A Marquesa
22 Submundo do Crime
aios de sol perpassavam pelos meus fios de cabelo, Sherlock de frente a mim me olhava fixamente, como se quisesse guardar todas as minhas feições e registrá-las em uma tela. O som de sua voz inundou todo o quarto:
— Watson, você é oxigênio, carbono, hidrogênio, cálcio e fósforo. Os mesmos elementos que estão dentro de todos nós, mas não consigo parar de pensar que você é mais do que isso e que tem outros elementos que a tornam diferente de todas as outras pessoas.
— Não sou perfeita Sherlock, perfeição é algo inalcançável.
Batidas na porta do quarto tiraram toda a magia do momento — pelos gritos e xingamentos — era Kitty que dizia ter alguém nos esperando na sala de estar.
— Acho que vou ter que ensiná-la a não nos interromper. – Falou Sherlock sorrindo, enquanto eu observava o mesmo colocando sua roupa.
Minha maior felicidade era ter uma tarefa, um objetivo, algum tipo de missão. Adorava o desafio de solucionar um quebra-cabeça, de analisar uma pista. Pensei quando Sherlock havia saído do quarto e esperava que aquele fosse um novo caso que me impedisse de mudar de Londres.
Entretanto, quem nos aguardava na sala não era Tobias Gregson, Marcus Bell ou alguém da Scotland Hard era Max Morstan que trazia um envelope decorado em mãos.
— Que prazer revê-la, Watson. – Disse ele me abraçando e senti o olhar furioso de Sherlock em minha direção – Espero não estar atrapalhando em algo, mas tenho que lhe dar uma notícia.
Ele pegou minha mão suavemente e me encaminhou para o assento mais próximo.
— Vou adorar ver isto. – Falou Kitty e eu a repreendi com o cenho franzido.
— Mary Watson pediu para não avisá-la, mas Oren me pediu para que eu lhe entregasse o convite. – Disse Max sorridente.
Praticamente arranquei o convite de suas mãos:
Isabella Coelsi Watson Maria Vivaldi Morstan
Augustus Watson Walter Morstan
Convidam a aristocracia inglesa para a cerimônia religiosa de:
Mary e Arthur
Que será realizada em 12 de setembro de 1884 na Casa Watson’s.
Minha boca formava um O, minha mãe era feliz com Arthur, mas se casar com ele foi uma atitude tão surpreendente que li e reli milhões de vezes o convite deixando uma marca no canto inferior.
— Você está me dizendo que minha mãe irá se casar amanhã?
— É claro que está surpresa Watson, você não acompanhou o relacionamento deles, não viu o quanto meu pai falava dela e vice-versa, como os dois agiam quando estavam juntos e os dois merecem ter essa nova chance.
— É que... Que não acreditava que minha mãe iria se entregar a alguém novamente depois do meu pai sair de casa e se divorciar.
— Esperamos você amanhã – disse Max se levantando – para comemorar junto a eles este recomeço.
Só consegui balançar a cabeça em afirmação e o choque foi tamanho que nem o acompanhei até a porta, Kitty fez isso por mim. Permaneci sentada tentando digerir aquelas informações. A ansiedade tomou conta do meu ser, não sabia que minha mãe queria uma nova vida, ainda mais a dois e estas novidades fizeram do meu dia um borrão que passou rapidamente.
O dia 12 de setembro amanhecia e com ele um sol fraco que mal se sustentava no céu, tudo parecia normal, mas eu tinha a crença que não viveria um dia como este novamente, minha mãe poderia ser qualquer coisa menos impulsiva e se ela iria se casar com Arthur Morstan com certeza ponderou bastante a situação.
Sherlock usava um terno sob medida novo era um cinza que realçava ainda mais seus olhos azuis, claros e estranhamente brilhantes. Kitty usava um vestido vermelho com um lindo colar de pérolas e o cabelo preso no alto de sua cabeça. Estavam lindos, certamente. Para completar eu vestia um vestido lilás e os cabelos encaracolados caindo sobre os ombros. Se alguém nos olhasse vestidos daquela forma iriam deduzir que sempre andamos na última moda da sociedade londrina.
O evento era de grande porte, assim como tudo que minha mãe realizou na Casa Watson´s, as pessoas nos olhavam com estranhamento por Sherlock estar com duas acompanhantes e me parabenizavam por minha mãe como se eu ainda fosse considerada da família. A cerimônia religiosa seria realizada no exterior da casa e quando estávamos caminhando para o local meu irmão me interceptou:
— Que linda dama te acompanha Sherlock! – Disse Oren já me abraçando.
