A Marota
48 Capítulo 47
Eu abri os olhos, minha cabeça doía e tudo girava. Eu olhei em volta e não vi nada... Era um lugar escuro e tinha cheiro de mofo. Me sentando no que parecia uma cama, eu coloquei meus pés no chão e tentei ficar de pé, me segurando na parede ao minhas pernas fraquejarem. Eu estava ali a quanto tempo? Eu não me lembrava, não sabia em que momento do dia estava... Me lembrei de Brendan e meu peito se apertou. Será que ele estava bem? Ele tentou me defender, parecia muito machucado quando o vi pela última vez.
Eu caminhei pelo pequeno cômodo que parecia um quarto.. Meio sujo. Eu enxergava muito pouco, pude ver apenas uma porta em um canto. Sem janela, sem nada... Porta e cama, era tudo. Indo em direção a porta, eu tentei abrir mas ela estava trancada. Eu estava sem varinha, sem nada.. Apenas com a roupa que havia ido passear com Brendan. Ai meu Merlin... Meus pais... Eles deviam estar preocupados.
Quando eu menos esperei, a porta fez uns barulhos e eu me afastei, observando ela se abrir e a claridade machucar meus olhos. Pondo a mão na frente dos olhos, eu tentei acostuma-los e ouvi a porta se fechar novamente, passos se aproximavam minimamente. Eu olhei, enxergando uma garota... Ela tinha cabelos negros, cheios e segurava uma varinha onde na ponta tinha uma bolinha de luz. Ela sorriu e eu me encolhi.
— Priminha... Eu diria que é um prazer te conhecer, mas estaria mentindo. — ela me disse e eu apenas a observei, confusa. — Nunca te falaram sobre mim? Ah, que ingratos... Bellatrix Black.
Eu ainda não disse nada, tentando processar. Ela era a irmã da Narcisa e da Andrômeda...? Era uma comensal da morte? Mas.. Eu nem sabia o que era um comensal da morte, exatamente. Ninguém tinha tido tempo de me explicar.. Eu apenas sabia que eram pessoas más.. Por que me sequestraram?
— Que lugar é esse? Por que eu estou aqui? Onde está o Brendan? — eu questionei e a garota revirou os olhos.
— Você faz muitas perguntas. Cale a boca e ande, tenho ordens pra te levar. — ela disse e eu neguei.
— Pra onde? — questionei novamente mas ela apenas agarrou meu braço, apontando a varinha pra mim.
— Eu disse pra calar a boca e andar. — disse ríspida, me puxando para a porta a qual ela abriu e me empurrou pra fora.
O lugar todo era mal iluminado, mas naquele tipo de corredor tinham algumas pequenas janelas no alto, iluminando um pouco o lugar sujo. Bellatrix me puxou por alguns corredores, apertando meu braço com certa força. A cada corredor, parecia mais iluminado e mais limpo, como se não fosse uma área tão esquecida como a que estávamos antes. Eu estremeci quando ela parou em frente a uma porta e bateu antes de me empurrar pra dentro.
Era uma sala grande... Tinham três mesas: duas de cada lado e uma no centro. As duas dos lados tinham algumas pessoas que nos deram suas atenções e na mesa do centro tinha apenas um homem. Eles pareciam comemorar algo e eu reconheci algumas pessoas. Lúcio.. Narcisa.. Roxanne.. E Kieran? O último garoto não parecia tão feliz quanto os outros, apenas me olhou sem demonstrar emoção alguma.
Eu fui arrastada até a mesa do centro e apenas desviei a atenção de Kieran quando Bellatrix me fez ficar de joelhos. Os mesmos doeram pelo impacto e eu contive um gemido, sendo obrigada a erguer a cabeça já que a Black havia puxando meus cabelos. O homem sentado a mesa se levantou e eu arregalei os meus olhos, observando ele se aproximar. Não era um homem comum... Os olhos vermelhos tinham fendas como de gatos, assim como o nariz e sua aparência me lembrava uma cobra.
— Ora... Bem vinda ao nosso banquete, Srta. Potter. Acredite, fico imensamente lisonjeado com a sua presença e feliz que tenha acordado. — sua voz era arrastada e fria, me fazendo estremecer novamente.
Eu não respondi e engoli o nó que se formava em minha garganta. As lágrimas caíram quando Bellatrix puxou ainda mais meus cabelos.
— Não seja tão bruta com nossa convidada, Bellatrix... Deixe-a. — ele disse, calmo.
A garota soltou meu cabelo com brutalidade e se afastou. Minhas mãos tocaram o chão e impediram que meu corpo caísse pra frente. Eu chorei, tentando enxugar as lágrimas com as costas das mãos antes de me ajeitar e olhar para o homem. Ele mantinha os olhos em mim, como se adorasse o que via.
