A Marquesa

4 O Primeiro Cadáver é Inesquecível


dores diferentes preenchiam todo o quarto e antes de abrir os olhos desfrutei um pouco mais daquele cheiro, sabonete misturado com madeira, e então subitamente avistei-o ali. Dei um salto na cama e me sentei ereta, Sherlock Holmes estava me observando, encostado de pé próximo a janela, talvez tivesse chegado naquele momento ou pior talvez estivesse mirando meu sono à noite toda.

— Você me assustou, Sr. Holmes! – Disse eu meio sonolenta.

— Primeiramente me chame de Sherlock. O capitão nos aguarda no departamento policial. – Falou ele.

Levantei e fui até o pequeno armário de roupas que organizei no dia anterior, minha camisola era um pouco transparente, mas acreditava que ele não estava ali para ver partes nuas do meu corpo.

— Não pensa que irá usar estes vestidos volumosos não é mesmo? – Começou ele a falar.

— Irá me emprestar suas calças então? – Disse eu sarcástica.

— Hudson preparou alguns trajes para você, assim que a avisei sobre a necessidade de roupas mais leves. – Finalizou.

Ele esticou o braço e pegou um embrulho que estava em cima da cômoda e em seguida me entregou. Depois de ele sair do quarto, abri o pacote e examinei a peça, era um vestido sem anágua e comprido, era diferente, mas não desrespeitoso para os padrões da época, não pude deixar de notar que a cor do mesmo assemelhava-se muito com a cor dos olhos de Sherlock Holmes.

Meus dedos pareciam formigar, batia-os ritmicamente em minhas pernas, estávamos dentro da carruagem e implorava para que tudo desse certo. Nos últimos dias, Sherlock havia feito vários experimentos para avaliar meus conhecimentos; casos em papéis pregados na parede, com pistas ocultas para eu chegar à conclusão de quem era o assassino, aulas de defesa pessoal e até caminhadas ao ar livre para observamos o comportamento das pessoas. Fui tirada dos meus pensamentos pela seguinte afirmação.

— Você está apavorada! – Disse Sherlock – Creio na sua capacidade Watson, irá se sair bem.

O silêncio foi a minha resposta, apenas me virei para ele e sorri, sua mão parecia vazia e queria que a minha fosse sua companheira, porém a coragem me faltou.

Chegando a Somerset, descemos da carruagem e fomos recepcionados pelo capitão Gregson e outro rapaz que me foi apresentado, como detetive Marcus Bell, definitivamente Scotland Hard era um lugar distinto, onde se aceitavam mulheres e negros, onde se aceitavam as pessoas baseando-se em suas habilidades.

Enquanto os dois tratavam de outros assuntos, eu e Sherlock fomos até a cena do crime. Numa floresta densa, um corpo estava pendurado em uma árvore com uma corda grossa envolta de seu pescoço, pingos de sangue próximos aos seus pés e uma espécie de graveto em suas mãos, os olhos paralisados transmitiam um horror notado por qualquer um que o visse, trajava uma roupa preta elegante, que dava a ideia que estava indo a algum lugar importante e por fim foi surpreendido pela sombra da morte.

— Está claro que não foi um suicídio. – Disse eu.

— Até um cego poderia notar isso. – Falou Sherlock que rodeava o corpo como se fosse um cão farejando sua presa.

— A distância do galho da árvore até o chão não seria eficaz para um homem de 1 metro e 80 se matar, suas pernas estão curvadas e há uma marca em seu pescoço provocada por outro objeto, me parece um bastão, não uma corda. – Continuou.

Aproximei-me do corpo e foquei no graveto na mão direita do mesmo, não era um instrumento capaz de ameaçar o assassino e quando vi para o que aquela coisa serviu, falei em tom baixo como se o cadáver pudesse acordar a qualquer momento.

— Olhe.

O graveto funcionou como um lápis deixando um recado no tronco da árvore em que ele fora amarrado.

CHER

Era todo o que dizia. A respiração de Sherlock estava ofegante, dava para notar, pois seu rosto estava bem próximo ao meu, ele se virou e disse.

— Bom trabalho, Watson. Nós já temos um suspeito.

Caminhamos rapidamente para informar o capitão e o detetive sobre a nossa descoberta, ainda mexendo com os papéis, Marcus Bell falou o seguinte.

— O corpo que analisaram agora é de Frederick Bertrand, tinha 52 anos e morava em Longbourne, não muito longe daqui. Era um grande produtor de lã.

— Só confirma as minhas suspeitas. – Interrompeu Sherlock.

Depois de informar a eles o ocorrido, nos direcionamos a Cher uma empresa de estofados para lares, carruagens, celas de cavalos, com filiais em toda a Europa. Sherlock passava o polegar no queixo em cima da barba por fazer.

— O que te incomoda? – Perguntei a ele.

— A solução deste crime me parece muito fácil Watson. – Disse ele.

— Deveria se alegrar e depois me chamar de Joan, já que comecei a chamá-lo de Sherlock. – Falei tentando aliviar o clima.

O estabelecimento era enorme e de nada valeu a nossa ida até lá.

