A Matemática do Prazer
6 - Diagrama da Solteira
Notas iniciais
Bangh!
Levantei a cabeça de uma vez ao ouvir a companhia, sentindo uma dor nas costas tremenda, reclinei minha cabeça novamente sobre meus braços cruzados apoiados no mármore tentando criar coragem e força para ir atender a porta, lentamente meus olhos selaram-se novamente e deixei-me ser levada pelo cansaço mais uma vez.
Bangh! Bangh! Baaaaaaaaaangh!
Porra meu! Quem é o idiota tocando a desgraça do botão da companhia? Ah, mas eu ia fazer essa pessoa tocar o botão do cu dela!
– Tá com convulsão e não consegue apertar só uma vez o caralho não? – esbravejei para a porta enquanto tentava, em meio à nevoa de sono que me consumia, desfazer as trancas improvisadas.
– Bom dia para você também querida irmãzinha! – Kath ironizou quando terminei de abrir aquela bagaça.
– Não sei pra quem! – bocejei só no mau humor e me arrastei para o banco da cozinha onde passara a noite, culpa daquela revista com aquele teste idiota!
– Uh! Tadinha dela! – Kath riu e me olhou vendo meu estado deplorável. – O que aconteceu com a porta, com você e com o seu emprego? Perdi a viajem indo lá e descobri que você não era mais funcionaria. – enumerou nos dedos exigentemente.
Apoiei o cotovelo sobre a bancada e reclinei minha cabeça sobre minhas mãos a olhando através de meus olhos sonolentos.
– Calminha que meu cérebro ainda está em Stand By. – fiz sinal com o dedo para um momento e minha cabeça começou a pesar enquanto “pescava” com a cabeça. Kath me olhou irritada e começou a estalar os dedos na minha cara.
– Elena! – Que ser irritante! Rolei os olhos e os cocei para espantar o sono. – Pode me explicar o que te perguntei e por Deus! Por que tanto sono assim, menina?
– Olha Kath, ontem meu dia não foi bom não! Fui demitida, dei um show no escritório, fui xingada no metrô e descobri que sou uma puta, além de perder a chave e tomar o maior prejuízo tendo que arrumar a porta agora porque pedi para meu vizinho arrombar, o que ele entendeu errado e me fez ficar com vergonha. Com vergonha!... – me indignava esse fato – Fiquei acordada até sei lá quando porque a revista mandou e tenho a incapacidade de lembrar nomes! – finalizei explodindo e voltei a apoiar meu rosto entre minhas mãos.
– Não entendi porra nenhuma e nem quero entender. Vai que é contagiosa essa sua maré de azar? – Kath riu e eu levantei para olha-la reprovando seu ato. – Vamos mana! Levanta daí, toma banhinho que hoje você vai sair com a sua irmã aqui para ajuda-la gentilmente a organizar a festa de noivado exigida por sua santa mãezinha, dona Isobel! – terminou saltitando para mim com um biquinho a implorar.
Gemi em desgosto com aquilo.
– Sério isso? – perguntei dobrando-me sobre meus braços cruzados e escorando a cabeça entre eles.
– Seríssimo! – Kath afirmou e eu reprimi um bocejo.
– Só mais cinco minutos. – murmurei perdida e tomei um tapão nas costas. – Ai piranha! Vai bater na quenga da sua vó! – vociferei esfregando o local.
– É pra ver se acorda e não xingue a minha vó, ela também é a sua! E voa pra aquele banheiro se você não quer tomar outro! – repreendeu a Srta. Irritadinha.
– Bitch! – dei língua pra ela enquanto fechava meu caderninho em branco com somente o titulo escrito “Lista dos ex’s” e a revista, me arrastando para o quarto.
– Anda com isso! Você tem vinte minutos. – ela disse batendo em seu pulso e lhe dei o dedo do meio com bastante gosto.