— Q-quem é você..? O q-que quer c-comigo..? — solucei, ouvindo murmúrios atrás de mim.
— Que insolente! — alguém disse.
Eles diziam tantas coisas ao mesmo tempo que eu não entendi direito o resto.
— Silêncio. — o homem a minha frente ordenou e, na mesma hora, a sala voltou a seu silêncio anterior. — Um desperdício seus pais terem te mandado para longe da magia.. Lúcio me disse que é boa com feitiços de defesa e ataque, e olhe que ele é o mais orgulhoso dessa sala.
Ele riu brevemente, sendo acompanhado pelos outros.
— Podia ser uma grande bruxa agora.. Tão jovem e bela. — a mão do estranho se aproximou e acariciou meu rosto.
Meus olhos se fecharam e eu senti as unhas maiores que as minhas roçarem em minha bochecha, seguindo para o meu queixo. Os dedos gelados se afastaram em seguida.
— O que vai fazer comigo..? — perguntei, tentando segurar o choro de desespero.
— Vamos ver quanto vale a sua vida para os seus queridos pais. — ele disse, virando as costas.
— O que? Não! Eu quero ir embora!
Minhas mãos foram parar no chão novamente e as lágrimas desceram sem pedir permissão. Uma das minhas mãos foi para o lado de meu rosto que ardia e eu a passei ali, não acreditando que aquilo estava acontecendo comigo. Ainda segurando o choro, eu tirei o cabelo do rosto e olhei para ele.
— Você vai fazer o que eu quiser, na hora que eu quiser, garotinha insolente. — me disse, dando as costas novamente e se sentando na mesa. — Leve-a daqui, Bellatrix.
— Sim, milorde. — a Black fez uma leve reverencia, vindo até mim e me puxando pelo braço. — Levante, sua inútil.
Eu me levantei a contra gosto e ela me arrastou para fora dali, pelos corredores até aquele quarto novamente. O que queriam comigo? Era uma armadilha para meus pais? Como eu os avisaria? Eu precisava sair dali... Nem que isso me custasse quase a vida. Bellatrix abriu a porta e me jogou lá dentro, tive que me equilibrar pra não cair novamente. Ela se encostou na porta e sorriu de lado, me avaliando. Ela era uma garota bonita, mas com um ar sombrio.
— Você.. Sabe a quanto tempo eu estou aqui? — perguntei para a garota que eu devia ter como prima.
— Uns 3 dias.. O que isso importa? — ela deu de ombros, observando a própria varinha agora.
Meu Merlin, três dias... Meus pais deviam estar loucos! Como eu dormi por tanto tempo? A pancada foi tão forte assim? Aparentemente sim, minha cabeça ainda latejava um pouco. Eu olhei para Bellatrix e ela sorriu, me fazendo dar um passo pra trás. De todos os Black que eu havia conhecido, a mais velha era, com certeza, a mais assustadora. Até mais que Régulo. Sua fala foi interrompida quando alguém apareceu na porta... Era uma mulher mais velha, mas não tão velha.
— O que faz aqui, tia? — a bruxa jovem perguntou, olhando para a mulher entediada.
Tia...?
— Me deixe sozinha com ela. — a voz da mulher era fria, amarga.
Bellatrix apenas suspirou e deu passagem para que a tia entrasse. Assim que a vi, lembrei imediatamente de Sirius e Régulo. Talvez fosse a mãe deles...? O que ela queria comigo? Eu tive medo quando Bellatrix nos deixou sozinha. A mulher caminhou por um momento, focando seus olhos em mim em seguida. Silêncio... Um silêncio nem um pouco confortável.
— Então... A garota que encantou meus filhos. — ela disse e sua voz soava indiferente.. Mas seus olhos diziam tudo.
Eu não respondi.. Walburga Black... Haviam me dito que era uma mulher fria e, agora, eu sabia o quanto.
— Eu entendo.. Garotos, adolescentes, os hormônios a flor da pele. Não podem ver um rostinho ou um corpinho bonito. — seus olhos me avaliaram e eu me encolhi novamente, dessa vez, involuntariamente.
Ela estava jogando na minha cara o que seu filho havia dito? Eu era apenas um rostinho bonito... Era apenas isso o que apreciavam.
— Foi uma bela estratégia.. Seduzir os dois irmãos? Perspicaz. — Walburga continuou, como se achasse graça naquilo.
— Eu não seduzi ninguém. — lhe respondi, a desafiando com os olhos. — Não tenho culpa se seus filhos não conseguem segurar o que tem dentro das calças.
— Régulo tinha razão... É abusada. Mesmo presa, ainda usa sua audácia para me desafiar. — a mulher cerrou os olhos, logo os desviando e virando as costas.
