A Menina Morte
19 Fim!
Notas iniciais
Corri até o corpo da Akira, que estava todo ensanguentado e frio no chão. Peguei-a e abracei sentindo sua vida deixando seu corpo. Não havia mais o que fazer, ela tinha morrido. Comecei a chorar. Ela tinha me deixado. Não havia mais o que fazer.
– Você disse que não iria me deixar — Passei a mão em seus cabelos. — Eu realmente acreditei que poderia ser feliz com alguém, mas parece que o destino me tirou alguém mais uma vez. Sei que a culpa não foi sua, mas mesmo assim — Comecei a soluçar e chacoalhar o corpo dela — Você se foi!
– Você poderia parar de tentar deslocar meu pescoço do lugar?
Olhem em volta, não enxergava nada com as lágrimas rolando pelo meu rosto. Eu tinha escutado a voz dela. Tinha de ser ela. Olhei desesperadamente para o corpo em meus braços e não havia nenhum sinal de vida nele.
– Eu devo estar ficando louco — Ri de mim mesmo. — Eu estou escutando a voz dela.
– É porque você está escutando — Senti algo bater em minha cabeça — Será que dá para você tentar ver a alma aqui do seu lado?
Olhei para meu lado e lá estava ela com um sorriso em seus lábios vermelhos. Mas algo estava diferente. Seus olhos! Eles não estavam mais vermelhos, eles estavam azuis como os de Ian.
– V-você realmente está aqui? — Levantei e larguei seu corpo cuidadosamente no chão.
– Sim, eu estou. E eu não estou morta, só usei daquela habilidade de tirar a alma do corpo. — Ela sorriu mais uma vez, como se isso já fosse óbvio. Depois seu sorriso sumiu e uma expressão de desespero surgiu em seu rosto. — Eu não posso ficar muito tempo fora do meu corpo, e bem... Eu acabei de esfaquear ele, ele precisa se curar logo, ou você realmente me dará adeus. Você precisa me levar para o Acampamento, quer dizer, meu corpo, ah você entendeu! Lá, você fez meu corpo ingerir ambrosia e néctar.
Peguei o corpo gélido em meus braços e comecei a correr sem me preocupar com Akira, ou a alma dela. Eu sabia que ela estaria ao meu lado, ela não iria morrer. Passei pelo corredor escuro e cheguei à sala das escadas. Já sabia o caminho, portanto não levou muito tempo para sair dela. Corri pelos corredores e cheguei à sala com a bacia e passei por ela sem me preocupar com o que poderia acontecer. Finalmente saí daquela caverna dentro de uma pedra e pude entrar e viajar pelas sombras.
Tudo ficou sem forma, frio e escuro. Mas eu sabia que ela estava lá, não precisava ver. Um ponto de luz apareceu e eu o segui. Tudo começou a tomar forma e lá estávamos nós, no chalé de Akira no Acampamento. Dirigi-me a enfermaria o mais rápido que podia e escutava pelo caminho gritos e exclamações que não conseguia entender. Deveria ser porque Akira estava sangrando em meus braços.
Coloquei-a em uma das camas e procurei pela ambrosia e pelo néctar. Lá estavam eles, graças a Zeus. Despejei o líquido em sua boca e levantei sua cabeça para que este fosse ingerido. A ferida em seu peito começou a se fechar e cicatrizar.
– Eu posso já voltar para meu corpo — Ela tocou em minha mão. — Não se preocupe se eu não acordar, você fez a sua parte.
E então ela sumiu, havia voltado para seu corpo. Seu peito se encheu de ar e lá ela ficou respirando calmamente como se estivesse dormindo.
***
Acordei com uma dor de cabeça terrível, a claridade do local fazia com que não conseguisse abrir totalmente meus olhos.
– Olha quem acordou — Uma voz desconhecida falou, claramente de uma garota. — Aquele garoto acreditava mesmo que um dia você iria acordar. Ele estava certo! Pena que você acordou dez anos depois do previsto.