– Ok, aprendiz de bruxa. Está passando tempo demais com mamãe! – reclamei para ela que me olhou homicida. – Fui, véia! – bati continência e parti para o banheiro aos tropeços, fechando rapidamente a porta antes que ela encontrasse uma faca para me trucidar.
Ri baixinho e me despi me olhando no espelho. É, estava precisando de uma boa dose de vaidade hoje.
Só para irritar ainda mais minha mana – e uma pequena vingança por me acordar –, tomei um banho longo e congelante, pois se a água fosse quente era capaz de eu relaxar e dormi em pé no box mesmo.
Sai no banho um tanto mais desperta. Enxuguei-me com a toalha e a coloquei no suporte para secar e saí do banheiro como vim ao mundo. Estava na minha casa, no meu quarto. Não tinha problema!
– Blah! Elena, é difícil por uma roupa? – minha irmã reclamou deitada em minha cama mexendo no celular.
– Não tanto, mas devo recorda-la que o closet não fica no banheiro, portanto... – dei de ombros indo pegar roupas intimas nas gavetas.
– Eu não necessito de ver isso. – pôs a mão no rosto fingindo vergonha.
– Também não precisava entrar no meu quarto e ver você e Stefan praticamente se comendo, igual àquela vez. – comentei vestindo minha calcinha tranquilamente.
– Seu quarto uma vírgula que ele também era meu! – bufei e ela continuou. – Além do mais você não viu nada, por que estávamos ainda começando as preliminares. Nem sem roupas estávamos ainda.
– Mas dava pra ver muito bem a animação de vocês. E eu sei que depois que peguei minha bolça vocês continuaram de onde pararam. Eu ouvi os gemidos da esquina! – ri com ela corando de vergonha e irritação.
– Duvido que desse para ouvir lá da esquina, onde era seu ponto de rodar bolsinha! – Se sentou me encarando com vangloria enquanto colocava meu sutiã rendado fingindo magoa.
– Outh Katherine! Essa doeu! Além de ter uma irmã puta você ainda insistiu em seguir a profissão!? – pus a mão no peito e fechei os olhos meneando a cabeça enquanto estalava a língua de desaprovação.
A olhei novamente e ela me olhava segurando o riso e sequer aguentei para cair nele, gargalhando histericamente junto com ela. Ela pegou o travesseiro em cima da cama e me atirou ele.
– Vai logo piriguete. Se veste para irmos logo!
– Não sei pra quê o desespero. – falei indo até a porta rosinha de meu closet. – A proposito, quando será a festa? – perguntei casualmente.
– Amanhã. – disse com descaso, mas ouvi a apreensão sob sua voz. Parei imediatamente me virando para ela.
– Desgramada! Por que não me disse antes, invés de ficar me batendo, acordando e estorvando? – entoei irritada para ela que deu de ombros. – Oh God! Tem menina mais sonsa? – reclamei comigo mesma me virando apressada para me vestir realmente.
– Tem sim. Você! – ela respondeu minha pergunta retórica e a ignorei enquanto saltava pelo quarto em busca do necessário para me vestir, passei um perfume e peguei minha boça e a puxei pelo braço. – Simbora dona Katherine.
– Me chama de dona novamente... – sua ameaça morreu enquanto trancava a porta via gambiarras da Elena e a puxava pelas escadas ignorando seu comentário.
– Veio de carro?
– Sim, o meu. – ela respondeu.
– Ótimo! Eu dirijo! – ri roubando-lhe as chaves e indo para o banco do motorista enquanto ela, resignada, abria a porta do carona e o batia. – Para onde vamos? – questionei virando a chave e sentindo o possante ronronar sob meu comando, me sentia dona do mundo atrás do volante da Lamborghini Murciélago. Ela rolou os olhos como se fosse obvio.
– Shopping! – sorri no mesmo instante para ela. Rata de shopping eternamente, porém tinha ciência que não poderia acompanhá-la nas compras desta vez, já que estava desempregada.
– OK! – acelerei rumo ao shopping num trajeto curto – para minha infelicidade –, logo tive que me separar da maravilha de dirigir um carro daqueles.