— O que me resta agora..? Nem sei se ficarei viva. — comentei, me sentando na cama e suspirando.
— Vejo que também é equivocada...
— Por que diz isso?
— O lorde das trevas te quer viva, Potter. Bem viva.
Eu não entendi e nem tive tempo de perguntar. A mulher saiu e bateu a porta com certa força. Lorde das trevas... Era o homem que parecia uma cobra? Por que me queria viva? Na verdade, por que me queria? Eu não o conhecia, ele teria se intitulado lorde? Não falava sobre ele nos livros de história da magia a qual eu li.
Meus pensamentos voltaram para Brendan.. Talvez ele estivesse bem? Afinal, talvez seu irmão não deixasse que fizessem mais mal ainda a ele. A última coisa que ele me disse foi; "Aguente firme, Jane"... Antes de ser atingido e antes de eu sentir aquela dor na cabeça, desmaiando. Eu esperava que ele estivesse bem... Mesmo que Kieran ali não fosse uma real garantia. Aquele homem não parecia ser alguém piedoso.. Eu sentia isso.
*****
— Crucio!
Aquela dor era insuportável, eu me contorcia de dor jogada no chão aos pés de uma Bellatrix que parecia se divertir muito em me fazer sofrer.
Uma semana havia se passado desde que os comensais da morte me pegaram e eu era torturada todos os dias. Bellatrix era a encarregada disso e ela não tinha piedade. Me torturava pelo que pareciam horas com aquele maldito feitiço. Gargalhava, me dizia coisas cruéis e as vezes chegava a usar sua própria força física por culpa da minha língua grande demais.
Eu não tinha noticias de nada fora daquele quarto... Tinha algumas visitas nem tão agradáveis, mas era melhor que ficar me torturando com meus pensamentos. A última me rendeu uma bela discussão com Roxanne e nós brigamos. Bem, como iguais, já que ela também não podia fazer magia fora de Hogwarts e acho que, pelo menos, isso eles respeitavam. Kieran não veio ver a minha desgraça e eu fiquei frustrada por isso.. Ninguém me falava sobre Brendan.
— Crucio!
Eu gritei, caindo novamente ao tentar me levantar. Meus braços abraçaram meu corpo por instinto e eu chorei, desejando logo a morte.
— Bellatrix... Não seja tão dura, vai acabar a matando. — alguém entrou na sala e a garota desviou sua atenção.
Eu respirei o máximo que pude, tentando me sentar novamente mas meu corpo não respondia mais. Com a visão embaçada, eu pude reconhecer Régulo que sorria de lado.
— Você não devia se meter, priminho. — a garota retrucou e o outro riu.
— Vá descansar, eu cuido dela agora. — o outro disse e ela sorriu, me lançando um último olhar antes de sair do quarto.
— Veio ver o estrago? — perguntei, a voz quase não saiu mas eu me esforcei.
— Hum... — ele se aproximou, se abaixando perto de mim e acariciando meu rosto. — Um pouco maltratada.. Mas ainda assim, bela.
Eu virei meu rosto, tentando mais uma vez me levantar. Teria falhado se as mãos de Régulo não tivessem me ajudado. Ele me ergueu pelos braços e me segurou, acabando por me deixar perto demais de seu corpo.. E não soou sem querer. Meu instinto foi me afastar mas meu corpo quase cedeu novamente. O Black riu e me levou até a cama, me pondo sentada ali. Eu agradeci, me sentando direito e o observando.
— O que você quer? — perguntei, gemendo ao encontrar minhas costas na cabeceira de madeira de cama.
— Bom.. Já que meu irmãozinho não está aqui para lhe encher o saco, eu vim fazer o papel dele. — seu tom era debochado e ele sorriu, se sentando ao meu lado de frente pra mim.
— Acho que irá falhar, ninguém supera Sirius Black. — era sério que estávamos tendo aquela conversa?
— Deve ser por isso que ele não conseguiu te conquistar. — Régulo soltou e eu suspirei.
— Quer mesmo falar sobre isso? — perguntei, erguendo uma das sombrancelhas para o garoto mais velho.
— Não.. Não realmente. — me disse e eu endureci quando ele se aproximou.
Seu rosto ficou bem próximo do meu e eu me vi incapaz de me afastar, já que estava encostada na cabeceira.
— Régulo.. — eu tentei dizer quando seu rosto estava a poucos centímetros do meu.
— Sabe... Eu tenho você ao meu dispor agora.. Não teria ninguém pra te ajudar, indefesa, fraca. — ele sussurrou e eu ri.
— E por que acha que conseguiria dessa vez? — sussurei de volta, chamando a atenção de seus olhos que vagavam pelos meus lábios.
