A Melodia das Profundezas
3 A Peregrinação do Órfão
Tobias tinha desejo em correr morro acima, em direção à cidade, perpassando por ela, apenas para nutrir a curiosidade e a vontade de ajudar César. Entretanto, as malditas fofocas das quatro beatas haviam prejudicado muito a sua vida, desde o momento em que decidira atritar com Dona Gláucia, mulherzinha nojenta, futriqueira, se cuidasse mais da própria vida e soubesse rezar o padre nosso corretamente… Tobias encarava a cidade se movimentando mais e mais, confluindo em um mar de comerciantes abrindo seus poucos estabelecimentos.
Ainda sem nome, a cidadezinha no morro mais baixo da região, com vastas planícies lotadas de florestas ao seu entorno, com exceção da pequena estrada que se abria em uma longa e vasta planície após o que os cidadãos chamavam de Cemitério dos Inférteis, um local em que os corpos de dissidentes religiosos eram atirados, enterrados sob o limo e neve sem qualquer respeito ou oração, exatamente como Dona Gláucia desejava para o pobre Salazar.
—Tobias, ‘me’ ajuda aqui, filho! — Era dona Ana, uma mulher que morava ao lado de sua casa, em que vivia sozinho havia três anos. Sem rumo, muito menos parentes que o aceitassem, a mulher adotou o adolescente, na época, que a ajudava em suas tarefas diárias. Claro, o garoto com seus quase 20 anos, mas ainda tratado como um adolescente inexperiente na presença da mulher, rejeitava a maior parte dos desejos da mulher em lhe ajudar, acatando apenas o necessário que estivesse além do seu domínio de liberdade.
Ela era costureira, uma de mão cheia, segundo as mulheres que frequentavam a Igreja Matriz, estava sempre alegre e com as mãos em uma máquina de costura, presente de todos para a senhora quando essa completou seus 50 anos, uma das mais velhas da vila, antes de todo aquele crescimento.
—Baile de Primavera, Padre Pagliazi, quando quer, dá atenção devida ao que a meninada hoje quer fazer para se divertir. Disse que até uma banda de uma cidade grande lá do oeste virá tocar, disse que é em nome do progresso da cidade.
—E ele está certo, tia, precisaremos de todo o apoio regional para que a cidade não padeça em esquecimento por conta do novo acidente. — A voz era meiga e suave, vinha de Gisele, sobrinha “adotada” de Dona Ana, sofrera o mesmo fim que os pais de Tobias, mas seu parentesco a ajudou a se manter no mesmo lugar. — E com o tanto de pedidos que a senhora tem de vestidos, terá um longo trabalho, uma pena termos apenas uma máquina, eu poderia ajudar a senhora. — Encarou com cara feia e emburrada a Tobias, sabia que o garoto era um vagabundo, a menina era discípula de Dona Gláucia, odiou quando soube que a tia “amadrinhara” o garoto, mal ela sabia que realmente o menino era afilhado de batismo e de crisma da mulher.
—Bom, tudo tem a sua explicação. Se Deus permitiu esse ato violento, ele tem planos maiores, está nos protegendo. — Ela se virou, pegando uma chave grande e levemente enferrujada, ao abrir um armário dentro da casa, para onde retornara após chamar Tobias na rua. — Meu filho, pegue esses rolos de tecidos aqui em cima. E depois, vá até a casa de Dona Ângela e encomende um frango assado para o almoço, ela deve ter esquecido que eu pedi isso a ela faz uma vida, estava esperando o inverno finalmente acabar para focar todo meu tempo nesses vestidos. Ainda bem que temos um tempo até lá.
—Tem certeza que não precisa que eu fique aqui e ajude com isso, tia?
—Não precisa, meu filho, eu sei quais seus planos para hoje… — Ele se assustou, imaginara que fora o mais discreto possível.
—Acha mesmo que a Dona Gláucia não passou daqui para dizer que foi você quem descobriu o corpo do pecador? — Gisele tomava uma xícara de café, a raiva com que ela mexia a canequinha de alumínio era fruto daquela surtada oradora. — Você acha mesmo que tem chance de seguir os passos do bêbado do César? A não ser que seja para encher a cara como ele.