Entramos e fui guiada por Katherine para escolher a roupa de amanhã, nada comentei quanto a minha aquisição monetária baixa, e deixei minha mana desfrutar de seu dinheiro, já que ela era modelo fotográfica ganhava bastante dinheiro com as campanhas, mesmo não sendo muito conhecida, ainda tinha minha mãe que vivia dando dinheiro aqui e ali, sem falar em Stefan, que era de uma tradicional família de advogados e como parte dela, seguiu o costume e, claro, não a deixaria sem um cartão platina.
Não reclamava disso, foi minha escolha não participar deste mundo, e teria que conviver com as consequências. Obvio que às vezes eu sentia falta de uma folguinha na verba para comprar algo desnecessário, mas era feliz com a humildade que vivia.
Se um dia tivesse dinheiro, seria por meus próprios méritos, pelo meu ganho na vida. É preciso estar por baixo para se erguer.
A bola virou para o meu lado e Kath desceu todo o estoque da loja para nós provarmos. Ela encontrou peças lindas e a roupa que escolhera para amanhã lhe caiu perfeitamente. Logo seu foco virou a mim, e na missão de encontrar uma peça linda para mim, encontramos um vertido maravilhoso. Ok, ok! Era perfeito, mas eram trezentos dólares!
– Sem discussões! Vista agora. – seu tom autoritário me fez rir levemente e fiz o que ela pediu com o cuidado de não me olha no espelho para não me apaixonar pela roupa e me sentir compelida a compra-la. Saí do provador e vi seu sorriso. Ok, agora estava curiosa!
– Mana, ficou divino! – Kath fez sinal para eu dar uma voltinha e o fiz encontrando o largo sorriso no mesmo local quando fiquei de frente a ela novamente.
– Caiu perfeitamente! – a vendedora comentou. Mas é claro que caiu! A comissão era ótima, se vestisse pano de chão e um saco de cimento ela falaria que estava deslumbrante de qualquer forma. – Tenho um sapato milagroso para você, salto dezoito, total conforto e na medida certa!
– Ah! Traga para vermos! – Kath se pronunciou e rolei os olhos sentando-me a espera. Quando ela voltou com uma caixa e a abriu em minha frente percebi que nem todas as vendedoras mentem e que realmente era de matar o sapato.
– Caraca! – falei colocando-o nos pés e eles eram como plumas.
– Realmente, ficou perfeito com o vestido. Levaremos os dois junto com aquelas calças minhas, os três vestidos e aquela bota... Ah! E também vou levar todas aquelas blusas da nova coleção. – Kath falou para a moça que só faltou dançar Ragatanga de felicidade com a venda que faria, eu já estava um tanto irritada com a minha irmã pela atitude.
– Katherine! – chamei sua atenção e ela se aproximou. – Não irei deixa-la comprar essas coisas para mim. Vão dar mais de quinhentos dólares. Óbvio que não vou permitir isso!
– Mana! O dinheiro é meu e ficou realmente bem em você, além do mais está desempregada e sei que não irá poder comprar sem se prejudicar, gastando mais do que deve com o meu noivado. Então, considere um presente por sempre estar ao meu lado! – afirmou para mim com um sorriso. Suspirei e me permiti olhar-me no espelho enorme próximo a mim e vi que o vestido ficara verdadeiramente bem em mim.
– Certo. Mas ainda me sinto magoada por não poder te dar nada! – falei para ela enquanto abria o zíper para retirar a roupa e dá-la para a atendente que aguardava.
– Puff! – Kath desdenhou me olhando. – Elena, o que você mais me deu na minha vida foi rumo, dignidade, força, apoio e carinho. Isso não tem preço, nada que te dê valerá o que me oferece! – ela terminou e me direcionei a ela a abraçando sorridentemente.
– Você se esquece de que também faz isso comigo, mana. – sussurrei.
