A Marca do Pecado
3 Elysia Hughes
–Acho que não foi uma boa idéia ter vindo até aqui – era a terceira vez que Marion dizia isso, e a terceira vez que fazia menção de dar as costas à porta e ir embora.
–Não, você fica – também pela terceira vez, Sciezka a segurava pelo braço e tocava a campainha – Ela deve estar com visitas, senão não demoraria tanto.
Quando a bibliotecária ia tocar a campainha pela quarta vez, a porta se abriu, revelando uma garotinha miúda de cabelos louro-escuros presos em duas tranças e grandes olhos verdes, vestindo uma bermuda cheia de bolsos, uma blusinha sem mangas, uma boina de bandeirante e tênis surrados. Ela analisou as duas moças com atenção e depois disse:
–Se querem vender enciclopédias, esqueçam, porque a minha mãe não quer nenhuma.
–Não seja boba, somos nós! – Sciezka riu – Vim trazer uma surpresa para você.
–É bom que não seja igual à do mês passado, em que você me trouxe um livro da grossura de um bloco de concreto – retrucou a menina, num tom irônico – E então, qual é a surpresa?
A moça praticamente empurrou Marion em direção à porta. A garotinha e ela se encararam, meio confusas, meio chocadas, e a primeira só pode balbuciar:
–T-t-tia Marion?
–Elysia... Meu Deus, como você cresceu! – a vontade dela era abraçar a menina com força, mas não sabia se ainda tinha esse direito. Quando vira Elysia pela última vez, no enterro do seu irmão, ela tinha cabelos mais curtos, bochechas maiores e três anos e alguns meses de idade. Marion havia ido embora sem sequer se despedir da menina. Era aceitável que a sobrinha a odiasse pelo resto da vida.
–Tia Marion! Você veio! – contrariando o que previra, a pequena Elysia a abraçou com uma força insuspeita para uma menina tão pequena – Faz tanto tempo que eu quero te ver...
–Eu trouxe um presente para você – sentindo-se mais segura, a mulher estendeu-lhe um pacote – Sabe, a Sciezka disse que você não gosta de bonecas, então espero que goste do meu presente.
A garota destroçou o papel de embrulho, e seu rosto se iluminou ao ver o presente:
–Um skate! O meu já está em estado de perda total, e eu estava mesmo querendo um novo. Obrigado, tia! – e a abraçou de novo – Assim você me deixa mal-acostumada...
–Onde está a sua mãe? – perguntou Sciezka
–Lá na cozinha, com o Alphonse. Vou lá dizer que vocês chegaram – respondeu Elysia, e no segundo seguinte subiu no skate e saiu deslizando pelo corredor.
–Ei! A sua mãe não falou que dentro de casa não é lugar de andar nessa coisa?
Mas ela já estava longe demais para ouvir. Alguns instantes depois de uma bronca meio abafada pelo barulho de uma batedeira ser ouvida da cozinha, apareceu a senhora Gracia Hughes, mulher bonita e elegante de olhos verdes e cabelos castanho-claros. Ao ver Marion, uma sombra passou por seu rosto. \"Eu não pedi para nascer parecida com o Maes, tá bem?\", aborreceu-se ela, mas nada disse.
–Marion! Há quanto tempo! – elas se abraçaram cordialmente – Você não aparece, não liga, não escreve... Na certa deve ter muitas novidades!
–Algumas – afirmou a outra – A primeira é que me estabeleci na Cidade Central. Vou trabalhar na Central de Investigação do quartel, e já estamos com um caso quente nas mãos.
–Quer dizer que você não vai sumir tão cedo assim? – exclamou Elysia, efusiva – Que legal! Vamos poder visitar uma à outra!
Marion ia responder, mas de repente ouviu a voz de um garoto indo da cozinha para a sala. Virou-se e viu um rapazinho, aparentando pouco mais de treze anos, com cabelos louro-escuros mais ou menos do comprimento dos cabelos dela mesma, com uma franja longa caindo sobre os olhos castanho-acinzentados e cobrindo parcialmente o rosto redondo. Ele usava um traje preto, e vestia luvas brancas bordadas de vermelho.
