A Marca - Vingança
30 Armadilha (Alice)
Notas iniciais
*aguarda ansiosamente até alguém perceber que voltou a publicar*
Achei que vocês mereciam um capítulo com mais de 1000 palavras, pra compensar pela minha ausência, então tá aí! 2829 palavras! O maior capítulo da história inteira, desde A Marca (onde o maior tem 2285), até A Marca - Vingança!
Nota: O capítulo anterior foi continuação do 26 - dia que Elliot chega (antes de Raquel começar seu flashback). E no próprio capítulo 26, Rebeca diz que é quarta-feira. Ou seja, o capítulo anterior aconteceu numa quarta-feira.
Sim, essa nota foi relevante.
Eu juro que eu vou matar essa mulher.
-Por que isso te incomoda tanto? Eu estou te machucando? Não, não estou! O que eu faço da minha vida não deveria ser da sua conta!
-É da conta do seu pai! E se eu puder resolver qualquer coisa que o esteja incomodando, eu irei.
-Então desista, bebê, porque isso não é o tipo de coisa que você pode resolver! – sai de casa batendo a porta atrás de mim.
Peguei meu telefone, para quem ligar? Pensei em ligar para a Julia, mas as coisas andam estranhas demais ultimamente... Rebeca não, meu irmão está com ela. Não quero encontrar meu irmão. A instabilidade emocional dele me tira do sério. Ora ele se importa, ora não. É cansativo ter de lidar com isso.
-Alice? – a voz do outro lado da linha soava confusa.
-É, sou eu.
-O que aconteceu? Você não costuma me ligar...
-Eu sei... – suspirei – Provavelmente é hipocrisia da minha parte, ir até você porque não tem ninguém mais pra me ajudar, mas... – mordi o lábio inferior, hesitante – Quer saber, esquece.
-Não, não. Diz-me, Alice, o que aconteceu?
-Não é nada. É bobeira, deixa para lá, eu não quero te incomodar.
-Que isso, querida? Você nunca será um incômodo! Façamos assim, venha me visitar, daí você me diz o que te perturba, certo?
-Certo.
-Até logo, linda.
-Até.
Desliguei e corri para o ponto. Fazia um tempo que eu não falava com ela.
Analisei as paredes brancas da recepção. O lugar tinha sido recém-pintado. Da última vez que estivera lá, ainda eram azuis. Se bem que fazia bastante tempo desde a última vez.
-Posso ajudar? – perguntou a recepcionista, com um largo sorriso no rosto.
Limpei a garganta.
-Vim aqui para visitar Johanna. Johanna de Souza Guimarães?
-E você é?
-Sou filha dela.
-Poderia apresentar identificação, por favor?
Entreguei-a minha carteira de identidade.
-Certo – ela digitou alguma coisa no computador. – Bom, Alice, poderia preencher esse pequeno formulário, por favor? – pediu, entregando-me uma folha de papel A5.
-Claro. Tem uma caneta?
-Aqui.
Peguei a caneta e pus-me a preencher o formulário.
Nome: Alice de Souza Medeiros
Sexo: Feminino
Idade: 15 anos
Relação com o paciente: Filha
Data de visita: 06/10/2012 (sábado)
Procurei o nome da recepcionista em seu crachá
-Aqui está, Renata. – assinei na última linha – Perfeitamente preenchido.
Ela alargou ainda mais o sorriso:
-Obrigada, sua mãe está no quarto 3-A, primeira porta à direita no terceiro andar. Infelizmente o elevador não está funcionando, desculpe a inconveniência.
-Obrigada você. E não se preocupe com isso.
Meus pais se divorciaram quando eu tinha nove anos. Lucas tinha onze. Papai não falava sobre isso lá em casa – na verdade, raramente falava dela. Não é por mal, nem por ódio. Na verdade, o divórcio deles foi bem saudável, na medida do possível, quero dizer. Eles se separaram por causa das mudanças de humor excessivas de mamãe.
Ainda lembro a discussão deles.
Eles estavam na cozinha. Papai reclamava que não entendia mais qual era o problema dela. Ora estava feliz demais, ora triste demais. Explodia frequentemente, e de vez em quando tinha umas crises de ansiedade. Ele estava preocupado. Não com ela, mas comigo e com Lucas. Mamãe ficou tão irritada com isso que começou a quebrar os pratos. Gritava coisas como “você não me ama mais” ou “me mate se me odeia tanto”. As coisas saíram de controle, e papai perdendo o controle. Aquela foi a única vez em toda minha vida que o vi bater em uma mulher, e realmente espero que tenha sido a última. Eu sei que não o fez por mal, mas o fez.