– Tá certo! Somos duas irmãs bobas e companheiras, agora vamos que temos que passar no Buffet, na decoração e na florista para encomendar as coisas para entregar na casa de mamãe. – Ela se afastou e digitou a senha no caixa falando comigo que a seguia. Rolei os olhos.
– Beleza! Mas só se você me deixar dirigir novamente. – fiz beicinho e ela me olhou enquanto pegava as sacolas. Bufou e assentiu.
– Ok, aproveitadora! Usurpe meu carro outra vez, agora com a minha permissão! – me lançou a chave e lhe dei um sorriso meigo.
– Te amo irmãzinha linda! – disse com doçura.
– Te amo irmãzinha interesseira! – imitou-me e rimos saindo do shopping.
Sentei-me atrás do volante mais uma vez e dirigi para os locais onde queria, pois conhecia bastante gente desse ramo festeiro com as campanhas publicitarias que muitas vezes fiz ou da época em que participava de comitês na universidade onde era desenhista de moda e design para a decoração de algumas festas.
Fomos até a casa de uma velha amiga e fiz alguns croquis guia das ideias que Kath tinha para Danielle montar a decoração do local a seu gosto, enfatizando bem que não deveria escutar ou acatar nada que minha mãe exigisse ou quisesse, ficou mais caro pelo tempo mínimo de entrega, mas ela era capaz e disse que sem duvidas amanhã as nove já estariam na casa de mamãe para montarem a estrutura bifásica, pois teria um jantar formal e logo depois um arranjo físico para uma balada comemorativa. Dani era um gênio do design de interiores, mesmo sua paixão sendo o Stylist das passarelas.
Fomos à florista e Izabel nos atendeu maternalmente, oferecendo-nos bolinho de chuva e chá mate para um lanche enquanto nos ouvia e opinava sobre as flores mais adequadas, sempre deixei a opinião final com Kath, mas ela estava demasiado encantada com os arranjos artísticos e elaborados que Izabel nos mostrava, que acabei opinando para um simples com rosas brancas e orquídeas lilases com os enfeites em cristais prismáticos. Kath achou legal e acabou saindo este.
Dona Izabel falou que o prazo era curto, porém estávamos com sorte que uma boa remeça das flores que desejamos estava em desabrochamento e que daria, com a ajuda dos familiares, para acabar e entregarem até às quatro da tarde de amanhã. Acertamos com ela e partimos agradecendo a hospitalidade da velha senhora e sua amabilidade conosco.
Kath disse para irmos a um Buffet que ela conhecia e ao chegarmos sorri, conhecia aquele lugar, jantávamos com papai com grande frequência ali.
Acertamos com um cardápio variado com o chef – que era bastante engraçado – que dissera que estávamos com sorte, pois havia uma vaga para encomendas somente hoje e a ocupamos imediatamente, após os últimos acertos nos levantamos para sair.
Passei um uma loja de utilidades e comprei o maior cadeado que havia lá e uma corrente bastante grossa. Precisava para prender melhor minha porta enquanto tentava juntar uma grana suficiente para comprar outra e arrumar o marco que tinha sido quebrado.
Ela me levou até em casa antes de voltar para a sua, na área de classe média de Manhattan. No caminho conversamos sobre banalidades e como estávamos. Ouvi bastante dela e ela perguntou o que eu pretendia fazer agora da vida.
Isso eu realmente não sabia, só sabia que, por enquanto, minhas economias e o dinheiro da rescisão dariam para viver bem, mas sem exageros por uns cinco a seis meses, ela me fez prometer que se precisasse de ajuda com algo era para pedir a ela e eu só que disse que não precisaria. Não a prometeria isso, e sabia que era por orgulho.
Assim o carro estacionou em frente de casa e me despedi para descer. Hoje o dia fora ótimo e bastante divertido, mas, extremamente cansativo, o definia melhor. Já se passavam das nove da noite quando fechei a porta e acenei para ela da calçada com as duas sacolas de presentas que ganhara no braço.