–Edward! Você pode até ter cortado o cabelo, mas continua baixinho do mesmo jeito! – a moça o cumprimentou efusivamente, mas ao ver os olhares de pena das outras em sua direção, perguntou – O que há? O que eu disse de...
–Marion, eu sou o Alphonse, não o Edward – disse o próprio – O Ed está em Xing, estudando.
–ALPHONSE? – ela gritou, pasma – Mas da última vez que eu te vi você tinha... você tinha... Céus, você tinha mais de dois metros e meio de altura! O que houve?
–É uma história muito longa – respondeu ele, com uma risada que pareceu forçada – Você é a Marion, não é? A Elysia fala um bocado de você.
Agora a segunda-tenente Hughes estava realmente confusa. Não que não se lembrasse de Alphonse: ele era o fiel escudeiro do irmão e os dois sempre estavam juntos. Mas ela também sabia que ele era um ano mais novo que Ed, o que quer dizer que, pelas suas contas...
–Caramba, como você está diferente! Nem dá para acreditar – ela sorriu, tentando não pensar mais naquela história toda. Fosse o que fosse, não era da sua conta. Há muito tempo que uma aura de mistério e segredo rodeava os irmãos Elric, desde a entrada de Edward no exército – E então, Al, o que você conta de novidades?
–Nada muito interessante. Estou estudando para passar no exame de alquimista federal – respondeu o rapaz – Ainda sou muito jovem, mas acho que tenho boas chances.
–Você tem falado com seu irmão? – perguntou ela.
–Não. Na verdade, desde que ele partiu, não sei mais nada sobre ele – o rapaz ficou sério – Acho até que, talvez, ele tenha se virado por lá e nem se lembra mais de quem deixou para trás – Marion sentiu, desconfortável, uma nota amarga na voz do rapaz. Ele era tão jovem... como podia estar tão amargo?
Então, do lado de fora da casa, fez-se ouvir uma voz de criança chamando por Elysia para brincar, e ela saiu como um furacão pela porta. Gracia, parada no corredor que dava acesso à sala, deu um sorriso, mas de repente ficou séria outra vez. Mesmo sentindo que estava pisando num terreno muito delicado, Marion perguntou, cautelosa:
–Como ela está? Você sabe, desde que...
–Como você queria que ela estivesse? – retrucou Gracia, com a voz meio trêmula – Você se lembra do que ela fez no dia do enterro do Maes. Eu fui tentando educá-la da melhor maneira possível, mas nunca é fácil. De qualquer forma, ela é uma garotinha extraordinária, inteligente, meiga, doce... Ela está indo à escola, sabia? – então, deu um sorrisinho – Já fui chamada lá umas três vezes por causa das brincadeiras dela...
–Me desculpe por sumir – então, Marion sentiu-se culpada – Desde a última vez que escrevi, estava procurando uma pessoa que deve explicações a mim e ao Maes.
–Não se preocupe, só peço que não faça isso de novo – a sra. Hughes explicou – Viu o quanto a Elysia gosta de você, então trate de não sumir outra vez.
Marion acenou com a cabeça, resignada. Ela ficou por lá mais algumas horas, e jantou junto com Sciezka, Elysia, Gracia e Alphonse. Quando estava saindo, a menina a puxou pelo braço e disse:
–Quando você vem de novo?
–Só depois que você for me visitar no quartel – respondeu a moça, sorrindo – Apareça por lá qualquer dia desses, tá bem? E quanto a você, Al – virou-se para o garoto – Trate de aparecer por lá, também. Se quer ser um alquimista federal, é melhor conhecer bem onde vai trabalhar.
–Combinado, então – ele sorriu – Gostei de te conhecer, tá? Até mais!
Então, as duas oficiais do exército foram embora, caminhando até o quartel e conversando sobre o novo trabalho. Agora, tinham que voltar as atenções para o caso que estava em suas mãos. Aquele era um desafio para a investigadora, porque tratava-se de uma das séries de crimes mais absurdas e estranhas da história do exército, superando até Barry Açougueiro ou Scar, o Ishbaliano.
