A Melodia das Profundezas
10 A maldição do Primordial
—Pagliazi está se divertindo com o caos. — E foi assim que todos perceberam que o que caía do céu era uma água vermelha e não a água límpida de sempre, a noção de todos começaram a voltar, eles corriam para todos os lados, indo para suas casas ou estalagens. — Tobias, quais outras você acha que vocês dois não passaram ou foram repetidas? — Ele encarou César, que o revólver estava a postos, assim como recebia auxílio de outros homens.
—A única que repetiu, que foi quatro em uma só... César! — Ele encarou o garoto, mas voltou o olhar para o Padre, estava com uma sombrinha em mãos, analisando o pandemônio. Um raio caiu, acendendo uma enorme fogueira ao centro, formando uma sombra atrás de Pagliazi, a imagem de uma enorme serpente. — Pelo amor de Deus!
César mirou a arma nele e deu um tiro, contudo o homem desapareceu na hora, a roupa ficou no lugar, dando lugar para uma espessa fumaça, a qual começou a tomar forma da Serpente. Matheus sumiu também, deixando Tobias sozinho. O garoto começou a ajudar os mais velhos a voltarem para suas casas, quanto mais pessoas socorresse, melhor. Ele trombava com alguns outros jovens da cidade, e ia mandando todos ajudarem os mais velhos, grávidas ou deficientes, era necessário calma, mas precisão.
—Qual foi a ordem? — Tobias tentava se lembrar da ordem dos pesadelos: Lobos, serpente, terremoto, enchente, asfixia, raiva, veneno... — O que seria a segunda enchente foi a chuva de sangue... Não! — Matheus tinha um discípulo, um pequeno garoto bem mais novo, por volta dos quatorze, quinze anos. Tobias o viu correndo rua abaixo, com os cabelos longos e pretos escorrendo no rosto, era magro, de pele amarelada pelas doenças que tinha. — Silas, o que foi?
—Matheus pediu para te entregar isso. — Era um bilhete, já molhado, mas legível.
"Dorothi, a filha do padeira, foi abusada pelo tio". — Ele encarou o menino. — Por isso da chuva, não pela enchente, ela sumiu no início do inverno, foi o único caso que vocês não conseguiram manter oculto. — Eles não tinham passado por todos os pesadelos, eles continuariam agora. Se for assim, ainda havia três pela frente, mas quais seriam, o que poderiam fazer?
—Silas, agradeço muito! Vá ajudar o pessoal e se proteja assim que conseguir, ou quando a situação piorar, por favor. — Tobias correu para a praça, apenas alguns homens ficaram para ajudar, mas muitos ainda não conseguiram voltar para suas casas ou quartos, era muita correria. A enorme Serpente estava em cima do palanque, enrolada em seu corpo, com a cabeça ereta, analisando tudo. Tobias, na fúria, pegou um pedaço de pedra e mirou na cabeça dela, acertou em cheio, viu o olhar feroz mirar para si mesmo.
Continuou a corrida até achar César, que ajudava o pessoal, havia muito feridos, muitos foram pisados na corrida, pernas quebradas, braços em posições nada anatômicas, e o pessoal querendo fugir inclusive da cidade.
—Não enfrentamos todos os pesadelos, apenas gastamos aqueles que Serpente sabia que não seria útil para aterrorizar. Não houve duas enchentes seguidas, mas apenas uma. — Contou sobre Dorothi. — Ainda há três pesadelos para enfrentarmos. — César encarava o chão pensativo, a raiva e ódio estampavam sua cara suja de sangue. — Cuidado, é isso que ele quer.
Os dois voltaram para praça, Tobias pegou um revólver com um dos ajudantes, que estava caído no chão, desacordado, roncava profundamente, provavelmente bêbado. Ambos encaram a Serpente, que desceu do seu altar e ficou no chão com os dois.
—Vocês sabem muito bem que ainda não acabou, não é? — Vários rugidos ecoaram pelo céu, vindos de várias direções. — Esse é o começo do fim de vocês.
