Notas iniciais
Dois capítulos em dois dias, acho que voltei bem, não?

*aguarda ansiosamente até alguém perceber que voltou a publicar*

Achei que vocês mereciam um capítulo com mais de 1000 palavras, pra compensar pela minha ausência, então tá aí! 2829 palavras! O maior capítulo da história inteira, desde A Marca (onde o maior tem 2285), até A Marca - Vingança!

Nota: O capítulo anterior foi continuação do 26 - dia que Elliot chega (antes de Raquel começar seu flashback). E no próprio capítulo 26, Rebeca diz que é quarta-feira. Ou seja, o capítulo anterior aconteceu numa quarta-feira.

Sim, essa nota foi relevante.

Eu juro que eu vou matar essa mulher.

-Por que isso te incomoda tanto? Eu estou te machucando? Não, não estou! O que eu faço da minha vida não deveria ser da sua conta!

-É da conta do seu pai! E se eu puder resolver qualquer coisa que o esteja incomodando, eu irei.

-Então desista, bebê, porque isso não é o tipo de coisa que você pode resolver! – sai de casa batendo a porta atrás de mim.

Peguei meu telefone, para quem ligar? Pensei em ligar para a Julia, mas as coisas andam estranhas demais ultimamente... Rebeca não, meu irmão está com ela. Não quero encontrar meu irmão. A instabilidade emocional dele me tira do sério. Ora ele se importa, ora não. É cansativo ter de lidar com isso.

-Alice? – a voz do outro lado da linha soava confusa.

-É, sou eu.

-O que aconteceu? Você não costuma me ligar...

-Eu sei... – suspirei – Provavelmente é hipocrisia da minha parte, ir até você porque não tem ninguém mais pra me ajudar, mas... – mordi o lábio inferior, hesitante – Quer saber, esquece.

-Não, não. Diz-me, Alice, o que aconteceu?

-Não é nada. É bobeira, deixa para lá, eu não quero te incomodar.

-Que isso, querida? Você nunca será um incômodo! Façamos assim, venha me visitar, daí você me diz o que te perturba, certo?

-Certo.

-Até logo, linda.

-Até.

Desliguei e corri para o ponto. Fazia um tempo que eu não falava com ela.

Analisei as paredes brancas da recepção. O lugar tinha sido recém-pintado. Da última vez que estivera lá, ainda eram azuis. Se bem que fazia bastante tempo desde a última vez.

-Posso ajudar? – perguntou a recepcionista, com um largo sorriso no rosto.

Limpei a garganta.

-Vim aqui para visitar Johanna. Johanna de Souza Guimarães?

-E você é?

-Sou filha dela.

-Poderia apresentar identificação, por favor?

Entreguei-a minha carteira de identidade.

-Certo – ela digitou alguma coisa no computador. – Bom, Alice, poderia preencher esse pequeno formulário, por favor? – pediu, entregando-me uma folha de papel A5.

-Claro. Tem uma caneta?

-Aqui.

Peguei a caneta e pus-me a preencher o formulário.

Nome: Alice de Souza Medeiros

Sexo: Feminino

Idade: 15 anos

Relação com o paciente: Filha

Data de visita: 06/10/2012 (sábado)

Procurei o nome da recepcionista em seu crachá

-Aqui está, Renata. – assinei na última linha – Perfeitamente preenchido.

Ela alargou ainda mais o sorriso:

-Obrigada, sua mãe está no quarto 3-A, primeira porta à direita no terceiro andar. Infelizmente o elevador não está funcionando, desculpe a inconveniência.

-Obrigada você. E não se preocupe com isso.

Meus pais se divorciaram quando eu tinha nove anos. Lucas tinha onze. Papai não falava sobre isso lá em casa – na verdade, raramente falava dela. Não é por mal, nem por ódio. Na verdade, o divórcio deles foi bem saudável, na medida do possível, quero dizer. Eles se separaram por causa das mudanças de humor excessivas de mamãe.

Ainda lembro a discussão deles.

Eles estavam na cozinha. Papai reclamava que não entendia mais qual era o problema dela. Ora estava feliz demais, ora triste demais. Explodia frequentemente, e de vez em quando tinha umas crises de ansiedade. Ele estava preocupado. Não com ela, mas comigo e com Lucas. Mamãe ficou tão irritada com isso que começou a quebrar os pratos. Gritava coisas como “você não me ama mais” ou “me mate se me odeia tanto”. As coisas saíram de controle, e papai perdendo o controle. Aquela foi a única vez em toda minha vida que o vi bater em uma mulher, e realmente espero que tenha sido a última. Eu sei que não o fez por mal, mas o fez.