—Gisele, tenha modos! ‘Tá’ ficando doida e chata igual a Glaucia, meu Deus. — Ela entregou uma bolsa ao menino. — Um saquinho tem moedas para pagar a Ângela, um tem biscoitos para você lanchar e um cantil com água.
—O menino vai até a esquina de casa, tia, não buscar a doida que é um lobisomem.
—Pode ir, mas volte antes do anoitecer. — Dona Ana ignorou a sobrinha, deu um beijo na testa do garoto e fez um sinal da cruz em sua testa. — Deus te projeta, meu anjo. — E ele partiu para rua, sendo surpreendido por uma rajada de vento frio.
Seguiu rua mais acima, parando numa casa que cheirava a tempero de frango desde que se lembrava por gente. Dona Ângela era uma mulher magricela, mas com uma força nos braços que era de se admirar quando pegava os frangos para destroncar, depenar e colocar para assar. Quando o atendeu na porta, uma nuvem de penas perambulava pela casa, com seu gato de estimação brincando com elas.
—Ainda bem que cuido dos frangos lá no fundo, longe desse doido por penas. Ah sim, Tobias, um frango para três? Pode deixar, vou mandar para sua avó para o almoço mesmo, não tenho tantos pedidos ainda, não deu tempo dos vizinhos de cima acordar e lembrar que tem 10 filhos para alimentar. — Tobias riu da mulher, que carregava um copo com líquido alaranjado no copo, brilhoso na luz das velas enquanto anotava o pedido em um caderno de capa de couro — Tudo certo. — Ele entregou as moedas, despediu-se e subiu ainda mais rua acima, em uma viela que era sem saída, se você não ousasse a atravessar a densa floresta.
As árvores eram muito próximas, umas das outras, as grossas cascas eram rígidas, não era qualquer vento que as fazia se curvar, ele encarava maravilhado a imensidão acima de sua cabeça, com poucas folhas uma por cima da outra e quase nenhum céu acima de si, pouca luminosidade do Sol adentrava, e isso colocava ainda mais temor em seu caminho, em que as raízes das árvores, felizmente, eram bem fundas e raras eram aquelas que saíam acima do solo, as mesmas que o faziam tropeçar e quase cair de queixo no chão. Ele andava sem rumo, receoso de se perder, dando de cara com uma pequena orla deserta, sem árvores, onde havia uma trilha estreita.
Ele subiu, imaginava que a casa de Salazar era por ali, a mesma que todos conseguiam admirar da praça da Matriz, mas sem saber o que ocorria ou deixava de acontecer, a fumaça resultante da chaminé, que nem sempre era expelida, era a única noção de vida que poucos, principalmente os bêbados, conseguiam apontar.
Finalmente, alcançou o final do caminho, dando de cara para um pequeno casebre mal cuidado, com grama alta crescendo ao fundo, supondo ser ali um quintal, com as janelas quebradas e sem nenhum sinal de vida, era uma moradia até que grande comparada com as casas mais populares da cidade, embora Salazar fosse o homem mais rico da região desde que apareceu há uns dez anos, sendo o único que sobreviveu ao Cerco da Matriz, uma tragédia que assombrou as redondezas há três anos, exatamente quando seus pais pereceram.
—Você demorou dessa vez. — A voz grave de César veio de trás da casa, ele estava com uma garrafinha de alumínio em mãos, certeza que se tratava de uísque. — E eu sabia que você viria direto para cá, sem qualquer sombra de dúvidas.
—E vai me mandar para casa, suponho. — Os dois se encaram, e o clima pesou, os dois apresentavam uma tensão que colocava em dúvida o que o passado de ambos escondia para ocorrer essa rispidez intensa.
—Infelizmente vou ignorar o ego da Dona Gláucia e permitir que você me ajude, a sua visão e percepção de ambiente é muito mais importante do que uma velha caduca que só reza e fofoca. Pobre Pagliazi, cada dor de cabeça que ele deve matar com uma taça de vinho da sacristia por conta dela… Tenso.
Tobias esperou César parar o seu drink enquanto tirava o cantil com água da bolsa para beber e comer alguns biscoitos que Dona Ana mandara. O clima era agradável, a noite nevada não fez as temperaturas caírem tanto, mas ainda sem resquício de primavera no horizonte, talvez o Baile fosse adiado mais um pouco, não seria possível o pessoal usar aquelas roupas quase veranescas sem que congelassem. O Sol queimava em cima dele, as horas avançavam como ninguém, deixando a aurora da manhã para longe.