Dez anos? Do que esta garota estava falando? Eu não poderia ter dormido dez anos, poderia? Levantei meu corpo, de modo que ficasse sentada. Passei a mão pelos olhos e vi que o local estava diferente, não era a enfermaria que havia ficado uma vez. Eu estava com outras roupas, que não eram as do dia em que quase morri. A garota sentada ao lado da cama eu não conhecia. Não podia ser verdade, eu não podia ter dormido durante dez anos. Lágrimas brotaram de meus olhos e escorreram pela minha face.
– Nico? — Foi à única coisa que consegui dizer. As palavras não saíam de minha boca.
– Este mesmo! Este garoto fez com que o Quíron prometesse que iria deixar você no Acampamento até que você acordasse. Isso foi há oito anos, quando aconteceu a guerra entre os dois acampamentos. As últimas palavras dele foram: Diga a ela que eu a amava. — A garota colocou a mão no queixo parecendo tentar lembrar-se de algo. — Eu quero um amor igual ao de vocês. Ele te protegeu até o final. Ele realmente te amava.
Eu não sabia mais o que fazer. Devia ser verdade. Ele havia morrido por mim, ele me amava e eu não estava com ele. Comecei a soluçar sem parar e chorar descontroladamente. Tentei me levantar e sair correndo pelo Acampamento, mas a garota me segurou. Eu poderia me afogar no lago, atirar em mim, ou qualquer coisa do gênero. Eu precisava dele.
Escutei a porta da enfermaria se abrir atrás de mim e alguém entrar. Não queria olhar, seria mais alguém para me contar mais alguma notícia ruim?
– O que você falou a ela para ela estar neste estado? – Era a voz dele. Eu não estava enganada. Era ele. Olhei para seu rosto e lá tinha o sorriso que eu tanto amava.
– Só disse que você tinha morrido e que ela tinha ficado dez anos em coma. Nada de mais. – A garota deu de ombros e saiu da enfermaria.
– Bem, esta é uma história horrível, mas não é verdade. Você só ficou três dias dormindo. E foi transferida para a outra enfermaria. – Ele me abraçou e pude sentir seu cheiro, seus braços ao redor de mim. Tudo tinha sentido naquele momento.
– Quem era aquela garota? Por que ela estava aqui? – Perguntei.
– Aquela é May, namorada no Ian, do chalé de Apolo. Ela só é meio estranha às vezes. – Ele riu. – Ela estava aqui porque pedi para ela ficar de olho em você, caso acordasse, e te dizer que eu estava falando com Quíron. Eu não imaginei que ela iria te fazer pensar que eu havia morrido e que você tinha dormido dez anos. – Concordei com a cabeça e me afastei dele. Tentei me levantar. – O que você está fazendo? Você não pode sair daqui!
– Você não vai fazer nada, eu odeio este lugar, agora me dê licença. – O empurrei para o lado e joguei minhas pernas para fora da cama. Coloquei meus pés no piso frio e finalmente me levantei. Cada movimento que fazia era uma dor insuportável, mas isto era melhor que ficar na enfermaria.
– Ah, por favor. A cada passo que você dá você faz uma careta. Você não enxerga que está se matando assim? – Ele me pegou no colo e eu agradeci imensamente por isso. Poupava-me de ter que andar até meu chalé sozinha.
Ele me carregou até meu chalé e me colocou em minha cama. Como eu sentia falta deste lugar e nem tinha percebido. Aquele chalé escuro, com camas bizarras, uma fonte da água vermelha. Tudo.
– Obrigada por me trazer até aqui.
– Eu não tinha escolha, era isso ou ver você sofrendo a cada passo. – Ele sentou-se na ponta da minha cama e me encarou. – Agora me conte o que aconteceu lá na caverna.
Respirei fundo. Eu finalmente podia contar o que tinha acontecido.