Depois de pedir desculpas repetidamente por horas, ligou para minha tia. Pediu que a tirasse de lá, não queria machucá-la de novo, mas também estava com medo que ela fosse nos machucar. Foi nessa época que o divórcio aconteceu. Aparentemente, durante os primeiros meses, minha mãe entrou em uma depressão profunda.

Minha tia convenceu mamãe a procurar um psiquiatra, e depois de algumas semanas, descobriu que tinha bipolaridade. Buscou tratamento e já estava melhorando quando minha tia morreu em um acidente de carro. Com isso ela teve uma terrível recaída. O problema é que ninguém na família estava disposto a cuidar dela. Por isso agora ela vivia nessa instituição psiquiátrica.

Bati na porta, esperando sua resposta.

-Alice? – ela abriu, seus olhos brilhavam de excitação – Ah, aqui está você! – puxou-me para um abraço. – Faz tanto tempo desde a última vez que a vi! Está tão linda, minha filha!

Já fazia algum tempo desde minha última visita. Percebi que ela tinha ganhado algum peso – o que era bom, da última vez que a visitei estava tão magra que era possível ver suas costelas. Reparei na arrumação de seu quarto, tinha duas estantes de livros, e uma pequena mesinha de cabeceira com um abajur. Ao lado da porta, ficava seu armário. Havia também uma penteadeira no quarto, com sua escova de pentear e diversas fotos de mim e de Lucas.

-Desculpe. É tanta coisa acontecendo, não tenho tido tempo... – menti.

-Não tem problema. Venha, sente-se – ela puxou a cadeira da penteadeira e pô-la de frente para a cama, onde sentou. – Então, qual é o problema?

Suspirei, não sabia se deveria contar a ela que papai estava casando de novo.

-É Lucas... Ele tem estado estranho esses dias. É que... Antes, ele me consolava sempre que algo estava me incomodando. Agora ele mal fala comigo! Eu não sei mais o que eu faço... Ele voltou ao normal recentemente, mas essas mudanças de humor... Estou preocupada que talvez ele... – olhei para mamãe, mas desviei o olhar em seguida.

-Está preocupada que ele seja como eu?

Mordi o lábio, não queria dizer isso.

Mamãe suspirou.

-Tente levá-lo ao médico. É muito provável que ele resista, mas... Se você realmente está tão preocupada assim com ele, deveria tentar.

Olhei para a janela atrás dela, pensativa.

-Certo, agora que nós conversamos sobre o Lucas, porque não me diz o que realmente está te incomodando. – falou.

Encarei-a assustada.

-Como você...?

-Eu sou mãe, eu sei das coisas. – sorriu – Agora anda, me diz o que te perturba.

Sorri para ela. Realmente estava bem melhor desde a última vez que a vi.

-Mãe, o que você acha de relacionamentos não convencionais? – perguntei.

-Como assim?

-Tipo, homem com homem. Por exemplo.

-Ah! Acho que... Cada um faz o que quer da sua vida.

-Sério?

-Bom, é. Quero dizer, se eu não tenho nada a ver com a vida da pessoa, qual o sentido em reclamar do que ela faz, sabe?

Estalei a língua.

-Entendo... Mas e se fosse o seu filho?

-O Lucas é gay?!

-Não! Não, calma! É só uma suposição! Para um... Trabalho de sociologia. Saber a reação das pessoas a coisas desse tipo. Então, e se fosse um filho seu?

-Ah, sim. Continuo com a mesma opinião. Ficaria surpresa, claro, mas não acho que me incomodaria tanto.

Suspirei aliviada.

-Ótimo.

-Alice, você está bem?

-Não, não eu não estou nada bem. Eu sou gay, ok? E papai tem nojo de mim por isso. E agora ele está prestes a se casar com uma vadia que tem mais nojo ainda, e me trata como se eu fosse um lixo! Ele não vê isso, não percebe que aquela puta não presta. Nem Lucas gosta dela, e ele é o único neutro nessa história. Quero dizer, somos filhos dele, sabe? Por que ele não termina logo com essa nojenta? Nós deveríamos ser mais importantes que ela! Ele é uma merda de pai, sinceramente. Bom, mas aí tem essas mudanças de humor de Lucas que me deixaram sozinha em guerra com a Paula. E eu acho que eu vou perder. Hoje de manhã ela disse que ia me consertar porque eu sou um incomodo para o papai! Pode isso? Mãe? Mãe, você está bem? Parece pálida.

Ela riu nervosamente em resposta.

-Eu... Só preciso de um minuto para... Assimilar as coisas... É informação demais... – mais uma risadinha nervosa – Minha filha é gay. Meu ex-marido vai casar de novo. Eu preciso de um copo d’água.

