A Menina Morte
14 Um novo irmão
Notas iniciais
A Lâmia é meio idiota de deixar a chave cair, mas agora o desafio era pegá-la. Eu estava ha alguns metros de chave, se eu tentasse me esticar eu poderia alcança-la.
Tentei jogar meu corpo para frente, mas ele ficou suspenso a centímetros da chave. Eu precisava tirar as algemas para conseguir pegar a chave.
Olhei em volta e a única coisa que achei que poderia usar era um abajur, mas mesmo este estava longe do alcance das minhas mãos. A única coisa que me restava era tentar esquentar as algemas com atrito e tentar arranca-las a força.
Decidi que iria tentar com o punho direito, pois seria mais fácil de tirar das algemas e pegar o abajur.
Comecei a girar o punho o mais rápido que conseguia. O lado ruim é que a pele sensível de meu punho começou a arder, depois foi rasgada e sangue começou a escorrer. A dor era agonizante, mas já estava na hora de tentar tirar aquelas algemas, e esse era o único jeito.
Comecei a puxar meu braço na direção contrária da algema que começou a se deslocar e apertar minha mão. Ela não queria passar, mas ela precisava sair. Forcei mais e ouvi um clack. Era um de meus dedos quebrando.
A dor percorreu meu braço e eu reprimi um grito mordendo minha boca o forte que consegui. Senti um gosto de sangue.
O resto da algema foi fácil de tirar, faltavam só a pontas dos dedos. Finalmente poderia alcançar o abajur.
Estiquei-me para alcançar o objeto e o apanhei. Para minha sorte ele estava ligado, agora era só tentar aquecer a outra algema sem precisar girar o punho.
Tirei a parte de cima do abajur deixando à lâmpada a mostra. Aproximei-a da algema e encostei-a, mas parte pegou em minha pele e começou a queima-la. Não podia gritar só esperar para puxar minha mão.
Quando achei que estava aquecido o suficiente puxei minha mão, que saiu com mais facilidade do que a outra, mas estava queimada.
Lancei o abajur para longe e agora só me restava tentar pegar a chave. Estiquei-me para pegar a chave. Faltava pouco para alcançar, só mais um pouquinho. As pontas de meus dedos tocavam a chave e então consegui. Agarrei a chave e puxei para próximo as meu corpo.
Eu precisava achar um jeito de tirar as algemas de meus calcanhares, mas não iria tentar arrancar nem queimar, seria horrível a dor.
Precisava de algum jeito chegar até o quarto dos garotos e libertar eles. Mas como?
Uma ideia surgiu em minha cabeça. Mas será que daria certo?
No sonho em que tinha vindo para o hospício eu tinha pegado as chaves e quando acordei elas estavam em meu bolso. Era como se minha alma tivesse saído do corpo e depois voltado. E isso era um dos poderes dos filhos de Thanatos.
Sentei com as costas na parede e me concentrei. Pensei em minha alma, algo não sólido, saindo do corpo. E foi mais fácil do que imaginei. A sensação era de tentar segurar água com as mãos e ela escorrer entre seus dedos.
E lá estava eu olhando para meu corpo que estava encostado na parede como se estivesse dormindo. Mas a minha aparência estava horrível. Estava cheia de sangue, com os pulsos machucados e os cabelos desgrenhados. Mas eu não podia ficar ali me olhando, precisava chegar até o quarto e libertar os garotos.
Passei pela porta como se ela não existisse e sai no corredor. Ele era igual ao do meu antigo quarto. Tinha três portas e alguns quadros pendurados nas paredes.
Dirigi-me até o outro corredor e parei em frente à porta do quarto onde os garotos estavam presos, e adivinha? A chave estava na porta.
– Dá para a Lâmia ser mais idiota que isso? – Murmurei e comecei a rir.
Tentei pegar a chave e consegui! Como? Não faço ideia. Às vezes as coisas não são explicadas pela ciência.