Uma enorme fera saltou por cima da Serpente e pousou diante da dupla, era um leão, muito enorme do que aqueles que viram no túnel, bem mais robusto, com uma enorme cicatriz no rosto e pelo corpo, a juba era preta como carvão, mas se manchava de vermelho pela chuva.
—Mas já não enfrentamos os leões?
—Na verdade, não, eles se enfrentaram, e deixamos que eles se impedissem, não realizamos a última prova, apenas passamos impunes. — Tobias tremia de frio, o vento era gélido. — Ainda temos quatro pesadelos para enfrentar, se pensarmos, sendo três deles totalmente desconhecidos. — Um homem surgiu do nada e mirou uma carabina na direção do leão, atirando com toda a força. Pegou apenas de raspão, a criatura continuava em pé, com olhar ainda mais vingativo.
—Vocês não podem vencer! — Serpente sibilou e a fera atacou, homens começaram a surgir, trazendo armas, facas, algumas lanças.
—Temos apenas isso para combater, pois disparos podem errar. — Um resmungava. Tobias e César avançaram para a cobra que estava de volta ao palanque, eles receberam espécies de facões dos homens, seguiram para o combate corpo a corpo. — Com ela morta...
—Espero que isso passe.
A Lua permanecia solitária onde estava, nenhuma nuvem a cobria, era a única fonte de luminosidade que todos tinham, pois as fogueiras, lamparinas, tudo foi apagado com a correria e a chuva, tudo parecia desmoronar, muitos conseguiram escapar, mas muitos ainda estavam ali no meio, com medo, mortos, feridos.
—Tudo há uma explicação! — Gritou César, mirando o revólver para a Serpente.
—Eu sei, vocês saberão, essa terra carrega história em suas entranhas, e vocês jamais poderão imaginar o quão saboroso é se nutrir do medo e do desespero das pessoas, é docinho, é gracioso, desce liso e sem queimar pela garganta. — Ela sibilava para eles, encarando os dois ao menos tempo. — Essa terra chora sangue todos os dias, essa cidade é podre, caindo aos pedaços de onde o Sol nunca chegará.
—Olha, cansei! — César apertou o gatilho.
Ela desviou, o garoto avançou com a faca, enfiando na parte de trás da cauda dela, arrancando uma boa parte das escamas, mas nada tão abrupto, só ouvir um leve gemido de dor, a cauda ricocheteou, mandando o garoto para longe e atingindo uma madeira forte e grossa que segurava o palanque. César aproveitou a deixa, em que a barriga da cobra estava amostra, deu tiros seguidos.
Alguns acertaram a serpente, outros foram desviados, o olhar de féria perdurava em seu olhar, ela se entrelaçou e avançou na direção de César, ele se atirou no chão, caindo em cima de uma poça, o corpo sujo parecia um atrativo aos leões, que ocupavam alguns homens ainda não feridos. Mais rugidos e sussurros vinham pelo ar, muitos começaram a gritar, mulheres e crianças, bebês choravam ao relento.
Ondas de raios começaram a despencar, caindo sobre as casas, enormes labaredas começaram a se levantar, renascendo pesadelos por todos os lugares, alguns conseguiram fugir, outros faleciam pelo caminho. Por mais que o pessoal atacassem de volta, os Leões tinham muito mais força e mais ódio em seus embates, Tobias começou a encarar muitas pessoas feridas, braços despedaçados, pernas arrancadas, algumas nem vida mais apresentava, pois as cabeças rolavam pelo chão conforme as garras cortavam o ar.
Ele, sem pensar, com a força que ainda possuía, sentia falta de ar e um gosto férrico na boca, empunhou um dos facões e avançou para um dos leões, ele pulou como se fosse cavalga-lo, penetrando a lâmina enferrujada em suas costas. Um rugido de dor penetrou no ouvido de todos e aquela fera desfalecia no chão.
A Serpente encarou a cena espantada, com o olhar surpreso, embora isso não a parasse, abocanhado o ar, onde estava um dos braços de César anteriormente. O Xerife mirou novamente nela e atirou, errando mais uma vez, e isso a enfureceu, fazendo o corpo se contorcer ao redor dele. Ele sentiu o corpo preso, sem movimentos, o ar deixou de entrar em seus pulmões.
