A Marca do Destino

1 Faíscas e tremores


Notas iniciais
Sempre posto minhas fanfics no Spirit e decidi postar aqui também, vai que alguém gosta hehehe

Boa leitura!

As únicas memórias mais antigas que Jaskier tinha de sua infância eram de sua mãe penteando seus cabelos com dedos delicados enquanto cantava uma canção de ninar sobre almas gêmeas. Não importava o quanto Jaskier tentasse, nunca conseguia lembrar o resto.

— Mal posso esperar pra minha alma gêmea aparecer! — Jaskier declarava toda vez que sua mãe terminava a canção. Ela riu.

— Paciência, meu anjo, — respondeu enquanto o colocava na cama para dormir. — Tenho certeza que a pessoa está tão animada para te conhecer quanto você.

— Você acha que minha alma gêmea vai ser uma pessoa boa? — O garoto perguntou, agora nervoso. E se seu par perfeito não fosse perfeito? Olhou para o pescoço de sua mãe, onde a marca dela estava à vista para todos, o nome escrito em letras cursivas pequenas e elegantes. Não era o nome de seu pai. — É por isso que você desistiu da sua e escolheu o papai?

Ela suspirou, parecendo cansada.

— Não é só porque o destino escolheu uma pessoa para você que você não possa escolher outra, — disse com uma voz carinhosa e o cobriu com os lençóis. — Mesmo tendo conhecido minha outra metade, seu pai foi quem eu escolhi para ser minha alma gêmea.

Jaskier a fitou, incrédulo.

— Então você tem duas almas gêmeas? — quis saber enquanto ela lhe dava um beijo na testa de boa noite. — Pensei que a gente só pudesse ter uma! Ou isso quer dizer que você rejeitou sua Marca?

— Você escolhe seu próprio destino, querido, assim como escolhi o meu. Agora chega dessa conversa, já está tarde. — Ela respondeu ao se afastar, saindo do quarto e das memórias de Jaskier para sempre, o deixando confuso e perdido.

Jaskier então cresceu e foi atrás de respostas. Sempre foi um homem fácil de amar e ser amado, o que o fazia ter certeza de que descobriria sua alma gêmea no momento em que seus olhares se encontrassem. Viajou por campos, cidades e tavernas em busca de canções de amor e tragédias. Deitou-se com as mais diversas pessoas, esperando sentir aquela faísca que percorria o corpo quando encontrava sua outra metade. Ou pelo menos era assim que todos que tinham passado por aquilo descreviam a sensação.

Quando Jaskier finalmente o encontrou, não sentiu faíscas, tremores, fraqueza ou nenhum outro sintoma conhecido. Olhou para o homem sentado no canto da taverna escura, o único que não deu ouvidos a sua cantoria de antes, e derrubou tudo o que estava pegando do chão quando sentiu uma forte ardência em seu pulso. Quase caiu de dor antes de perceber a marca nascer em sua pele, como se estivesse sendo escrita rapidamente com uma pena de tinta preta e manchada. O nome "Geralt" apareceu em uma caligrafia curta e apressada. Não era o que sempre sonhava, um nome gracioso escrito em letras charmosas e bonitas, mas era seu. Sua Marca.

— "Geralt" — sussurrou ao passar os dedos delicadamente pelo pulso onde o nome agora estava e estaria durante toda sua vida. Tentou se lembrar se já ouvira aquele nome antes, pois soava um pouco familiar. Decidiu engolir o medo e andou até ele com um copo de cerveja na mão.

— Adoro como você fica sentado aí calado. — Jaskier quase fechou os olhos de vergonha com aquela tentativa falha de flerte. Anos sendo um bardo poeta e romântico aparentemente não eram o suficiente para encantar sua alma gêmea pela primeira vez. Podia até imaginar sua mãe o puxando pela orelha enquanto o reprimia, gritando "Faça isso direito, menino!"