Eles estavam lidando com uma organização conhecida por Black Rose. Eles eram criminosos da pior espécie, e eram responsabilizados por todo tipo de delito, de assaltos e depredações a seqüestros e assassinatos, muitas vezes com requintes de crueldade. Já eram contabilizadas pelo menos 15 vítimas por todo o país, com concentração na Cidade Central, e havia outros tantos que não eram divulgados. A assinatura deles, em todos os crimes, era sempre a mesma: uma pequena rosa, feita de ônix ou basalto negro, espetada no coração das vítimas ou nos cofres vazios que eles deixavam para trás. O broche macabro nunca era a causa da morte, que costumava ser afogamento, estrangulamento ou simplesmente cortes generalizados em órgãos vitais.
Os jornais não divulgavam nem metade de tudo o que a polícia e o exército já haviam apurado. Tudo o que era divulgado era que o líder da Black Rose era chamado de Drake, e que tinha uma namorada que assinava como Quasar. Nomes falsos, obviamente, mas era a única pista que tinham sobre a existência deles. Os membros da Black Rose não eram do tipo que deixavam testemunhas para trás. Geralmente, as vítimas eram cientistas ou pessoas muito ricas, mas nada era roubado delas. A princípio, o exército não se envolveu, mas quando um oficial entrou para a lista de vítimas do bando, uma atitude teve que ser tomada, e essa atitude foi engajar Marion Hughes, o jovem prodígio da Divisão de Investigação Criminal do Exército de Amestris, no caso.
Assim que ela chegou em seu dormitório, Sciezka entregou a ela uma pasta com toda a informação coletada até aquele momento. Eram fotos, desenhos e registros policiais. A bibliotecária começou a dizer:
–Para não prejudicar a investigação, liberamos apenas os nomes de Drake e de Quasar, mas já identificamos o que parece ser o primeiro escalão da Black Rose – pegou algumas fotos e desenhos – Escondemos câmeras fotográficas em vários pontos da cidade e conseguimos fotos deles em ação. A partir delas, nossos desenhistas fizeram retratos maiores e mais claros. Veja só.
Ela escolheu um desenho. Era o de uma mulher aparentemente miúda e magra, com cabelos rosa-choque presos em dois coques com as pontas soltas. Ela usava roupas parecidas com os trajes de batalha de Xing, negras com detalhes em branco e vermelho, e na cintura ela portava uma katana, espada curva de lâmina fina e extremamente letal.
–Esta é Quasar, primeira-dama e assassina por excelência da Black Rose – explicou Sciezka – Pelo que sabemos, é ela quem executa a maioria das vítimas. Nossa amiga de cabelos pink é uma psicopata, e geralmente não repete a forma de matar seus escolhidos.
–Bonitinha, não? – disse Marion, com um sorrisinho – E esse cara aqui, o de cabelo escuro e cicatriz na cara? O Drake, talvez?
–Não. Apresento-lhe Skipp, irmão de Quasar. A gente também escondeu microfones junto com as câmeras, tentando achar algum indício do alvo dos próximos ataques deles, e pegamos o nome dele. Pelo que sabemos, Skipp é um especialista em explosivos e em arrombar qualquer tipo de fechadura. Sabemos que ele está envolvido em todos os roubos da quadrilha.
–Fala sério, hein? Parece que, hoje em dia, todo mundo que a gente tem que prender é um ladrão escorregadio ou um assassino louco e perigoso! Por que nunca nos mandam perseguir um batedor de carteiras ou coisa assim?
–Ainda temos mais dois – a outra pegou uma foto – Esta é Eclipse, e não sabemos quase nada dela.
A mulher na foto e no desenho preso junto à foto realmente tinha uma aura de mistério ao seu redor: ela tinha cabelos de um tom branco-prateado, longos e muito lisos. Os olhos eram muito azuis, grandes e brilhantes, contrastando com a pele branca. Ela vestia uma roupa negra muito justa, com uma capa longa e esvoaçante. No momento em que a foto foi tirada, ela parecia observar a câmera, e o aspecto do seu rosto banhado pela luz da lua era ainda mais fantasmagórico.
–Ela é estranha... – Marion sentiu um tremor percorrer-lhe a espinha – O que ela faz pela Black Rose?
