A Menina Morte
17 Adeus, meu amado.
Notas iniciais
Depois que Leo me disse aquelas palavras, comecei a me desesperar mais. Não sabia o que fazer. Meu mundo estava novamente ruindo e a culpa era minha. Leo estava morrendo por minha culpa.
Nico começou a me puxar para fora da sala, mas eu não queria sair. Leo estava ali morrendo, a porta tinha que abrir!
As únicas coisas que consigo me lembrar, é que me debati o máximo que consegui e Nico me carregou para fora.
Ele fechou a porta da sala e eu estava encolhida na parede e chorando descontroladamente. Ele me estendeu a mão e eu a segurei.
Aproximei meu corpo do de Nico e fiquei abraçada a ele chorando. Ele passou gentilmente a mão em meus cabelos desgrenhados.
– Temos que continuar nossa jornada. – Sussurrou Nico em meu ouvido. – Ele gostaria que fizéssemos isso. Vamos honrar sua morte, devemos isso a ele.
Concordei afirmativamente com a cabeça e continuei abraçada ao garoto. Dirigimos-nos lentamente para fora da loja, para o céu claro do começo do dia.
– Temos de achar um jeito de ir para nosso novo destino. – Disse baixo e Nico me encarou. – Não podemos ir pela Carruagem da Danação, aquelas velhas me odeiam. Não dá mais para usar aquele taxi estranho.
– Nós podemos viajar pelas sombras. Para os filhos do submundo, essa é uma habilidade presente. Você não deve ser diferente. – Disse Nico olhando para o horizonte. – Você só terá de treinar.
– Mas eu não sei o que fazer!
– É bem simples. É só procurar uma sombra e se imaginar entrando nela, sendo sugada para outro lugar. Depois que tiver atravessado, é só pensar aonde quer ir e continuar a andar até um ponto de luz.
– E-Eu não sei se isso é uma boa ideia.
– Akira, eu sei que você consegue. – Nico segurou uma de minhas mãos e passou a me encarar. – Eu vou estar ao seu lado o tempo todo. Só não te levo pelas sobras sozinho, pois isso pode ser útil para você alguma hora.
E assim passamos alguns minutos nos transportando de um local ao outro até que eu pegasse o jeito.
O problema agora era: aonde ir?
O mapa não indicava localização nenhuma. Era apenas um mapa dos Estados Unidos e parecia muito velho.
Será que esta seria a pista falsa?
Não poderia ser! Leo morreu para pegar isto. Ele morreu. Não seria justo aquele esforço para a pista ser falsa.
Eu e Nico nos sentamos em um parque em Connecticut. O nome do local era Above All State Park. Havia varias arvores que formavam trilhas. Como era época do outono, folhas pintavam o chão de marrom, vermelho e amarelo. As árvores, quase totalmente desfolhadas, refletiam contra o cristalino lago. O vento sacudia a grama e alguns galhos. Pássaros voavam no céu começando a migrar para locais mais quentes. A temperatura já não era tão quente como alguns dias atrás. Dava para escutar o bater da água em pedras, de alguma cachoeira ao longe, contrastada com o canto dos pássaros.
Escolhemos aquele local calmo para poder pensar e debater sobre o mapa. A única coisa que se tinha no mapa era uma pequena inscrição.
“Derrame a água que ninguém bebe, a água que é sal da alma e a liberta para viver e continuar.”
Mas o que isso queria dizer? Existia alguma água a qual ninguém bebesse e ainda fosse potável?
Talvez fosse alguma não descoberta? Ou uma pequena quantidade? A água dos deuses?
Havia alguma diferença entre uma água e outra?
Talvez fosse água do mar, já que era salgada. Mas nenhuma água liberta a alma e daria para beber.
– É melhor achar um local para dormir. – Disse Nico repentinamente e percebi que a noite já despontava no horizonte.
– Também acho. Mas aonde iremos?
– Por que não procuramos um local aqui no parque? Talvez entre as árvores. Podemos colocar nossos sacos de dormir no chão e amanha seguir viagem.
Levantamos e seguimos para o meio das árvores procurando algum local para se deitar.
Achamos uma clareira que dificilmente era visível as pessoas que passavam. Estendemos os sacos de dormir no chão e uma toalha.
Procurei alguma comida em minha bolsa e só achei algumas frutas secas e um pequeno bolo de morango. Dividi com Nico e depois deitamos abraçados na toalha.
Depois de um tempo apoiei minha cabeça em seu ombro e ele beijou minha cabeça.
– O céu está lindo hoje. – Disse ele.
– É verdade. – Observei as estrelas e me lembrei de uma história do Acampamento. – Olhar as estrelas me lembra da história da caçadora Zoe.
– Também sempre me lembro dela quando olho para o céu.
– Só imagino se serei como ela. – Meu corpo estremeceu só de pensar. – Será que farei a minha parte certa? Será que darei minha vida pelo bem maior? Terei eu coragem para seguir esse caminho e enfrentar o destino?
– Akira – Nico acariciou meus cabelos. – O destino pode ser mudado, depende só de sua vontade. E você veio até aqui, duvido que vá desistir agora. Não irá! Não depois de Leo...
– E se eu desistir? E se tudo der errado?
– Nos vamos conseguir, tudo vai dar certo no fim. – Nico disse em meu ouvido e eu permaneci em silencio;
Ficamos assim até Nico dormir e eu me soltar dos braços dele.
Procurei o mapa e comecei a olhar ele. Tinha que achar uma resposta para aquele problema, tinha que ter aquela à resposta.
Nada fazia sentido, nenhuma água libertava a alma. Nenhuma água salgada era um alívio. Não havia o que fazer.
Esta era a pista e não poderia resolvê-la. Leo teria morrido a toa, teria perdido a vida por me seguir, por não ter ficado.
A culpa inteira seria minha, todas as mortes, todo o sofrimento, Leo...
Eu não podia desistir, mas nada fazia sentido!
Por que em minha vida tudo tinha que ser difícil? Por que nada podia ser simples?
O ódio começou a me domar a consciência. Não queria mais aquela vida, não queria mais ninguém machucado, iria até o fim.
Lágrimas irromperam de meus olhos e caíram no mapa. Algo dourado brilhou nele. Era a localização.
Então essa era a resposta: lágrimas.
Elas eram salgadas e ninguém bebia, pois era em pouca quantidade e não faria diferença. As lágrimas eram o lamento da alma sofredora, mas depois que elas secavam era uma purificação da alma. Ela estaria limpa.
Não poderia perder tempo, teria de resolver isso sem machucar mais ninguém. Aproximei-me de Nico e beijei-o, depois sussurrei em seu ouvido:
– Como dizem: “Quem ama, liberta sempre”. E eu o liberto da morte. Adeus, meu amado, e me desculpe por deixa-lo só. Mas é para seu próprio bem.
Continuei a chorar, mas agora sabia o que deveria fazer. Deveria seguir meu caminho.
Procurei as sombras e me dirigi a elas. Logo eu atravessei para algum local escuro na Carolina do Norte.
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