— Vim pra beber sozinho. — O homem respondeu, ríspido, e virou o rosto. Aquilo apagou uma chama de esperança que Jaskier tinha, esperando que talvez o outro percebesse algo ou sentiria sua Marca também. Entretanto, tentou não se dar por vencido, pois a maioria das pessoas não recebia sua Marca de primeira. Jaskier concluiu que era apenas uma rara exceção. Simplesmente se apaixonava muito fácil.

— Ótimo, isso, ah, é ótimo, — Jaskier tentou reorganizar seus pensamentos, atropelando as palavras. — Ninguém aqui hesitou comentar sobre a qualidade da minha performance. Exceto você.

Sentou-se na cadeira e tentou não se encolher sob o olhar penetrante que agora era dirigido a ele, e não evitou perceber seus olhos estranhos e amarelos. Nunca tinha visto olhos como aquele.

— Vamos! — continuou para disfarçar seu nervoso. "Vamos!", pensava, "Cadê sua Marca?" — Não me deixe esperando, qual sua crítica?

— Elas não existem. — Ele cortou, e não lhe deu mais explicação. Estava claro que o destino caçoava de Jaskier quando lhe deu uma alma gêmea que falava o menos possível, ainda mais quando queria ouvir tudo o que ele tinha a dizer.

— O que não existem?

— As criaturas da sua música.

E agora o destino tinha lhe dado alguém que não gostava de suas canções. Não, percebeu Jaskier, que só agora descobrira quem o homem era, tinha lhe entregado um bruxo.

— Você é um bruxo! Geralt de Rívia, — exclamou sem pensar, seus olhos arregalados. Geralt arqueou uma sobrancelha para ele e Jaskier não sabia se ria ou chorava. O que iria fazer com um bruxo? Cantar para ele? Escrever poemas épicos e românticos até fazê-lo se apaixonar? Nada daquilo iria funcionar. — O destino me deu um bruxo...Oh, céus...

Colocou as mãos no rosto, sem saber o que fazer. Geralt levantou-se e deixou uma moeda na mesa para pagar a bebida.

— Se não vai me dar um monstro para eu caçar, então não fale asneiras e me deixe em paz. — E com isso foi embora, levando o coração abalado de Jaskier consigo.

Era comum duas almas gêmeas se conhecerem sem saber que eram destinadas uma a outra. A Marca aparecia quando o indivíduo sentia uma emoção muito grande pelo outro, fosse ela tristeza, amor, raiva ou ciúmes. Qualquer coisa valia. Jaskier olhou para Geralt e sentiu curiosidade, como se fosse alguém especial independente de sua alma gêmea. Queria saber mais dele, falar com ele, tocar nele. E foi assim que nasceu a Marca em seu pulso direito, o braço que usava para dedilhar as finas linhas de seu alaúde e proferir sentimentos em forma de canções.

Geralt olhou para Jaskier e não sentiu nada.

— Decidi que vou consertar sua reputação, — Jaskier declarou no caminho para sua primeira aventura com Geralt. — Você não será mais o carniceiro de Blaviken. Talvez algo mais nobre, como Lobo Branco, ou--

— Vem aqui. — Geralt interrompeu, o chamando para se aproximar. Jaskier, animado, o fez. E levou um soco tão forte no estômago que caiu no chão como um bêbado idiota e sem fôlego. Sua Marca queimou e ardeu, e Jaskier a cobriu em uma tentativa de disfarçar a dor, mas era inútil. Toda vez que Geralt fazia algo desagradável para ele ou o machucava de algum jeito, sua Marca latejava de um jeito impetuoso, e até o fim do dia o pulso de Jaskier estava vermelho e irritado.

Apesar da dor, Jaskier ainda tocava alegremente depois de ter conseguido fugir junto com Geralt, sua mais nova música inspirada na última aventura para limpar a reputação do bruxo. Estavam sem uma moeda no bolso e mal tinham escapado com vida, mas tocava porque Geralt era um homem de honra, embora um pouco fechado e grosso, mas era gentil quando importava. Porque Jaskier descobrira que sua alma gêmea era alguém bom, alguém digno de amar. E Jaskier cantou e tocou pelo resto do dia.

