A Melhor Parte de Mim.
4 Seguindo em frente.
Notas iniciais

Karina se olhava no espelho. Não se sentia adequada. Não com o salto que estava usando guardava para emergências (como festas) e um dos poucos vestidos que tinha, na verdade, o único que tinha sobrado. Tinha usado há um ano, no último aniversario de Bianca, lógico que a própria tinha escolhido para ela. O vestido era rosa, batia um pouco acima dos joelhos, com detalhes delicados que Karina achava que combinava com sua personalidade. “Usa por mim, Ka. Como presente de aniversario.”, pediu a irmã. Naquela época, em que Bianca e Karina ainda eram amigas, um pedido desses facilmente a convenceria. Claro que hoje em dia o vestido estava mais colado, destacando suas curvas e sustentando um decote. Mas era o que tinha, que apesar de justo ainda servia porque ela não se submeteria a humilhação de vasculhar as roupas da irmã.
Apesar de se sentir orgulhosa da própria maquiagem que fez em si mesma e ter conseguido se arrumar “adequadamente” sozinha, se sentiu deslocada.
– Isso não é pra mim — murmurou Karina saindo da frente do espelho. Quis tirar a franja da testa, partir o cabelo ao meio e vestir pijamas. Contudo, queria provar, que não estava na fossa, como todos pensavam e que tinha se saído por cima. Karina encheu o peito de coragem e passou um batom rosa claro.
Antes que mudasse de idéia novamente, Karina pegou seu celular e mandou uma mensagem a Cobra:
“Vamos?”.
Alguns minutos depois o celular de Karina vibrou.
“Vai você na frente.”
“Cobra, eu não quero ficar sozinha. Você tem que ir”
“Eu apareço por lá mais tarde.”
Karina bufou para a tela do celular. Podia até entender os motivos do anti-socialismo de Cobra, mas isso não significava que aceitasse.
A verdade era que Cobra não queria realmente ir. Sabia que encontraria Jade na festa. Porque ela não perdia uma. E ele não queria reencontrar a ex tão cedo, pois sabia que a briga que tiveram não fora passageira, mas se rolasse recaídas, Cobra não sabia se resistiria.
Sentado em sua cama atrás do QG, Cobra girava o celular nas mãos. Indeciso se deixava Karina na mão ou corria o risco de rever Jade.
Era impossível lembrar-se dela sem lembrar tudo que aprontaram juntos. Todos os serviços sujos que tivera de fazer por Jade, as mentiras que contam para os outros. Até de gay já tinha se passado para ajudar a garota.
– De gay o Cobreloa não tem nada – murmurou Cobra com a lembrança do dia que tinha vestido as roupas mais justas de toda sua vida.
Toda vez que Cobra lembrava-se de suas trapaças e do seu jogo sujo, se perguntava por que não tinha mudado. Depois de tudo que tinha ocorrido com ele, achava que Deus iria ao menos olhar para ele. Porém o efeito sempre parecia contrário. Tudo lhe dava mais raiva ainda.
Não gostava de lembrar, mas não conseguia tirar os gritos desesperados da cabeça. Cobra enfiou a mão debaixo do colchão e tirou a folha de jornal que guardava como sentença.
“Lutadora morre segundos antes da sua luta, suspeito já teria sido preso.”
Batidas na vitrine do QG ecoou pelo lugar. Primeiro o lutador pensou que fosse o vento, mas mudou de idéia quando as batidas ficaram cada vez mais fortes. Cobra no mesmo momento devolveu a folha de jornal para debaixo do colchão e se levantou xingando baixinho.
– Cobra! – Gritou a voz de Karina, apenas de ainda não a ver, se sentiu meio constrangido quando saiu de trás da loja sem camisa.
Cobra se surpreendeu quando viu Karina. Sinceramente, ela estava uma gata. Enquanto caminhava para a porta, sua visão sobre ela ia se ampliando. Ele não era muito de reparar em detalhes, mas sabia que Karina estava maquiada, usava saltos e um vestido rosa que combinava com o tom rosa de sua pele. Mas Cobra sabia que ela também ficaria gata sem isso também. Com certeza, pensou Cobra malicioso.
