A Marota
68 Capítulo 66
— Está curto, sim. — eu disse, tentando puxar a barra do vestido pra baixo enquanto caminhava com minhas amigas pra fora do salão principal.
— Belas pernas, hein, Potter! — alguém na mesa da grifinória disse e eu ouvi risadas.
— Tenho certeza que é o máximo que você já viu de uma garota, Wilber! — Marlene retrucou e mais risadas foram ouvidas.
Eu choraminguei, sentindo minhas bochechas arderem como nunca. Fora do salão, eu puxei o casaco da cintura de Marlene e amarrei na minha própria. Ela estava de calça mas me fez vestir isso! Chegava a ser mais curto que as minhas saias, que nem eram tão curtas.. No meio das coxas.
Os olhares pareciam cada vez mais em nós e eu me sentia desconfortável, muito. Marlene e Lily disseram que era um vestido adorável e que o Turner iria gostar. Afinal, era da cor dos olhos dele. Mas o detalhe que elas ignoraram era.. Que eu usava aquele vestido com 13 anos! E eu nem ao menos sabia o motivo de ele estar no meu malão. Era apertadinho no busto e soltinho da cintura pra baixo. Mas.. Como eu havia ganhado mais corpo dos 13 para os 15, não estava mais tão solto assim.
— Eu vou voltar para o dormitório. — eu disse e tentei dar meia volta, sendo impedida pelas três garotas.
— Nada disso, está linda! Além disso, está usando aquilo.. Que parece uma cueca. — Lily disse e eu revirei os olhos.
Ela falava de um short que eu comprei em uma loja trouxa uma vez. Era apertado e mais curto, cobria o necessário e eu realmente usava ele com vestidos. Mas aquele vestido, não.
— Mesmo assim. — eu disse, suspirando ao ser empurrada para fora do castelo.
Nós atravessamos o jardim e seguimos a professora McGonagall para o povoado de Hogsmeade. Eu havia combinado com Joshua na porta da dedos de mel e foi pra lá que minhas amigas me arrastaram. Nós paramos ali em frente e eu rezei baixinho pra que o garoto ruivo desistisse. Se ele desistisse eu poderia voltar pro castelo e tirar esse vestido. Ele era até bonito, mas eu devia estar patética em um vestido de 13 anos.
Quando o Turner foi avistado ao longe, eu tentei puxar mais o vestido pra baixo e ganhei um tapa na mão de Marlene. Ela levou as mãos ao casaco em minha cintura.
— Não, não! — eu pedi, tentando impedir ela mas a mesma já o havia tirado.
— Vá lá e arrase. — ela disse, pondo meus cabelos em meus ombros.
— Só te aceitamos de volta selada pelo Turner. — Jessy disse e eu a olhei com os olhos arregalados.
— Desde quando você diz esse tipo de coisa? Ela te corrompeu? — eu perguntei, indicando Marlene.
Minhas amigas riram e eu não tive tempo de pensar quando fui empurrada. Meu pé não ficou firme o suficiente e eu desequilibrei, só não caindo porque duas mãos me seguraram. As minhas agarraram os braços muito fortes, por sinal, e eu firmei meus pés no chão, sorrindo meio sem graça ao encontrar os olhos de Joshua. Ele sorriu bonito e eu quis correr dali ao sentir minhas bochechas ameaçarem arder.
— Cuidado. — ele me disse, as mãos segurando gentilmente a minha cintura.
— Desculpe.. E-ela me empurrou. — eu apontei pra trás e ele cerrou os olhos confuso.
— Quem? — riu levemente e eu me virei.
Minhas amigas não estavam mais ali. Eu, definitivamente, devia estar causando uma impressão estranha.
— Deixa pra lá.. — eu dei um passo a frente antes de me virar para ele novamente.
— Belo vestido. — ele disse e eu olhei pra baixo, mordendo o lábio insegura.
— Eu concordaria.. A dois anos. Mas obrigada. — eu sorri pra ele e o silêncio reinou.
Eu não sabia o que dizer e ele também parecia não saber. Que encontro legal... Se é que era um encontro.