Geralt apenas o ignorou e seguiu seu caminho, e Jaskier se viu completamente e estupidamente apaixonado.

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Dias se tornaram semanas, e depois de um tempo ele se encontrou com Geralt de novo e dessa vez decidiu não soltar por nada. Acompanhava o bruxo sempre que podia, mesmo quando era rejeitado e sua Marca queimava sob sua pele, até que Geralt começou a cavalgar lentamente para que o bardo pudesse acompanhar, e algumas vezes até o deixava montar em Plotka junto com ele. Apesar de todas suas tentativas de fazer Geralt sentir algo intenso por ele — irritação, raiva, surpresa, qualquer coisa — nada acontecia. Jaskier até começou a se perguntar se bruxos eram capazes de ter almas gêmeas. E se não eram destinados a terem suas Marcas? Ou se Geralt já tinha a sua, mas não percebera e estava em um lugar em que não conseguia ver, como nas costas ou no pescoço? Talvez se Jaskier procurasse com mais cuidado--

— Jaskier? — Geralt disse, chamando sua atenção e interrompendo seus devaneios desesperados. Geralt estava na banheira se preparando para o banquete real de Cintra a pedido de Jaskier. — Tudo bem aí? Você de repente parou de falar faz uns 15 minutos.

O bardo virou-se para ele e ofereceu um sorriso nervoso enquanto despejava sais de banho na banheira.

— Ora, que gentil da sua parte se preocupar comigo, mas só estava pensando nas músicas que cantarei para o banquete! Não é todo dia que a princesa de Cintra escolhe um pretendente! Será que ela finalmente achou sua alma gêmea? — comentou, querendo saber o que Geralt achava sobre tais escolhas do destino. Será que ele se perguntava quem seria sua outra metade? Ou simplesmente não se importava? Jaskier nunca tinha tocado no assunto até agora.

— Hum. — Geralt respondeu e continuou seu banho, para a imensa frustração de Jaskier. Será que teria que fazer tudo sozinho? Todos sabiam que falar sobre alma gêmeas era um assunto um pouco proibido, por ser muito privado e íntimo, mas Geralt não passava a impressão de ser alguém que se importava com aquilo. Além disso, Jaskier era um bardo! Era praticamente impossível não se inspirar em qualquer amor marcado pelo destino.

— Bom, aposto que a alma gêmea da princesa seria uma pessoa muito sortuda, — Espalhou um óleo de banho em suas mãos e se atreveu a lavar o cabelo de Geralt, que congelou com o toque, mas depois lhe cedeu permissão. — Ouvi dizer que ela é boa, gentil e possui uma beleza divina. Onde estaria a Marca dela, eu me pergunto...

O bruxo fechou os olhos e relaxou sob as mãos de Jaskier, que ficou um pouco hipnotizado com o rosto calmo do outro e imaginou como seria surpreendê-lo com um beijo no pescoço ou acariciar com seus dedos seus lábios úmidos, e Jaskier teve que fisicamente se segurar para não fazer aquilo. Sempre surgiam aqueles sentimentos quando estava com Geralt, ainda mais assim de perto, o que o frustrava mais do que o normal, porque como Geralt não havia sentido alguma coisa por ele durante todo aquele tempo? Para Jaskier, ansiar por Geralt já fazia parte das coisas normais da vida. O inverno era frio, o céu era azul, e Jaskier era completamente apaixonado por Geralt de Rívia.

Engoliu em seco e continuou esfregando seus dedos nos cabelos do outro enquanto não muito disfarçadamente procurava pelo seu nome em algum lugar no corpo de Geralt. Não estava no pescoço e nem nos ombros. Talvez nas costas? Seus dedos escorregavam lentamente pela pele do bruxo, sua Marca pulsando embaixo do tecido que enfaixava seu pulso, cobrindo o nome de Geralt para que este não descobrisse. Estava tão concentrado em sua procura que quase não percebeu o outro estremecer ao seu toque quando suas mãos chegaram em suas costas e cicatrizes, fazendo com que o bruxo virasse bruscamente para ele e agarrasse seu pulso.

