A Matemática do Prazer
5 - Sistemática de Indiretas
Notas iniciais
Com passos largos e me sentindo uma superstar do desemprego, caminhei até o metrô em grande estilo “tá olhando o que?” para todos que lançavam olhares tortos para minha querida caixinha de palha de aço com meus pertences. Poxa! Não encontrei uma caixa melhor, dá para ignora-la?
Passei pela roleta só o stress. “Caralho! O que eu vou fazer da vida agora?” Perguntei-me inutilmente, por um segundo hesitando em meio ao maremoto de pessoas que circulavam pelo subsolo.
– Vai parar no meio do inferno, desgraça! – uma menininha de uns 8 anos ladrou atrás de mim me fazendo virar e a encarar chocada e repreendedora. Oras! Quem pensava que era para falar assim?
– A educação mandou olá! Pessoas pequenininhas assim não deveriam xingar desconhecidos! – falei em um tom irônico e severo.
– E pessoas grandes como você deveriam ir se foder! – rolou os olhos e saiu andando me deixando atônita no meio do local e me direcionando um sinal extremamente educado com a mão.
Eu hein, que mundo estranho, o de hoje, crianças só no palavrão e falta na de respeito!
Bufei chocada e olhei pra cima. Estava meio perdida e até um pouco abalada de surpresa, certamente deveria ir para casa. Ponderei andando até uma maquina de refrigerantes e guloseimas para saciar meu vicio.
Momentos depois, já andava novamente pelo local com uma latinha de coca em uma mão e uma saquinho de batata chips apoiada dentro da caixa facilitando comer e beber com as mãos ocupadas enquanto passava os olhos pelos postes que informavam a rota nos trens daquela fila.
Faltavam 15 minutos para a chegada do meu expresso, dirigi-me para um banco e me sentei comendo o pacote de calorias fritas e gordura trans sem me importar. Foda-se, que se dane a balança que eu queria é comer.
Percebi que a lojinha do lado de onde sentava era uma banca de revistas e sem resistir fui lá dar uma olhada nas fofocas dos famosos que estampavam as revistas, instantes depois saí de lá indo em direção a fila com uma Vogue, uma People e três jornais da edição de hoje numa sacola. Não lia jornais, só estava interessada nos classificados para começar a procurar um novo emprego.
A fila quilométrica se moveu e eu me arrastei para dentro do trem, me sentando rapidamente – antes que algum engraçadinho pegue o acento que estava de olho –, e me aconcheguei ao lado de uma senhora idosa que me lançou um sorriso estranho, amplo de mais. Eu hein!
Desviei minha atenção de velhinha ao meu lado e comecei a ler minha revista que falava que Britney Spears foi fotografada sem calcinha novamente. Aff! Esse pessoal sai sem calcinha e nem sabiam disfarçar, se soubessem meu truque nunca seriam pegos. Sorri irônica.
Suspirei passando as páginas com um descaso controlado, sobrevindo o olhar pelos títulos dos artigos procurando algo que me interessasse. Um pouco depois, no meio da revista achei algo peculiarmente interessante, não era dada à prestar atenção em testes de revista, mas o nome despertou minha atenção. Li cuidadosamente.
“Qual é o seu número?
Pesquisas realizadas em mais de 27 países mostram que a média que as mulheres têm, ao longo da vida, de parceiros sexuais são de 10,5. Realize o teste abaixo e descubra qual o seu perfil de acordo com seu número!”.
– Porra! – berrei indignada chamando atenção de muita gente dentro do transporte. – Mas isso é muito pouco! – reclamei e percebi que a senhora ao meu lado não mais sorria para mim, e sim estava de olhos arregalados em minha direção.
– O que foi, criança? – ela perguntou baixinho para mim. Virei-me em sua direção e lhe mostrei a revista.
– Olhe só. O número de homens que uma mulher dorme na vida são de 10,5. – apontei para o artigo no passo que ela lia.
– Nossa! Bastante, não é? – ela perguntou para mim com um sorriso. Olhei para ela abismada.
– Bastante? – sussurrei. – É muito pouco! – reclamei com ela. Que me olhou como que eu fosse uma prostituta drogada. Qualé moça!
Desviei de seu olhar austero, com vergonha e exaspero silencioso, enquanto lia e relia a matéria acima no teste de quinze perguntas. Tentei contar mentalmente com quantos caras eu já tinha transado, minha mente turva, o burburinho continuo do transporte e minha memória amnésica não estavam colaborando nenhum pouco.
Fiz uma orelha na página em questão e fechei a revista a depositando dentro da caixa com meus outros pertences. Quando chegasse a casa leria com cuidado e formularia uma lista com os nomes dos ditos cujos. Apreensão me assombrava, mas a expulsei assim que notei que meu ponto era o próximo. Pensaria melhor com uma barra de chocolate, um banho relaxante e alguns episódios de Bob Esponja.
