Naquela manhã, os sinos da Igreja Matriz eclodiam sem parar o ar que rondava a praça central, as pessoas já se movimentavam para cima e para baixo, os sussurros das conversas pareavam diante de cada passo ou de cada grito de algum comerciante ambulante que subia ou descia as pequenas ruas que ali contornavam a cidade. Finalmente, a cidade crescia, o turismo local, depois do incidente de três anos atrás, trouxe muitos curiosos que, ao analisarem uma cidade ainda estática no tempo, decidiram se aventurar em trazer novidades do além fronteiras para eles.

E diante das conversas, vinham aquelas mais paralelas, as fofocas que permeiam a vida de cada cidadão da pacata cidade, a qual não parava de crescer. Um pequeno aglomerado de pessoas encarava uma porta de madeira, com um homem gordo diante dela. As vestes cinzas, lembrando um longo vestido, caiam pelo seu corpo, com os botões justos na frente, mesmo com os rastros finais em bordado não arrastando no chão. Ele parecia não se incomodar com o frio, apesar do rosto branco estar todo avermelhado, com a barba branca e os poucos cabelos de mesma cor ajudarem na caracterização de homem bondoso e bonachão.

Por fim, ele esmurrou a porta.

—César! — A voz grave ecoou pela praça. O timbre fez as quatro mulheres que o seguiam como sombras dar uns passos para trás, com seus terços pendurados em seus pulsos e as pequenas bíblias presas com um cordão de barbante nas suas vestes. — Acorde, homem! Temos problemas!

—Já vou! — A voz do homem titubeou de sono, bocejando logo em seguida.

Saindo da cama, o homem era alto, de poucos músculos, um corpo mais acima do peso, que demonstrava longas noites de cerveja no bar acima da Igreja, em que enchia o estômago com o líquido alcoólico de cevada e muita comida à vontade. Com poucos pelos espalhados pelo corpo, ele mantinha uma vida mais monótona, não havia muito o que fazer como delegado na cidade.

As olheiras eram levemente fortes abaixo de seus olhos acastanhados, mas não era sinal de cansaço, ele passara a noite anterior em claro, acompanhado. Demorou para sair da cama, o homem socando a porta mais uma vez o fez sair, caminhando em direção a um vasilhame de alumínio, ali havia um pouco de água que jogou em seu rosto e, com uma pequena toalha já velha e esfarrapada, molhou e passou pelo seu corpo todo, retirando possíveis cheiros ou fluidos.

—César!

—Já vou! — Ele revirou o olho com o homem esmurrando mais uma vez a porta. — Pelo amor, que homem mais apressado... O que essas velhas futriqueiras falaram dessa vez? — Ele mencionava as mulheres que andavam de companhia para cima e para baixo.

Usando uma roupa mais pesada, pois ainda fazia frio, ele calçou a bota e o resto da roupa de couro, pegando o revólver que ele deixava ao lado da sua cama, na cabeceira próxima à parede. Aliás, seu quarto não era tão grande, havia apenas a mesinha próxima à cabeceira, na parede mais distante, onde dificilmente alguém se aproximaria sem tropeçar na bagunça que ele deixava para trás.

Ele encarou ao redor, notou que algo estava diferente, que sumira, não lembrava o que era até a ficha cair, deve ter ido embora logo pela manhã.

E havia a cama, a cômoda com suas roupas e o vasilhame com água por cima. Fora isso, nada mais, era um pequeno cubículo antes de ele dar de cara com uma escada, saindo pela porta, para onde descia e havia uma pequena sala com duas poltronas velhas, de couro rasgado, e a cozinha gelada, em que não se cozinhava há tempos, pois era sempre convidado para algum outro lugar.

—César!

—O que é, inferno?! — E abriu a porta de supetão.

—Mas moleque, é assim que se fala com um padre? — A voz veio de uma das velhas atrás dele, não sabia diferenciar quem era quem, todas eram pequenas, do porte entre um metro e cinquenta ou sessenta centímetros, usavam a mesma roupa preta, alternando entre vestido ou camisetão e calça escura larga de algodão. Os cabelos sabiam que eram brancos por conta da idade, mas como eram, apenas o véu de renda preta que caía por cima de seus rostos tinham esse conhecimento. — Tome tento, garoto, com Deus não se brinca.

—Continuem rezando que vocês ganham mais do que espalhar falso testemunho dos outros na cidade. — César as encarou com raiva, mas ignorou para não se cansar, encarando o homem à sua frente. — Bom dia, Padre Pagliazi, bença.