— Estão todos em uma reunião, um seminário de novas idéias, aberto ao público, se chegassem há poucos minutos teríamos vagas. – Disse a recepcionista – Se for ajudá-los, marco um encontro particular com o presidente Simon Wilson para vocês amanhã.

Reservamos um encontro com ele e nos dirigimos à saída.

— Por isso ele estava vestido tão formalmente. – Falou Marcus Bell.

Sherlock e eu nos deslocamos para Longbourne, a fim de conversar com a família do falecido. Campos vastos e uma casa de dimensões consideráveis constituíam a paisagem. Fomos recebidos e instalados na sala de estar, Sherlock caminhava e retirava objetos do lugar enquanto eu examinava as pinturas a óleo nas paredes.

— Sejam bem-vindos – Disse uma senhora, vestida com um vestido preto e com a voz entristecida.

Ouvia atenciosamente a mesma nos contar sobre sua vida feliz com o marido e como estava arrasada com a perda, secava os olhos, com um lenço a todo o momento, porém nenhuma lágrima ameaçava cair. Notei que Sherlock já não estava mais ali e enrolei a conversa por mais alguns minutos quando ele entrou na sala e encerrou a conversa.

Puxando-me pelo o braço ele quase corria em direção à carruagem.

— Há muitas coisas a serem investigadas. – Falou.

Já em Baker Street, com a roupa trocada bebendo um chá quente, eu observava Sherlock Holmes pendurar folha a folha na parede e montar uma espécie de linha do tempo.

— Frederick já possuía dinheiro, bens materiais e uma vida sólida, entretanto, procurava brechas para sair desta monotonia. – Holmes pendurava cada folha referente ao que estava falando. – Enquanto você escutava a atuação da Sra. Bertrand, encontrei um cofre, atrás de uma tela de auto-retrato do dono da casa, lá estava alojado um baú com as coisas pessoais de Frederick.

— Que você fez questão de roubar. – Disse eu

Sem dar atenção ao meu comentário ele disse.

— Simon está diretamente ligado a família Bertrand, ou melhor, a destruição da família Bertrand, ele possuí um caso com Frederick e eles trocavam cartas toda à semana, a reunião, o recado e tudo que está neste baú apontam para a confirmação de que ele é o culpado pelo assassinato.

— Precisamos falar com ele então. – Concluí.

Quando voltamos para sede da Cher, tivemos que esperar por muito tempo a disponibilidade de Simon, percebi enquanto isso, que a maciez do estofado era a mesma da presente na sala de estar da casa de Bertrand, provavelmente o mesmo comercializava lã para a empresa em que estávamos agora, passei esta informação para o detetive Bell já que Sherlock havia decidido resolver outras coisas de suma importância, como ele mesmo afirmou.

Mesmo que todas as pistas apontassem para Simon, senti que ele estava sendo honesto conosco e que realmente amava Frederick. Assumiu que as cartas eram escritas por ele, que comprava lã de Frederick e pior que no dia do assassinato estava em um encontro com Bertrand na mesma floresta que o corpo foi encontrado e que depois os dois se encaminhariam para o seminário na empresa.

Detetive Bell sob todas estas acusações utilizou suas algemas e prendeu Simon, Marcus era eficaz no trabalho e sabia questionar as pessoas muito bem.

Já no sobrado, encontrei Sherlock mirando a parede de folhas como uma estátua, contei a ele o acontecimento, mas parecia que o mesmo não estava me ouvindo.

— A perícia constatou como assassinato provocado por um bastão de Pall Mall. – Disse Sherlock – Porém, este instrumento só seria utilizado por alguém que não possui muita força.

— O que não é o caso de Simon, ele é um homem magro e alto com dois ou três centímetros a mais que Frederick. Acredito que estava falando a verdade, mas quem seria o assassino, se não ele?

— Talvez a melhor forma de se esconder um segredo é deixá-lo descoberto.

Em cadeiras, lado a lado, Sherlock e eu passamos a noite toda mirando a parede, fazendo sugestões e descartando-as, sem perceber cai no sono e me encontrei de novo na sala de estar da família Bertrand, olhava os quadros novamente e algo me chamou a atenção, um nome do canto inferior direito de todas as telas.

C. Whitney Bertrand

Acordei subitamente e me pus a falar sobre o sonho, decidimos por fim que outra conversa com a senhora Bertrand precisava ser solicitada.

No departamento policial, com a senhora Bertrand sendo questionada, com muito custo tudo foi revelado: O nome completo da mesma era Cher Whitney Bertrand e depois da esposa descobrir a traição do marido, começou a formular métodos, para se vingar do homem que destruíra sua vida e pensou que sua mentira não seria descoberta.

— Formamos um bom time! – Disse Sherlock.

— Se não fossem suas suposições, teríamos incriminado Simon, sem conhecer o caso mais a fundo. – Falei com desdém.

— Só quero que saiba de uma coisa. – Sherlock prendeu toda a minha atenção – O meu incrível não tira nada do seu incrível, Joan.

E por fim nosso primeiro caso foi solucionado.

Notas finais
Pall Mall era um jogo super famoso no século XIX, constituía-se em assertar bolinhas nos arcos presos ao chão e nos buracos numerados, ou seja, o percursor do golfe. Esta é a minha versão de Um Estudo em Vermelho, beijos e obrigada por lerem!