Era uma vez, há não muito tempo, uma menina de longos cabelos castanhos...

- Ei, por que você está começando assim?

Eu devo começar de alguma maneira, não?

- Eu sei. Mas por que desse jeito e não de outro?

E por que de outro e não desse jeito?

- Isso é um conto de fadas?

Bem, se está falando daquelas histórias com bruxas e "Happy End", então não, não é um conto de fadas. Mas então o "Era uma vez" só serve para um conto de fadas?

- Fica um tanto estranho, já que você vai falar de uma pessoa conhecida, não acha?

Devo mudar então?

- Acho melhor.

Pois muito bem, se eu mudar, promete não me interromper de novo?

- Posso tentar.

Promete ou não?

- Você é muito impaciente. Pois bem, eu prometo.

Ótimo. Aí vamos nós, para um novo começo!

Oh, alô, caro amigo!

- E se não for um amigo seu?

Então agora é.

- Você não pode decidir isso por si mesma.

Você prometeu!

- Okay, okay, pode continuar.

Onde estávamos? Ah, sim.

Oh, alô, caro amigo! Antes de qualquer coisa, peço desculpas por desperdiçar seu tempo com minhas palavras. Depois, agradeço por resolver lê-las mesmo depois dessa frase. Aceita um café? Prefere café com leite ou leite com café?

- Que tipo de pergunta é essa?

Do tipo que eu faço. Posso continuar?

- Continue, por obséquio.

Deixando os comes e bebes de lado, quero falar sobre uma menina que ainda não conheci completamente. Ela tem cabelos longos de um castanho escuro e seus olhos são tão castanhos como a terra.

- Não seria como o chocolate?

A terra também é marrom, oras. E chocolates são doces demais para descreverem os olhos dela.

Ela tem pele clara, lábios avermelhados e usa um brinco na orelha esquerda, pois tem preguiça de procurar o da direita. Muito provavelmente, se alguém olhar para aquela menina de cabelo castanho, que não é magra e não chega a ser gorda, vai pensar que é apenas uma garota normal. Se esse alguém olhar uma segunda vez, vai perceber que aquela jovenzinha é um tanto diferente das outras. E se olhar por uma terceira vez, vai notar que ela é tão diferente que é quase normal toda aquela diferença.

- Isso é um tanto contraditório e confuso, não acha?

Vai parar de interromper ou não? E eu sou contraditória e confusa.

- Mas você não está falando da tal menina de cabelo castanho?

Sim, e é exatamente por isso! Sou eu quem está falando dela, não ela falando de mim.

- Tem lógica.

Continuo?

- Termine o que começou.

Então pare de quebrar a narrativa!

Uma coisa marcante na menina? O sorriso permanente. Ela sempre está com um sorriso no rosto, mesmo que seja um sorriso de canto de boca. Mesmo quando está brava. Mesmo quando está cansada. Mesmo quando está com sono. Mesmo quando está triste.

- Já deu para entender, ela nunca para de sorrir.

E você nunca para de interromper!

Outra coisa marcante? O cabelo longo e cacheado.

- Lá vem você de novo com a história do cabelo!

Quer saber? Cansei! Se acha que pode fazer melhor, então faça!

- Mas é você quem conhece a menina de cabelo castanho, não eu.

Não estou nem aí! Se é pra ficar interrompendo toda hora, então que conte a história você!

- Desculpe, desculpe! Juro que não vou falar mais nada, mas, por favor, continue! Sim? Por favor? Pela menina de olhos castanhos como a terra?

Tudo bem então, por ela eu continuo. Tente não quebrar a promessa de novo, senão eu paro!

- Tudo bem, tudo bem, não vou quebrar. Agora continue, por obséquio.

O cabelo castanho escuro era liso em cima, ondulado no meio e cacheado nas pontas. E embaraçado por todos os lugares. A menina tinha preguiça de penteá-los, porém mesmo assim os penteava. Em vão, eles embaraçavam de novo em poucas horas. Ela amava seus cabelos e jurou que nunca mais os cortaria novamente. Até hoje eles não foram cortados.