— Porque eu sou mais forte, mais inteligente e você.. Tão frágil. — ele fez uma falsa cara de tristeza, logo sorrindo novamente.
Eu tinha que concordar.. Eu estava em desvantagem quando de travava de força ou até mesmo tamanho. Eu engoli seco ao pensar nisso... O sorrisinho desafiador morrendo de meus lábios.
— Calma... Eu não vou te forçar a nada. — ele disse, acariciando minha bochecha novamente.
— É? E por que não? — questionei, encarando seus olhos que tinham um certo brilho.
— Ah, Jane... Eu quero te fazer gemer de prazer, e não te ouvir implorar para que eu pare. — ele tirou uma mecha de meu cabelo de meu rosto e seu polegar passou pelos meus lábios antes de ele se afastar.
Eu continuei paralisada, não sabendo como reagir a aquela confissão. Ele... Realmente me queria daquele jeito..? Eu pensei que fosse algo relacionado a poder, domínio, o próprio prazer. Eu fiquei calada e ele riu, apertando seu lábio inferior entre seus dedos.
— Eu não gosto de você. — ele disse, sorrindo ao me pegar pensativa.
— Eu não estava pensando nisso. — lhe respondi, olhando para ele. — Régulo.. Você sabe se.. Se Brendan está bem?
O Black me olhou e riu.. Mas não aquela leve risada, ele gargalhou. Continuei a observa-lo, confusa, não entendendo do que ele ria.
— Ainda pergunta por ele? — suas sombrancelhas se ergueram e ele pareceu divertido. — Ah, você não sabe..
— Não sei do que? O que aconteceu com ele? — eu senti meu coração acelerar e me levantei.
— Calma, Potter... O seu querido Jordan está bem. Só um pouco machucado, talvez. — me disse e eu ri, mesmo não tendo graça nenhuma.
— Um pouco..? Régulo, ele pôs sangue pela boca! Isso não parece pouco pra mim. — eu retruquei, sentindo meus olhos marejarem novamente ao lembrar de Brendan. — Ele estava bem mal..
As lágrimas caíram e eu tentei os enxugar, não tendo muito sucesso. Régulo me olhou por um momento e se aproximou, me puxando para por minha cabeça em seu peito. Eu não reclamei e me deixei chorar ali... Régulo sendo gentil era algo novo pra mim.
— Calma... Ele deve estar bem. Não era plano do lorde das trevas matar ele.. Era só pegar você. — ele disse e eu o olhei.
— Por que? — questionei, querendo entender aquilo tudo.
— Eu não posso te contar os planos dele.. — me disse, se afastando e indo para o outro lado do quarto.
Eu suspirei derrotada e sequei meu rosto, me sentando na cama novamente. Não tinha chances de eu sair dali sem ajuda... Ou de sair viva. Eram muitos comensais e eu não tinha arma alguma dentro daquele lugar. Estava sem minha varinha, não tinha nem ao menos uma pedra qualquer pelo chão. Meu cérebro trabalhou por alguns segundos e eu olhei para Régulo.
— Sabe por quanto tempo vão me manter aqui? — perguntei, chamando a atenção do garoto para mim novamente.
— Isso eu não faço ideia... Vai precisar aguentar firme. — ele me disse e eu respirei fundo.
— Aguentar firme... É a única forma de sobreviver. — comentei e ele sorriu, assentindo.
Eu aguentaria... Por meus pais, por James, pelas meninas, Brendan... Por Sirius.
Eu não consegui parar de pensar nele aquela noite.. Meus olhos se fechavam e eu o via sorrindo, lembrava de como eram confortáveis os seus braços e quão quente era o seu corpo. Eu não devia pensar nele assim... Ficar presa ali estava me fazendo pensar demais, pondo pra fora coisas que eu tentava esconder. Como meu amor.. Não por Brendan, mas pelo garoto de cabelos negros que se transformava em um cão.. O Black que me enchia o saco e que eu estava morrendo de saudades naquele momento.
Quem diria, Jane... Se apaixonar por Sirius Black. Se tivessem me contado a uns anos, eu riria e diria que era loucura. O amigo que meu irmão sempre falava em suas cartas? O garotinho que ele chegou a me mostrar em uma foto com ele... 12 anos... Nunca pensaria que ele se tornaria o maroto galanteador. Que amarrava a gravata na cabeça e acabava levando bronca dos professores. Ele dizia que parecia uma coleira e ele era um cão livre...
Eu sorri, sentindo meus olhos arderem. Respirando fundo, eu me virei na cama e fechei os meus olhos, deixando que aqueles olhos azuis invadissem minha mente. Naquela noite eu sonhei com Sirius... E foi o sonho mais bonito que eu podia ter tido naquele lugar.
"Eu te amo, Jane..."
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