A Marca - Vingança
5 Recaída (Rebeca)
Notas iniciais
Fazem "dois" anos desde o coliseu. São quatrocentos dias sem James entrar em contato, mas isso é detalhe.
365 x 2 = 730
Digamos então que, para completar exatamente dois anos faltam 80 dias. Temos então: 650 dias depois do coliseu.
Pronto, esclareci.
Dias sem incidentes: 650
-Lucas, Lucas! — atravessei os corredores às pressas, lançando-me em seus braços — Ah, Lucas, eu fiquei tão preocupada.
Um banco havia sido assaltado na tarde anterior, sem deixar sobreviventes, Lucas tinha ido naquele banco com a irmã pouco antes do assalto acontecer, então quando ouvi falar sobre o incidente, desesperei-me.
Ele riu.
-A gente se falou ontem à noite, Rebeca!
-Ainda assim. Eu precisava te ver pessoalmente.
-Bom, então aqui está sua prova. Eu estou vivo, minha irmã está viva — ele apontou para Alice -, meu cachorro está vivo. A única coisa que morreu foi sua pontualidade. Por que só chegou na hora do recreio?
-Dormi demais. — respondi, desviando o olhar. Na verdade, eu havia dormido de menos, passara a noite inteira assistindo filmes românticos, que na verdade eu odiava, e xingando a vida por causa de James.
Ele me encarou com uma expressão sarcástica no olhar.
-Isso foi tão sincero quanto a Alice dizendo que vai pra biblioteca estudar. O que aconteceu, Rebeca.
Fiz silêncio e mordi o lábio inferior.
-Você ligou para ele, não foi?
-Ah! Como você descobriu?
-Te conheço há anos. Sei ler suas expressões como sei ler um mangá.
-Certo, super otaku, eu liguei para ele. Mas ele não atendeu, então o assunto morre aqui, certo?
-Errado. Quantas vezes você ligou para ele?
-Só... Uma. – menti.
-Tá, quantas uma vez?
Revirei os olhos.
-Não sei! O Miguel disse que ele não podia atender aí eu parei de ligar...
-Mas...?
-Liguei pro celular dele. – mas estava desligado, então eu comecei a chorar. Só não achei importante citar essa parte.
Ele riu.
-Lucas! — chamou a tal da Beatriz — Alice me contou do assalto! Como vocês sobreviveram?
-Saímos antes. – disse ele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ela lançou-se em seus braços.
-Pobre, Lucas!
Revirei os olhos e saí dali, indo ao banheiro. Garota idiota. O Lucas diz que ficaria com ela só porque estava desesperado para ir ao banheiro e ela se acha A namorada dele.
Saí da cabine, parando em frente a pia, então Jéssica entrou com sua gangue de vadias.
-Rebeca, você veio? Pensei que tinha morrido, já estava até comemorando... Por que se atrasou?
-Acordei tarde. – respondi. Ela riu escandalosamente – É sério! Eu não dormi direito à noite.
Jéssica lançou-me um olhar sugestivo.
-Se você não fosse tão nerd, diria que tem um namorado. – ela disse.
-Eu tenho um namorado.
-Você e Lucas estão juntos?!
-O quê? Não! Eu e Lucas não...
-Ele estava se pegando com a Bia do primeiro ano lá fora, desculpa ser eu a te dizer isso.
-Mas...
-Nunca me senti tão mal por você como agora. Nossa, Rebeca, sua presença no mundo pode ser inútil, mas somos garotas, então devemos nos manter unidas nessas situações...
Ignorei os comentários sobre a suposta traição de Lucas e ri o mais alto e mais ironicamente que pude.
-Minha presença é inútil? – ri ainda mais alto – A minha presença? Se enxerga, garota! Sua única qualificação é se vender na esquina, enquanto eu, pelo menos, tenho um cérebro, posso ser o que eu quiser. Eu sim tenho alguma utilidade para o planeta.
-Para a sua informação, garota, eu faço aula de música e pretendo ser cantora. E pelo menos eu não sou uma virgenzinha de quinta!
Virgem? Eu tenho dezoito anos agora e, no mundo que vivo – onde a Jéssica existe – ser virgem a essa altura é seu o cu do mundo.
Senti minha marca arder. Era tarde para voltar atrás.
-Eu? Virgem? – ri, ainda irônica, dizendo adeus a minha vida privada. James se vangloriava por isso provavelmente, eu também merecia meus momentos.
Ela pareceu surpresa, espelhando meu riso irônico em seguida.
-Então a santinha não é mais virgem? Awn, que bonitinha. Pena que não faz um bom trabalho.
-Conheço um americano que discorda. – diga adeus a sua privacidade também, James.
-Uh, vadia worldwide.
Ela riu. Empurrei-a com força, fazendo-a bater na porta e cair fora do banheiro, saí, caindo por cima dela e segurando seu cachecol rosa barato, prestes a sufocá-la com o mesmo.
-Eu vou acabar com sua raça. – sussurrei ameaçadoramente. Não era nem pelas provocações em relação a minha vida sexual. Eu sempre quis matar essa garota, de todo modo.