– Abre pra mim? – pediu Ka.
Cobra bufou e destrancou o QG, abrindo a porta de vidro.
– Vamo Cobra, veste uma camisa! – pediu Karina.
– Mas você é mesmo insistente em Karina...
– Ah, Cobra, eu não quero ficar lá sozinha. Suas tentativas de não ser social serão em vão tendo eu como amiga – Karina abriu um sorriso. A garota se esforçava para manter os olhos em Cobra. Olhe nos olhos, não para o abdômen, Karina.
Cobra sorriu de volta. Era impossível negar um pedido de Karina tendo-a toda produzida em sua frente.
Bufando Cobra voltou para seu “quarto”. Cobra ficou em duvida antes de escolher uma camisa, porém achou que se iria estar ao lado de Karina, tão bem arrumada, deveria estar também. Se vestiu uma camisa azul de mangas compridas e calçou tênis para não ficar tão “formal”. Ao se olhar no espelho, Cobra balançou a cabeça e pensou “Se importando com o que uma garota vai achar de você, o que está acontecendo com você!? Nem é um encontro de verdade!”
Karina sorriu para ele quando Cobra reapareceu, ela não deixou de notar as roupas, que não era tão comuns de vê-lo vestido.
– “Vambora”? – disse Cobra.
Karina concordou e junto, os dois saíram do QG. Karina tentando se equilibrar no salto estava prestes a ir para um ponto de ônibus esperar um Taxi ou pegar o primeiro ônibus que passase.
– Peraí! – Chamou Cobra. Karina se virou confusa para Cobra – aonde é que você vai?
Karina enrugou a testa para Cobra.
– Pro ponto de ônibus?! – indagou Karina.
Cobra colocou as mãos na cintura e riu debochado.
– O que foi, hein, Cobra? – perguntou Karina, incomodada com a risada do amigo.
– Você acha mesmo que eu vou andar de ônibus? – perguntou Cobra, agora sério.
– Se quiser a gente pode ir de Taxi...
– Karina, eu não ando de Taxi, muito menos de ônibus – Cobra sorriu. – Eu tenho um carro.
Karina arqueou as sobrancelhas para Cobra e cruzou os braços.
– IIIh,metido!
Cobra riu.
– Peraí que vou pegar o carro.
Karina assentiu e observou Cobra desaparecer para a garagem atrás ao lado do QG.
A praça estava vazia e já passava das dez da noite. Karina andou de um lado para o outro, nervosa. Não queria que ninguém a visse ali, se não, estaria totalmente ferrada. Apesar dela saber que estava irreconhecível, e de longe a única coisa que faria alguém a distinguir-la seria o cabelo.
Um barulho a fez virar para a praça vazia. A Galera da Ribalta vinha ali, zoando, divertidos, como sempre. Karina conseguiu ate esboçar um sorriso, lembrando dos velhos tempos com eles, mas logo se desfez quando ela viu Pedro, vestido como um artista do rock, como sempre, levando um Skate em mãos.
De repente ouve-se um silencio. Eles tinham a visto parada ali também. “Aquela ali é a Karina?”, mesmo do outro lado da rua, Karina escutou Pedro dizer.
Todos ali de preto, encarando uma única garota de rosa. Um grupo qual Karina se sentia muito distante de ter andado junto um dia, qual não se encaixava mais. Pedro levantou a mão pra acenar, no mesmo momento Karina fechou a cara para ele.
Pedro parecia vidrado, paralisado. Sol, a vocalista da banda, empurrou Pedro como se dissesse, vai lá. O guitarrista pareceu sair do transe e deu o primeiro passo, mas parou no meio do caminho, quando o carro estacionou ao lado da calçada de Karina e buzinou. De dentro do carro Cobra abriu a porta para a Karina.
– Vamos, Ka!
Karina deu uma ultima encarada para Pedro e pulou para o banco do carona do carro de Cobra. Os dois sorriram um para o outro. E assim como o carro de Cobra que levava Karina, deixando Pedro cada vez mais para trás, a vida de Karina também seguia em frente.
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