Depois de pedir desculpas repetidamente por horas, ligou para minha tia. Pediu que a tirasse de lá, não queria machucá-la de novo, mas também estava com medo que ela fosse nos machucar. Foi nessa época que o divórcio aconteceu. Aparentemente, durante os primeiros meses, minha mãe entrou em uma depressão profunda.
Minha tia convenceu mamãe a procurar um psiquiatra, e depois de algumas semanas, descobriu que tinha bipolaridade. Buscou tratamento e já estava melhorando quando minha tia morreu em um acidente de carro. Com isso ela teve uma terrível recaída. O problema é que ninguém na família estava disposto a cuidar dela. Por isso agora ela vivia nessa instituição psiquiátrica.
Bati na porta, esperando sua resposta.
-Alice? – ela abriu, seus olhos brilhavam de excitação – Ah, aqui está você! – puxou-me para um abraço. – Faz tanto tempo desde a última vez que a vi! Está tão linda, minha filha!
Já fazia algum tempo desde minha última visita. Percebi que ela tinha ganhado algum peso – o que era bom, da última vez que a visitei estava tão magra que era possível ver suas costelas. Reparei na arrumação de seu quarto, tinha duas estantes de livros, e uma pequena mesinha de cabeceira com um abajur. Ao lado da porta, ficava seu armário. Havia também uma penteadeira no quarto, com sua escova de pentear e diversas fotos de mim e de Lucas.
-Desculpe. É tanta coisa acontecendo, não tenho tido tempo... – menti.
-Não tem problema. Venha, sente-se – ela puxou a cadeira da penteadeira e pô-la de frente para a cama, onde sentou. – Então, qual é o problema?
Suspirei, não sabia se deveria contar a ela que papai estava casando de novo.
-É Lucas... Ele tem estado estranho esses dias. É que... Antes, ele me consolava sempre que algo estava me incomodando. Agora ele mal fala comigo! Eu não sei mais o que eu faço... Ele voltou ao normal recentemente, mas essas mudanças de humor... Estou preocupada que talvez ele... – olhei para mamãe, mas desviei o olhar em seguida.
-Está preocupada que ele seja como eu?
Mordi o lábio, não queria dizer isso.
Mamãe suspirou.
-Tente levá-lo ao médico. É muito provável que ele resista, mas... Se você realmente está tão preocupada assim com ele, deveria tentar.
Olhei para a janela atrás dela, pensativa.
-Certo, agora que nós conversamos sobre o Lucas, porque não me diz o que realmente está te incomodando. – falou.
Encarei-a assustada.
-Como você...?
-Eu sou mãe, eu sei das coisas. – sorriu – Agora anda, me diz o que te perturba.
Sorri para ela. Realmente estava bem melhor desde a última vez que a vi.
-Mãe, o que você acha de relacionamentos não convencionais? – perguntei.
-Como assim?
-Tipo, homem com homem. Por exemplo.
-Ah! Acho que... Cada um faz o que quer da sua vida.
-Sério?
-Bom, é. Quero dizer, se eu não tenho nada a ver com a vida da pessoa, qual o sentido em reclamar do que ela faz, sabe?
Estalei a língua.
-Entendo... Mas e se fosse o seu filho?
-O Lucas é gay?!
-Não! Não, calma! É só uma suposição! Para um... Trabalho de sociologia. Saber a reação das pessoas a coisas desse tipo. Então, e se fosse um filho seu?
-Ah, sim. Continuo com a mesma opinião. Ficaria surpresa, claro, mas não acho que me incomodaria tanto.
Suspirei aliviada.
-Ótimo.
-Alice, você está bem?
-Não, não eu não estou nada bem. Eu sou gay, ok? E papai tem nojo de mim por isso. E agora ele está prestes a se casar com uma vadia que tem mais nojo ainda, e me trata como se eu fosse um lixo! Ele não vê isso, não percebe que aquela puta não presta. Nem Lucas gosta dela, e ele é o único neutro nessa história. Quero dizer, somos filhos dele, sabe? Por que ele não termina logo com essa nojenta? Nós deveríamos ser mais importantes que ela! Ele é uma merda de pai, sinceramente. Bom, mas aí tem essas mudanças de humor de Lucas que me deixaram sozinha em guerra com a Paula. E eu acho que eu vou perder. Hoje de manhã ela disse que ia me consertar porque eu sou um incomodo para o papai! Pode isso? Mãe? Mãe, você está bem? Parece pálida.
Ela riu nervosamente em resposta.
-Eu... Só preciso de um minuto para... Assimilar as coisas... É informação demais... – mais uma risadinha nervosa – Minha filha é gay. Meu ex-marido vai casar de novo. Eu preciso de um copo d’água.
