A Marquesa
6 Canção de Ninar

uando o sol, se põe e fim da tarde,
Vaga-lumes piscam sem cessar,
Fique aqui que o sonho te invade,
Como é bom sonhar... Sonhar.
A criancinha se remexia, lentamente em meus braços, seus olhos estavam quase se fechando, não queria dar um nome a ela, não queria me apegar mais, porque sabia que não poderia cuidar deste bebê.
— Senhorita, o horário de visitação terminou. – Disse uma das freiras – Você pode voltar aqui neste mesmo horário amanhã.
Dei um beijo na testa da pequenina e a coloquei no berço, com um aperto no coração, sai do orfanato junto à promessa de que continuaria visitando-a.
Chegando a Baker Street, somente um cômodo estava iluminado, Sherlock rodopiava pela sala e percebi que alguns papéis haviam sido colocados na parede, estava curiosa sobre o caso e o rumo que o mesmo estava tomando.
— Por onde andava Watson? – Disse ele me fitando.
— Estava no convento visitando a criança recém-nascida, me deu uma pena deixá-la...
Sherlock me interrompeu, ele sabia que se eu continuasse falando sobre o bebê, eu pediria para que a trouxesse para casa, até arrumarem alguém para adotá-la, mas se ele estava morando sozinho e eu nunca o ouvi sequer mencionar o nome de uma mulher que já teve interesse, por fim agradeci pela sua interrupção.
— Quando fui a Liverpool, o detetive Fisher ainda insistia para que não entrássemos no caso, porém a notícia boa é que a partir de agora, vamos investigar estes assassinatos e a notícia ruim é que descobrimos um esconderijo de retiradas de órgãos na casa de Ellen Ross.
— Tudo indica que Ellen traficava órgãos?
— É a única prova que podemos contar. Ellen assassinou Maria, é um fato, entretanto não sabemos se foi para apenas retirar seus órgãos ou para afrontar o Serviço Especial da Coroa.
Nossa conversar terminou ali, o próximo dia seria longo e torcia para que fosse decisivo para o caso ter seu ponto final.
Alguém esmurrava a porta do 221, abri os olhou e fui tomada com uma luz intensa que vinha das janelas, levantei e vi que Nicolau Fisher adentrava a casa com mais uma pessoa em seu encalço. Desci de camisola mesmo e não me importei ao vê-los meio corados.
— Este é Andrew Campary, que também é membro do Serviço Especial da Coroa, ele, assim como toda a organização, está envolvida no caso. – Disse Fisher – Uma movimentação diferente nas estradas no norte de Londres chamou a atenção da SEC.
— Nós fomos avisados de duas carruagens em alta velocidade, a polícia local as perseguiu a cavalo, mais mesmo assim, elas não respeitaram as ordens, conseguiram encurralar uma das carruagens e adivinha o que encontramos na mesma, duas pessoas e mais de 25 caixas de isopor com órgãos de vários tipos. – Andrew falou com um ar de superioridade irritante e um sorriso malicioso que se dirigia a mim.
Dentro de poucos minutos, fomos para Scotland Hard, que estava invadida por diversas pessoas com uniformes da SEC. Fomos de encontro com o detetive Marcus Bell.
— Odeio estas organizações secretas, elas pensam serem donas de tudo, paramos todas as nossas outras atividades, para eles incriminarem as duas pessoas apreendidas. – Bell estava irritado.
— Parece que a Scotland Hard com os seus poucos recursos não é de tudo inútil. – Ironizou Sherlock.
Com os braços cruzados, eu olhava pelo quadro de vidro, que ficava atrás da sala de questionamentos, um homem e uma mulher estavam algemados nas cadeiras e uma pessoa ficava de pé com um porrete na mão (eles utilizavam a violência e muitos palavrões para fazerem os dois assumirem a culpa) o homem com a cabeça raspada e o porte de soldado olhava fixamente para o investigador e a mulher cabisbaixa me parecia familiar, encarei-a e quando ela levantou seus olhos azuis escuros, sussurrei para Sherlock:
— Ela é a mãe da criança recém-nascida!
Capitão Gregson, olhava pasmo para a forma que eles estavam sendo questionados, agora a cada pergunta não respondida o homem dava uma porretada nas mãos dos criminosos e de nada adiantava está técnica.
Sai do recinto e encontrei o detetive Fisher, conversando com a família Harrys, que pelo visto havia sido chamada para a grande revelação.
— Desculpe interromper – Comecei – mas a técnica que estão utilizando não vai dar em nada, os dois parecem ter apanhado a vida toda e, não vai adiantar continuar batendo neles.
Nicolau se recusou diversas vezes a minha proposta e por fim ele abriu a porta da sala de questionamentos e eu me sentei em frente aos dois criminosos, podia até sentir o olhar de Sherlock, atrás do painel de vidro.
— Você é o plano B? – Perguntou o careca que debochava da minha atitude.
— Ah! Então sabe falar. Não vim até aqui para conversar com você, vim falar com ela.
A mulher olhou surpresa para mim, respirei fundo e pus para fora tudo que eu gostaria de falar para ela.
