perguntou se os colegas eram legais, perguntou se o curso realmente daria dinheiro e emprego algum dia.


— Assim a gente espera, pai, considerando que uma coisa que nunca poderá faltar em nossas mesas é comida. Até roupas podem faltar em dias quentes, mas água e comida?


— E nossa filha Xiao Mei sempre gostou de estudar. Vai dar certo em qualquer carreira e concurso — defendeu prontamente a mãe — e logo vou ver meu sonho se cumprindo de ver essa garota se tornando importante para a sociedade. Mais importante do que já é! Uma mulher respeitada por todos, como toda mulher já deveria ser.


Infelizmente, o sábado passou, e domingo também passou rápido demais para a família. Quando voltou para casa naquela noite, o bairro estava silencioso e quase vazio. Xiao Mei caminhava devagar pela rua, cansada, segurando a bolsa contra o corpo enquanto tentava ignorar a dor nas costas.


Então ouviu.


Bang.


O barulho seco veio claramente da casa dos vizinhos. Ela congelou. Nunca foi conhecida por ser medrosa, por encarar muitas brigas quando necessário. Encarar arma de fogo nunca havia sido necessário antes.


Mais um disparo ecoou logo depois, abafado pelas paredes da residência dos Mancini. Eles tinham painéis acústicos em algumas de suas paredes, o que permitia a vizinhança ignorar os raros sons emitidos pela casa da família. As balas não poderiam ser ignoradas pela chinesa, cujo coração batia rápido. Não podia ser impressão outra vez. Não podia estar sonhando enquanto ainda estava completamente acordada no meio da rua.


Então veio um terceiro som. Mais baixo, que Xiao não conseguiu identificar.


Com as mãos trêmulas, entrou em casa, pegou o celular e chamou a polícia.


A viatura apareceu alguns minutos depois. Dois policiais desceram sem pressa alguma, como se estivessem atendendo apenas mais uma ocorrência banal da madrugada. Xiao Mei explicou nervosamente o que tinha ouvido, apontando para a casa de Lorenzo e Leonora enquanto tentava organizar as palavras. Eles poderiam genuinamente estar em perigo, caralho! Então por que diabos os policiais pareciam tão calmos naquela porcaria de casa?


Os policiais foram até o portão da residência. Lentos demais, para a garota que havia pedido ajuda. Conversaram rapidamente com alguém lá dentro. Depois voltaram, com uma resposta que veio seca quanto eles chegaram lentos e calmos.


— Não aconteceu nada.


— Mas eu ouvi os tiros! Eu tenho certeza!


O policial suspirou, visivelmente irritado.


— Moça, você trabalha demais, estuda demais... isso mexe com a cabeça.


O outro quase sorriu.


— Vai ver sonhou de novo.


Sonhou. De novo aquela palavra.


— Certo, não vou discutir com vocês. Só me digam se eles estão bem!


Xiao Mei ficou parada observando a viatura ir embora lentamente pela rua escura, sem sequer responderem a sua pergunta. A casa dos Mancini continuava silenciosa, elegante e perfeitamente normal por fora. Nenhuma movimentação estranha. Nenhum grito. Nenhum sinal nítido de violência.


E talvez realmente não houvesse nada errado, mas ligou para eles mesmo assim. Estavam bem, e não havia nada de errado. O que haveria de errado com Lorenzo e Leonora? Eles eram ricos, educados e influentes. Moravam ali apenas por gostarem da região e por terem maior clientela, pois tinham uma mansão chique em Rio Verde. Tinham uma filha pequena. Leonora ajudava vítimas e colaborava com a polícia. Lorenzo era sempre gentil com os vizinhos.


Então por que tantas pessoas ao redor deles acabavam mortas, presas ou simplesmente desapareciam? E por que Xiao Mei parecia ser a única pessoa que escutava aqueles tiros?