— O que está fazendo? — Geralt rosnou, seus olhos dourados agora agressivos e desconfiados encarando os dele. Jaskier teria pulado de susto se não tivesse sofrido uma pontada de choque quando o outro tocou sua marca por baixo do tecido. Geralt percebeu e encarou a mão do outro.

— Geralt--

— É aqui que fica sua Marca...? — perguntou com um tom de voz do qual Jaskier não tinha escutado antes, não sabendo o que significava. Sua mão ainda estava agarrada em seu pulso, que ficava mais sensível a cada segundo que Geralt o segurava.

— Sim, — respondeu com a voz fraca e engoliu em seco. — Está me machucando, Geralt--

Ele soltou o pulso do outro rapidamente, como se tivesse sido queimado, e depois virou suas costas de novo, evitando seus olhos e parecendo culpado.

— Desculpe.

— Não doeu muito, mas Marcas são sensíveis, — Jaskier explicou ao massagear seu pulso para aliviar a dor e se acalmar. — Não sei se você tem uma, mas pelo menos comigo é assim.

— Não tenho uma. — respondeu, ríspido e rancoroso, como se detestasse o fato de não ter uma alma destinada a si, ou odiasse a simples ideia de ter uma. Jaskier nunca conseguia ler o bruxo muito bem. Era sempre estranhamente enigmático.

— Quem sabe? Talvez um dia, quando você menos esperar, poderá receber uma--

— Então você conheceu a sua? — Geralt interrompeu, seus olhos penetrantes voltando para os seus.

— Minha...?

— Sua alma gêmea.

Jaskier, por mais que tivesse medo de ser rejeitado, não mentiria para Geralt, ainda mais sobre algo tão importante.

— Sim. — disse, não querendo aprofundar o assunto caso Geralt descobrisse quem era, mas também não confessando toda a verdade.

— E...? — Ele quis saber mais.

Jaskier cruzou os braços, defensivo, e desviou o olhar para o chão, não querendo mostrar o quão derrotado estava com toda a situação.

— Ele não me quis. — Sua voz saiu baixa e tímida, mas o outro ouviu mesmo assim. Geralt arqueou as sobrancelhas, quase incrédulo, e bufou. Parecia irritado.

— Se ele não te quis, então não vale a pena. — declarou antes de sair da banheira e pegar uma toalha.

— Pelo contrário, — Jaskier respondeu, não prestando muita atenção agora que estava olhando o bruxo secar o corpo molhado. — Acho que ele vale muito a pena.

O bruxo virou-se para ele e Jaskier rapidamente desviou o olhar.

— Ainda vai atrás dele mesmo depois de ter sido rejeitado? — Geralt disse e Jaskier se perguntava por quê ele ainda queria continuar a falar sobre aquilo. Nunca o tinha escutado falar tanto em tão pouco tempo.

— Bom, nunca se sabe. Não sou de desistir tão fácil. Talvez o destino me dê mais uma chance.

Geralt balançou a cabeça, aparentemente confuso, e olhou em volta.

— Onde estão minhas roupas, Jaskier? — perguntou e franziu a testa.

— Ah, é verdade. Estavam cheias de sangue, então joguei fora. Arranjei outras roupas decentes para você ir ao banquete hoje.

Geralt o fitou como se fosse decapitá-lo naquele instante.

A noite se tornou imensamente mais difícil depois disso. Os nobres de Cintra tinham bom gosto para música, então obviamente adoravam as canções de Jaskier, que aceitava todos os elogios de bom grado. No entanto, mesmo com toda aquela atenção, não conseguia evitar olhar para Geralt de vez em quando, perdido em pensamentos e na conversa de antes. Parecia que almas gêmeas era um assunto importante para o bruxo, pelo menos era o que o bardo percebera, e isso estava o corroendo por dentro. Mentir para seu amigo sobre algo assim o fez se perguntar se já não estava na hora de confessar. Talvez Geralt finalmente daria uma chance ao destino para fazer a coisa certa. Talvez Jaskier já tinha esperado o suficiente, e poderia finalmente dar um fim naquela insuportável insatisfação de querer o que ainda não podia ter.