Levantei sem olhar para a senhora ao meu lado ou qualquer outra pessoa ao meu redor e saí do trem, mortificada, porém não estava com medo do que pensariam de mim. Provavelmente nunca veria novamente aquelas pessoas e o máximo que falariam de mim é da “tarada do metrô” para algum amigo ou coisa assim, nada que me preocupasse agora ou depois.
Andei preguiçosamente para o meu prédio, já com os braços doendo por carregar a caixa pelo período extenso de tempo, estando ela um tanto pesada. Avistei a fachada azul e branca assim que virei à esquina e momentos depois estava passando pela porta em direção as escadas, com terrível desânimo para subir os oito longos lances de escada até o meu andar.
Quando terminei o primeiro andar, tomei um susto com o cachorro do cara do apartamento 102, tinha quase certeza que o dono do Rottweiler era gay.
– Hey! Tobby! – falei com o animal enquanto ele rondava minhas pernas. Ele era adorável, mesmo sendo de grande porte, era um cachorro amável, o que estragava era o dono dele.
– Saia de perto do meu cão, Elena. – rogou Carlos, me virei e o vi com as mãos na cintura em uma posição nada máscula. Só pode ser gay! Ponderei.
– Ele que veio para cima de mim. – Defendi-me.
– Tá, tá. – rolou os olhos entortando a boca. – Queria mesmo falar com você... Suas cartas vieram parar novamente na minha caixa de correio. Não quero que isso se repita. – me estendeu o bolo de papel.
– Olha, não fale como se fosse minha culpa ok? Não fui eu que coloquei lá. Brigue com o carteiro! – falei pegando de sua mão rispidamente, nota-se que não estava em um bom dia. Ele pegou o cão pela coleira e o arrastou para dentro do apartamento enquanto Tobby protestava com um choro baixo.
– Blá. Blá. Blá! Se manda logo, Elena! – vociferou e bateu a porta na minha cara.
– Seu gay mal educado! – berrei. Será que todo mundo tinha esquecido a cortesia na puta que pariu hoje? Aff!
Subi a escada só o veneno, pisando duro, extravasando minha raiva no concreto. Cheguei à porta mais calma, depois de esbravejar mentalmente durante o percurso. Coloquei a caixa no chão e me entreguei à missão de procurar minha chave dentro do buraco negro que era minha bolça, tateando às cegas, parecia que colocava as coisas dentro dela e em seguida elas iam parar do outro lado do universo.
Estressada tirei a bolça do ombro e comecei a espiar para dentro em busca do molho de chaves com pingente da Pucca.
– Inferno! – reclamei após minutos infindáveis a procura. Sem paciência alguma, virei a porra da bolça de cabeça pra baixo deixando todo o conteúdo de espalhar pelo chão ao meu redor. Se não encontrasse a chave agora, não encontrava mais.
Verifiquei três vezes todos os bagulhos que carregava para, por fim, constatar o óbvio: perdi a merda da chave.
– Só me faltava essa! – falei irritada. Agora teria que arrombar a porcaria da porta pra entrar e depois ter que consertar, logo agora que teria que economizar dinheiro pela falta de serviço. Sou uma fodida mesmo.
Afastei-me seis passos antes de respirar fundo e engatilhar em uma corrida louca em direção à porta, dando uma bela e doida voadora na madeira que nem mexeu, mas que me fez voar o caminho todo de volta quando bati.
– Ai minha perna, caralho! – resmunguei me pondo de pé cambaleante.
OK! Sem pernas. Fui com tudo tentando forçar com o ombro, mas no último segundo arreguei legal com medo de me machucar mais.
– Que bosta! – dei um soco frustrado na porta sentindo um choque intenso passar por meus ossos. Meu dia não poderia ser mais perfeito!
Suspirei desistindo da loucura de tentar arrombar a porta e rolei os olhos com o som que ouvi do apartamento do vizinho. Verifiquei meu relógio de pulso. Quatro da tarde e já está gemendo? Putzz.
Sorri amplamente com a ideia que me ocorreu. Ah moleque! Fui desfilando até a porta do 702 e bati três vezes em busca de resposta. Nada, quer dizer, nenhum efeito, já que os gemidos continuaram. Bati – lê esmurrei – a porta mais forte desta vez ouvindo silêncio alastrar-se pelo corredor. Até que enfim me ouviram.
Bati o pé contra o piso repetidas vezes e ouvi o som da tranca sendo desfeita, respirei fundo quando a maçaneta virou na expectativa de ver o vizinho-delícia que eu era honrada em ter.
Ao contrário do que pensei a porta se escancarou de uma vez fazendo meu ar ser sugado para o vácuo pela vertigem da visão.
OH! Caralhos me fodam!
– Oh meu Deus! – gritei de surpresa, prazer e vergonha fixando meus olhos nos azuis pasmos e divertidos dele, privando meus olhos do deleite da visualização de seu corpo.
– Elena! – me saudou. – O que faz aqui? – perguntou e desviou o olhar para o interior do apê assim como eu que desviei o meu para baixo. “Oh pecado ambulante, tira a mão da frente por obséquio”. Clamei em mente.