No fim das contas acho que eu deveria ter ficado calada. Mamãe serviu-se de uma garrafa em sua mesinha de cabeceira, bebeu uns três copos. Respirou fundo. Bebeu mais um. Uma mulher de roupas brancas entrou no quarto carregando uma bandeja.

-Hora do remédio, Johanna. – ela disse, num tom suave e tranquilizador.

-Boa hora. Acho que estou à beira de outra crise. – ela pegou o comprimido e tomou-o desesperadamente.

-Desculpe-me, mamãe. – eu disse, olhando para o chão.

Ela suspirou depois de engolir o remédio.

-Tudo bem, querida. Não tem problema. – virou para a enfermeira – Muito obrigada pelo remédio, Andrea. – a enfermeira sorriu e saiu do quarto – Certo, agora voltando ao assunto. Primeiro: Você vai falar com seu pai sobre isso. Sério, filha, você precisa conversar com ele e explicar para ele. Seu pai sempre teve uma mente muito fechada, mas conversa com ele direitinho que ele pode mudar o ponto de vista.

-Certo...

-Segundo: Dá um sacode no Lucas por mim. Sinceramente? Afastamento deve ser a maneira que ele encontrou para lidar com isso. Você não disse que ele também odiava essa tal de Paula? Manda-o parar de frescura e ir contigo conversar com teu pai. Pede o apoio dele. Ele sabe que você é... – ela limpou a garganta – Gay?

-Sabe. – suspirei.

-E ele se incomoda, como o seu pai?

-Não, ele disse que não tem problema.

-Ótimo! Então pede para ele te apoiar. E conversem com seu pai, e tentem convencê-lo a terminar com essa aí. Terceiro: Se tudo der errado matem a Paula e eu ajudo a esconder o corpo.

Sorri.

-Posso pular para a terceira opção?

Ela riu bocejando.

-Desculpa, o remédio me deixa sonolenta. Falando sério, faz isso que eu disse. Conversa com teu pai. Se necessário, conversa com a Paula também. Vou dormir agora, Lice. Volte se precisar desabafar de novo. – ela sorriu, deitando-se na cama.

Retribuí o sorriso.

-Obrigada. – beijei sua testa – Até mais, mãe.

Ela adormeceu em questão de segundos.

Refleti sobre o que ela me falou. Talvez eu realmente devesse falar com papai sobre isso. Olhei o relógio, faltava uma hora e meia para o show do primo do Hugo. Respirei fundo, procurando coragem, e liguei para Julia.

-Oi, quem fala? – era uma voz feminina, mas não parecia a dela.

-Julia?

-Julia não pode atender no momento. Quem fala?

-Como assim não pode atender?

-Olha, eu vou desligar se você não se identificar.

-É a Alice, namorada dela. – respondi irritada – Agora, poderia por favor chamar a Julia.

A pessoa do outro lado riu.

-Boa tentativa. Mas eu sou a namorada dela.

Meu coração parou de bater por um segundo. Eu não conseguia respirar. Como assim você é a namorada dela? Como assim? Há quanto tempo? Por quê? Quem é você? O que está acontecendo? Isso só pode ser brincadeira. Eu... A Julia... Ela está me traindo?

-É verdade, menti. Sou só uma amiga da escola. Há quanto tempo estão juntas?

-Um ano e meio! – Respondeu animadamente.

Do que ela está falando? Eu e Julia estamos juntas à três meses. Ela já tinha namorada?

-Costumam dizer que é tempo demais para pessoas da nossa idade, mas realmente estamos apaixonadas sabe? – continuou — Bom, é claro que tivemos alguns probleminhas, como meus pais me mandando para o outro lado do país. Mas mês passado eu completei dezoito anos e finalmente voltei semana passada.

Semana passada? Quando Julia começou a agir estranho e ficou paranoica que eu estava traindo ela?

-Ah, que interessante! Faz um favor para mim? Avise a Julia que eu liguei, e diz para ela que o show foi cancelado.

-Hm? Tudo bem, já anotei aqui!

Odiei a voz daquela garota, odiei a animação dela.

Desliguei o telefone sem dizer mais nada. Não acredito que Julia fez isso. Bom, de certo modo faz sentido. Toda aquela paranoia... Talvez aquele fosse o jeito dela de me afastar sem ter que terminar comigo. Assim eu terminaria com ela, e eu seria a vilã da história. Depois de algum tempo ela apareceria com uma nova namorada, e eu não poderia ficar com raiva porque fui eu quem terminou tudo!

Não acredito que esse tempo todo eu era a amante dela.

Minha autoestima acabou de cair um pouco mais. Haha.

Peguei um ônibus para o show. Só queria esquecer aquilo

-Alice, você veio! – Hugo correu até mim, abraçando-me. – E a Julia?