Subi as escadas lentamente e por incrível que pareça, não tive nenhum encontro desagradável. Cheguei a meu andar, o ultimo de todos – bom, eu podia espalhar o boato que morava na cobertura sem mentir –, e suspirei encarando minha porta.
Mãos a massa para abrir esse bagulho!
Comecei a minha arte de desfazer a emboleira que tinha feito, meu medo era de alguém roubar a casa, mas a menos que morasse no mesmo andar que eu, duvido que alguém se disporia a roubar uma casa tendo que subir e descer todas aquelas escadas para carregar as coisas.
– Hum. Foi bom te conhecer... – ouvi atrás de mim e continuei o meu trabalho, estava quase conseguindo...
– Igualmente. – parei de me mover. Eu conhecia aquela voz. Virei-me olhando Damon na soleira da porta com seu magnifico abdômen exposto e a loira a sua frente trocando um beijo ardente. Putzz, pareciam se engolir.
– Bekah? – murmurei em reconhecimento. A dona do cabelo loiro se virou para mim um tanto assustada.
– Lena? – perguntou me olhando. Assenti para ela e ela sorriu se aproximando e me abraçando rapidamente.
– Nossa, vadia! Não nos falamos desde o aniversário da sua mãe. Nem pra ligar né? – ela disse se afastando e sorrindo.
– Ah, nem cisma que você também não ligou. – acusei e ela torceu a boca concordando e depois sorrindo.
– Onde estava?
– Eu passei o dia com a Katherine. Estava a ajudando com o jantar de noivado. E você? O que está fazendo em NY e não mandou sinal de fumaça? – questionei com um sorrisinho malicioso olhando de soslaio para Damon que nos olhava escorado da porta, imerso em pensamentos que eu sabia ser impuros.
– Eu vim hoje para comprar minha roupa justamente para a festa dela e acabei esbarrando por aí com ele! – ergueu a sobrancelha em direção a Damon e eu assenti com uma feição de que ela não precisava explicar mais como havia chego ali. – Tinha me esquecido que morava aqui. Na verdade acho que esqueci a hora. Sabe como é né? – assenti pra ela com um sorriso sapeca e gargalhamos. – Bom, amiga, liga para mim esses dias para a gente marcar de um dia juntarmos para passar o dia, quando estiver de folga, sei lá.
– Acho que estou de férias agora, permanentemente. – torci a boca. – Pode avisar para a Caroline, Bonnie e Meredith para sairmos quando quiserem. Kath também irá... Claro, se Stefan sair debaixo da saia dela. – Gargalhamos.
– Bom, Elena. Tenho que ir agora mesmo, a viajem é um tanto longa até Jersey. Até amanhã piriguete! – ela riu me dando um abraço e um beijo na bochecha.
– Adeus, piranha! Quero minha loira-foguete uma Barbie amanhã! – disse pra ela usando propositalmente seu apelido do colegial onde a consciência dela virava foguete e ia para o espaço quando íamos às festas.
– Acho que Barbie é com a Car, mas vou estar um avião, por que a fase de foguete já passou, não é Strip-Lena? – rimos e eu assenti.
– Nunca mais subo no telhado nua. Pode deixar! – sussurrei cumplice para ela vendo Damon nos observar com olhares maliciosos.
– Nunca diga nunca! – Ela riu. – Bom, beijinhos pra você piriguete. – demos um beijo mutuo na bochecha e nos afastamos. – e um beijão para você Dammy. – Rebekah falou de modo sensual para Damon e eu ri com seu olhar confuso.
– Tchau. – falei para ela e Damon acenou e ela desceu as escadas rapidamente. Virei-me para minha porta tentando ignorar a situação que sabia que estava rolando. Rebekah transou com Damon, e agora estava aquele silêncio estranho. Acho que ele esperava que dissesse algo...
– Hum, animadinha a sua amiga né? – ele disse enquanto continuava e tentar desfazer as trancas.