– Eu. Eu... – eu não tinha o que falar. Qual era meu problema mesmo? A dor das pancadas que dei na porta sumiu. É, eu o atrapalhei no meio do ato.
– Shh... Calma aí que vou vestir algo. – falou para mim e agradeci pelo bem de minha sanidade mental. Fiquei igual estátua na porta o esperando e quando voltou veio acompanhando de uma loira que passou andando por mim com cara feia.
– Me desculpe. Eu não queria atrapalhar. – falei um tanto ruborizada, mas secretamente satisfeita, pelo menos essa noite eu dormiria sem gemidos aos meus ouvidos, seria uma benção.
– Tudo bem. Arrumo outra. – falou com descaso e eu reprimi um sorriso. – O que queria mesmo? – perguntou me olhando risonho com o perdido que eu dava ao olhar disfarçadamente para seu torso e tanquinho expostos e pela alegre trilha da felicidade da barriga até o paraíso oculto pela única peça que usava no corpo: Um jeans escuro e macio. Respirei fundo a fim de retomar a voz.
– Eu preciso que você arrombe para mim... – falei o olhando calmamente, tocando meu pulso, checando meus ossos com uma pequena e ignorada pontada. Um sorriso amplo, safado e deslumbrante se esticou por seus lábios.
– OPA! Pode deixar comigo! – ele esfregou uma palma na outra me olhando da cabeça aos pés. – Só vou ali pegar uma caixa de camisinhas e já vou te arrombar! – ele piscou para mim e deu um passo para trás.
– O que?! – berrei estridente. Corei até o cabelinho do rabicó no instante. Oh Deus, ele me interpretou mal. Mesmo eu gostando da sua versão dos fatos eu ainda me dava valor. – Não! É a minha porta! – exclamei. – Quero que arrombe porta do meu apê! – expliquei melhor vendo o sorriso se fechar e ele fazer um bico igual criança birrenta.
– Ah tá! Então é isso. – ele moveu o copo para a outra perna e se escorou no batente. – Desculpe, achei... – ele gesticulou para mim e eu corei.
– Não... – sorri para ele. Que desconcertante. Gostaria de dar um “ainda” para ele, mas ele era todo sedução e eloquência, não podia confiar em meus próprios julgamentos perto dele. – Não era sobre isso que eu falava.
– Está certo. Vou arrombar a porta para você. – ele ronronou e piscou para mim cheio de divertida malícia que nos fez gargalhar, acabando com o clima tenso. Ele saiu encostando a porta e eu passei por ele em direção à minha casa. Minha loucura era tanta depois deste dia que jurei o ouvir resmungar consigo: “Só por que gostei da ideia da arrombação me vem com essa da porta”.
Vou marcar um psiquiatra para mim, estou ouvindo coisas! Ele não poderia falar aquilo depois do mulherão que acabara que sair de sua casa.
Ele sorriu para minha cara de espanto quando o observei arrombar a porta com um único e simples chute. Cada músculo se tencionando graciosamente enquanto forçava a porta, um espetáculo a parte.
– Aff! Não acredito que só um chute e abriu. Dei uma voadora e só consegui um tornozelo doendo! – reclamei enquanto se virava para mim e fazia uma reverência teatral.
– Questão de prática! – piscou para mim e eu ri. Peguei minha humilde caixinha e entrei mancando levemente em casa e colocando em cima da bancada perto da porta e voltei para a entrada.
– Se gabe mais Sr. Mil-e-Uma-Utilidades. – ironizei e sorri.
– Sou mais útil que isso. Garanto e comprovo. – falou cheio de si.
– Sem duvidas! – ri. – Obrigada por abrir para mim, perdi a chave e com o dia que tive, estou apenas feliz de pelo menos não dormir na rua. – Sorri.
– Entendo! Não precisa agradecer. Pode me chamar para qualquer coisa que precisar. – Sorriu simpático, mais não sei se era ele que sempre falava em duplo sentido ou era minha mente tarada, mas eu ouvi pelas entrelinhas.
– Claro. Valeu Damon! Te devo uma! – falei me despedindo, não sabendo se apertava a mão ou dava um abraço rápido.
– De nada, Elena. Chame alguém para arrumar a porta logo. – pausou me avaliando com os olhos azuis enigmáticos e inclinou a cabeça de lado, velozmente me bombardeou com a delícia de um beijo – mesmo que leve – na bochecha e sussurrou roucamente perto de mim. – Cobro o favor um dia desses. – Piscou e se foi me deixando com o coração palpitante e com a mente em outra galáxia.
Fechei a porta e a prendi só com a tranca simples já que a maçaneta e o miolo dela iriam, invariavelmente, para o lixo agora.
Lavei meu rosto na pia da cozinha para o calor passar. Voltando a meus problemas anteriores, me sentei no mármore com uma folha A4 e caneta, com a revista ao lado e começando a minha lista apreensiva, após reler umas nove vezes o inacreditável artigo. Agora era só fazer o teste depois de terminar a lista de meus exs.
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