-Ocorreram alguns contratempos, ela não pôde vir. – respondi amargamente.

-Tudo bem, então! A Rebeca já está lá dentro, vem comigo, vou te levar para a mesa dela!

Segui-o até Rebeca. Não escutei o que ele disse depois, e ignorei enquanto os dois se pegavam. Quando eles finalmente acabaram, Rebeca riu sem graça. Ele sorriu para ela e deu-lhe um beijo na testa. Depois sorriu para mim e desceu para ajudar no teste de som, eu acho. Não entendi muito bem o que disse.

-Onde está Julia? – perguntou Rebeca.

-Comendo outra. E aí, como foi com meu irmão?

Rebeca arregalou os olhos, surpresa e preocupada. Percebi que tinha pena de mim. Não gostei daquele olhar.

-O que aconte...

-Não vamos falar sobre isso – interrompi-a. – Então, como foi com meu irmão? Correu tudo bem durante seu patético grupo de estudo?

Ela sorriu, mas aquele olhar de pena continuou ali. Isso me incomodava muito, muito mesmo.

-Sem estranhas mudanças de humor. Mas foi esquisito.

-Esquisito?

-Ele estava gentil demais. Muito esquisito.

-Realmente, isso é estranho. Ele não veio?

-Não, eu até convidei ele, mas Lucas disse que tinha compromisso. Acho que ia sair com a Bia, aquela sua amiga.

-Ah, sim. É possível...

Vou ter que reclamar com ele mais tarde. Não acho que ele sinta por Bia o que ela sente por ele, e não posso permitir que ele faça com ela o que Julia fez comigo. Ou com a namorada dela. Já não sei o que exatamente acontecera mais cedo.

-Acho que vai começar. – disse Rebeca.

Virei-me para o palco. Eram cinco integrantes. Duas eram mulheres, uma delas, baterista, tinha cabelos azuis e olhos âmbar, estava concentrada na arrumação de seu instrumento. A outra era magra, que aparentava ter descendência japonesa, tocava uma música do My Chemical Romance enquanto afinava sua guitarra e ria de algo que o garoto ao seu lado disse. Era o baixista, aparentemente, de cabelos castanhos e olhos azuis.

Os outros dois me chamaram a atenção. Um deles era guitarrista, baixo, magro e de cabelos compridos, lisos e pretos. Ele conversava com outro cara bem mais alto que ele, quem julguei ser o vocalista. Esse tinha cabelos, castanhos e curtos. Seu braço esquerdo era coberto por tatuagens, tantas delas que as tornavam indecifráveis.

Eles pareciam extremamente familiares, mas não conseguia lembrar onde os teria visto.

O tatuado pegou o microfone. Limpou a garganta antes de começar:

-Essa música se chama “Desista e não Resista”, e é dedicada a uma convidada muito especial. – ele olhou para nossa mesa. Talvez Hugo tenha pedido que a cantassem para Rebeca. Mas o título não parecia muito romântico.

Parecia coisa de estuprador, na verdade. “Desista e não resista!” – senti um calafrio. Que nome desmotivador para uma música que você dedica à sua namorada.

Virei para Rebeca, que parecia inquieta. Entendo como se sente. Uma música com esse nome também me incomodaria, cara Rebeca.

No fim das contas, apesar do terrível título, a música era boa, quase hipnotizante, devo dizer. Olhei para a Rebeca, ela parecia muito, muito assustada. E preocupada. Ela virou para mim e abriu a boca para dizer algo, mas o vocalista recomeçou:

-Boa tarde.

-Boa tarde – a plateia respondeu.

-Muito obrigada pela presença de todos vocês aqui hoje. Esse evento não seria possível se não fosse pelo meu irmão aqui – ele apontou para Hugo. Irmão? Achei que fossem primos... – Que fez o favor de trazer a nossa querida presa para essa perfeita armadilha.

Armadilha?

Do que ele está falando?

-Anya tentou te avisar, Rebequinha.

Rebeca segurou meu pulso e me puxou para fora dali. Antes que alcançássemos a porta, a baterista surgiu à nossa frente.

-Yo! Pena que não mordeu minha isca no dia do assalto, Katherine. Teria sido mais fácil para todos nós se você não tivesse se envolvido demais. – disse ela.

Rebeca tentou me puxar para o outro lado, mas estávamos cercadas. Todas as outras pessoas no recinto pareciam inconscientes. Virei para Rebeca, seus olhos brilhavam, vermelhos. Já o das pessoas que nos cercavam, estavam pretos, com um hexagrama no lugar de sua íris. Que diabos estava acontecendo ali?

-Sinceramente, será que você nunca percebe as armadilhas? – disse alguém.

Antes que eu encontrasse o dono da voz, fiquei inconsciente.