– É... – murmurei vaga. – Ela é realmente legal. Ai! – dei um leve grito com a tranca virando minha unha, descolando a pontinha da carne dolorosamente. Ouvi sua risada.
– Sim. Quer ajuda? – olhei para trás e assenti ainda um pouco magoada com meu dedo. Ele se aproximou e tomou meu lugar me dando espaço para observa-lo, com seu tanquinho despido e sua feição deliciosamente concentrada no que fazia, ele é uma obra de arte.
– Isso está uma droga, ainda bem que convenci a Kath a me levar na loja para comprar um cadeado para isso. – Falei.
– É! Fez bem. Só não consigo imaginar você e sua irmã num material de construção. – ele riu e me mirou com os olhos azuis, me senti um tanto ofendida.
– Oh! Não sei por quê! Mas tem razão com a Katherine, ela sequer entrou na loja! – dei se ombros.
– Está explicado, bom até que você não me parece tão fresca quanto ela, então acredito que tenha entrado sozinha lá. – rimos.
– Ah, Kath não é fresca, só não é acostumada com...
– Humildade. – ele me cortou e eu sorri.
– Eu ia falar com lojas de pedreiro, mas se você prefere assim. – dei de ombros. Ri acompanhando a risada vibrante dele que voltou a mexer na tranca.
– Adorei o modo carinhoso que você e... Sua amiga se chamam. – ri dele. Será que ele não lembrava o nome dela mesmo ou era de propósito?
– Rebekah me chama daquele jeito desde sempre, aliás, todas nos chamamos. – adicionei casualmente e vi que ele tinha acabado de conseguir abrir.
– Pode ser. Mas acho que os motivos dos apelidos são mais interessantes. – ele sorriu.
– Talvez. – Forcei a porta que estava empenada e ela rangeu abrindo.
– Sem duvidas! As origens são curiosas de se saber como, por exemplo, Strip-Lena. – ele disse me olhando de lado com seu sorriso torto. – Gosta muito de telhados? – Arqueou a sobrancelha para mim.
– Telhados me seduzem! – falei com descaso e dei de ombros entrando em casa.
– O que você fez para ficar louca o suficiente para subir lá? – Cruzou os braços e me fitou com seu sorriso cheio de segundas intenções.
– Você não pode saber todos os meus segredos, Damon! Não fico perguntando por que Bekah te chamou daquele jeito, não? – Sorri irônica com sua cara um tanto atordoada e comecei a fechar a porta.
– Você sabe que temos um telhado lá em cima, né? Podíamos fazer jus a seu apelido... – propôs com aquele sorriso próprio para molhar calcinha. Suspirei controlando o fogo que despertou em mim.
– Boa noite, Dammy! – acariciei o vocativo com malícia e fechei a porta em sua cara.
– Perdeu a educação no telhado? Podemos buscar... – ouvi sua voz sugestiva do outro lado da madeira.
– Não esta noite! – ri e ouvi sua gargalhada do outro lado enquanto rumava o banheiro. Precisava tomar um banho após o dia longo que tive com minha irmã e depois um pote de sorvete em meu sofá.
Sentei-me no estofado com meu caderninho na mão, um pote de sorvete napolitano e Jimmy Nêutron na TV enquanto abria o caderno em uma página qualquer, onde havia começado minha lista.
Fiquei olhando para o papel coloridinho a minha frente. Corações, flores, estrelinhas brilhantes e sorridentes enfeitavam a folha com o meu tédio.
Suspirei e peguei a revista ao meu lado tentando me lembras dos demais, sabia que faltavam um grande número de caras com quem transei na lista, e o medo realmente me abateu.
Abri na página do teste que estava me descabelando e me pus a ler novamente os dados que, entre o tempo gasto com as preliminares (19 minutos) e a idade média para a primeira vez (17,7 anos), estavam os fatos estavam me assombrando.
“Pesquisas mostram que o número de encontros médios de uma mulher antes de achar o ‘homem ideal’ é de 35, ou seja, temos trinta e cinco chances de nos decepcionar. Mas não desanimem, tem gente que encontra com menos, caras leitoras”.