–Achamos que ela é a alquimista-mor do grupo – respondeu Sciezka – Encontramos marcas de transmutações em todas as cenas de crimes envolvendo a Black Rose, e as próprias rosas de ônix são feitas por meio de alquimia. Encontramos sinais de transmutações poderosíssimas, que só um alquimista com total controle de seus poderes teria condições de fazer. E o mais intrigante é que nunca encontramos sinais de círculos de transmutação em nenhum dos lugares pelos quais ela passa.
–Não seja ingênua, Sciezka! – a primeira quase riu alto – Existem tantas explicações! Luvas, pulseiras, anéis, até mesmo uma tatuagem com um círculo de transmutação!
–Estudamos cada imagem e cada cena por semanas, e nunca encontramos nenhum sinal de uso de círculos. E alguns corpos que encontramos não apresentam nenhum sinal de violência externa.
–Como assim? O que é que você quer dizer com \"nenhum sinal de violência externa?\"
–Quero dizer que, tirando o fato de estarem mortos, eles parecem gozar de perfeita saúde.
–Isso é bizarro demais para a minha cabeça... Vamos passar para o próximo, e espero que seja Drake.
A bibliotecária tirou o último desenho da pasta. Era um homem, alto e forte, com cabelos vermelho-escuros caindo sobre os olhos. Ele usava um traje também negro, com uma capa longa forrada de vermelho. Na cintura, havia uma corrente metálica presa, com uma das pontas caindo. As mãos, cobertas por luvas de couro sem os dedos, faziam um gesto ameaçador.
–E este é Drake, líder da Black Rose. Estamos tentando descobrir mais sobre ele, mas até agora sabemos que ele evita se envolver diretamente com os crimes. Ele supervisiona, mas quase nunca entra em ação, e deixa o servicinho sujo para a namorada dele. Até onde sabemos, ele é um alquimista como Eclipse, mas que sua função principal é a parte de inteligência e planejamento das ações.
Marion começou a analisar cada uma das imagens sobre sua mesa. Quasar, Skipp, Eclipse e Drake eram os nomes dos quatro principais líderes da Black Rose. Obviamente eram nomes falsos, codinomes criados para que todos se lembrassem e temessem. Como o exército mais poderoso do mundo era incapaz de pegá-los, mesmo com todos os seus recursos?
–Daqui para frente, toda a informação sobre eles vai ter que passar por mim, OK? Quero também o relatório completo das autópsias, as gravações que vocês fizeram e acesso às cenas dos crimes. Pretendo começar a trabalhar o mais cedo possível – disse ela a Sciezka.
–Precisa de mais alguma coisa, senhora? – a bibliotecária perguntou solícita.
–Por hoje, não. Vá descansar, está bem? Preciso estudar o que temos aqui.
Depois que a outra moça saiu, Marion começou a ler o conteúdo da pasta da investigação. Não era muita coisa, mas já dava a ela uma visão boa do caso. O que mais a intrigava, porém, era a visão do olhar de Eclipse. Ela via, nos olhos azuis da outra, algo quase sobrenatural, algo assustadoramente familiar. E, mesmo assim, eles a atraíam, como um vórtice.
\"Um vórtice...\". Um pressentimento sombrio cruzou sua mente. Ela era uma pessoa que geralmente confiava totalmente nos instintos, mas naquele momento desejava com todas as forças que eles estivessem errados. De qualquer forma, tinha que pensar racionalmente, e ignorar temores tolos. Se agisse rapidamente, talvez nada acontecesse. Talvez...
A semana seguinte começou cheia de novidades. Marion começou a trabalhar, e tinha uma sala só para ela. Era mais um cubículo que uma sala, mas pelo menos ali ela tinha privacidade suficiente para trabalhar. Assim que entrou e colocou todas as suas coisas, já começou a estudar os relatórios de autópsia que Sciezka havia eficientemente deixado ali no final de semana.
Mais ou menos no meio da tarde, ela foi chamada até a sala de Roy Mustang. Havia muito movimento na sala dele, um entra-e-sai constante de militares de todas as patentes. Assim que a viu, deu um sorrisinho e disse:
–O que se pode fazer, não é? Não dá para ter sossego algum por aqui...
–O senhor me chamou por quê? – ela também sorriu.