— Que tal irmos comer algum doce? — ele perguntou e eu assenti.
Joshua me ofereceu seu braço e eu o segurei, caminhando com ele para dentro da dedos de mel. Não falávamos muito, apenas compramos alguns sapos de chocolate, varinhas de alcaçuz e penas de açúcar. Em um momento, nossas mãos acabaram se tocando sem querer e eu corei novamente. Por que eu estava tão tímida? Era surpresa até pra mim.
Saindo da dedos de mel depois de pagar os doces, nós caminhamos pelo povoado falando sobre quadribol. Ele jogava no time desde o terceiro ano mas não era goleiro. Começou como apanhador, mas me disse que não era tão bom assim. James fez o teste para apanhador também e acabou pegando o cargo, mandando o Turner para as balizas. Acabaram descobrindo que ele era muito bom como goleiro.
— Uma vez um balaço me atingiu.. Eu nem ao menos vi ele. Perdemos o jogo pois eu apaguei. Mesmo James tendo pego o pomo, a sonserina ficou com mais pontos. — ele me contava quando nos sentados em um banco perto da casa dos gritos.
— Isso foi no quarto ano? — eu perguntei e ele assentiu.
— Foi o único jogo que perdemos até agora. Temos que nos esforçar bastante se quisermos ganhar a taça de quadribol ano que vem. — explicou, mordendo uma varinha de alcaçuz e eu sorri.
— Parece legal. — eu comentei e ele concordou.
Nós ficamos ali, conversando sobre assuntos aleatórios e comendo todos aqueles doces. Eu comi quase todos os sapos de chocolate e nós rimos dos meus dedos lambuzados.
— Espera.. — ele disse e eu o olhei, paralisando quando ele passou o polegar pelo canto dos meus lábios.
Me mostrou o dedo sujo de chocolate e eu sorri envergonhada. Agradeci e nós guardamos o resto dos doces, seguindo para o três vassouras. Estava tudo bem, até "esbarrarmos" com duas pessoas na porta. Bem.. Tudo continuou bem, mas o clima ficou estranho.
Sirius e Roxanne estavam juntos, as mãos entrelaçadas. Aquilo mexeu comigo, mas eu nunca diria isso em voz alta. Pelo menos não na frente dele. Um sorriso apareceu em meu rosto e eu apenas acenei com a cabeça, puxando o Turner para dentro do estabelecimento. Fomos até o balcão e eu pedi duas cervejas amanteigadas. Joshua se sentou e me observou, os olhos verdes pareciam me avaliar quando eu sorri pra ele.
— Sirius voltou com a Malfoy maligna? — ele perguntou e eu ri, dando de ombros.
— Não sei.. Mas aposto que ele não fica nem um dia sócom ela. — comentei, pagando as cervejas amanteigadas e lhe entregando uma.
— Por que diz isso? — ele fingiu não entender e eu balancei a cabeça.
— Você sabe, o Black não pode ver um rabo de saia. — tomei um gole da minha cerveja e ele concordou.
— Acho que sim.. Pelo menos eu não o vejo sozinho desde o terceiro ano. Ou ele sempre está com James, Remo e Pedro, ou sempre está com uma garota.
Aquilo soava trágico mas não tão ruim já que ele usava a desculpa de estar aproveitando a sua juventude. Haviam várias outras formas de aproveitar a juventude, mas eu não ousaria contradize-lo. Afinal, eu não tinha mais nada a ver com isso. Na verdade, eu nunca tive.
— Hey, tudo bem? — Joshua chamou minha atenção, segurando a minha mão livre com delicadeza.
— Sim.. — eu sorri novamente, apertando sua mão levemente.
Nós tomamos nossas cervejas e passeamos um pouco mais pelo povoado. Joshua era divertido, eu gostava de seu senso de humor. Era fofo, as bochechas e as orelhas ficavam mais vermelhas quando eu o avaliava por muito tempo. Pareceu bastante interessado quando lhe contei sobre o Brasil e sobre as coisas que eu fazia lá. Atrações, comidas típicas, costumes e até mesmo sobre a escola de magia e bruxaria de lá.