No fim das contas acho que eu deveria ter ficado calada. Mamãe serviu-se de uma garrafa em sua mesinha de cabeceira, bebeu uns três copos. Respirou fundo. Bebeu mais um. Uma mulher de roupas brancas entrou no quarto carregando uma bandeja.
-Hora do remédio, Johanna. – ela disse, num tom suave e tranquilizador.
-Boa hora. Acho que estou à beira de outra crise. – ela pegou o comprimido e tomou-o desesperadamente.
-Desculpe-me, mamãe. – eu disse, olhando para o chão.
Ela suspirou depois de engolir o remédio.
-Tudo bem, querida. Não tem problema. – virou para a enfermeira – Muito obrigada pelo remédio, Andrea. – a enfermeira sorriu e saiu do quarto – Certo, agora voltando ao assunto. Primeiro: Você vai falar com seu pai sobre isso. Sério, filha, você precisa conversar com ele e explicar para ele. Seu pai sempre teve uma mente muito fechada, mas conversa com ele direitinho que ele pode mudar o ponto de vista.
-Certo...
-Segundo: Dá um sacode no Lucas por mim. Sinceramente? Afastamento deve ser a maneira que ele encontrou para lidar com isso. Você não disse que ele também odiava essa tal de Paula? Manda-o parar de frescura e ir contigo conversar com teu pai. Pede o apoio dele. Ele sabe que você é... – ela limpou a garganta – Gay?
-Sabe. – suspirei.
-E ele se incomoda, como o seu pai?
-Não, ele disse que não tem problema.
-Ótimo! Então pede para ele te apoiar. E conversem com seu pai, e tentem convencê-lo a terminar com essa aí. Terceiro: Se tudo der errado matem a Paula e eu ajudo a esconder o corpo.
Sorri.
-Posso pular para a terceira opção?
Ela riu bocejando.
-Desculpa, o remédio me deixa sonolenta. Falando sério, faz isso que eu disse. Conversa com teu pai. Se necessário, conversa com a Paula também. Vou dormir agora, Lice. Volte se precisar desabafar de novo. – ela sorriu, deitando-se na cama.
Retribuí o sorriso.
-Obrigada. – beijei sua testa – Até mais, mãe.
Ela adormeceu em questão de segundos.
Refleti sobre o que ela me falou. Talvez eu realmente devesse falar com papai sobre isso. Olhei o relógio, faltava uma hora e meia para o show do primo do Hugo. Respirei fundo, procurando coragem, e liguei para Julia.
-Oi, quem fala? – era uma voz feminina, mas não parecia a dela.
-Julia?
-Julia não pode atender no momento. Quem fala?
-Como assim não pode atender?
-Olha, eu vou desligar se você não se identificar.
-É a Alice, namorada dela. – respondi irritada – Agora, poderia por favor chamar a Julia.
A pessoa do outro lado riu.
-Boa tentativa. Mas eu sou a namorada dela.
Meu coração parou de bater por um segundo. Eu não conseguia respirar. Como assim você é a namorada dela? Como assim? Há quanto tempo? Por quê? Quem é você? O que está acontecendo? Isso só pode ser brincadeira. Eu... A Julia... Ela está me traindo?
-É verdade, menti. Sou só uma amiga da escola. Há quanto tempo estão juntas?
-Um ano e meio! – Respondeu animadamente.
Do que ela está falando? Eu e Julia estamos juntas à três meses. Ela já tinha namorada?
-Costumam dizer que é tempo demais para pessoas da nossa idade, mas realmente estamos apaixonadas sabe? – continuou — Bom, é claro que tivemos alguns probleminhas, como meus pais me mandando para o outro lado do país. Mas mês passado eu completei dezoito anos e finalmente voltei semana passada.
Semana passada? Quando Julia começou a agir estranho e ficou paranoica que eu estava traindo ela?
-Ah, que interessante! Faz um favor para mim? Avise a Julia que eu liguei, e diz para ela que o show foi cancelado.
-Hm? Tudo bem, já anotei aqui!
Odiei a voz daquela garota, odiei a animação dela.
Desliguei o telefone sem dizer mais nada. Não acredito que Julia fez isso. Bom, de certo modo faz sentido. Toda aquela paranoia... Talvez aquele fosse o jeito dela de me afastar sem ter que terminar comigo. Assim eu terminaria com ela, e eu seria a vilã da história. Depois de algum tempo ela apareceria com uma nova namorada, e eu não poderia ficar com raiva porque fui eu quem terminou tudo!
Não acredito que esse tempo todo eu era a amante dela.
Minha autoestima acabou de cair um pouco mais. Haha.
Peguei um ônibus para o show. Só queria esquecer aquilo
-Alice, você veio! – Hugo correu até mim, abraçando-me. – E a Julia?
