A Menina que não Sentia Dor
1 oneshot
Aqui estou, com os olhos cobertos por uma venda, na boca uma mordaça que impedia que eu disse-se qualquer palavra, uma camisa de força impedia que eu me movimentasse direito, a única coisa que eu fazia o dia inteiro era ficar sentada encostada naquela parede branca e acolchoada.
Não, eu não sou louca como todos devem estar pensando, mas eu acho que a minha sanidade não é mais a mesma desde que eu entrei aqui.
Eu apenas não sinto dor.
Todos que pensam que não sentir dor é ótimo estão muito enganados, por exemplo, eu poderia ter minha perna arrancada por um tubarão agora que só me daria conta quando estivesse morta.
Isso é uma espécie de doença genética sem cura, que faz com que o canal de comunicação que liga o resto do meu corpo com o meu sistema nervoso não funcionem, ou seja, os sinais de dor não são enviados ao meu cérebro.
Estou internada nesse lugar desde os meus 3 anos, não sei quanto tempo se passou desde então, mas acho que foi muito tempo.
Até hoje me lembro do dia em que fui deixada aqui
Uma mulher morena de cabelos lisos usando roupas de grife dirigia um carro caro com presa, no banco de trás uma garotinha loira perguntava onde estavam indo.
A mulher parou em frente a um grande prédio e desceu do carro, entrou na construção deixando a filha atordoada dentro do carro. Depois de alguns minutos ela volta acompanhada de algumas mulheres vestidas de branco, ela abre a porta traseira do carro e as mulheres de branco pegam a garotinha
-Mamãe quem são elas? Mamãe onde estão me levando?- perguntava a menina assustada
-Você nasceu com defeito- disse a mãe friamente
-Defeito?- disse a menina confusa
-É, eles vão tentar te consertar-disse a mãe fechando a porta de trás,entrando no carro e indo embora sem ao menos se despedir da filha
Depois daquilo me levaram para dentro do lugar, fizeram vários tipos de exames em mim, depois me colocaram na mesma sala em que estou hoje, a venda em meus olhos é para que eu não os cutuque até ficar cega, como uma garotinha americana, que tem a mesma doença que eu, que cutucou o olho esquerdo até tirá-lo fora, pelo menos foi isso que me contaram. A mordaça em minha boca é para que eu não morda minha língua até arrancá-la, como a maioria dos insensíveis a dor faz, a camisa de força impede que eu me movimente e acabe quebrando algum osso, mas eles só a colocam quando está frio, aliás, eu também não sinto frio, muito menos calor, posso ser queimada viva que só irei perceber quando morrer, quando a temperatura está normal eles enfaixam as pontas dos dedos da minha mão esquerda para que eu não me arranhe. Eu não tenho a mão direita, ela teve que ser amputada depois de ser esmagada por um piano quando eu tinha 2 anos de idade, só me dei conta que ela não estava mais junto ao meu corpo quando acordei no hospital.
Minha família descobriu que eu era insensível a dor quando eu tinha alguns meses de vida, eu estava emagrecendo muito, pois não sentia fome e não chorava pedindo comida. Minha mãe me levou a um médico, ele fez diversos testes em mim e diagnosticou minha deficiência, naquele dia minha mãe surtou, chorou muito, berrou alto, quebrando tudo em casa. Ela levou alguns meses para aceitar, mas desde então me tratava muito pior do que antes, somente meu pai me tratava bem e tinha todo o cuidado para que eu não me ferisse, eu me lembro de que um dia antes dela me trazer para esse lugar, meus pais tiveram uma briga feia, a ponto de meu pai dar um tapa na cara da minha mãe. Lembro-me dela me acordar no meio da noite segurando uma garrafa de vidro em uma das mãos, sua bochecha estava inchada e ela sorria de forma macabra, quando ela estava prestes a acertar a garrafa em minha cabeça ela parou, pensou um pouco e disse:
- Ah, claro, você não sente dor certo sua vadiazinha?
Então, ela pegou o telefone sem fio que estava no criado mudo ao lado da minha cama discou algum numero e saiu do quarto.
A vida aqui é entediante, não posso fazer nada além de pensar, toda semana eles mandam uma médica aqui para me examinar e ver se está tudo certo comigo, algumas vezes ela me trás documentários sobre pessoas assim como eu, mas elas não estão internadas em um lugar horrível, elas vivem normalmente, só tomando mias cuidado
-Ei, por que elas não estão em um lugar como esse?- pergunto a médica com todo o cuidado para não morder minha língua, logo que o documentário acaba
Ela ficou calada por alguns minutos, em seguida virou-se e me disse com a voz fria
-Por que tem pessoas que preferem prevenir a remediar- em seguida ela virou e saiu do quarto
Fiquei pensando nisso desde aquele dia, aquela médica era tão legal comigo, quando estava junto dela era o único momento em que tiravam a venda de meus olhos e a mordaça de minha boca.