É.. Eu pesquisava um pouquinho sobre magia.
— Como é? — ele perguntou e eu ri, me encostando na cerca da casa dos gritos.
— Brigadeiro. É um doce, como chocolate mas você come com uma colher. Minha tia costumava fazer muito. — eu sorri com saudade, soltando um suspiro longo.
— Você não deveria estudar no castelo bruxo? — ele perguntou e eu o olhei.
— Não exatamente.. Eu recebi cartas de lá também, mas eu não sou brasileira. Eu nasci na Inglaterra mas meus pais visitaram o Brasil logo depois de eu nascer. Minha tia sempre contava que minha mãe ficou arrasada em me deixar lá, mas achou que era mais seguro. Nunca me disse por que. — eu dei de ombros, sentindo uma mecha de meu cabelo voltar a meu rosto depois de alguns minutos longe dele.
— Você até que tem cara de inglesa mesmo.. — ele comentou e eu franzi o cenho, rindo daquilo.
Eu ainda sorria quando seus dedos roçaram a minha bochecha ao ele colocar meu cabelo atrás da minha orelha. Sua mão era quente quando tocou a minha bochecha e eu inclinei meu rosto na direção dela, sentindo o aroma de baunilha de sua pele. Eu levantei meu rosto quando ele se aproximou e o observei, os olhos verdes pareciam avaliar cada pedacinho do meu rosto.
Olhos, nariz, bochechas e parou bem nos meus lábios. Eu desviei os meus olhos para os seus lábios também, tinham um tom rosado mas não tão exagerado. Eram cheios e pareciam muito beijaveis.. Sério, pareciam ser muito macios. Eu os vi se aproximar e ficaram a uma distância considerável dos meus. Sua mão havia descido para a minha nuca e eu sentia seus dedos acariciarem levemente ali.
— Sabe.. Dizem que não é apropriado beijar no primeiro encontro mas.. Eu quero muito beijar você. — ele disse, sorrindo enquanto as bochechas ganhavam um tom rosado.
— Eu não conto se você não contar. — eu brinquei e ele riu.
Meus dedos agarraram a sua camiseta e eu o puxei, colando meus lábios aos seus. Foi apenas um selo, nossos lábios juntos em uma leve dança de roçares que estava começando a me deixar impaciente. Eu queria saber qual seria a sensação da sua língua na minha, de suas mãos me apertando junto a seu corpo ou de nossas respirações mais ofegantes por conta de um beijo intenso.
Mas ele não aprofundou.. E eu sabia por que.
O Turner não era igual Sirius ou Brendan ou qualquer garoto que eu já tenha beijado. Ele era calmo, gostava de começar devagar e eu que estava sendo apressadinha. Quando a minha língua iria agir em busca da sua, um barulho próximo fez com que nos afastassemos. Joshua se virou, ficando a minha frente mas suspirando. Eu segurei seu braço e olhei para o motivo do barulho, bufando meio irritada.
James e Sirius estavam ali, a caixa que tinham em mãos acabara caindo, o que produziu o barulho meio alto. Tinha que ser eles..
— Desculpem, a caixa está meio pesada. — James disse e eu notei o sorrisinho em seu rosto.
— Querem ajuda? — o Turner perguntou, aparentemente não notando nada de errado ali.
— Não, tudo bem. Obrigado, amigão. — Sirius disse, sorrindo grande.
Amigão? Jura?
Eu revirei os olhos e me virei para a cerca, apoiando os braços nela e observando a casa dos gritos. Naquela época do mês não se ouvia nada, não se via nada e nem sentia nada. Afinal, a casa não era mal assombrada realmente. As pessoas do povoado não sabiam, mas eu sabia muito bem o que causavam os sons. A agonia que quem causava sentia e todo o sentimento de se sentir um monstro.
Eu ouvi vagamente James e Sirius se despedirem e seguirem na direção contrária de onde tinham vindo. Apenas me liguei quando o Turner me cutucou e ficou ao meu lado, sorrindo para mim que retribui fracamente.