– Acho que você sabe que depois que te abandonei fui para aquela caverna. Passei por aquelas passagens, tomei aquele líquido e cheguei à Érebo. Meu erro foi tomar daquele líquido, ele nos ligou. E ele sabia que para acabar com a vida dele, ambos iriamos morrer. Isso iria atingir meu pai, ele não iria ficar com nenhuma das duas mulheres que ele mais amou. Eu e minha mãe. – Respirei findo em continuei. – O único modo era fazer com que o corpo perecesse. Mas ele não sabia que eu podia tirar minha alma do corpo, assim a alma não iria sumir. Eu continuaria viva.
– E foi isso que você fez, mas você corria o risco de ninguém lhe socorrer.
– Eu sei, mas eu sabia que você não iria desistir assim tão fácil de mim. – O empurrei de leve.
– Você sabe que seus olhos não estão mais vermelhos e sim azuis? – Ele me encarou e eu assenti com a cabeça.
– Eu já imaginava que fosse acontecer. O vermelho era a marca que eu tinha de carregar desde a morte de minha mãe. Antes de ela morrer, ela tentou me proteger. Ela sabia de coisas capazes de manter um deus longe, mas até hoje não sei exatamente o que ela fez. Depois que ele a matou, fez com que meus olhos ficassem vermelhos, para lembrar que a culpa era minha de sua morte. Também para instituir uma pequena ligação com meus pensamentos, assim ele poderia me atormentar e saber exatamente onde eu estava. É a marca de Érebo, a marca do caos.
“Tudo isso aconteceu por culpa de meu pai. Ele traiu Érebo quando escolheu ficar ao lado de Hades na guerra. O jeito que ele achou para castiga-lo foi matar a mulher que ele amava e todos os seus filhos. Ele enviou todos os monstros que me perseguiram. Tudo foi culpa dele. Agora que ele se foi, a ligação comigo acabou, meus olhos voltaram à cor normal e tudo poderá ser diferente.”
Nico me abraçou e me beijou. Eu precisava tirar o peso de anos das minhas costas. Tudo havia acabado, nada mais ia acontecer. Escutamos um toc toc na porta e Nico foi atender. Um vulto branco apareceu correndo e me abraçou. Era Harlow, como eu sentia falta daquela garota.
– Eu achei que você iria morrer. Fico feliz que esteja bem. – Ela estava chorando e sorrindo ao mesmo tempo. – Sinto muito pelo Leo, todos sentimos. Eu achei que de todos, ele quem iria voltar.
– Também sinto muito pelo Leo. – Lágrimas brotaram de meus olhos. – Nico, você pode ir ao bunker 9 ver o que Leo deixou lá? E também chamar a Reyna? – Ele assentiu e saiu do chalé. Puxei Harlow para cima da cama e fiquei lá abraçada com a garota até baterem na porta do chalé.
Lá estava ela, com a cara inchada e os olhos vermelhos. Parecia não dormir a dias e ter chorado durante horas. Eu entendia, ele tinha ido e nada iria trazê-lo de volta.
– Eu sinto muito. Ele disse que te amava mesmo. Mas disse que foi durante um tempo, que ele achou outra pessoa. E-eu sinto muito mesmo. – Ela assentiu e saiu do chalé sem dizer uma palavra.
***
– Vocês finalmente chegaram. – Disse Leo, a alma.
– É, nós meio que levamos algum tempo para entender suas instruções. – Disse rindo do garoto.
– Leo, eu sinto tanto a sua falta. Mas como seu ultimo desejo foi achar esta garota, é isso o que vamos fazer. – Disse Akira com convicção. – Quem sabe, um dia, ela venha te visitar aqui no Mundo Inferior.
Passamos um bom tempo discutindo sobre os planos de Leo e o que deveríamos fazer para tentar resgatar a garota que Leo amava, sua preciosa Calipso. Quando nos cansamos, sentamos em alguma parte do Mundo Inferior para observar e matar o tempo.
– Então este é o fim que temos. – Disse enquanto abraçava Akira.
– Não, este é só o começo. – Ela disse sorrindo.
Fale com o autor