Minha autoestima ia para o espaço com esta passagem. Sem dúvidas eu já tive muitos mais encontros do que isso e não o achei. Ou será que o deixei passar sem perceber?
“12% dos pesquisados estão dispostas a falar abertamente sobre o número de parceiros sexuais que teve. Outros 54% informam um número menor de parceiros quando perguntados, onde 98% das pessoas que minimizam suas transas são mulheres; e os demais 34% do total de entrevistados alegam exagerarem quando questionados sobre o assunto, sendo 92% dos adeptos deste último dado, homens.
Mas, por que nós temos tanta vergonha de dizer isso? Simples! Nós, mulheres, hesitamos em revelar que já tivemos experiências anteriores, para não deixar o atual parceiro, desconfortável ou pelo medo de nos achar ‘rodada’ e não servir para casar.
Este fato é levantado, pois há uma estimativa que 82% da população feminina, com mais de 25 anos e que já transou com mais de vinte homens na vida; não se casam. Então se tem o desejo de casar e não quer arriscar entrar para os 82%, é melhor fechar as pernas e abrir os olhos, pois o homem para você pode estar onde menos espera. E você, qual seu número?”
Respirei fundo. Realmente, estava em apuros e decidi que não iria dormir com ninguém, quem quer que seja, até ter certeza de que não seria por só mais uma noite. Eu não me sentia mal com isso, mas me sentia um tanto mortificada por as pessoas terem motivo para uma má opinião de mim. Oras! Se for necessário entro para o celibato para ter uma chance de constituir família, um dia. Nem que tivesse que tomar medidas extremas.
Não estava desesperada para casar, mas não ter escolha quanto isso me incomodava. Claro que não queria ter um casamento igual o de meus pais e sentia um enorme desejo por ser mãe, pois adorava crianças desde sempre. Mas elas não estão em meus planos por um bom tempo.
Estava procurando em cima da estante algo que me auxiliasse a me lembrar dos meus ex-namorados quando ouvi meu telefone fixo tocar, como estava compenetrada na missão que tinha, deixei cair na secretária eletrônica para decidir se iria ou não atender. Ouvi um chiado e minha mensagem ecoou pela sala.
No momento eu não posso atender, deixe o recado após o ‘bip’ e te ligo mais tarde. Beijos.
Bip!
“Elena, é sua mãe. Escute, espero que não tenha ficado chateada por Katherine ter ficado noiva antes de você, por ser a irmã mais velha. Não a culpe. Veja pelo lado bom, branco não lhe cai muito bem... faz você parecer mais apagada. Não se esqueça de comprar algo decente para vestir amanhã à noite, na festa, vão vir muitos homens respeitáveis e talvez você tenha uma chance de sair da seca, que tal? Bom, até lá!”
Fiquei parada no mesmo local em que estava antes, somente ouvindo a voz de minha mãe. Seca? Chateada com Katherine? Por quê?
E então entendi o ponto. Não tinha imaginado, mas era óbvio. Eu, sendo a irmã mais velha e solteirona, com certeza, seria vista como a ranzinza má que tem inveja da irmãzinha mais nova. Isso nunca aconteceu ou acontecerá. E agora além de puta eu teria que me preocupar em ser uma solitária?
Ah! Isso está cada vez melhor!
Joguei-me no sofá já me sentindo frustrada com isso. Será que tudo conspirava contra mim?
Suspirei e me concentrei na lista. Até que enfim algo para me distrair da algazarra de vida que estava levando. Isto seria divertido! Rolei os olhos e na folha límpida comecei, temerosamente, a escrever dos nomes em linhas organizadas e espaçadas para contemplar o desastre sexual que eu era.
Mesmo odiando o alto número que se formava aos poucos, eu estranhamente não me arrependia te ter dormido com cada um deles individualmente, pois sempre tirava varias conclusões de cada uma das experiências – sendo boas ou ruins – com cada homem na minha vida.