— Estavam vindo da zonk's. Filch vai ter que se cuidar muito esse ano com esses dois e o pirraça, que também o atormenta. — ele me disse e eu assenti.
— Tenho quase certeza que o Filch não vai ser o único atormentado esse ano. — comentei baixinho, passando as mãos pelo rosto.
— O que?
— Nada.
Nós ficamos apenas ali por um tempo, voltando a conversar sobre coisas aleatórias. Depois do corte supremo de clima, não voltamos a nos aproximar como antes. Droga, eu queria beija-lo de novo e de muitas formas possíveis. Mas não tive tempo..
O horário do passeio estava terminando e nós decidimos voltar ao castelo. Encontramos as meninas na porta do três vassouras e seguimos todos para o castelo. As meninas seguiram um pouco na frente e eu imaginei por que. Joshua disse que não poderia me acompanhar até dentro do castelo pois tinha combinado de encontrar os garotos do time para um treino rápido.
Eles estavam treinando muito.
Eu não me importei de seguir sozinha, lhe dizendo que o veria depois e observando ele voltar a sair da escola. Suspirando, eu segui meu caminho e logo subia as escadas. O castelo ainda parecia vazio, metade dos alunos continuavam no povoado e outra metade estava no salão principal. O corredor do quinto andar estava totalmente deserto, mas quase ninguém ficava por ali.
Eu caminhei lentamente, virando em um corredor e parando no mesmo momento. Um grupinho de 5 estudantes estava bem ali, conversando baixinho algo que parecia bem urgente. Eu reconheci na hora quem eram.. Bellatrix, Lúcio, Roxanne, Narcisa e Rodolfo. Bem legal, o time de sonserinos que me odiavam estava bem ali, por onde eu tinha que passar.
Respirando fundo, eu comecei a caminhar devagar na tentativa de meus sapatos não fazerem barulho no piso. Prendi a respiração e tentei passar por eles sem nem ao menos olha-los. Mas, como a sorte sempre estava ao meu favor, eu só consegui chegar a alguns passos depois deles. Pois a voz de Bellatrix me fez parar e congelar no mesmo lugar.
— Se não é a nossa priminha favorita.. — ela disse e o sarcasmo escorria em sua voz.
E o veneno no canto de seus lábios, eu tinha certeza.
Lentamente eu me virei e sorri forçado, puxando o vestido para baixo pela incontável vez naquele dia.
— Se não são meus sonserinos favoritos.. — eu usei o mesmo tom, juntando as mãos em um uma falsa empatia.
— Finalmente largou o Turner? — Roxanne perguntou, cruzando os braços.
— Finalmente largou o Black? — eu imitei seu gesto e sorri pra ela.
Pude ver os olhos azuis mais escuros que os dos Black faiscarem na minha direção e me senti muito satisfeita.
— Foi apenas saber da verdade sobre o Jordan que correu para os braços do Turner, não é? Não consegue ficar sem uma boca grudada na sua por muito tempo. — Bellatrix disse e eu ri, estalando os lábios antes de lhe responder.
— Já você.. Nunca deve ter experimentado, não é? — eu brinquei com fogo e sabia que, provavelmente, me queimaria.
Uma risada de Rodolfo me surpreendeu e ele tentou evitar, pondo uma das mãos sobre a boca como se pensasse. Bellatrix não reagiu e muito menos as duas outras garotas.
— Mais corajosa a cada dia, não é? Uma pena que coragem não determine força. — Lúcio disse e eu nem tive tempo de olhar pra ele direito.
Minhas costas bateram na parede do corredor e eu senti a ponta da varinha em minha garganta. Meu coração acelerou mas eu não deixei transparecer que ele estava com medo. Talvez eu estivesse com um pouquinho também...
— Eu sabia que ficaria bravinho.. — eu sorri, encarando seus olhos gélidos.
— Bateu na minha cabeça, roubou a minha varinha e conseguiu escapar fingindo ser eu.. Queria que eu nem pensasse em me vingar? — ele perguntou e eu dei de ombros.
