— Você está muito quieta desde que passámos no Fred. — comenta minha mãe mexendo a comida na panela.

Fazia poucas horas que tínhamos chegado a casa e nem o pouco tempo que dormi, nem o banho divino que tomei me consolaram sobre a forma como eu me sentia. Há muito tempo eu sabia que ia ser assim. Mal entrei nesta casa e o arrependimento já estava subindo por minha pele. E não o arrependimento de ter saído de Nova Iorque, mas sim aquele de não ter voltado mais cedo.

— Você o viu. — disse com poucas palavras, terminando de preparar a mesa para o jantar. Ela assentiu, desligando o bico do gás.

— E ele viu você? — perguntou de volta. Assenti, respirando fundo. — Conversaram?

— Eu me escondi atrás da primeira estante que encontrei. Orgulhosa? — perguntei ironicamente.

— Por que se escondeu? — perguntou.

Eu sabia o porquê de ter me escondido. Arrependimento, saudade e principalmente vergonha. Vergonha por não ter estado lá quando ele mais precisou de mim. Vergonha por ter ignorado tudo o que fosse relacionado àquela cidade. E vergonha por ter feito minha mãe passar os últimos cinco Natais em Nova Iorque, caso contrário, ela não me veria.

Lágrimas encheram meus olhos e eu não as segurei. Minha mãe correu para me abraçar e eu me senti pior. Pior por saber que a deixei tanto tempo sozinha. Pior por provavelmente não conhecer metade da sua vida nos dias de hoje.

Abracei-a com força e solucei, tendo o mais próximo de um ataque de pânico ou ansiedade que alguma vez tive na vida. Tudo era avassalador, mas o pior de tudo era saber que podia ter sido evitado, por mim.

— Sara, respire. Por favor, respire. — pediu suavemente enquanto afagava meu cabelo. — Nick irá perdoar você. Se é que não o fez já. Muito tempo se passou. — ri pela sua ingenuidade e me afastei, secando as lágrimas.

— Não é por Nick. E você sabe. — respondi.

— Sim, eu sei. E também sei que quando tentei falar com você sobre isso, você se enfiou num avião e partiu para Nova Iorque. — retrucou. Senti outro aperto na garganta e tentei controlar desta vez. De nada me servia agora. — Você é minha filha. Eu amo você. E por muito que tente não te pressionar, em algum momento você vai ter que deitar tudo cá pra fora. Não pode continuar fugindo dos seus sentimentos. Cinco anos bastaram, Sara.

— Certo. Você tem razão. Mas eu não conseguia antes e não acredito que consiga agora.

— Bem. Você pode trabalhar nisso agora, não? — suspirei, tentando finalmente não fugir e aceitar que eu tenho sim, coisas por resolver comigo própria.

— Posso tentar, eu acho. — mamãe deu a volta à mesa e colocou o jantar na mesma, sentando-se em seguida e nos servindo.

— Pode começar por me contar exatamente o que aconteceu com a sua entrevista? — olhei-a sabendo que ela não gostaria da conversa. Dei uma garfada e provei a comida, tentando adiar. A comida estava maravilhosa. Como eu me lembrava.

— Vamos só dizer que minha mãe me ensinou a não me rebaixar perante qualquer figura masculina, ou feminina. — não adiantava fugir mais.

— Alguém tentou fazer mal a você? — perguntou alarmada.

— Ele gostava de fazer um pouco mais que entrevistar.

— Meu Deus! Você o denunciou, certo? — me encolhi um pouco por não o ter feito. — Você não o denunciou. — afirmou soltando os talhares sobre o prato. Indignação enchendo seu rosto.

— Nada realmente aconteceu mãe. No primeiro momento que me senti desconfortável saí do escritório. — falei para deixá-la descansada. — Não me iria sujeitar trabalhar num sitio onde pudesse ser assediada.

— Essa é a minha menina! — fala com um sorriso orgulhoso, erguendo o copo de vinho em sinal de brinde.

— Ele foi um grande jornalista. — comentei, de alguma forma tentando justificá-lo. Porque você faz isso, Sara?

— Não é assim tão grande se está num escritório fazendo entrevistas para os recursos humanos. — responde com ironia. Ri com ela, o aperto no peito se dissipando aos poucos.

— Agora não há volta atrás. — concluí, bebendo um pouco do meu suco.

— Eu não quero que você volte atrás! — exclamou. — Você está aqui muito bem. E não quero esmagar seus sonhos, longe disso. Mas você pode encontrar aqui algo que procurava lá. — pensei por um momento, difícil de acreditar em suas palavras. Nada acontecia em Masonville.

Pelos vistos drogas aconteciam.

— Eu não sei o que vai acontecer agora mãe. — falei sincera. — Ficar em Nova Iorque não era mais uma opção. A renda estava alta demais para o que eu estava ganhando. Mesmo dividindo o apartamento. Ainda por cima desisti do part-time no clube para ter tempo de fazer a redação para a entrevista, então foi menos dinheiro entrando. Conseguia algum fazendo as redações de um blogue, mas não era nada grande o suficiente para me sustentar.

— Você podia me ter dito. Eu ajudaria você a se manter. — começou.

— Não queria. — interrompi de imediato. — E acabei fazendo-o de qualquer forma ao voltar para cá.

— Ei! — repreende. — Esta sempre vai ser a sua casa. Não importa a idade que você tenha nem a situação em que se encontra. Você tem vinte e três anos. É normal estar descobrindo o que funciona para você.