-Ocorreram alguns contratempos, ela não pôde vir. – respondi amargamente.
-Tudo bem, então! A Rebeca já está lá dentro, vem comigo, vou te levar para a mesa dela!
Segui-o até Rebeca. Não escutei o que ele disse depois, e ignorei enquanto os dois se pegavam. Quando eles finalmente acabaram, Rebeca riu sem graça. Ele sorriu para ela e deu-lhe um beijo na testa. Depois sorriu para mim e desceu para ajudar no teste de som, eu acho. Não entendi muito bem o que disse.
-Onde está Julia? – perguntou Rebeca.
-Comendo outra. E aí, como foi com meu irmão?
Rebeca arregalou os olhos, surpresa e preocupada. Percebi que tinha pena de mim. Não gostei daquele olhar.
-O que aconte...
-Não vamos falar sobre isso – interrompi-a. – Então, como foi com meu irmão? Correu tudo bem durante seu patético grupo de estudo?
Ela sorriu, mas aquele olhar de pena continuou ali. Isso me incomodava muito, muito mesmo.
-Sem estranhas mudanças de humor. Mas foi esquisito.
-Esquisito?
-Ele estava gentil demais. Muito esquisito.
-Realmente, isso é estranho. Ele não veio?
-Não, eu até convidei ele, mas Lucas disse que tinha compromisso. Acho que ia sair com a Bia, aquela sua amiga.
-Ah, sim. É possível...
Vou ter que reclamar com ele mais tarde. Não acho que ele sinta por Bia o que ela sente por ele, e não posso permitir que ele faça com ela o que Julia fez comigo. Ou com a namorada dela. Já não sei o que exatamente acontecera mais cedo.
-Acho que vai começar. – disse Rebeca.
Virei-me para o palco. Eram cinco integrantes. Duas eram mulheres, uma delas, baterista, tinha cabelos azuis e olhos âmbar, estava concentrada na arrumação de seu instrumento. A outra era magra, que aparentava ter descendência japonesa, tocava uma música do My Chemical Romance enquanto afinava sua guitarra e ria de algo que o garoto ao seu lado disse. Era o baixista, aparentemente, de cabelos castanhos e olhos azuis.
Os outros dois me chamaram a atenção. Um deles era guitarrista, baixo, magro e de cabelos compridos, lisos e pretos. Ele conversava com outro cara bem mais alto que ele, quem julguei ser o vocalista. Esse tinha cabelos, castanhos e curtos. Seu braço esquerdo era coberto por tatuagens, tantas delas que as tornavam indecifráveis.
Eles pareciam extremamente familiares, mas não conseguia lembrar onde os teria visto.
O tatuado pegou o microfone. Limpou a garganta antes de começar:
-Essa música se chama “Desista e não Resista”, e é dedicada a uma convidada muito especial. – ele olhou para nossa mesa. Talvez Hugo tenha pedido que a cantassem para Rebeca. Mas o título não parecia muito romântico.
Parecia coisa de estuprador, na verdade. “Desista e não resista!” – senti um calafrio. Que nome desmotivador para uma música que você dedica à sua namorada.
Virei para Rebeca, que parecia inquieta. Entendo como se sente. Uma música com esse nome também me incomodaria, cara Rebeca.
No fim das contas, apesar do terrível título, a música era boa, quase hipnotizante, devo dizer. Olhei para a Rebeca, ela parecia muito, muito assustada. E preocupada. Ela virou para mim e abriu a boca para dizer algo, mas o vocalista recomeçou:
-Boa tarde.
-Boa tarde – a plateia respondeu.
-Muito obrigada pela presença de todos vocês aqui hoje. Esse evento não seria possível se não fosse pelo meu irmão aqui – ele apontou para Hugo. Irmão? Achei que fossem primos... – Que fez o favor de trazer a nossa querida presa para essa perfeita armadilha.
Armadilha?
Do que ele está falando?
-Anya tentou te avisar, Rebequinha.
Rebeca segurou meu pulso e me puxou para fora dali. Antes que alcançássemos a porta, a baterista surgiu à nossa frente.
-Yo! Pena que não mordeu minha isca no dia do assalto, Katherine. Teria sido mais fácil para todos nós se você não tivesse se envolvido demais. – disse ela.
Rebeca tentou me puxar para o outro lado, mas estávamos cercadas. Todas as outras pessoas no recinto pareciam inconscientes. Virei para Rebeca, seus olhos brilhavam, vermelhos. Já o das pessoas que nos cercavam, estavam pretos, com um hexagrama no lugar de sua íris. Que diabos estava acontecendo ali?
-Sinceramente, será que você nunca percebe as armadilhas? – disse alguém.
Antes que eu encontrasse o dono da voz, fiquei inconsciente.
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