A Marota
50 Capítulo 49
Sirius Black
Meus pulmões pediam para que eu parasse e respirasse corretamente mas eu não estava nem ai. Olhando para todos os lados, eu procurava a pequena garota por entre as árvores. Algum sinal, uma pequena construção, até mesmo algo no chão que pudesse me levar até onde ela estava. Meus olhos pesavam e meu corpo pedia socorro mas eu não estava nem ai... Eu queria que ela pedisse socorro... Que gritasse por ajuda para que eu pudesse a encontrar.
— Não, não... Tem que ser por aqui.. — eu insisti, parando por um momento.
Eu olhei em volta e respirei fundo. Mesmo não estando transformado, eu ainda conseguia sentir cheiros distantes. O cheiro do perfume de flores era inconfundível... Mesmo que houvesse flores ali perto. Achando a direção, eu passei a correr. Pulando galhos, desviando de árvores, eu corri até parar onde o cheiro estava mais forte. Mas não tinha nada ali...
— Almofadinhas! Almofadinhas, eu não consigo te acompanhar. — eu ouvi James me chamar mas não lhe dei atenção.
— Tem que ser aqui, o cheiro está forte demais. — eu lhe disse, procurando os mínimos detalhes.
— Não tem nada aqui. — pontas disse o óbvio e eu suspirei.
Chutando algumas folhas no chão, eu vi algo que não parecia nem de longe uma folha. Eu me aproximei e me abaixei, tirando algumas folhas secas que tapavam a bolsa preta. Olhei para James e lhe mostrei a bolsa.
— É a bolsa dela. — disse, abrindo a bolsa e vendo que tudo estava ali.
Não tinha muito... Apenas alguns papeis de doces, um elástico que eu sabia que ela usava para amarrar os cabelos e.. Seu perfume. Por isso o cheiro estava tão forte... Afinal, não ajudou em nada. Meus olhos arderam e eu me levantei, socando a árvore a minha frente. Quase de imediato, eu senti o sangue escorrer por entre meus dedos mas nada importava naquele momento.
— Sirius... — James pôs sua mão em meu ombro.
— Já fazem três semanas, James... Procuramos na cidade inteira. Agora que o Jordan acordou e nos indicou o local que deviamos ter começado. — lhe disse, me virando para ele. — Eu me recuso a ter perdido ela.
— Eu sei como se sente, ela é minha irmã.. Mas você está muito alterado, faz dias que não dorme. — meu amigo tinha razão, mas eu não podia descansar.
Eu não podia dormir sabendo que ela estava sendo torturada.. Sabendo que estava presa, sem nem ao menos ver a luz do dia ou as estrelas a noite. Eu sabia o quanto ela adorava observar a lua... Eu passei cada dia das últimas semanas me recusando a ter perdido ela. Não importava se ela estava com o Jordan agora, eu só queria que ela estivesse bem. A falta de saber me deixava desesperado, totalmente.
— Vamos voltar, almofadinhas... Está ficando tarde, amanhã voltamos. — James disse e eu acabei por concordar.
Eu poderia voltar pra casa hoje.. Mas eu não desistiria. Nunca.
*****
Jane Potter
15:00PM || Quarta semana || Sexta-Feira
— Tem certeza? — eu murmurei e o garoto de olhos azuis revirou os mesmos pra cima.
— Ele vai entrar e sair logo em seguida. Quando ele sair, você se esconde atrás da porta e dê com a bandeja na cabeça dele quando ele voltar. Mas tem que ser forte, ele tem uma cabeça bem dura. — Régulo brincou e eu sorri para ele.
— Tudo bem.. E como eu chego até a porta de saída sem ninguém me ver? — perguntei o mais importante e ele sorriu.
— Lúcio sempre usa aquela máscara patética que os comensais usam. Você vai roubar a capa e a máscara dele, vai por em você e sair como se fosse ele. — o garoto esfregou as mãos como se fosse o melhor plano do mundo... Não era!
— Esqueceu um detalhe.. Eu sou muito menor que ele. — comentei, pegando a blusa preta que ele havia me jogado.
— Eu tenho a solução pra tudo, baixinha, aguenta ai. — eu revirei os olhos e ele riu
Me virando de costas pra ele, eu tirei o moletom que usava e coloquei a blusa de mangas. Eu não estava mais me importando... Régulo era a única pessoa que eu confiava ali e que iria me ajudar. Ele já havia visto meus seios também. Tudo que tinha de novo pra ver, eram hematomas por todo meu corpo. Fui até ele e peguei o elástico de sua mão, amarrando meu cabelo de modo que não fosse aparecer no capuz da capa que ele disse que Lúcio estaria vestindo.
Quando me sentei ao seu lado, ele tirou um par de saltos da mochila e eu neguei na mesma hora.