–Na verdade, preciso lhe explicar alguns detalhes – respondeu ele – A princípio, você vai se reportar somente a mim, e preciso de um relatório quinzenal sobre o andamento da investigação.
–Não disse que eu iria ter liberdade total para agir?
–E terá, só preciso saber o que você está fazendo com o nosso tempo e dinheiro. Além do mais, aqueles imbecis burocratas que trabalham para a polícia querem que tudo seja comunicado a eles.
–Começo a pensar até que ponto foi bom o controle do governo sair das mãos do Exército – suspirou a moça – Isso não aconteceria há cinco ou seis anos atrás, quando tínhamos um marechal.
–Não diga isso, por favor – de repente, Roy pareceu um tanto desconfortável, e por instinto tocou o tapa-olho que usava – Se eles determinaram que querem saber o que se passa por aqui, ótimo. Só que eles se esqueceram de dizer quanto querem saber.
–E o que você vai divulgar?
–Só o suficiente para não nos infernizarem muito.
A conversa continuou até que batidas se fizessem ouvir na porta. Depois de um \"pode entrar\" por parte de Marion, a porta se abriu, revelando uma mulher alta e loura, usando o uniforme militar padrão. Nas mãos, uma pasta preta de couro. Os olhos eram castanho-claros, expressivos, e a expressão do rosto era neutra e austera.
–Espero que não tenham dado a minha sala a ninguém durante a minha ausência, senhor – disse ela, séria. Depois de um minuto de silêncio, Roy se levantou e a cumprimentou calorosamente, embora mantivesse uma distância cordial.
–Acho que você se lembra de Marion, não é? – disse ele – Ela já começou a trabalhar e está a par de tudo o que encontramos.
–Ah, olá, Marion! – Riza cumprimentou-a – Faz tempo que eu não vejo você! E então, o que está achando de trabalhar na Cidade Central?
–Interessante, mas quero ir a campo logo. Na verdade, eu estava só esperando você voltar para começar, sabe? – respondeu ela – E como estão as Briggs?
–Como sempre. Muitas pedras, muito gelo e pouca coisa interessante para se fazer – a major parecia extremamente entediada – Fomos até lá à toa... Mas estou ansiosa para começar a trabalhar também.
As duas mulheres foram até a sala de Riza, e continuaram conversando enquanto ela arrumava as gavetas de sua mesa. A ex-primeira tenente e atual major estava idêntica à última vez em que Marion a vira, com exceção de algumas mudanças no uniforme. Mas ainda assim havia mais uma coisinha diferente... Eram sinais de preocupação, de uma tensão incontida.
Marion conhecia, em linhas gerais, o que acontecera com Roy Mustang e com Riza anos atrás. Ela se lembrava de qualquer coisa envolvendo os dois e a queda e morte do antigo Marechal, King Bradley. Roy quase havia morrido, mas Riza cuidou dele com uma dedicação e um carinho que pareciam superar os sentimentos naturais de um subordinado ou mesmo de um amigo. Mesmo assim, o coronel jamais se recuperou totalmente.
–E então, como se sente sendo Major? – foi a primeira coisa que Marion disse, com uma risadinha.
–Normal. A única diferença é que o meu uniforme tem umas listras a mais nos ombros – respondeu a major, rindo – Além do mais, a responsabilidade é muito maior. Quando eu era primeira-tenente, tinha subordinados que dependiam de mim, mas agora preciso tomar decisões muito mais rápidas.
–Essa é a sina dos cães do exército... – a outra retrucou, distante – De qualquer forma, eu gosto, sabe? Um dia, talvez, vou chegar a coronel – e riu – Quem sabe eu até mande no Roy, já pensou?
–Iria ser interessante... Mas fico pensando o que ele acharia dessa coisa toda.
–Você já sabe do caso mais do que eu. O que acha dessa coisa toda?
–Se quer saber, estou assustada. É uma organização enorme, espalhada por todo o país. Você deve ter visto o inquérito, não é? Aqueles quatro são os líderes, mas são apenas a ponta do iceberg – então, a loura olhou para o pulso da outra – Fala sério! Eu me lembro dessa sua pulseira, sabia? Hehe, parece que foi ontem que eu vi o Maes lutando contra um papel de embrulho para tentar fazer um presente apresentável para você... – então, ao ver a expressão magoada da outra, parou, e num tom de desculpas disse – Ai, caramba, me perdoe! Eu não queria...