— Como você pôde deixar sua filha em um ambiente de crimes e barbaridades? Como pôde fugir e deixá-la para trás?
— Não tinha como criá-la sem dinheiro, sem um pai, o que ela iria se tornar, uma criada, uma prostituta ou uma criminosa igual à mãe.
— Então se declara uma criminosa, matou Ellen Ross para ficar com o lucro da venda de órgãos e abandonou sua filha, porque este era o melhor destino para ela. Interessante a sua forma de agir!
— Tudo bem, traficamos órgãos, não dá para negar, vocês sabem nosso esconderijo, vocês nos pegaram em nossa fuga, não queríamos dividir com ela, é verdade, mas isso não nos dá razão para matá-la.
— Dá sim, pessoas mataram por menos que isso.
— Provas suficientes vocês já possuem – Disse o careca que até a pouco não falava nada – éramos cinco, Ellen Ross, nós dois e os que estavam na outra carruagem, não vou dizer o nome deles, podem tirar a minha vida se quiserem, mas não vou revelar a identidade dos mesmos.
— Ellen estava insuportável, dava ideias de aumentar o nosso negócio, traficávamos órgãos adultos somente, mas os clientes pagariam mais por órgãos infantis, nós negamos, porém ela se revoltou e sequestrou a primeira criança desprotegida que viu.
Nesse momento, três agentes do SEC entraram e efetuaram a prisão, a mulher olhou uma última vez para mim e gritou.
— Somos culpados pelo tráfico, mas não a matamos!
Sai da sala e Sherlock, Marcus e Gregson vieram até a mim, o terceiro me deu um tapinha nas costas e disse.
— Essa é a nossa garota!
Mesmo com o apelo da mulher, o caso foi finalizado e colocou a quadrilha de tráfico de órgãos, como os culpados pelo assassinato de Ellen Ross, não fiquei satisfeita com a decisão e muito menos Sherlock.
— Os comparsas da Ellen Ross tinham inúmeros motivos para matá-la – Disse ele – porém, existe uma pessoa com motivos maiores para efetuar este crime, o Sr. Harrys.
Olhamos para o lugar que a família Harrys estava sentada, a mãe de Maria chorava compulsivamente, mas seu marido continuava frio, acariciando-a com o olhar na esposa. Sherlock começava a andar na direção dele, não era um bom sinal.
— Sr. Harrys deve ser um grande dia para você, se livrar de um crime é algo muito satisfatório.
— O que está dizendo?
— Matar Ellen Ross a facadas. Ela foi esfaqueada por uma pessoa canhota e o corpo da mesma, possuía todas as facadas do lado esquerdo e adivinha quem é o único canhoto envolvido neste caso...
— Você está louco! Está história acabou, eles são os culpados! Não eu!
— Não me diga, que também fazia parte do tráfico de órgãos, seu porte físico se encaixa muito bem nessa atividade, talvez até tenha matado a sua própria filha...
— Já chega, qualquer pai em minha situação desejaria vingança, mas participar de algo tão sujo, não seria capaz de algo tão pejorativo.
— Então está confessando.
Não sabia como Sherlock havia feito isso, me pareceu tão fácil, eu não havia percebido, que as facadas ficavam mais do lado esquerdo do corpo de Ellen Ross. O Sr. Harrys deu uma última olhada para a esposa e com um suspiro cansado se encaminhou para o detetive Fisher e confessou o crime.
— Como fez isso? – Perguntei para Sherlock.
O mesmo estendeu um braço para mim e começou a me explicar.
— É uma técnica de interrogatório, inventada por antigas autoridades do Império Romano, para obter informações e confissões dos criminosos que insistiam em mentir. Se constitui de afirmar, com segurança, o que deveria ser confessado e em seguida alegar algo muito pior, o criminoso escolhe assim o menor entre os dois males, no caso, a verdade.
Ele deu uma piscadela para mim, que quase tive a impressão de perder por segundos, o equilíbrio das minhas pernas e então saímos pela porta da Scotland Hard.
Caso de Maria Harrys tem o seu final
Com um final nada feliz a equipe de Nicolau Fisher com a ajuda dos consultores, Sherlock Holmes e Joan Watson finalizam o crime que tem o posto de o assassinato mais bruto cometido em Londres, segundo as conversas populares. A prisão da quadrilha de tráfico de órgãos, que estava ativa havia muito tempo e a confissão do patrono da família Harrys fechou o caso que durou duas semanas de tamanha aflição.
A recém-nascida encontrada em Liverpool, parte hoje com sua nova família para a Escócia e através de fontes confiáveis ficamos sabendo que seu nome será: Inocência, nome diferente, mas não deixa de ser lindo.
Sherlock jogou algo em mim, quando estava dormindo, acordei furiosa, porém uma fúria passageira já que era um jornal repleto de notícias boas, li a matéria e me senti satisfeita, olhei para Sherlock Holmes e lhe dei um sorriso e ele respondeu da mesma forma. Ficamos ali apenas sorrindo um para o outro.
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