— Nem pensar! — protestei e ele revirou os olhos de novo.
— Então nosso plano está acabado. — o garoto se levantou, suspirando triste.
Eu observei ele caminhar até a porta lentamente, mordendo meu lábio inferior nervosamente.
— Espera... Eu uso. — eu me entreguei e suspirei com o sorrisinho dele.
— A capa tapa tudo, não vai parecer que Lúcio está usando um salto. — me explicou e eu assenti. — Se lembre de não falar pra ninguém que eu te ajudei... Se descobrirem, me matam.
— Eu não vou dizer. — sorri pra ele, me levantando e subindo nos saltos. — Obrigada, Régulo.
O Black pareceu surpreso quando eu beijei sua bochecha e eu ri, deixando aquelas coisas de lado e me deitando na cama. Os saltos ficaram debaixo da cama, a bandeja com as frutas ao lado e era só isso que eu precisava. Régulo fez um sinal de okay pra mim antes de sair e fechar a porta, me deixando ali sozinha. Eu fugiria... Aquilo era loucura.
19:00PM || Noite anterior
— É realmente uma honra te-la aqui conosco, Srta. Potter. Como meus comensais estão lhe tratando? — Voldemort se virou para mim quando Bellatrix me fez parar a sua frente.
Agora eu sabia seu nome.. Ou como ele gostava que o chamassem, tirando o Lorde das trevas.
— Depende, quer que eu seja sincera? — eu perguntei, a sala ficou extremamente silenciosa.
— Gosto da sua ousadia, se parece com Bellatrix. — o homem me disse e eu quase ri. — Gostariamos de te conhecer melhor essa noite, Srta. Potter.. Conte-nos quem são seus pais.
Eu hesitei e umedeci meus lábios, observando o homem se sentar a cadeira que lhe pertencia.
— Charlus e Dórea Potter. — eu disse um tanto baixo mas eu sabia que todos presentes haviam ouvido, já que riram.
— Sua mãe é nascida Black, estou certo? — ele questionou e eu assenti. — Qual a função deles? Eu não me lembro bem.
Eu sabia que ele estava mentindo.. O sorrisinho em seu rosto me dizia isso.
— Eles.. Eles são aurores. — conclui, abaixando meu olhar.
— Ah, é isso mesmo.. Uns dos melhores. — o homem sem nariz se levantou e eu o olhei. — A senhorita está na Grifinoria.
— Sim. — respondi firme, mantendo meus olhos nas fendas vermelhas.
— Vejo porque... — ele me avaliou, se aproximando lentamente. — Tem coragem, o que Alvo Dumbledore chamaria de fibra.
Todos na sala riram novamente e eu tive que segurar a minha língua ou tinha certeza que seria torturada ali, na frente de todos.
— Você sabe quem eu sou? — o homem continuou a perguntar, parando bem a minha frente.
— Lorde Voldemort. — lhe respondi e ele sorriu.
— Seus pais sabendo disso, eu te pergunto... Teriam eles deixado a filha caçula pra morrer? — seu tom era desdenhoso e eu engoli seco.
Era verdade que já havia se passado um mês desde que eu tinha chegado aqui e meus pais ainda não me acharam..
— Eles nunca fariam isso.. — eu disse, mas não tinha toda a certeza de antes.
— Eu não sei... Afinal, são todos traidores do próprio sangue. Por que salvariam você? — Voldemort riu e voltou a se afastar. — Leva-a.
18:00PM || Quarta semana || Sexta-Feira
Era hora do plano... Eu já tinha tudo preparado, faltava apenas Lúcio aparecer e poder dar uma bandejada na cabeça dele. Eu sabia que os marotos gostariam de fazer isso, então faria por eles. Por mais fraca que eu estivesse... Reuniria todas as minhas forças.
Sentada na cama, eu me coloquei na minha posição. Meus olhos encontraram aquela mesma mancha no chão e eu fiquei ali, parada, prestando atenção em qualquer barulho no corredor atrás daquela porta. Minhas mãos estavam geladas e meu coração batia rápido, eu estava muito nervosa. Talvez estivesse com medo de não dar certo e piorar a situação. Não queria ficar mais tempo ali.
Depois de exatos 5 minutos de espera, o som da porta sendo aberta chegou aos meus ouvido e eu vi a luz entrar. Eu tentei ficar o máximo parada, ouvindo a risada de Lúcio encher o lugar.
— Que fraquinha.. — eu ouvi ele comentar, soltando outra risada.
— Lúcio, preciso falar com você antes. — ouvi a voz de Régulo e a porta se fechou novamente.
Com um salto, eu me levantei e peguei a bandeja, correndo para trás da porta. Meu coração batia muito rápido e eu pedi a Merlin para que Lúcio não o ouvisse. A porta se abriu novamente e eu ergui a bandeja, as mãos tremendo.