— Nunca pensei que fosse assim tão difícil. — confessei. Olhei-a e vi-a morder o lábio. — Pergunte.

— Você pensou em outro Jornal lá em Nova Iorque?

— Não. — respondi para seu alivio. — As coisas se complicaram tão rápido que nem tive como pensar numa alternativa.

— Talvez Masonville seja o seu Plano B. — fala dando de ombros, esperançosa. Sorrio pelo seu optimismo e tento que a conversa fique por ali. Resulta, mas não para melhor. — Você vai no jogo comigo amanhã? É muito importante para Adam. Ou, toda a cidade.

— Não me parece que seja uma boa ideia. Toda a cidade vai lá estar e...

— Ninguém dirá uma palavra. — interrompeu séria. — Pelo menos não na minha frente. Venha comigo! — insiste. — A equipa está fantástica este ano. Adam tem feito um ótimo trabalho. Além disso o próximo jogo é fora. É uma oportunidade para você vestir aquela antiga camisola dos Masons que você tem. Qualquer uma delas.

— E acha que serve num tamanho 42? — perguntei sarcástica. Minha mãe me olhou e riu.

— Eu sei que uma dá. — fala com tom sugestivo.

— Mãe!

— Você pensa que eu não sei da camisola do Nick? Tinha até o número dois nas costas e tudo!

— O que somos agora? Adolescentes? — perguntei fingindo-me de ofendida.

— Ai. — suspira. — Poderia. — ri novamente. Reviro os olhos, tentando encontrar a piada. A piada é você. — Certo. Não vista a camisola se não quiser. Mas venha comigo. Lembra de como era emocionante?

Sim, eu lembrava. De cada pedacinho.

— Prometo que vou pensar.

— Está certo. Amanhã vou cedo para a pastelaria. Deixo a picape com você caso queira ir à cidade.

— Vou procurar trabalho, bem cedo. Podemos ir juntas? — pergunto.

— Claro! — responde entusiasmada. Termino meu jantar, começo a tirar a loiça para lavar e sinto-a ficar tensa novamente.

— O que vai na sua mente?

— Quer trabalhar comigo na pastelaria? — pergunta.

— Mãe... — começo, mas travo. Pondero o assunto. Não é que eu não queria estar perto dela, mas sei perfeitamente que pessoal e profissional não é uma coisa que deva ser misturada. — Eu agradeço o convite. A sério. Mas eu quero achar algo que me satisfaça pelo menos um pouco. Que tape o buraco que Nova Iorque deixou. Me dê uma oportunidade de encontrar algo. Juro que se nada surgir, me junto a você.

— Eu entendo. — fala com um sorriso. — Fazer doces é o meu sonho, escrever é o seu. — suspira e levanta-se. — Deixo a loiça com você? — pergunta pegando no copo, dirigindo-se à porta da cozinha.

— Pode deixar. — com isso ela se vai.

Não queria fazê-la sentir-se mal, nem dizer que o seu trabalho não é importante ou satisfatório. Mas é o seu trabalho. Estudei tanto para fazer algo relacionado com jornalismo que agora não me imagino fazendo outra coisa. Mesmo já o tendo feito em Nova Iorque. Uma coisa é saber que está fazendo algo temporariamente, outra é saber que o vai fazer pelo resto da vida.

*****

Voltar a acordar em minha antiga cama era no mínimo estranho. Fazia-me lembrar tempos em que a minha maior preocupação era sair dessa cidade.

As ironias da vida.

Depois de fazer a higiene que qualquer outro ser humano faz, peguei minha mala, meu boné e segui para a cozinha. Não me surpreendi em ver minha mãe terminando o pequeno-almoço. Ela logo sorriu quando me viu e me deu os bons dias.

— Dormiu bem? — perguntou sentando-se. Juntei-me a ela.

— Sim. — respondi olhando a mesa recheada à minha frente. A que horas tinha ela levantado? — Não precisava ter feito tudo isso sozinha.

— Oh, deixe disso! — falou pegando uma fatia de bolo para si mesma. — É apenas um café da manhã. — desdenhou. Peguei uma torrada para mim e me servi de suco de laranja. Senti seu olhar em mim, fazendo perguntas silenciosas. Ergui minhas sobrancelhas para ela. — Pensou sobre o assunto?

Na oferta de trabalhar na pastelaria?

— Qual deles? — perguntei de volta, pensando nos temas da noite passada.

— Sobre ir ao jogo desta noite.

Ah, isso.

— Mãe...

— Ok! — interrompeu, confessando-se. — Talvez eu tenha me comprometido um pouco demais com a sua volta. E só, talvez tenha prometido a Louise que estaríamos lá, apoiando seu filho. Ela sempre pergunta por você. Está cheia de saudades. Não faça essa desfeita.

— Noah está no time? — perguntei. Não fazia ideia. Mas passaram-se cinco anos. Não podia esperar que as coisas estivessem na mesma.

— Sim. Começou no primeiro ano do secundário. Jogar futebol foi uma forma de lidar com tudo o que estava acontecendo após a morte de Henry. Acabou descobrindo que é bom no que faz.

Eu senti sua excitação desaparecer quando mencionou Henry. E eu me senti culpada de novo. Eles estiveram lá para mim quando meu pai faleceu e nem uma ligação eu fui capaz de fazer.

Deus.

— Entendo.

— É apenas um jogo Sara.

Sim, era apenas um jogo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.