— Não sei.. Você tem bastante cara de covarde. — eu comentei e reclamei quando ele pressionou a varinha mais forte.
— Não brinque com fogo, Potter.. Pode se queimar feiamente. — ele me disse e eu sabia que era verdade.
— Faça o que vier na sua cabecinha oca, Malfoy.. — sorri para ele mais uma vez e seu sorrisinho sádico foi a última coisa que vi antes de fechar os olhos.
Os "Acabe com ela, Lúcio" ou "Termine logo com isso" foram as únicas coisas que eu ouvi, esperando que o pior viesse. Mas não veio. Depois disso apenas o meu coração foi ouvido por mim, a veia pulsando em meus ouvidos e a minha respiração um pouco falha.
Talvez eu tivesse preferido que o Malfoy tivesse me nocauteado ou me estuporado. Talvez eu tivesse perdido um pouquinho do juízo ou apenas quisesse algo contra o garoto loiro. Mas nada teria me feito querer que a pessoa errada chegasse naquela hora.. Pois eu temia por ela.
— O que está acontecendo? Eu procurei vocês.. — eu abri meus olhos e pude ver Régulo por cima do ombro do Malfoy. — Potter?
— Estou tendo uma conversinha com ela sobre todas as escolhas erradas que ela fez. — Lúcio disse, sorrindo grande.
— Larga ela, Lúcio. — Régulo ordenou, a voz tão firme quanto eu nunca tinha visto antes.
— O que? Não. Ela vai me pagar. — o Malfoy insistiu e eu ouvi Régulo puxar sua varinha.
— Eu mandei largar ela. — o Black ameaçou e eu fechei os olhos com força.
O Malfoy hesitou mas se afastou, me fazendo abrir os olhos e ainda poder ver ele guardar a varinha. Eu respirei direito e me afastei do garoto loiro, indo em direção a Régulo. Esse mantinha a varinha em punho enquanto encarava seus colegas que pareciam confusos com a sua atitude.
— O que está fazendo, Black? — Bellatrix questionou, cerrando os olhos para ele.
— Fiquem longe dela. — foi a última coisa que Régulo disse antes de agarrar o meu braço e me puxar para longe.
Eu olhei pra ele confusa e incrédula, tentando soltar o meu braço enquanto subiamos as escadas. Só consegui o fazer quando chegamos ao corredor do sexto andar. O Black passou as mãos pelos cabelos e guardou a varinha que ainda estava em suas mãos enquanto eu ainda o olhava querendo saber o que foi aquilo.
Certo, ele me ajudou. Mas talvez agora ele precisasse de ajuda.
— Voce enlouqueceu? O que pensa que está fazendo? — eu perguntei, chamando finalmente a sua atenção.
— Que tal te salvando de um bando de sádicos? — ele sugeriu, afrouxando a gravata em seu pescoço e me lembrando muito o irmão mais novo.
— Ah, é mesmo? Espera que eu agradeça? Muito obrigada por me salvar de um estupefaça e se colocar na frente de um avada kedavra! — eu me exaltei um pouco.
Droga, eu realmente me preocupava com ele.. Quem diria.
— Não seja dramática, Potter. — ele me pediu, fazendo um gesto de relaxamento.
— Dramática? Ah, claro.. — eu resmunguei, começando a caminhar para longe. — O que acha que eles vão fazer agora? Sentar no corredor e discutir sobre a provável chuva desse fim de tarde?
Sabia que ele me seguia, por isso continuei a tagarelar sem parar. Lhe explicando cada risco que ele corria, mesmo que ele já soubesse de todos.
— Incrível, hein, cara! Mas lembre que heróis acabam morrendo, ou quase isso. Nem tudo é como nos livros. Esses dias eu estava lendo e.. — eu continuava tagarelando.
Um suspiro alto foi ouvido antes que eu sentisse sua mão agarrar o meu braço no corredor do sétimo andar.
— Cala a boca agora e me escuta, metade de um ser humano. — ele disse e eu me assustei quando ele me prensou contra a parede.