Respirei fundo. Já tinham 16 nomes – com exceção de Sarah – e se continuasse a me martirizar agora iria entrar em depressão. Mesmo sendo péssima com matemática, eu tinha plena noção de que já tinha ultrapassado a média nacional de 10,5. Já esperava por isso, mas ainda mantinha uma mísera esperança de que se provasse errada minha estimativa.
Eu estava me esquecendo de alguém, ou “alguéns”, mas não adiantava negar. Eu lembrava que havia mais três, só que os nomes estavam perdidos em meu subconsciente. Eu só tinha uma chance antes de completar o temido vinte, só mais uma chance de sexo com alguém e eu reservaria para a pessoa que eu realmente acreditasse ser a eleita, aquela que eu saberia querer passar o resto da minha vida com ele.
Era isso! Eu não transaria de novo para ter a chance de me tornar uma eterna solteira. Vinte era o máximo, vinte era o meu limite e eu não o extrapolaria.
O que mais me deu raiva era que tinha desperdiçado números com homens que sequer mantive relacionamento ou que eram só por ocupação. Agora me arrependia disso, que, por mais que não os amasse ou sequer gostasse e soubesse disso, fui burra o suficiente para dar para eles como a boa puta que era.
Fitei a TV por instantes enquanto passava os créditos do episódio que passara do desenho. O que eu faria com esta lista era o que mais me intrigava, pois não via utilidade além de ser prova de como eu era uma mulher fácil. Porém era motivador. Sim, motivador! Pois toda vez que achasse um cara gostoso e sentisse atração por ele, eu me lembraria desta lista e me conteria. Pelo menos na teoria.
O brilho da tela de meu celular iluminou a sala com a palavra “Mimã” no display. Estiquei-me para alcançá-lo e atendi.
– Olá maninha. – cantarolou em meus ouvidos como quando criança.
– Oi mana. Não vive sem mim né? – disse com um leve sorriso com sua exaltação.
– Não. Não vivo mesmo. – riu. – Bom, queria avisar para ir dormir imediatamente por que amanhã cedinho vou estar aí para te pegar, pois iremos passar o dia no SPA que eu suei para conseguir vaga para nós. – meu sorriso se amplificou.
– SPA? Ah, mas não posso. – a animação morreu em minha voz.
– Nem cria nóia que é um extra do presente. E não adianta reclamar que eu vou te arrastar até lá! – ameaçou. Suspirei.
– Ok, ok! Não vou mais falar nada sobre essa sua mania. Mas agradeço pelo adicional no presente, estou realmente precisando relaxar. – admiti para ela me deitando totalmente no sofá, de barriga para cima.
– Ah sim. Não se preocupe, logo arranjará um emprego. – confortou-me. Se meus problemas se resumissem a isso... Suspirei.
– Sei disso. – falei vaga.
– Certo. Já estou indo amor... – A ouvi falar com alguém, provavelmente Stefan, ao longe e depois focar em mim. – Então, Lena, não se esqueça de arrumar todas as bolças com roupas e sapatos, inclusive os que te dei, para levar por que faremos cabelo, maquiagem e tudo o que tivermos direito lá antes de irmos para a festa ok?
– Uhum. Pode deixar. Boa noite Kath.
– Boa noite Lena. Até amanhã. Beijinhos. – despediu-se e desligou.
Resolvi nem olhar mais para a obra das últimas horas assim que pus o celular na mesinha de centro, fechei tudo e guardei, como sempre, meu caderno em minha bolça e ajeitei as coisas que Kath mandou. Troquei de roupa para o pijama, vulgo: calcinha e sutiã. E deitei-me na cama com um suspiro satisfeito ao sentir minhas costas murmurarem aleluia ao sentirem a maciez do colchão sob mim.
Fechei os olhos inibindo minha mente de quaisquer pensamentos que tinha para cair em sono profundo antes de dar chance para Damon me estorvar com suas gritarias noturnas.
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