— Faço de suas palavras as minhas. – Falou Sherlock.
— Nossa mãe quer fazer uma pequena reunião conosco antes de começar o matrimônio. – Oren disse em um tom mais baixo dirigido a mim.
Oren e eu entramos novamente na residência e fomos ao segundo andar, quando abriu a porta Mary estava no centro da sala de reuniões como eu jamais a vira; o vestido branco com gola e punhos bordados com pedras de cor prata e pouca anágua realçaram sua estrutura corporal e a fez ficar linda me despertou a vontade de me assemelhar à aparência dela num futuro distante.
— Reuni vocês para determinar o futuro desta casa quando eu me mudar. É de conhecimento da maioria de vocês que hoje mesmo viajo para a Índia com meu esposo e pretendo deixar a Casa Watson´s em boas mãos.
Mary Watson não parava de me surpreender, agora iria se mudar para um país que nem ao menos visitou, apenas para estar ao lado de seu amado, realmente pensei que a pessoa que estava na minha frente não poderia ser minha mãe.
— Como não vou carregar mais o sobrenome Watson, esta propriedade passará para meu primogênito Oren e sua esposa Gabriella e, todos os livros e veículos dos Watson serão repassados para minha filha Joan que é uma mulher preza o conhecimento e a liberdade. Fiquem tranqüilos que tudo já está em ordem na lei, pois assim que recebi a proposta de casamento de Arthur fui procurar ajuda do Conselho.
— Eu prometo à senhora – Começou Gabriella que até então estava sentada no estofado – que eu e meu marido cuidaremos muito bem desta propriedade.
— Disso eu tenho certeza. – Disse Mary sorrindo para os dois.
Os dois se retiraram do recito para evitar o atraso no casamento e me encaminhava para fora também.
— Filha, eu preciso conversar com você.
Parei no lugar que eu estava e me virei lentamente, ela me chamou para que sentasse em frente a ela no lugar que Gabriella estava antes.
— Primeiramente te devo desculpas. — Ela iniciou retorcendo as mãos umas nas outras – Você se parece bastante comigo quando eu era jovem, não se conforma com os padrões da vida moderna, nem com as tradições por vezes ridículas demais para que alguém as siga, eu era assim Joan, como você.
— Mãe...
— Não espera, tenho que dizer algo – ela se agachou na minha frente e segurou as minhas mãos – não vou pedir para você não mudar por que somos como os oceanos que a cada onda se transforma que a cada instante se modifica, mas nunca Joan perca este seu ímpeto e sua determinação, não tenha medo de arriscar, não faça algo só por que os outros a definem como certo.
— Em todo este tempo desde que eu saí daqui, achei que me odiasse por não me casar com alguém que você queria e por ir morar com um homem solteiro.
— Eu nunca poderia odiá-la, queria protegê-la sim, mas nunca a odiei. Você se tornou uma grande detetive e eu me orgulho disso.
Nos abraçamos e fomos interrompidas com o som das batidas da porta e minha mãe saiu rumo ao altar e ao seu recomeço. Fiquei sozinha no cômodo e me dirigi para o que antes era o meu quarto que ainda estava limpo e intocável passei horas ali vendo fotografias e objetos importantes. Quando ouvi aplausos fui até a janela e vi que Mary e Arthur estavam indo para a carruagem, eles se viraram uma última vez e minha mãe pousou seu olhar em mim apertando a corrente que sempre carregava com os auto-retratos de seus filhos, eu sabia que sempre estaria com ela em todos os momentos.
Eu precisava tomar uma atitude, saí dali e em passos rápidos fui até uma das carruagens que agora eram minhas, o olhar que o cocheiro encaminhou para mim não foi nada agradável, assim como o endereço que eu lhe dera.
A esta hora e a qualquer hora do dia aliás, a Holywell Street se enchia de homens e mulheres meio bêbados, vendedores de rua apregoando ostras baratas ou cerveja de gim ou doces, e em cada quarteirão uma mulher maquiada vendia outra coisa, ou seja, a si mesma. Quando avistei a casa fiquei aliviada, ainda mais quando encontrei a pessoa que eu queria do outro lado da porta.
— Olá Watson! Como vai o seu bebê?
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