- Peço desculpas, mas quero perguntar uma coisa.

Pergunte então.

- Faz quanto tempo desde que a menina tomou essa decisão?

... Quase dois anos, se não me falha a memória.

- Obrigada.

Disponha. Voltando à garota.

Os olhos cor de terra brilham sempre frios e ausentes. Ela vê sem realmente enxergar. Ela enxerga sempre a sonhar. Ah, desculpe, estou confundindo você?

- Um pouco... Apenas explique o porquê de ela enxergar sempre a sonhar.

Okay, já estou chegando nessa parte.

Ela não vê um carro. Ela vê um pequeno dragão. Aquilo não é um Bem-Te-Vi, e sim uma Fênix. Aquela não é a lousa da escola, é a janela que leva ao Mundo dos Elfos. Esta não é uma biblioteca, é o Templo Sagrado da Maga das Palavras. Não é uma cama, é o caixão do vampiro. Não existe ventilador, apenas forcas. Não é uma lâmpada isso que ilumina a casa, e sim um frasco com um pedacinho de um raio de sol. Entende aode espero chegar?

- Um pouco. Você e essa garota são confusas.

Está reclamando demais pro meu gosto...

- Eu não reclamei, apenas constatei um fato!

Já que está dizendo...

Se você der uma boa olhada naqueles olhos, verá que cabe um mundo dentro deles. Verá que são calorosos, mesmo fitando tudo com majestosa frieza. Afinal, eles não gostam muito de ver esse mundo. Eles são calorosos para com aquilo que os encanta. São acolhedores para aquilo que os surpreende. São divertidos para aquilo que estimam. E são respeitosos com aquilo que os odeia. Pois eles também são preguiçosos quando precisam entrar em algum conflito. Apesar de ganharem.

- Desse jeito, vou achar que os olhos têm vida própria.

... Talvez. Bom, foi bom passar esse tempo com você.

- Como assim? Acabou? Assim, do nada?

É.

- Mas não pode terminar assim!

Não? Por quê?

- Todos ficarão confusos!

Eles já estavam confusos desde o começo.

- Mas... É só isso?

Você quer mais?

- Eu esperava algo mais elaborado, mais... Sei lá, impressionante?

Tudo isso que eu falei não foi impressionante?

-... É, tem razão... Acho que eu devo aceitar de uma vez que acabou...

Você acha demais e nunca tem certeza. E uma história nunca acaba no último ponto final. Não. Ela continua e continua, sem nunca ter fim.

- Então essa história continua?

Não.

- Mas você disse que...!

Ela não continua para as pessoas que leram isso, mas continuará para as pessoas que enxergam a menina de cabelo castanho. Mas antes do adeus final, vou contar mais uma coisa.

Se por um acaso, você ver uma menina de madeixas castanhas escuras lisas no começo, onduladas no meio, cacheadas nas pontas e embaraçadas em todos os lugares, não magra e não chegando a ser gorda, com um brinco na orelha esquerda, roupas não muito chamativas, mas também não muito simples, de pele clara, olhos cor de terra brilhando com frieza majestosa ao fitar o mundo e face indiferente, não hesite em fixar seu olhar nela e observar a atmosfera calma e barulhenta que a envolve. E se por acaso quiser falar com ela, apenas chegue perto da mesma e pergunte:

- Com o que você está sonhando?

Agora acabou.

- Até outra hora, então.

Sim, sim, até mais.

Um pouco sobre Kurara Black:

Longos cabelos castanhos escuros. Bochechas avantajadas e um tanto rosadas. Um anel em cada mão, assim como uma pulseira em cada pulso (Isso depende, pode ser também um anel em cada dedo). Raramente usa saias e vestidos. É alta para sua idade. Lábios avermelhados curvados geralmente num sorriso debochado, cínico ou irônico. Não é magra, porém também não é gorda.

E seus olhos têm a cor da terra.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!