—Deus te abençoe, meu filho. Xerife, temos grandes problemas.

—Qual criança que atirou uma bola de neve na dona Gláucia dessa vez? — César notou que as outras três davam risadas pelos movimentos dos ombros, então a que estava sem se mover e, provavelmente, com um olhar de fúria era a Dona Gláucia.

—Infelizmente, Xerife, o problema é bem mais complexo do que uma das minhas amigas sendo alvo da traquinagem de crianças. Venha comigo.

Eles foram descendo a rua central, um amontoado de pedras mal colocadas que pulavam para fora em quem tropeçava sem querer, revelando o chão de terra batida, aquela de cor vermelha muito intensa, totalmente própria para plantio. Os passos deles eram mais rápidos que os das beatas, as quais queriam descer apenas para averiguar o que o homem falaria do que ocorrera na noite anterior, mas nada era tão injusto até o padre parar e as encarar.

—Minhas amigas, por favor, queiram nos dar um tempo a sós, esse assunto é um pouco mais sério do que seus olhos sacros poderiam encarar. — Não houve uma resposta plena que não fossem as idosas parando aos poucos, e virando para irem embora, mas sabiam que aquilo seria um fim para Pagliazi se ele não fosse o padre, as quatro futriqueiras começariam a costurar uma longa linha de histórias que maldiriam da vida do homem a ponto de ele ser mal falado e impedido de ir a qualquer canto.

—Padre, o que aconteceu? — César perguntou novamente ao atingirem o pé da região. Lá, um garoto os esperava, ele estava bem longe da área em que o padre fincou algumas estacas e passara uma corda. No meio, jazia um corpo. A coloração da pele estava em um tom roxo escuro, com várias marcas de queimadura, resultado da neve que caiu sobre a sua pele.

César parou, fez um sinal da cruz e se aproximou, pé ante pé, mas evitara pisar em qualquer ponto que pudesse ser crucial. Entretanto, foi inútil, a neve cobriu toda pegada que poderia ir em direção ao homem, dando um sinal se ele estava ou não acompanhado.

—Alguém deu falta de algum parente hoje pela manhã? — A voz grave de César foi quase um sussurro, para que apenas o Padre pudesse ouvir.

—Nenhuma reclamação. Você sabe como as pessoas são, provavelmente se fosse alguém conhecido, alguém já teria dado falta. Mas...

—É o Advogado Salazar. — A voz veio de perto deles, era o garoto que estava sentado em uma pedra grande e não mais suja de neve. Ele estava de cócoras, com as pernas abraçadas. Os olhos azuis do menino reluziam com a luz do Sol que recaía sobre eles, destacando-se de sua pele negra retinta.

—Tobias, eu não pedi para ficar fora daqui?

—O senhor só descobriu do corpo porque eu fui correndo avisar o Xerife, mas uma das caquéticas que me pegou pela orelha, achando que eu tinha feito algo errado e me puxou até a Igreja.

—E você não fez nada para se defender?

—César, você sabe que pensar em algo para com elas é pedir para ficar mal falado na cidade.

—Infelizmente eu sei... — César deu um olhar de relance ao garoto, mas nada fez. O clima entre os dois sempre foi estranho, César era muito comunicativo com todos, menos com Tobias, algo distanciava os dois, Padre Pagliazi também sentia isso, mas nada fazia, ele já tinha quatro mulheres para cuidar antes que pensasse em adotar mais um pupilo, embora Tobias fosse determinado e seria um excelente coroinha, futuramente um acólito, quem sabe.

—Bom Xerife, já sabemos quem é o nosso infeliz falecido... Mas preciso que o senhor descubra o mais rápido possível quem foi o autor desse crime, o corpo precisa ser velado, era um homem muito importante para todos dessa cidade, e para o crescimento dela. Aliás, será que já enviaram a carta para a oficialização do nome daqui?

—Padre, um assunto por vez. Primeiro, será difícil descobrir qualquer rastro, nevou muito na noite anterior, todas as pegadas, inclusive as dele, foram apagadas, não sobrou nada a não ser o corpo. — César se aproximou do corpo, viu a neve suja de vermelho e um buraco na cabeça, bem ao lado da testa, na têmpora do indivíduo. — Então, alguém ouviu algum tiro na noite passada?

—Acho difícil, ainda há poucas moradias aqui embaixo, e o vento ontem soprava para o sul. Se houve qualquer estouro, poucos ouviram, talvez alguém que estivesse na floresta.