Passei pela porta e encontrei os três garotos sentados de cabeça baixa.
– O que as três flores andam fazendo? Não vão me resgatar não? Nos contos de fadas o príncipe que salva a donzela!
– É engraçado, mas parece que eu escutei a Akira. – Disse Nico com a cabeça ainda baixa.
– É porque eu estou aqui!
Nico levantou a cabeça lentamente e me viu. Um brilho surgiu em seus olhos, ele sorriu e levantou apressadamente.
– A-Akira, como você pode estar aqui?
– Eu estou parcialmente aqui. Só a minha alma que está. Vocês precisam fugir!
– Nico para de delirar, não tem ninguém ai. – Disse Leo olhando fixamente para o filho de Hades.
– Você não consegue vê-la? Ela está aqui! Acho que só os filhos do mundo inferior conseguem ver as almas.
Leo deu de ombros, mas ficou olhando fixamente para onde eu estava.
– Nico, aqui estão as chaves para abrir as portas. – Tirei as chaves dos bolsos e entreguei para o garoto – Eu estou no outro corredor, no quarto da direita, e preciso que alguém me ajude a tirar as algemas de meus calcanhares. Também preciso que alguém vá atrás de nossas coisas, mas tudo isso sem que Lâmia veja.
– Tudo bem, eu vou atrás de você e o Leo de nossas coisas. – Nico apertou as chaves em sua mão. – Roedel, fique aqui e nos espere. Procure algo para se defender, mas fique aqui.
– Nico, eu tenho que voltar, acho que não me fará bem ficar tanto tempo longe do meu corpo.
– Nos vemos daqui a pouco então.
Me aproximei de Nico e beijei sua bochecha. O garoto colocou a mão na face como se tivesse sentido. Fui para perto de Leo e passei a mão em seus cabelos. Ele pareceu se assustar.
– Quem fez isso? – Perguntou Leo e Nico riu.
– Foi a Akira. Eu disse que ela estava aqui.
E essas foram às últimas coisas que escutei, pois sai do quarto sorrindo e me dirigi para onde meu corpo estava. Cheguei mais rápido no quarto em que meu corpo se localizava. Era como se a alma estivesse sendo puxada para dentro do corpo.
Será que era assim que os corpos eram possuídos? Porque se for assim, ser puxado para dentro de um local vazio não é muito divertido.
Entrei novamente em meu corpo e esperei por Nico. Dez minutos depois a porta se abriu e ele entrou. Tinha uma adaga em mãos e se ajoelhou ao meu lado.
– O que aconteceu com seus pulsos? – Ele perguntou e começou a bater a Lâmina na algema do pé esquerdo.
– Eu precisava achar um jeito de soltar as mãos para pegar a chave do quarto, só que eu inda não tinha pensado em sair do meu corpo.
– Parece estar doendo. Depois você pega um pouco de néctar e ambrósia com o Leo. – Nesse instante a algema se abriu liberando meu pé e ele se dirigiu a outra algema.
– Não importa a dor. O importante é sair daqui.
Ele forçou uma última vez a algema e ela cedeu. Finalmente estava livre, ou quase isso. Abracei Nico e beijei novamente sua face.
– Obrigada – Murmurei em seu ouvido e sorri ainda o abraçando.
Ele me afastou e me encarou. Passou gentilmente sua mão pela minha bochecha e segurou meu queixo.
– Eu pensei que não conseguiríamos sair de lá, que nunca mais iria te ver.
– Por que você pensou isso? Eu sempre escapo da morte. – Sorri para ele, mas seu rosto mostrava uma expressão aflita. – Ei, está tudo bem. Não aconteceu nada, agora vamos fugir daqui.
– Não sei como você consegue ver um lado positivo em tudo. Você está machucada, estamos presos e ainda tem essa profecia. – Ele passou a mão em meus cabelos. – Queria ver as coisas como você vê.
– Você pode, é só tentar.
