A Mensageira
12 Dia #20 - Abstração
Notas iniciais
Naquele instante de pura hesitação, segurando as mãos de um homem com tanto charme, cujo olhar donaire espelhava expectativa (“do que?”, pergunto-me), a realidade finalmente me castigou: Cíntia, minha irmã, estivera, de alguma forma, envolvida com minha despedida de Moscou. Pouco posso pensar, mas sei que deve ter seus motivos. Só não me conformo.
– Cíntia — começou enquanto andávamos — Perdoe-me, ela é uma vaca.
– Concordo — disse prontamente — Quero esganá-la sem demoras.
Um corcunda surgiu, fantasmagórico, frente à porta, abrindo-a antes mesmo de batermos. Ele murmurou algo. Então pôs-se a ficar em silêncio, encarando Dimitri. Havia um vazio em seus olhos. Permitiu minha passagem e apontou para o centro da sala.
Lá dentro estava frio. Tão frio quanto fora.
O corcunda se aproximou e sentou.
– O que faz uma moça tão linda às duas da matina?
– Está desempregada.
– É uma pena — eu senti um tapa tão forte que doeria por horas.
– Faça-me um favor — Dimitri chamou-o para um canto da sala e ambos conversaram por alguns minutos.
Eu não tinha noção do que significavam as olhadas, os dedos apontando, as risadas calorosas e os acenos entre si, mas funcionaram.
– Está contratada — sorriu inspirando entusiasmo.
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