Meus olhos encontraram os seus e eles pareciam bem sérios. Desde quando Régulo Black era sério? Onde estava o sarcasmo?
— Se eu entrei nessa merda toda, foi tudo por causa de você. Eu dou um jeito com o bondinho que segue o lorde das trevas, mas eu não vou deixar que eles machuquem você, entendeu? — ele me disse tudo de uma vez, o olhar intenso prendendo o meu com uma corda invisível.
Ele era sexy quando falava sério... O que?
— C-como assim por minha causa? — eu questionei, talvez um pouco confusa com tudo aquilo.
Ele suspirou e se afastou um pouco, mantendo uma das mãos na parede acima da minha cabeça e olhando para os lados pra ver se não tinha ninguém.
— Você sabe.. Eu me tornei um comensal da morte nessas últimas férias. — ele me disse, levantando a manga da camisa do seu braço esquerdo e me mostrando.
Era como.. Uma tatuagem. Metade do crânio de uma caveira e junto dela uma cobra. Era desenhado em tinta negra e, involuntariamente, um arrepio tomou conta da minha espinha antes de ele tapar a tatuagem.
— Voldemort acha que sou fiel a ele.. Mas eu não me sinto assim desde que me aproximei de você. Você me fez parar de querer sempre seguir os meus pais e ser quem eu não queria ser. — Régulo continuou e eu sorri levemente. — Visitei Dumbledore esses dias.. Contei tudo a ele. Sabia que ele me aceitaria e prometi lhe contar cada passo do lorde das trevas.
— Isso.. É insano, Régulo, você pode morrer. — eu lhe disse o óbvio e ele assentiu.
— Sim, eu posso morrer.. Mas eu prefiro morrer fazendo a coisa certa. — Régulo disse, o olhar meio distante.
Nós ficamos em silêncio por um momento, nada era ouvido.
Antes eu tinha medo dele.. Mas agora, tenho medo por ele. Medo que descobrissem, que o punissem e até o matassem. Éramos primos e ele havia me ajudado muito em um dos momentos mais difíceis que eu já havia passado. Além disso, Sirius sofreria.. E por mais babaca que ele tenha sido comigo, eu não queria que ele sofresse.
Um sorrisinho me fez balançar a cabeça ao pensar em como Walburga ficaria furiosa se soubesse que seus dois filhos agora estavam do lado de Dumbledore, e não de Voldemort. Tão furiosa, que seria capaz de queimar o primeiro que aparecesse na sua frente ao invés de queimar o nome da tal tapeçaria. Isso que eu chamava de fanatismo por alguém ou algo..
— Eu nunca.. Te pedi desculpas por, você sabe.. Aquilo. — Régulo disse de repente e eu o olhei.
— Foi aterrorizante.. Eu imaginava que você faria.. Aquilo e depois me mataria. — eu confessei, fazendo um careta.
— Eu não sei o que tinha na cabeça.. Confesso que realmente queria você e achei que.. Te tomando a força seria a melhor forma. — ele me contou, rindo claramente sem graça.
— Queria? — eu mencionei a palavra no passado e o Black me olhou, recebendo um sorrisinho da minha parte.
— Não me provoque, Potter. — me disse, cerrando os olhos brevemente.
Eu ri e ergui minhas mãos, saindo do vão entre ele e a parede, voltando a caminhar em direção ao meu destino: sala comunal da grifinória. O Black me seguia de perto e eu me perguntei se ele tinha tomado o cargo de guarda ou algo assim. No sétimo andar, eu parei e olhei pra ele, notando o seu olhar avaliador no meu vestido. Ah, pronto.. Lá vem.
— Seu irmão deixou você ir a Hogsmeade com esse vestido de criança? Com um garoto? — ele perguntou, aprontando para o meu belíssimo vestido.
— Primeiro: Eu fui obrigada. Segundo: Quem se importa se o James deixa ou não? E terceiro: Como você sabe que eu fui a Hogsmeade com um garoto? — eu cruzei os braços, mudando o peso do corpo para a perna direita.