Mas então um cavaleiro estranho e monstruoso apareceu em frente à rainha de Cintra para pedir a mão da princesa e tudo entrou em caos.

As melhores canções e histórias que Jaskier inventava para satisfazer a si e sua plateia nem se comparavam com a complexidade da posição em que presenciava. Um mero cavaleiro que fizera sua própria história se entrelaçar com a princesa, que se viu terrivelmente apaixonada graças ao destino disfarçado de acaso. Jaskier até daria risada se o caso não fosse tão irônico e semelhante com sua própria situação. A rainha de Cintra, no entanto, não achou graça.

E então Geralt, lindo e estúpido Geralt, teve que aparecer e fazer tudo ficar pior.

— O destino ajuda a crer que existe uma ordem pra toda essa merda. — Ele declarava para uma plateia silenciosa, a rainha o encarando como se fosse sua última esperança para parar aquela loucura. — Não existe.

E Jaskier queria chorar e cair de joelhos lá mesmo, no chão duro e nobre de Cintra. Se sua alma gêmea não acreditava no destino, quem era ele para combater seu ceticismo? Geralt de Rívia, que não tinha uma Marca não porque não tinha encontrado sua metade ainda, mas porque não queria encontrar. Jaskier se viu perdido em uma bagunça de emoções da qual não sabia descrever, como se alguém estivesse apertando seu peito, o deixando agonizado e sem fôlego.

Após a festa acabar em desastre e Jaskier ver Geralt o abandonar sem olhar para trás, ele bebeu mais uma taça de vinho e não teve coragem de segui-lo.

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— Você sabe de algum jeito de desfazer Marcas de alma gêmea? — Jaskier perguntava para cada curandeiro, cientista e mago que encontrava em suas viagens. Todos balançavam a cabeça em negação e Jaskier fechava os punhos e procurava de novo.

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— Geralt! Há quanto tempo! — Jaskier se viu com um sorriso grande e involuntário em seu rosto logo depois de encontrar o bruxo novamente em uma floresta qualquer. — Já se passaram meses! Como estão indo as coisas? Exterminando muitos monstros? Destruindo casamentos? Negando seu destino?

Era provável que Jaskier ainda estava um pouco rancoroso sobre o que acontecera no banquete de Cintra. Mas só um pouquinho. Geralt lançou um olhar confuso para ele e voltou ao que estava fazendo.

— Você está pescando? — continuou Jaskier, incerto, ao encarar a rede de pesca que o outro jogava no lago. — Sinto-lhe dizer, Geralt, mas você sempre foi péssimo em pescaria. Lembra daquela vez que você pescou um afogardo num rio perto de Novigrad? E então aquela criatura gosmenta veio atrás de mim e você a decapitou bem na minha frente, o sangue jorrou pra todo lado e eu vomitei depois bem nos seus pés? Bons tempos... Mas enfim, o que eu estou querendo dizer é que com esse ritmo e incrível falta de talento você não vai conseguir pescar nem uma-- Eita. Geralt? O que é isso?

Na beira da margem, arrastado pela rede, havia um pote sujo e misterioso e com um símbolo estranho na tampa. Geralt pareceu ao mesmo tempo incrédulo e aliviado ao ter encontrado aquilo, o que só fez a curiosidade do outro crescer.

— Um Djinn. — respondeu, e se abaixou para pegar o pote.

— D-Djinn? Djinn? — Jaskier gaguejou, surpreso, — Um Djinn? Mas por que você quer um Djinn?

Se as lendas eram verdadeiras, os poderes de um Djinn eram capazes de alterar qualquer realidade que seu mestre desejasse. Jaskier nunca foi um homem de cobiçar o impossível. Sua vida se resumia humildemente em arte, canções e poemas, mas nada mais parecia lhe satisfazer depois de ter conhecido Geralt e sua maldita Marca. Talvez, Jaskier pensava de vez em quando, quando acordava com seu pulso latejando de dor e as lágrimas frustradas transbordavam em seu rosto, talvez se minha Marca nunca existisse, eu não sofreria desse jeito.

