A Melodia das Profundezas
6 Desaparecidos em meio a chamas
—César e Tobias ainda não voltaram da investigação no casebre velho do Salazar? — Padre Pagliazi sentava-se próximo à lareira de sua casa, enquanto segurava a xícara de café que Dona Magda entregava para o aquecer, a tarde estava refletindo um alaranjado pacífico, todos paravam para encarar o adormecer do Sol mais ao longe, no horizonte pacífico e distante da floresta do sul. — Eles já deveriam ter voltado, o casebre não é tão grande.
—Certeza que o Tobias atrapalhou sem parar o César. — Gisele estava com a bíblia aberta ao lado de Dona Gláucia. — O marmanjo já possui 20 anos nas costas, mas ainda age como se fosse uma criança, não é possível, minha tia o mimou muito.
Padre Pagliazi era muito bondoso, muitas vezes pávido, qualquer outro padre anterior teria voado com injúrias para cima da mulher, ainda mais quando se tratava de um dos queridinhos do Clero para, ao menos, ascender como coroinha durante as missas. Ah se ele cedesse aos meus convites e fosse estudar na capital para ser padre, com certeza teria um futuro brilhante.
Mas preferiria sempre se calar, passar por um homem ouvinte, aquele que concorda com todos e todas, a fim de não criar qualquer conflito desnecessário.
—César é um bom Xerife, não podemos discordar, mas esse vício dele em bebida chega a ser ultrajante! — Gláucia até tremia às mãos de raiva e torpor quando falava sobre. Sabia dos problemas do marido, César é um dos mais valentes Xerifes que a cidade já teve, foi o único que apaziguou, e melhor, foi o único que deu um fim à violência que ela sofria do marido. — Temo que ele acabe agindo feito os demais bêbados dessa cidade.
—Eu já dialoguei muito com o Xerife, situações de aconselhamentos e confissões, nada posso contar, mas às vezes um escape o ser humano precisa. Ele, infelizmente, encontrou um escape errôneo.
Um vento gélido e seco entrou pela janela, que abriu de supetão, revelando uma movimentação estranha e turbulenta na praça central, a casa do Padre era um pouco distante, mas conseguiram ver como o agito crescia em meio a um desespero. As quatro beatas e a pequena discípula deram um salto, apagando o fogo, recolhendo xícaras, pegando seus véus, terços e velas, Padre já usava a sua batina, enrolou-se em um casaco e todos saíram pela porta da frente.
O cheiro de queimado percorria o ar, caindo sobre a cidade. Repararam que um dos bêbados do Bar de Zacarias vinha correndo, não esbarrava em nada e o cheiro de álcool não era tão intenso. Ele veio esbaforido, tomando fôlego maior parte do caminho.
—Meu filho, tenha calma, não creio que seja para tanto. — Contudo, o odor fétido de queimada crescia mais e mais, causando um enjoo em seu estômago.
—Padre, temos problemas! — E apontou o casebre mais acima rodeado de fumaça escura.
*
Salazar guardava com calma os crânios onde fora ordenado, o desespero em receio em ser descoberto, por que guardar aquelas ossadas em local tão perto da cidade e onde qualquer um poderia encontrar? Qual o plano dele para isso? O medo percorria seu corpo todo, ele precisava de um tempo apenas para ele. Remexendo nas madeiras do chão, ele pode encontrar seu descanso.
*
Eles sentiram o cheiro de queimado atrás de si mesmo, César encarou Tobias ao menos tempo que ambos se viraram e se assustaram com as chamas já se alastrando velozmente para os cômodos da casa. Não havia tempo para pensar muito, não havia qualquer sinal de água em baldes ou barris, eles teriam de atravessar a cortina de chamas que estava em frente à porta, que ainda se encontrava fechada.
Tobias não esperou alguma reação do Xerife, enrolou-se em uma coberta fétida e lotada de retalhos e pulou o fogo, que se espalhava ainda mais pela construção de madeira, o cheiro forte de queimado começou a subir pelas narinas de César, a visão começou a embaçar, precisou sentar, e nada de algo líquido que pudesse ajudar com o acidente.
Mas seria mesmo um acidente? Tobias forçava a porta, mas ela não abria por nada.
—Tente chutar e derrubar a maçaneta. — César conseguiu dizer em meio a náusea que sentia, provavelmente o álcool dentro de seu corpo começou a rejeitar ainda mais o organismo, tanto que começou a vomitar em uma tina próxima da pia. Ouvia Tobias chutando a maçaneta, o tilintar do metal caiu no chão de madeira, porém a porta se manteve lacrada, o garoto voltou enrolado em meio a um véu de chamas.
O fogo se alastrava pelas paredes e em poucos segundos estaria no teto, era questão de segundos até tudo estar em completa chamas.
—Não abre, barraram a porta por fora. — Eles começaram a se revirar e pensar em outra saída, mas nenhuma. César, em meio a suas náuseas, chutou a tina, que espalhou o vômito para todo o lado. — Ainda bem que só tinha líquido no seu estômago, seu bêbado! — E reparou que o líquido viscoso e esverdeado escorria pelo chão. — Agora sem nojo... — Ele forçou as tábuas, que saíram sem o mínimo esforço em suas mãos, e um vão começou a se abrir.