— Eu não quero saber de Narcisa, é problema dela, não meu! — Lúcio parecia irritado e eu ouvi passos no corredor em seguida.
O loiro estrou no quarto e eu oude ver ele franzir o cenho.
— Surpresa. — eu disse e ele me olhou no mesmo momento em que eu reuni todas as minhas forças e levei a bandeja até sua cabeça.
O som foi alto e o corpo do garoto foi de encontro ao chão. Eu respirei fundo varias vezes e me abaixei perto dele, deixando a bandeja no chão e sorrindo.
— Quem é a fraquinha agora? — eu questionei para o garoto inconsciente, tirando a máscara dele sem delicadeza alguma.
Tirei sua capa e a vesti, puxando Lúcio, com certa dificuldade, até a minha cama, deixando ele ali no chão mesmo. Só por segurança, eu peguei sua varinha e calcei os saltos, chutando a bandeja para longe da porta e quase quebrando o tornozelo, tenho certeza, mas tudo bem. Dando uma olhada no corredor vazio, eu aproveitei que não havia ninguém e fechei a porta, pondo o capuz em minha cabeça depois de por a máscara em meu rosto. Não dava pra enxergar muito, mas era suficiente.
— Esquerda.. — eu lembrei das instruções de Régulo e virei a esquerda. — Direita...
Continuei pelos corredores, eram muitos... Quando estava virando o sexto, ouvi passos atrás de mim.
— Malfoy! Te procurei por toda parte. — a voz de Bellatrix me fez paralisar e eu ouvi seus passos até poder ve-la a minha frente.
Eu não disse nada e o olhar insistente da garota me deixou desesperada. Quando eu iria abrir a boca pra dizer algo, Régulo apareceu bem atrás da prima e eu suspirei aliviada.
— Lúcio, seu pai está te procurando! — ele disse, vindo até mim e me pegando pelo braço discretamente.
— Depois nos falamos. — Bellatrix me disse e nos deixou ali, caminhando na direção oposta.
Quando ela virou no outro corredor, Régulo me puxou para caminhar rápido na direção de onde ele havia vindo.
— Essa foi por pouco. — me disse e eu concordei.
Nós caminhamos por mais alguns corredores até chegar em uma porta. Régulo olhou em volta e a abriu, mostrando um corredor escuro.
— Não posso te acompanhar mas não tem erro. Você vai caminhar pelo corredor por alguns minutos até chegar no final. Lá tem uma escada que vai te levar até um alçapão. Vai sair perto do rio, do outro lado dele e vai subir um morro, saindo no mesmo lugar onde te pegaram. Eu sei que você sabe voltar dali e, Jane.. — ele respirou, segurando meus ombros. — Me prometa que vai correr.
Eu olhei em seus olhos e nunca o vi tão sério.
— Eu prometo. — assenti, vendo a sombra de um sorriso em seus lábios.
— Boa sorte, baixinha. — me disse e eu sorri.
Sem dizer mais nada, eu o abracei e sussurrei um "Obrigada" que sabia que ele tinha ouvido. Ele retribuiu, fazendo um rápido carinho em meu cabelo.
— Agora vai! — ele disse e eu me afastei.
Olhando para ele uma última vez, eu entrei pela porta porta e andei pelo corredor o mais rápido possivel. Os saltos ficaram no meio do caminho e eu peguei a varinha do Malfoy, fazendo a ponta acender ao usar o feitiço "Lumus". As paredes eram feitas de pedra, assim como o chão e parecia nunca ter fim. Minha respiração estava alterada e minhas pernas começaram a doer depois de um tempo.
Quando minhas pernas pensaram em desistir, meus olhos enxergaram a escada e eu sorri, andando até ela e deixando a varinha ali. Subi a escada e empurrei o alçapão de madeira, sentindo o vento da noite tirar o capuz em minha cabeça. Fora dali, eu tirei a máscara e arranquei a capa, as jogando no buraco e fechando o alçapão.
— Merlin, como é bom respirar direito. — eu olhei para o céu e meus olhos caíram em volta.
Tinha um rio a minha esquerda e um morro de barro a minha direita. Eu fiz o que prometi a Régulo e corri em direção ao morro, me esforçando pra subir sem escorregar e acabar voltando lá pra baixo novamente. Eu escorreguei mesmo assim e não consegui conter um grito quando algo passou pela minha coxa e a dor veio.
"Aguente firme!" eu ouvi a voz de Brendan e Régulo me dizendo isso.
Eu respirei fundo e, mesmo com a dor agoniante na perna, eu continuei a me arrastar morro acima. Minha mão chegou primeiro no topo do morro e eu senti as folhas sobre meus dedos. Meus olhos já estavam molhados pelas lágrimas, assim como meu rosto, quando eu consegui ficar de pé no alto do morro.