César avançou e escancarou a porta, não havia temor, não era para haver ninguém os esperando. Eles entraram com grande afinco, sem pensar em pisar com calma, até que César esbarrou numa poltrona, trombando a canela e quase caindo no chão.
—Acho mais fácil irmos com calma e abrimos uma janela para o sol entrar… — Tobias se lembrou que as janela, pelo lado de fora, já estavam abertas por estarem quebradas, mas reparou que não havia qualquer sinal de luz solar ou brisa que viesse por elas. — Que estranho...
Com uma luva de couro, que carregava sempre, começou a tatear o local em busca de alguma vela ou lamparina, esperava que a grana do homem servisse para ela comprar um pouco de óleo de baleia, a fim de que ficasse mais fácil de acender. Derrubando panela no chão, que resultou em algum líquido se esparramando, ele achou o que seria uma vela e uma caixa de fósforos, acendendo e colocando um pouco de luminosidade no casebre.
—César, isso está estranho. Está um Sol intenso lá fora e as janelas quebradas, por que aqui não tem um resquício de Sol?
—E acha que não reparei nisso? — Ele retrucou com raiva, o álcool provavelmente bateu e a dor de cabeça veio acompanhando. “Não mandei querer encher a cara antes da hora do almoço e de estômago vazio, teimoso. Por isso que ele saiu trombando em tudo, quase se mantando”.
Tobias ignorou o homem e começou a buscar novas velas, pisando no líquido que derramara da panela, era algo bem espesso, fazia peso por onde pisava, e as onomatopeias dos pés era algo que o incomodava demais, quase fazendo tirar os sapatos para não o incomodar mais, mas sabia que sujaria os pés e mal tinha conhecimento do que era aquilo. Vela por vela, e mais algumas três lamparinas, ele colocou vida dentro da casa.
Assim, eles conseguiram começar a investigar, buscar qualquer pista ou vestígio que os guiasse para um rumo do caso do Salazar. Ou melhor, foi Tobias quem fazia a maior parte das buscas, pois César decidiu deitar no sofá e dormir, nem parece que eles ficaram acordados até a mesma hora.
—E ainda se pergunta o motivo de o chamarem de bêbado inveterado…
—Eu ouvi isso, hein? — César soltou murmúrios enquanto estava deitado.
—A intenção era você ouvir mesmo.
—Depois eu te expulso dos lugares onde eu estou e você fica achando ruim, mas age feito uma criança ainda.
—E você parece um mimado riquinho que enche a cara por diversão, nem parece que foi morto um cara há algumas horas e você é o Xerife.
—Eu vim aqui só para confirmar com o Padre que ele foi morto e que o assassino deve ter ido muito longe, apenas para o homem não ser largado aos abutres ou qualquer outro animal que saia da floresta para devorar o corpo.
—Até porque a Gláucia ia querer isso mesmo, botar terror na catequese e crisma sobre como Deus é cruel para com aqueles que saiam da linha de seus ensinamentos.
—Ah se ela soubesse o que Deus faz com fofoqueiras.
—Só temos de ter cuidado com ela… Não quero nem ver o que ela fará se… — E um galho se partindo lá fora cortou a conversa, César saltou do sofá e voou para fora, com o revólver em mãos, para averiguar.
—Ninguém aqui fora… — Disse retornando para dentro, mas a cara de enjoo dele quase o chutou para fora. — Não está sentindo esse cheiro? — Tobias cheirou o ar, mas nada sentiu, até pensou que teria um cheiro de guardado, mas lembro das janelas quebradas e do vento que devia correr pelas rachaduras. — Venha aqui fora. — Tobias saiu e entrou de novo, sendo socado na cara por um cheiro fétido, corroído, lembrando o cheiro forte que o corpo de Salazar exalava, apesar da neve que o conservou.
Eles ouviram novamente um barulho forte lá fora. Dessa vez, os dois foram averiguar, mas sem sinal de vida. César sentou em um toco de madeira que ficou para trás, certeza que o fim era ser pedaços de madeira menor para uma lareira, até encarar os pés de Tobias. Suas botas estavam sujas, de vermelho para um preto, um líquido viscoso.
—Por onde você caminhou? — E avançou para o menino. — Isso é sangue… E está fresco.
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