Notas iniciais
Eu poderia ter postado antes, mas eu perdi tudo que eu tinha escrito durante a viagem, então deixei para postar hoje mesmo.
Não vou falar muito porque eu estou bolada.
Aproveitem o capítulo que eu nem sei se tá bom ou não.

"Hoje, às seis da manhã, foram encontrados mortos os corpos de dois jovens próximos a um bar na zona norte do Rio de Janeiro. A causa da morte ainda é desconhecida, mas acredita-se que tenham sido assassinados."

Tomei mais um gole do café.

-Parece que vou ter que fazer uma visitinha a perícia. — suspirei — Suicídio duplo. Eu montei todo o cenário para vocês desconfiarem de suicídio duplo! É uma pena que suas memórias tenham de ser alteradas, eu realmente odeio mexer com o cérebro dos outros... — levantei e fui até a cozinha para lavar a xícara.

Era segunda-feira. Já eram oito da manhã e eu deveria estar na escola, mas arrumar o cenário de um assassinato para parecer suicídio pode ser realmente exaustivo, então optei por ficar em casa. Depois eu conseguiria algum atestado médico.

Estava me preparando para o confronto que com certeza viria. Dessa vez não seria pega desprevenida. De certo modo, me sentia mal tendo que tirar vidas para aumentar meu poder, por isso resolvi alimentar-me da energia daqueles que são inúteis e descartáveis para a sociedade, apenas. Como João e o casal drogado daquela madrugada. Assim minha obtenção de forças não faria nenhum grande mal à sociedade, certo?

Desliguei a TV e voltei para meu quarto. Parei em frente a estante e procurei entre todos os meus livros pelo de capa preta e dura. Peguei-o com cuidado, abrindo-o e manuseando as páginas antigas com delicadeza. Eu já tinha lido algumas coisas ali, mas não me parecia importante já que tudo estava acabado. Ou pelo menos era o que eu achava antes.

Deitei na cama e procurei pela parte onde eu havia parado. Havia dezenas de rituais guardados ali, dezenas de histórias e lembranças de um tempo já esquecido, abandonado. Todas escritas em uma língua antiga, extinta, mas que por alguma razão eu conseguia entender. Talvez estivesse no meu sangue. E assim eu fui desvendando todos os acontecimentos de importância da tribo. A última coisa que eu lembrava de ler era sobre o ritual da seca, que consistia no sacrifício de uma mulher, símbolo de fertilidade, e uma criança, símbolo do renascimento. O ritual que levou tudo que Hanaggan tinha e trouxe milhares de mortes como consequência. O ritual que transformou aquele bom homem na fera que destruiu a própria tribo.

Mas aquilo não me importava mais.

Folheei o livro até encontrar páginas relatando tempos de uma grande guerra, que levava embora a maior parte da população daquela tribo. O líder estava preocupado, não poderia deixar que todos os seus seguidores morressem. Eles precisariam de medidas drásticas, qualquer caminho para a vitória na guerra era aceitável, não importava o que seria necessário para segui-lo.

E enquanto a guerra se alastrava pela região, Gonji, nosso líder tomou uma decisão. Para a salvação de todos e a vitória no combate, recorreríamos aos deuses, porque apenas os deuses têm a força necessária para vencer o ataque daqueles filhos do demônio.

Filhos do demônio? Então era assim que chamavam a tribo inimiga?

Ao obter a bênção de Klana, o deus supremo, Gonji retornou à tribo dizendo saber o caminho para a vitória eterna. E que a maneira de obtê-la seria pedindo ajuda para os mais poderosos deuses: Yrah, Deusa da Ira. Nokka, Deus da Imortalidade. Yok, Deus do Poder. Hannyh, Deusa da Vingança. Kurnis, Deus da Morte. E Kuranys, Deusa da Escuridão.

E assim, à noite, sob o olhar brilhante de Kuranys, decidiu-se que o ritual seria feito. Para tal, seria necessário o sacrifício de seis animais, cada um representativo do anti-deus de cada uma das divindades que eram convocadas. Desenhou-se com o sangue desses anti-deuses uma estrela no chão, o corpo de cada sacrifício deixado para descansar em uma das pontas. Trouxeram então os dois filhos do líder, Lunna e Kory, gêmeos de sexos opostos. Sendo julgados pelo pecado de um relacionamento entre irmãos, foram escolhidos para tal ritual.

Seguindo as ordens de seu pai, os jovens deitaram-se ao centro da estrela. De onde eu observava, pareciam assustados e seguravam as mãos um do outro em busca de conforto. As tochas que formavam uma barreira circular em volta da estrela foram acesas, iniciando que o rito seria iniciado. O líder logo começou a chamar pelos deuses através das palavras ensinadas pelo supremo Klana. Os Tupuri-kanã reuniram-se ao redor do círculo de fogo. Enquanto alguns tocavam os instrumentos sagrados, os outros dançavam com as palavras de Gonji:

"Que venha a Escuridão, que venha o Poder, para que tragamos Vingança à Morte de nossos queridos, concedam-nos a Imortalidade com a força de sua Ira. Kurnis, Kuranys, Yok, Nokka, Yrah e Hannyh, tragam-nos a vitória nessa guerra! Emprestem-nos seus poderes e nós haveremos de retribuir-lhes. Cada gota do sangue inimigo derramada será um agradecimento. Cada inimigo derrotado, um sacrifício. Que os seis mais poderosos deuses, os seis soberanos inferiores apenas ao supremo Klana, concedam-nos a Invencibilidade!"