— Vamos lá, Jane, falta bem pouco. — eu disse a mim mesma, respirando um pouco.
Olhando pra baixo, eu vi um corte que parecia um tanto profundo em minha perna, pouco acima da cicatriz que ganhei com a minha curiosidade na lua cheia. Um pouco mais para o lado, eu pude ver o alçapão se abrir e me virei, obrigando minha perna machucada a correr. Estava doendo muito, mas eu precisava sair dali antes que eles me alcançassem. Eu só não sabia como. Tudo o que tinha em volta eram árvores e estava escuro. Eu comecei a me desesperar mais ainda..
Não podia ser pega novamente, de jeito nenhum! Talvez eu estivesse começando a delirar...
— Jane! — eu ouvi alguém me chamar e olhei em volta.
Era Merlin me chamando para junto dele? Eu estava morrendo? E aquela luz?
— Jane!
Eu só notei que tremia quando eu parei, meus olhos se fecharam ao encontrar a luz direcionada a mim, vindo de quem gritava meu nome. Eu só acreditei que era alguém de verdade quando essa pessoa me alcançou e me abraçou fortemente. Senti meus pés deixarem o chão e gemi pela dor em minha perna. Eu não soube quem era até que a pessoa se afastou, me pondo no chão e acariciando meus cabelos.
— Sirius...? — minha voz saiu sussurrada e eu segurei sua mão em meu rosto, admirando o sorriso em seu rosto.
— Meu anjo.. — ele acariciou minha bochecha e seus lábios tocaram os meus suavemente.
Eu não lutei, nem ao menos pensei em reclamar. Ele estava ali.. Ele estava ali por mim.
Um estouro atrás de nós me fez acordar e Sirius me colocou atrás dele, apontando sua varinha para alguém. Um comensal estava bem ali, apontando sua varinha para nós. Mais um feitiço foi lançado e eu pensei que nos atingiria quando Sirius defendeu, impedindo que isso acontecesse.
— O Black traidor.. Herdou o sangue ruim de sua tia, não é? — o comensal provocou e riu.
— Se ele herdou, acho que eu também. Estupefaça! — o homem não teve tempo de se defender e logo estava no chão.
Nós olhamos para Régulo e ele parecia totalmente indignado, olhando para nós com as sombrancelhas enrugadas.
— Vocês são burros ou o que?! Tira ela daqui! — ele gritou e eu vi Sirius sorrir.
Sem esperar mais, ele me surpreendeu ao me pegar em seu colo e correr. Os sons atrás de nós indicavam luta e eu olhei por cima do ombro de Sirius, conseguindo enxergar meus pais mesmo de longe. Eles e mais algumas pessoas, que julguei serem aurores, lutavam contra os comensais da morte.
— Vai ficar tudo bem. — eu ouvi Sirius dizer e me encolhi em seus braços.
Eu não vi muita coisa, apenas notei que haviamos saido daquele lugar quando Sirius parou. Eu ergui meu pescoço e pude ver James sentado em uma moto que parecia grande demais. Assim que nos viu, ele se levantou e veio até nós.
— Jane! Merlin, você está bem? — ele perguntou e eu sorri levemente, confirmando com a cabeça.
— Temos que leva-la pra casa. — Sirius disse e meu irmão negou.
— Você leva ela, eu fico aqui. — meu irmão disse e o Black concordou.
— Cuidado, pontas. — o que ainda me segurava disse e meu irmão sorriu.
Sirius deu um jeito de subir na moto e me manter bem perto de seu corpo. Ele ficou parado por alguns segundos, procurando algo nos bolsos e tirando de um deles um tipo de lenço. Eu sabia o que ele iria fazer e me agarrei mais a ele, sentindo ele amarrar o pano encima do ferimento na minha perna. Um gemido me escapou e eu tentei não gritar quando ele apertou, ao mesmo tempo que deixava um beijo em minha testa.
— Vamos pra casa.. Você vai estar segura lá. — Sirius me disse e eu apenas assenti, sentindo que as minhas forças estavam esgotadas.
Ele ligou a moto e eu ouvi um barulho alto, logo estavamos em movimento e eu acabei me encolhendo mais por conta do vento. Meus olhos pesados observaram as coisas se tornarem borrões e, depois de pouco tempo, eu tive a impressão de que estavamos voando. Com um sorriso, eu olhei para Sirius e o peguei concentrado, o maxilar rígido. Ele era tão bonito... E era tão bom estar em seus braços novamente.
— Estamos voando... — eu disse e ele me olhou sorrindo.
— Sim.. Estamos sim. — me disse e eu fechei os olhos.
Minha mão apertou suavemente a camiseta que ele usava e o seu perfume foi a última coisa que eu pensei antes de perder a consciência.
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