Aproximei-me dele e selei nossos lábios em um beijo calmo e lento. Eu queria abraça-lo novamente e esquecer-me do mundo, mas como sempre algo estragou. Um grito ensurdecedor e agudo pairou pela casa toda, sendo amplificado.
Afastei-me de Nico, levantei e sai correndo do quarto em direção à escadaria. E lá estava Roedel com uma adaga na mão e um pó dourado no ar. Ele havia matado Lâmia, ele que não tinha experiência nenhuma. E no chão uma chave, a chave da liberdade!
***
– Nosso estoque de comida sumiu. – Disse Leo. Estávamos todos sentados na escada. – É melhor irmos até a cidade comprar um pouco.
– E eu preciso tomar um banho. Olha o meu estado. – Apontei para minhas roupas e todos riram.
– Todos precisamos de um banho. Vamos fazer assim: eu, Leo e Roedel tomamos banho primeiro e vamos até a cidade comprar algo enquanto você toma seu banho e se arruma.
– Por mim tudo bem. Enquanto isso vejo se acho alguma roupa limpa para os três, acho que deve ter alguma roupa do meu irmão guardada.
***
Quando os garotos saíram, fui para o meu banho. Procurei por toalhas limpas e peguei duas. Passei mais tempo do que imaginei para tirar o sangue de meu corpo e cabelos, mas finalmente consegui.
Sequei-me e depois enrolei meu corpo em uma das toalhas e o cabelo na outra. Saí do banheiro e fui para o quarto que era de minha mãe para me vestir. Os garotos ainda não haviam chego, ou era isso que eu imaginava.
Escorado ao lado da porta estava Leo. Quando ele me viu chegar, ficou vermelho e desviou o olhar. Essa foi à hora que lembrei que estava de toalha na frente dele e senti meu rosto esquentar.
– Nico achou melhor não te deixar sozinha, poderia acontecer algo. – Leo disse ainda sem olhar para mim.
– Tudo bem, mas agora eu vou me vestir.
Abri a porta do quarto e comecei a me vestir. Coloquei um short curto, meus coturnos e uma blusa preta. Sequei meus cabelos e os penteei.
Quando sai do quarto Leo ainda estava parado ali me esperando. Ele passou seu braço por cima de meus ombros e começou a andar.
– Vamos lá maninha, o seu irmão mais velho vai te levar para pegar um pouco de néctar e ambrósia.
– Irmão? Mais velho? – Encarei o garoto que deu de ombros.
– É, já que você escolheu o Nico para dar seu coração, quero ter parte dele também. E esse é o único jeito.
– Então agora vamos ser tipo irmãos?
– Se você aceitar...
– É claro que sim, vai ser bom ter um irmão que inventa coisas e constrói, além de ele ser maluco e me fazer rir. – Olhei para o garoto que tinha um sorriso enorme no rosto. – Mas eu sou mais velha.
– Não é não!
– Sou sim, por um mês.
– Grande coisa, um mês.
– Ainda é um mês.
– Mas eu vou ser o mais velho, isso não se discute! – Ele disse e me empurrou de leve para o lado.
– Tudo bem maninho. – Eu sorri e continuamos a andar para pegar um pouco de néctar e ambrósia para me curar.
***
A noite chegou logo e ainda não tinha pista alguma de onde deveríamos ir. O sonho me disse que eu deveria vir para cá, mas e agora?
Vasculhamos o hospital inteiro e a única coisa que achamos foi uma caixinha pequena com um diário dentro. Era o diário de minha mãe. Li ele a procura de algo que me levasse até Ele.
Na última folha do diário tinha um cartão de uma loja. Era uma loja em Nova York, 720 Fifth Avenue, esquina com a 56th Street. Uma loja de roupas e perfumes.
Mas será que era para lá que deveríamos ir? Bom, essa era a única pista que tínhamos. Chamamos a Carruagem da Danação novamente e embarcamos no nosso novo destino.
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