Não se sabe o que aconteceu, mas depois daquilo todos os Tupuri-kanã caíram na inconsciência. Acordaram apenas na manhã seguinte. A estrela continuava desenhada no chão, mas as carcaças dos animais haviam desaparecido. O corpo de Kory estava caído no mesmo lugar, não parecia respirar. Mas foi outro o fator que perturbou a tribo:

O corpo de Lunna simplesmente desapareceu.

Um calafrio percorreu minha espinha. Irmãos? Eram dois escolhidos? Na história que Enzo contou só tinha um. E a garota desapareceu depois do ritual? Isso significa que ela acordou antes de todos e foi embora, talvez com a transformação completa? Senti-me um pouco tonta com tantas perguntas surgindo em minha mente. Quanto mais eu tentava entender, mas complicado ficava. Suspirei e virei a página para continuar a leitura.

Depois daquilo, o rito de despedida para o corpo de Kory foi feito, seu espírito deixado para ser guiado pelas águas do rio.

Ninguém ousava sequer citar aquele ritual novamente.

Já fazem alguns dias desde que nos despedimos do corpo de Kory. A guerra continua. Hoje obtivemos a primeira vitória, mas perdemos muitas vidas. O banquete de celebração está preparado, tivemos que usar a carne dos inimigos, já que a guerra afastou os animais e dificultou a caçada. O líder diz que isso é bom, que assim absorvemos a energia deles. Acho que ele está certo.

A próxima página não tinha nada além do desenho de um hexágono com o que pareciam ser dois corpos no centro, provavelmente uma representação do ritual, apenas. Virei para a página seguinte.

Algo estranho aconteceu hoje. Alguns homem se reuniram para pescar, para reunirmos energias para um possível combate aquela noite, mas havia uma canoa atracada no rio. Entramos em estado de alerta, poderia ser um invasor. As mulheres e crianças foram levadas para dentro das cabanas e quando o líder reuniu todos os homens no centro da aldeia, sua mulher gritou, retirando-se de sua cabana com pressa, estava assustada. Ela correu logo para os braços do marido.

Antes que ela se acalmasse e começasse a explicar o que havia acontecido, Kory saiu da cabana. Seus olhos estavam completamente negros com uma estrela no centro. Eram como os olhos de um demônio. Ele sorria de maneira vingativa. Uma outra estrela estava em seu braço, parecia ter criado raízes ali. Ele parecia mais forte. Por um minuto achei que fosse um milagre, uma bênção. Kory havia voltado dos mortos, certo?

Então ele atacou. Tentamos reagir, mas ele conseguiu matar quase a tribo inteira. Matá-lo era impossível. Já sem opções e apenas desejando sobreviver, conseguimos prendê-lo. Ele agora está aprisionado em uma caverna no topo da montanha.

Todos ainda estão confusos com o que aconteceu. Já faz algum tempo que prendemos ele, mas ainda é possível escutar seus gritos de ódio ecoando pela floresta, vindos da caverna.

Mais páginas em branco. "Talvez aquele fosse o último relato..." Logo que pensei isso, encontrei algo nas últimas páginas.

Fazem alguns anos desde o retorno de Kory. Nós abandonamos aquela vila na base da montanha por alguns tempos, agora estamos de volta. Eu tinha prometido nunca mais tocar nesse livro amaldiçoado, mas depois do que aconteceu hoje, não tive escolha. Quando chegamos no lugar da antiga aldeia, ficamos gratos pelos assombrosos gritos de ódio terem desaparecido, mas resolvemos juntar um grupo para investigar, para ter certeza se ele havia escapado ou se ele teria morrido na caverna. Foi uma surpresa descobrir que ambas as respostas estavam erradas.

Quando quebramos a barragem de pedra que construímos na entrada da caverna, encontramos o corpo enfraquecido de Kory. Seus olhos estavam normais e a estrela em seu braço parecia um pouco apagada. Ousei aproximar-me, mas quando o fiz ele tentou me atacar. Pulou em cima de mim e começou a me estrangular. Os outros hesitaram em vir me salvar, talvez com medo de ele ainda ter a força daquela fera que dizimara as população da aldeia. Então eu mesmo de protegi. Consegui pegar minha faca e esfaqueá-lo. Para minha surpresa, ele grunhiu e recuou, contorcendo-se de dor.

Então apliquei o golpe final.

Abandonamos seu corpo na montanha. Já anoiteceu, então eu voltei aqui. Mesmo tendo feito o que ele fez, acho que merece algum rito de passagem para a próxima vida, então trouxe algumas flores. Ainda me pergunto o que aconteceu com a irmã dele...

Se um dia alguém encontrar esse livro, por favor, não realize nenhum dos rituais que constam aqui. Foi feito um pacto com os sobreviventes de deixar essa religião para trás. Não acorde esses deuses adormecidos. Isso poderia causar algo pior que o apocalipse. É o que eu sinto.

E isso era última coisa escrita por Hanaggan. Virei a página por curiosidade, imaginando se encontraria outra coisa. E encontrei, mas a letra que escreveu era diferente. Ao mesmo tempo que parecia mais delicada, ela aparentava carregar fúria em suas palavras:

Você mesmo acordou os deuses. Agora sofra com a ira deles.

Notas finais
Beijos! Até os reviews/próximo capítulo.