Puxei as duas pontas do pano barato, roubando-lhe o ar. Alimentei-me de seu medo por um tempo, sentindo sua energia se esvaindo e passando para mim. Senti os olhares incrédulos dos que nos cercavam, e a sede pelo sangue de todos eles. Vi-me novamente no subsolo do coliseu, arrancando a vida de Charles. Era uma sensação renovadora.
Jéssica beirava a inconsciência quando a voz de Lucas fez meu eu humano retomar o poder sobre meu corpo. Gritei, jogando-me para longe da garota, que voltou a respirar desesperadamente, buscando recuperar todo o oxigênio perdido o mais rápido possível. Ela se encolheu contra a parede, assustada. Mas era eu que estava em prantos.
Lucas aproximou-se de mim e abaixou-se ao meu lado, compreensivo.
-Eu perdi, Lucas. Eu perdi. – eu repetia. Qualquer outra pessoa não entenderia o que eu tentava dizer. Mas a informação era clara para ele, que sabia minha história.
-De-mônio. – gaguejou Jéssica, apontando para mim – Olhos...
Droga, meus olhos deviam estar vermelhos! Fechei-os e tentei me acalmar. Não parava de sentir os olhos acusadores sobre mim.
Dias sem incidentes: 0
Meu pai me abraçava com força enquanto eu chorava sentada em seu colo.
-Desculpe, papai. Desculpe.
-Tudo bem, você não teve a intenção, querida. – ele beijou o topo de minha cabeça. Continuei chorando em seu ombro.
No dia que voltei da Inglaterra, quando meu pai conversava com James, perguntou a ele sobre tudo, então James teve que contar. Meu pai admitiu que já desconfiava que isso iria acontecer, pois minha mãe nunca escondeu dele sua natureza. E ele imaginava que talvez eu fosse como ela. Desde então ele resolveu trabalhar aqui no Brasil mesmo, na sede de sua empresa – uma das únicas multinacionais brasileiras – para que tivesse mais tempo ao meu lado, pois sabia que seria difícil para mim e que eu precisaria de alguém além de Lucas para me apoiar.
-Eu não tinha consciência plena dos meus atos. Quando que me vi, a garota já estava praticamente morta... – chorei.
-Vai ficar tudo bem.
E iria. Porque eu usei meus, digamos, poderes psíquicos para confundir as lembranças das pessoas. Apaguei essa cena da mente de todos que a viram, justificando as lágrimas nos olhos de Jéssica por um suposto tombo. Logicamente todos acreditaram, assim como até hoje eu ainda me pego convicta de que a cabine caiu comigo dentro quando eu estava no olho de Londres. Mas não caiu. Foi ilusão. O único que lembrava era Lucas, pois eu prometera a ele que nunca usaria meus poderes contra ele.
Continuei chorando em seu colo.
-Vamos fazer assim: – propôs meu pai depois de um tempo – eu peço pizza, a pizza que você quiser, e a gente aluga um filme legal, ou quantos outros você quiser, para assistir, pode ser? Pode até ser um daqueles documentários que você gosta de ver.
-Até aquele sobre os astecas?
-Até esse.
-Mas você odeia documentários e acha os astecas esquisitos.
-Hoje é tudo à seu gosto. E aí, o que vai ser?
-Eu quero uma portuguesa e uma parmê¹. – respondi secando as lágrimas.
-Certo... E filme?
-2012, O Dia Depois de Amanhã...
-Mas você já não viu esses?
-Já, mas eu gosto de filme de fim do mundo. Quero Jogos Vorazes...
-Você está me extorquindo, Rebeca!
-Você é dono de uma multinacional, fica quieto. – ele riu – Quero Happy Feet e...
-E chega, né?
-Não, também quero Vingadores.
-Certo. Mais alguma coisa? – ele parecia prestes a comemorar por eu não pedir nenhum documentário afinal.
-Sorvete! – respondi sorrindo com ainda algumas lágrimas nos olhos.
Ele beijou minha testa.
-Vá tomar um banho. – murmurou.
Foi bom tomar banho, a água gelada batendo em minha cabeça e escorrendo pelo meu corpo foi de certo modo relaxante. Depois do banho vesti meu pijama preto e branco e peguei Penny, meu pinguim de pelúcia. Pinguins eram meu animal preferido. São tão fofinhos e unidos e é tão legal quando eles escorregam de barriga no gelo para mergulhar.
-Qual vai ser primeiro, pinguim? – perguntou meu pai quando eu entrei na sala, cortando a pizza.
-Happy Feet! – respondi como uma criança feliz, abraçando Penny com força.
Meu pai sorriu, feliz por me ver melhor.
E eu passei mais uma noite em claro vendo filmes. Meu pai até me deixou ficar em casa no dia seguinte.
Notas finais
E desculpe não postar no fim de semana, mas sábado eu não estava em casa e domingo eu estava lendo obsessivamente A Esperança. OH GOD! É O MELHOR LIVRO DA TRILOGIA! EU TE ODEIO, SUZANNE COLLINS, POR NÃO SEREM MAIS DE TRÊS LIVROS!
:(
Ah, e tem isso:
NOTAS: ¹A pizzaria parmê tem como opção de sabor uma pizza com o próprio nome da pizzaria, que é uma das melhores pizzas que eu já comi na vida. É isso, valeu aê, tio!
té mais!
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