— Ora, Potter, todo mundo sabe. Você é uma das garotas que vive na boca de todo mundo. É como o seu irmão e o meu irmão. — ele me contou e eu o olhei fingindo incredulidade.
Aquele tipo de coisa não me deixava mais surpresa, mas era muita audácia! Eu não podia mais sair com alguém em paz, era isso?
— Não acredito que eu me tornei aquilo que eu jurei destruir.. — brinquei, lhe dando as costas mas podendo ouvir sua risada. — E você vai continuar me seguindo?
— Vou. Até você estar dentro da sala comunal. Vai que aparece algum sádico por ai? — Régulo disse e eu revirei os olhos pra ele quando o mesmo me alcançou.
— Talvez eu seja masoquista, mas sádica eu acho que é a definição da Jane. — uma terceira voz nos alcançou e eu parei a tempo de não bater em um tipo de poste usando jaqueta.
Sirius cruzou os braços e eu revirei os olhos, me afastando.
— Ah, pare, eu sei que você sente falta da minha mãozinha amaciando a sua bochecha. — eu disse, fazendo um gesto relaxado com a mão.
— Mãozinha essa que faz um certo estrago.. — o Black mais novo fez um biquinho e acariciou o rosto como sempre fazia depois da minha mão em contato com ele.
— Estou sentindo um clima? — Régulo mostrou que estava presente e eu o olhei feio.
— Aproveitem que estão em dois e façam companhia um ao outro porque eu estou indo. — eu falei, acenando para eles e fazendo menção de me afastar.
— Calma ai, bonitinha, fica aqui. — Régulo segurou meu braço e eu revirei os olhos novamente. — Não vai sozinha. Irmãozinho, está indo pra sala comunal?
— Sim. — Sirius sorriu, ajeitando a jaqueta de forma convencida.
— Então, faria a gentileza de acompanhar nossa mais querida anã? Existem más influências por esses corredores. — o Black mais velho disse e o outro concordou.
— Qual é a da gracinha hoje? Comeram algo diferente? — eu perguntei, olhando de um irmão para o outro esperando que um dos dois respondessem.
— Torta de morango, é claro. Mamãe sempre disse que morango é uma fruta louca. — Sirius disse, fingindo um ar pensativo.
— Ah, vamos logo. — eu choraminguei, querendo ficar longe daqueles doidos.
— Certo, nos vemos por ai. — Régulo se despediu com um aceno, andando de costas pelo corredor e virando a esquerda.
Sirius e eu observamos o local onde o garoto havia sumido por um breve momento, antes de eu suspirar e me virar para caminhar em direção a sala comunal. Pude ouvir o Black apressar os passos para me alcançar mas o ignorei, caminhando meio rápido para o retrato da mulher gorda. Eu queria a minha cama e meus pés estavam me matando dentro daquela bota, tirando esse vestido apertado.
No retrato, eu dei a senha a mulher gorda e entrei, sendo seguida pelo maroto mais velho. Rumo a escada do dormitório feminino, eu não pude alcançar já que o Black segurou meu braço, me fazendo parar. Eu respirei fundo, fechando os olhos e os abrindo ao me virar lentamente para ele.
— O que? — eu perguntei, soltando meu braço de seu leve aperto e cruzando eles.
— E o meu beijinho de boa noite? — ele perguntou e eu revirei os olhos.
— Ah, me poupe, Black. — pedi.
Pude ouvir sua risada enquanto subia as escadas para o dormitório. A essa hora todos deviam estar no salão principal jantando, mas eu não queria comer. Ficar na sala comunal com Sirius Black soava como um pesadelo, já que eu sabia que ele encheria o meu saco. Então o melhor que eu fiz foi tomar banho, me trocar e deitar na minha bela cama. Só o que eu podia esperar nos dias seguintes, eram implicâncias e, talvez, mais alguns momentos com o Turner. Nas próximas horas.. Eu achei melhor dormir, antes que a McKinnon voltasse do salão principal e tirasse todo o meu sono.
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