César viu o mesmo e começou a ajudá-lo, momentos antes do teto todo começar a ranger e ruir, despencando madeira e chamas por todo o cômodo.
*
A noite comia o véu de fumaça que saía da casa, muitos homens da cidade conseguiram subir com carroças pelos íngremes e estreitos caminhos até o topo aplainado, atirando um pouco de água sobre as chamas, a fim de apaziguá-las, apesar de tudo já ter se consumido de forma trágica e veloz, como se a casa fosse feita para isso.
Padre Pagliazi, contra a vontade de todos, subiu para acompanhar a operação. Ninguém da cidade sabia da investigação no casebre, a não ser ele, as Beatas e agora a pupila da Glaucia, Gisele. Ele encarava tudo com desespero e dor no peito, o pobre Tobias e o valente César, a esperança era a última que morria, mas sem sinal deles no auxílio, será que o incêndio começou com os dois ainda dentro do lugar?
—Algum sinal de feridos?
—Não, Padre, sem corpos, Salazar deve estar fora da cidade, por isso que não se encontra aqui. — Ele não comunicara da morte de Salazar, queria saber se o homem era merecedor ou não de um velório. — Entretanto, encontramos algo bem estranho. — Eles se aproximaram dos destroços, que exalava um forte calor. — Vamos esperar que esse calor reduza, pela manhã deve ter mais nada, ainda mais com a noite fresca que faz hoje, mas achamos isso. — Era um crânio, bem pequeno. — Sou caçador, padre, nenhum animal que vi na vida tem esse formato...
Pagliazi viu e sabia o que aconteceu com as pobres crianças que desapareceram, seus olhos encheram de água, certeza que o mal que percorria aquela cidade pegou César e Tobias, fazendo a casa incendiar-se.
—Precisamos esperar César, ele saberá o que fazer.
—Infelizmente, creio que não será possível... — O homem viu Pagliazi chorando, encarando os destroços, então ele percebeu o que ocorria. — Provável que perdemos nosso Xerife e o discípulo dele, o menino Tobias. — O homem, magro e com rosto avermelhado do calor e das queimaduras do sol e da neve, retirou o chapéu, como um momento silêncio. — Por favor, continuem a busca, precisamos ter certeza que eles estão, ao menos, em estado que é passível de cura, vou falar com o farmacêutico, ele deve saber o que fazer.
*
A manhã era fria, o Sol não saiu para ver a cidade não criando vida, todos se reuniam na Igreja, os cristãos e os não cristão, todos esperavam o comunicado importante que o Padre Pagliazi necessitava comunicar, Dona Ana sentava-se sozinha em um banco isolado, Gisele se sentou com as outras Beatas. Ela sentiu movimentação ao seu lado, era Soraia, a esposa do finado carcereiro, a quem o cargo foi dado com muito amor e carinho para César, que assumiu também o cargo de Sampaio, o antigo Xerife, que se mudara com a família da cidade para mais perto dos avós, na capital mais ao norte.
—Oh minha amiga, fique calma, o mundo é justo, eu conheço a lábia do Tobias, ele é igual a pequena Emanuele: valentes, destemidos, o puro amor e coragem dentro de si, com certeza ele aparecerá.
—Meus irmãos e irmãs, os últimos dois dias foram tensos entre nós, do Conselho. Tanto eu, Padre Pagliazi, quanto o Prefeito Augusto e o Xerife César, vínhamos pensando em maneiras de solucionar a busca para os nossos pequenos desaparecidos, sem causar caos ou medo entre os conhecidos e desconhecidos. — Ele fez uma breve pausa, respirou fundo, segurando as lágrimas. — Na madrugada de ontem, descobrimos que o, até então, querido Salazar fora assassinado, o medo percorreu minhas veias, assim como dos conselheiros. César, como bom e corajoso xerife, partiu para investigar, encontrando as prováveis pistas do terror de nossa cidade no casebre que o homem hoje chamava de lar.
A população segurava a tensão no ar, muitos, especificamente as mães, começavam a chorar, entregando ao desespero as últimas orações.
—Com grande dor no coração, eu venho dizer... Que nossos pobres filhos não estão mais entre nós. — A comoção fez muitos ficarem chocados, desesperados, o choro foi enorme. — Provável que o incêndio foi um meio de Salazar esconder o crime que cometeu, mas o culpa o consumia, certeza, então retirou a própria vida, levando consigo também mais dois de nossos amigos.
Dona Ana começou a chorar aos braços de Soraia, Gisele encarou o Padre com desespero no olhar, Dona Gláucia a abraçou fortemente, mas a menina rejeitou, precisava estar ao lado da tia. Ela correu pela frente da Igreja, ignorando qualquer regra ou gesto, aproximando-se da tia e dando um forte abraço.
—É com pesar que eu vos comunico também o falecimento de Tobias e de César no incêndio do casebre de Salazar.
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