Depois daquilo a médica foi substituída por um médico, eu me sentia um pouco constrangida quando ele me examinava, e ele nunca dizia uma só palavra.
A vida lá foi ficando cada vez mais tediosa, eu queria voltar para casa, quem sabe meu defeito já tenha sido consertado.
Passei semanas pensando em um jeito de fugir, até que um dia, os faxineiros foram fazer a limpeza no quarto, silenciosamente me esgueirei pra fora do quarto, retirei a venda de meus olhos com cuidado. Então eu corri o mais silencioso que consegui pra fora daquele lugar, por sorte os corredores estavam todos vazios, sai do prédio, finalmente, Liberdade! Minha visão ainda estava ofuscada pela luz intensa, acho que os olhos de uma pessoa normal deviam estar doendo. Parei na calçada, tinha que pensar rápido, logo descobririam que fugi. Corri para a direita, todos estavam estranhando uma menina usando uma camisola branca e uma mordaça no meio da rua. Corri o mais rápido que pude, até encontrar uma praça escondida, me sentei em um dos bancos e respirei com dificuldade, tinha corrido muito. Tirei a mordaça da minha boca com um pouco de dificuldade, pois não tinha uma das mãos, com cuidado dobrei a língua para trás e abri e fechei a mandíbula varias vezes. Olhei em volta, aquela praça me era familiar. Levantei-me e caminhei calmamente pela rua, fui olhando dentro das casas, então parei em uma casa luxuosa que ficava na esquina da rua dos astronautas
-Rua dos astronautas, numero 855 – sussurrei para mim mesma
Era ali.
Aquela era minha casa.
O portão estava fechado, mas não trancado, eu o abri devagar, atravessei os luxuosos jardins com pressa, sem prestar atenção no que pisava, então cheguei à porta da casa, abri sem hesitar. Estavam todos na sala, minha mãe, meu pai e uma menininha loira que eu não conhecia, todos olharam assustados para mim
-Pai! Mãe! Eu voltei!- disse muito feliz
Todos ficaram em silencio por alguns minutos, então minha mãe perguntou
- Quem é você?
Como assim? Ela não reconhecia sua própria filha?
-Sou eu! Sua filha!
Ela fez uma face de interrogação, depois de um tempo arqueou as sobrancelhas e disse séria:
-Não, você não é minha filha, meus filhos são perfeitos ao contrario de você, Você nasceu com defeito
-M-mas, me concertaram! Veja só! Ai!- exclamei enquanto me beliscava e fingia sentir alguma coisa
-Não, olhe- disse ela apontando para os meus pés
Eles estavam cobertos de sangue e alguns restos de galhos de roseira
-Você não tem mais conserto, vai ser imperfeita pelo resto da vida.Agora vá embora daqui, é falta de educação invadir a casa dos outros- disse ela friamente, meu pai e a menina observavam a cena calados
Eu abaixei a cabeça, algo pingava de meu rosto, passei a mão e percebi que eram lagrimas
-Ainda não saiu?- disse ela
Eu me virei e corri, corri o máximo que pude, queria voltar para um lugar onde me consertassem, eu só queria viver com a minha família de novo.
Eu não olhava para onde corria, às vezes eu olhava pra baixo e via meus pés sangrando ainda mais, trombei com um ciclista, ambos caímos no chão, ele me xingou de coisas que eu não conhecia eu tentei me desculpar, mas eu mordido minha língua sem que percebesse e ela estava completamente mutilada, cuspi no chão meu sangue e os pedaços da minha língua, continuei correndo com a boca aberta e o sangue escorrendo pelo meu queixo descendo até o pescoço. Passei pela beirada de um barranco e tropecei em uma pedra, meu pé estalou alto, eu tentei andar, mas meu pé estava fraco, eu acabei rolando barranco a baixo e caindo dentro de um rio. Fui arrastada pelo rio por mais ou menos um quilometro, não conseguia gritar, me faltava ar, bati em varias pedras, e via a água ficar cada vez mais vermelha ao meu redor. Consegui me segurar às margens do rio, eu tinha que sair de lá e voltar para o lugar aonde iam me consertar. Minha visão começou a ficar turva, eu respirava com dificuldade, vi algo parecido com uma corda, a segurei com firmeza, vi meu braço tremer freneticamente, comecei a sentir frio
-Estou concertada- eu disse, ou pelo menos tentei dizer, minhas ultimas palavras
Fale com o autor