Geralt estava prestes a abrir a tampa quando Jaskier agarrou seu braço para impedi-lo, ignorando sua Marca palpitando novamente ao tocá-lo.

— Não me ignore, Geralt, — Jaskier ameaçou com dentes cerrados, cansado daquele jogo. Queria respostas, e se nem o destino ou Geralt estavam dispostos a oferecê-las, um Djinn poderia ser uma boa outra opção. — O que um simples bruxo como você poderia querer com um Djinn?

Geralt estava prestes a negar qualquer explicação, mas hesitou ao olhar de relance para a mão de Jaskier, que agora o segurava com mais força.

— Não consigo dormir. — respondeu em um tom baixo, como se não quisesse admitir em voz alta.

— O quê? — Jaskier nunca estivera tão confuso.

— Não consigo dormir!

O bardo afastou seu corpo com o susto, mas não recuou. Sua mão ainda tocava o braço dele.

— E você vai gastar um desejo de um Djinn porque o magnífico Geralt de Rívia não consegue lidar com seus próprios problemas? — Jaskier declarou, sua voz ficando mais alta a cada palavra. Estava perplexo. O bardo passava noites em claro por causa da maldição de sua Marca e o querido bruxo não conseguia ter algumas míseras horas de sono?

— Eu estava muito bem antes de você aparecer. — Geralt retrucou, como se aquela declaração fizesse algum sentido, e tentou abrir a tampa novamente, o outro o interrompendo agora com as mãos agarradas no pote.

— Oh? — Suas palavras agora podiam cortar ferro. Estava furioso. — Então a culpa agora é minha? Você tem a mínima ideia de tudo o que eu passei no momento em que te conheci? Você não sabe nem a metade—-

— Jaskier! Solta o Djinn! — Agora os dois brigavam pelo pote como duas crianças mimadas.

— Não! Escuta aqui, seu maldito bruxo insensível e ignorante--

— Jaskier!

Jaskier puxou o pote e Geralt puxou a tampa, os dois cambaleando em sentidos opostos. O bardo acabou perdendo o equilíbrio e deixou o pote cair em pedaços no chão. Geralt rosnou para ele com olhos furiosos.

— E agora olha o que você fez! Mais um desastre, como sempre!

Jaskier sentiu seu coração apertar e fechou os olhos em frustração.

— O Djinn está livre? — perguntou para o bruxo, que apenas lhe lançou uma expressão ameaçadora. — Se eu tiver o libertado, então só tenho um desejo: quero me livrar da minha Marca!

Geralt o fitou como se fosse um homem louco.

— Como você pode pensar nisso numa situação dessas?! Se livrar da sua Marca?!

— Você não entenderia, Geralt. — Jaskier cuspiu as palavras como se fossem veneno, e nunca tinha visto Geralt tão vermelho de raiva.

— Tem razão, eu posso não entender, — soou ofendido, a voz carregada de ira. — Mas tudo o que eu sempre quis foi paz!

Ele abaixou para recolher rapidamente os pedaços de cerâmica do chão enquanto as árvores começavam a balançar com a força forte de ventos que surgiram misteriosamente. Jaskier estava pronto para responder com insultos criativos quando se viu sem voz, ou pior, sem ar. Alguma coisa o estava impedindo de respirar e não resistiu muito tempo até cair de joelhos na grama.

— Jaskier...? Jaskier! — Escutava a voz agitada de Geralt o chamar, mas como iria responder? Sua garganta estava queimando! Tossia com tanta força que seu corpo inteiro estremecia com a dor, e percebeu sua boca cheia de sangue quando alguns pingos vermelhos escaparam e sujaram as botas de Geralt. Tentava falar, gritar, chorar, mas tudo que saía eram gemidos roucos e árduos.

Geralt não hesitou em se oferecer como apoio e levá-lo o mais rápido possível até Plotka. Jaskier segurou forte no braço do bruxo, e ainda que estivesse em estado de choque, não falhou em perceber que sua Marca havia sumido.

Notas finais
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