–Não, tudo bem – então, a própria Marion sorriu – Você me lembrou de um dia muito especial, sabe? Eu tinha acabado de voltar para casa, depois de passar dois anos estudando nas ilhas do Leste. E então, quando eu cheguei da estação de trem, lá estava o Maes, todo sem-graça, me estendendo uma bola de papel de embrulho. Sabe o que ele me disse? \"Não dá para confiar nos balconistas de hoje em dia, eles não são capazes nem de fazer um mísero pacote\". Eu abri... ou tentei, pelo menos... e lá estava. Desde então, eu sempre a uso. Ela me faz lembrar dele.
Então, ela parou, os olhos marejados. Chorar era uma coisa que Marion não fazia com freqüência, mas o comentário de Riza despertou lembranças que, apesar de doces, lhe eram dolorosas. O silêncio caiu sobre aquela sala, enquanto a investigadora observava a tira de couro negro costurada nas bordas com linha vermelha e com detalhes bordados na mesma cor. Era um detalhe tão banal... fazia muito tempo que amarrar aquelas tiras em seu pulso direito havia se tornado uma atitude trivial e automática de todas as manhãs.
–E como está o Leste? Fiquei sabendo que você esteve lá há pouco tempo – decidida a mudar de assunto, a major resolveu perguntar.
–É. Passei um ano e meio por lá, num estágio – respondeu ela, tirando os óculos e enxugando os olhos rapidamente – As Ilhas se desenvolveram muito, sabe? Cidades grandes, indústrias, colégios cada vez melhores... e um Exército de fazer frente a qualquer outra potência do mundo. Temos sorte de eles serem nossos aliados, essa é a verdade.
–Você já viu o inspetor de polícia que vai nos supervisionar? – a outra lembrou-se do detalhe mais inconveniente daquela história – Inspetor Marcus Clavel, o sujeitinho mais aborrecido e insuportável que já vi em toda a minha vida. Ele é todo atarracado e gordo, e tem uma careca lustrosa como uma bola de bilhar. Isso sem falar na grosseria... Sinceramente, nem quero pensar em trabalhar com ele.
–Fiquei sabendo que ele só vai começar a trabalhar daqui a alguns dias, o que nos dá um pouco de tempo para trabalhar sossegadas. Então, relaxe.
–Podemos ir hoje à tarde ver os locais onde os crimes aconteceram. Você quer?
–Se for possível...
–Ótimo. Tem coisas que você precisa ver para que façam sentido mesmo...
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–Fiquei sabendo que o Exército escalou uma nova investigadora para tentar nos capturar – a muitos quilômetros dali, num prédio escuro e abandonado, uma voz masculina dizia, num tom calmo e zombeteiro – Não creio que seja algo com que devamos nos preocupar, mas quero estar a par de tudo o que acontece por aqui. Essa informação procede, Eclipse?
–Sim, senhor – respondeu uma voz feminina, suave e etérea, quase fantasmagórica – Ela se chama Marion Hughes. Não creio que esse nome seja desconhecido...
–Não, na verdade não é. Conheço bem esse nome... Acho que até mesmo a senhorita já deve tê-lo ouvido, em algum lugar.
–Sim, sim. Lembro-me bem... Tenente-coronel Maes Hughes, não é? Assassinado há cinco anos atrás pelo homúnculo Indolência, se não me engano.
–Sim e não. Sim, porque realmente ela é irmã de Maes. E não, porque não é dele que eu me lembro quando ouço esse sobrenome. É de outra pessoa.
–E o que pretende fazer, senhor?
–Ainda não sei. As coisas estão calmas demais, não concorda? Acho que vou pedir a você um pequeno favor. Quasar se diverte demais, é a sua vez de agir.
–O que espera que eu faça?
–Quero que espere. Logo, darei instruções sobre como agir, mas por ora preciso que seja paciente. Oh, minha querida amiga, você terá a chance de ser grande como merece ser.
–Obrigado, senhor... Garanto que não vai se arrepender...
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