—Padre, onde já se viu um pirralho assim se intrometer em assuntos do Xerife? — A voz esganiçada de uma mulher veio de trás do trio. Era Dona Gláucia. — Esse menino não é flor que se cheire, capaz dele ter cometido tal ato. — Tobias arregalou os olhos, mas nada disse, tinha conhecimento que retrucar a mulher nada ajudaria.

—Ele estava ajudando o cozinheiro do bar acima da Igreja ontem, eu vi com meus olhos, e lá fiquei até altas horas da noite, o garoto também. — César complementou, a fim de encerrar o assunto. — E ele está certo, eu me recordo que quando Tião saiu para recolher umas mesas que estavam na rua, por conta da neve, a vela que carregava soprou para baixo, ao Sul, qualquer barulho aqui foi atirado à floresta.

—Bom, se querem dar crédito para o garoto... — Dona Gláucia pareceu irritada com a voz, não gostava de ser duvidada, principalmente em suas atitudes e falas. — Mas sabendo da história desse homem, capaz de ter se matado, podem deixar ele perecendo aqui, fez certo em se matar no Cemitério dos Inférteis, não terá uma única reza ou menção nas missas.

—Ainda bem que a senhora é beata e não juíza, nem o Diabo seria tão cruel quanto a senhora. — César retrucou e se aproximou do corpo, sem sinal da arma que fizera aquilo, mas havia um detalhe que chamou sua atenção, havia uma enorme ferida em seu braço, cortando a pele de fora a fora, muito sangue saíra por ali. — Acho que ele foi assassinado. — O grito de susto do Padre assustou mais a César e Tobias do que a Dona Gláucia resmungando ao fundo, afirmando que o homem se matara.

—E como pode afirmar com tanta certeza? — Ela queria estar certa, independente se suas ações fossem enviar para o inferno aquele que não cometeu ato nenhum contra a sua própria alma ou ao seu próprio corpo. — Provavelmente ele estava bêbado e veio tropeçando lá de cima, caiu em cima de algum arbusto sem flores e se cortou todo.

—Pela ferida, só se o arbusto fosse feito por garras. — Ele cavou o chão bem perto dele, removendo a neve, buscando a arma que causara o assassinato. No fim, ele encontrou o revólver, bem parecido com o seu, mas todo enferrujado, e as duas balas, dando a ideia de que ele não cometera suicídio. Afinal, por que gastaria duas balas para fazer isso?

—Certeza que estava com medo, gastou uma bala para fazer um teste. — Dona Gláucia ainda resmungava. — Ou melhor, ele fez isso porque sabia da ingenuidade do Xerife, sabia que ele falaria ser um assassinato, e nós rezaríamos pelo homem, por esse pecador. Mas somos mais espertos, eu mesma não ousarei colocar esse pecador em minhas orações.

—Padre, creio que temos um problema bem maior mesmo. — Ele ignorou a mulher. — Prepare o velório para o homem, caixão fechado, fale que ele teve óleo derramado no rosto em um acidente em sua casa. Não vamos causar alarde, e estarei em busca do criminoso, ou ao menos abafar a situação. — Ele falou sussurrando, apesar de Pagliazi ouvir. Tobias começou a correr perto da velha, atormentando-a, o que a fez perder a atenção na conversa, certeza que não ouvira o plano dele. — E, por favor, cuide da Dona Gláucia, ela causará temor.

—Meu filho, não posso mentir ao povo.

—Então não faça o velório, apenas chame o coveiro e o enterre dignamente. — A face do Padre era a mesma para tudo, para raiva, torpor, alegria e indiferença, e assim ele se manteve, chamando a beata para subirem junto. — E pode parar de agir feito criança, Tobias.

Ambos se encaram, o clima entre eles ficou mais estranho como era de costume.

—Quer que eu ajude no caso?

—Prefiro que não, vai chamar atenção.

—Quem dará atenção para um pivete como eu, César?

—Você sabe quem são as pessoas que dão atenção, então fique fora. Você já ajudou bastante. — César sabia da fama de intrometido do Tobias, e sabia que o conhecimento do garoto era enorme, facilmente ele já tinha todo um plano em mente para vasculhar cada canto da cidade em busca de detalhes. Preferiu ignorar isso e deixou o garoto livre, sem se comprometer. Quando se deu conta, estava sozinho junto ao corpo ao pé no morro, encarando a imensidão da cidade e, bem mais acima, um casebre perdido ao longe.