—Não! — Tobias viu a cena com o olhar em lágrimas, suas pernas se moveram sem ele pensar, atirando-se para cima da serpente, na tentativa de cortar a carapaça rígida.
—Ora, ora, parece que alguém tem sentimentos por aqui... — Ela sibilou, a língua vibrando de excitação. — Acho que essa morte será mais deliciosa do que pensei... Melhor do que os pecados que vocês já praticaram.
—Se ousar a ferí-lo, desejará nunca ter aparecido nessa região. — Tobias quase chorava por meio da raiva e do desespero em sua voz, seus músculos tensionavam enquanto empunhava a arma.
—Olhe ao seu redor, caos e destruição, mortes e mais mortes, um rio de sangue percorre os céus, e mais um rio de sangue cairá sobre essa terra, não tem como fugir. — A Serpente ainda segurava César, porém não pressionava mais com força. — Sabe o que é mais interessante das pessoas? Tudo isso será explicado pelo romance de vocês, tudo será dizimado porque vocês foram dois pecadores.
Ela encarou o céu e sibilou ainda mais forte, como se entoasse uma canção. A chuva torrenciou ainda mais tenebrosa, e um estrondo ao longe ecoou pela escuridão que se formou com a lua desaparecendo aos poucos. Uivos percorreram a amplidão, todos se encaravam, resquícios de um passado não tão distante percorreu suas memórias, muitos tentavam correr, as chamas comiam as casas das pessoas, a chuva de sangue freou a maioria, contudo ainda raios despencavam do céu.
Repentinamente, lobos e lobisomens surgiram na escuridão, percorrendo pelas pequenas vielas e ruas, atacando ainda mais pessoas, que poucas já se protegiam. Todos encaravam a cena com horror.
—"Não se deite com um homem como se deita com uma mulher". — A Serpente sorria. — Vocês serão mortos no final, caso eu padeça, serão os culpados por essa tragédia.
—Legal, você lembra direitinho da bíblia! — Matheus apareceu atrás deles, segurando sua bengala, encarando a Serpente. Ele segurava um livro em mãos. — Acho que você não deve saber o que é isso, não é? — A Serpente soltou César e avançou para o homem. — Eu não contaria vantagem por ser um velho, não esqueça que era muito amigo de Olga.
—Eu não a conheci, infelizmente, seria lindo a bruxa estando ao meu lado.
—Se havia alguém que mais odiava a Igreja era aquela mulher, em que parte desse cérebro de réptil satânico acredita que ela se uniria a você? — Ele abriu o livro. — Ela sempre dizia que nossas lembranças de velhos amigos fariam com que nossos piores momentos fossem quebrantados e pereceriam o mal ao nosso redor.
Mais uivos vinham da imensidão escura, que clareava com o retorno da Lua, Matheus conseguiu desconcentrar a Serpente, que não conseguiu mais atrair pesadelos, eles acreditavam. Mais gritos vinham de mulheres de trás deles, uma criança apontava para o longe, em que enormes figuras lupinas pulavam entre os telhados, eram cinco no total, e avançavam com fúria no olhar, alguns pulavam antes para as vielas, Tobias encaram ao longe alguns atacando os demais lobos, muitos lobisomens avançavam diante deles, como contra-ataque, mas eram facilmente derrotados.
As pessoas viam aquilo com horror, alguns tinham esperança, por que aqueles demônios atacavam a própria espécie? A Serpente esqueceu Matheus, que saiu da frente dela, enquanto a criatura encarava seus feitiços, os pesadelos de lobisomens e lobos caírem diante da fúria dos outros lobisomens.
Um deles, muito maior e com pelagem ainda mais escura que carvão, reluzia com a chuva de sangue, que ficava ainda mais fraca, dando lugar para a água, avançava feroz e velozmente diante deles. O olhar vermelho incrustado fortemente na Serpente, a qual desviou assim que previu o ataque. Entretanto, a fera não errou, saltando sobre o segundo leão que ainda estava lá, cortando a garganta da fera com fúria.
—César... Será?
—Emanuele! — E o Lobisomem os encarou enquanto arrancava as garras ensanguentadas do leão morto.
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