Então, a jovem lembrou-se de algo que seu amigo Raví havia lhe contado brevemente alguns meses antes. Ao conversar com ele mais uma vez, Raví explicou sobre um segredo que, na verdade, não era tão secreto assim. Apenas evitavam comentá-lo em voz alta, como se certas palavras, quando pronunciadas, fossem capazes de atrair olhares indesejados.


Para começar, Leandro costumava falar mal dos outros com frequência, quase como se tentasse esconder as próprias imperfeições atrás dos defeitos alheios. Era um comportamento que Raví associava a muitas figuras públicas: apontar erros alheios para desviar a atenção dos próprios. O problema era que, ao redor de Leandro, circulavam rumores muito mais sombrios. Comentava-se que ele mantinha ligações perigosas e que sua vida era marcada por conflitos, desentendimentos e interesses obscuros. Raví nunca teve acesso a informações concretas ou detalhadas, apenas sabendo que havia algo de inquietante naquela história. Uma hipótese: concorrentes no tráfico de cocaína e maconha que destruíram a sua vida. Concorrência que Xiao Mei nunca imaginara. Leandro não gostava tanto de afirmar que era um filantropo e dono de uma ONG que auxiliava dependentes químicos?


Raví trabalhava como jornalista cultural, acostumado a lidar com livros, exposições, filmes e memórias. Não à toa gostava tanto de ser gamer, por vezes tendo a possibilidade de falar de seus jogos eletrônicos favoritos. Seu irmão, Sandro Augusto, porém, seguia um caminho diferente. Como jornalista investigativo, passara anos reunindo informações, cruzando relatos e examinando histórias que muita gente preferia manter enterradas. Entre os nomes que surgiam repetidamente em suas pesquisas estavam Lorenzo e Leonora.


O medo, silencioso e persistente, acabou se tornando uma companhia constante na vida de Sandro. Com o passar do tempo, decidiu mudar-se para o Chile, buscando distância de pessoas e situações que considerava perigosas. Ainda assim, algumas histórias pareciam atravessar fronteiras com a mesma facilidade que o vento atravessa uma janela entreaberta.


Segundo relatos e comentários que circulavam entre jornalistas e fontes, Lorenzo e Leonora teriam ligações familiares com grupos criminosos originários da Itália. A 'Ndrangheta, frequentemente apontada por especialistas como uma das organizações criminosas mais influentes do mundo, tem suas raízes na região da Calábria e ficou conhecida por sua atuação internacional no tráfico de drogas. Cocaína era o item de maior comercialização, contendo também comercialização de maconha, LSD e ecstasy. A família também era dona de uma rede de bares, que comumente mantinha uma fachada bonita com luzes neon ou placas extravagantes que convidavam a todos para dançar e tomar uma boa cerveja. Por trás das cortinas, era um ponto de venda de ecstasy e prostituição.


Diversas investigações e estudos ao longo dos anos sugeriram conexões entre organizações criminosas de diferentes países, incluindo grupos atuantes no Brasil, formando redes complexas que se estendiam por portos, fronteiras e continentes inteiros.


Pensar em tudo aquilo causava um desconforto difícil de explicar. Era como observar uma tempestade distante no horizonte: mesmo sem ouvir os trovões, era possível sentir o peso das nuvens se acumulando. Combater estruturas tão vastas parecia uma tarefa quase impossível. E talvez fosse justamente essa sensação de impotência que tornava tudo ainda mais assustador.


Xiao Mei lembrou-se de algo que ouviu de sua avó e escreveu para Raví: “minha avó falava que era melhor ser amiga dos bandidos do que ser inimiga deles. Sinto saudades daquela baixinha, às vezes.


Raví respondeu: “e justamente por ser uma mulher pequena e frágil que ela se preocupava ainda mais com ser alvo de ataques, e deu a mesma dica para você. Continue sendo a vizinha meiga deles, guria. Meiga e a mesma fofoqueira de sempre para eles não estranharem, só maneire os seus assuntos. Qualquer coisa, diga que só se preocupou com a segurança da Mia, ao ouvir o som dos tiros.


E a preocupação com Mia era genuína.