A Marca
43 Chegada (Epílogo - Lucas)
Notas iniciais
Desculpem pela cagada no começo e no meio do capítulo, mas eu só consegui pensar em algo decente pro final - o luto adiantado me causou bloqueio.
-Rebeca já deveria estar aqui! – exclamei preocupado.
-Se algo tiver acontecido a minha filha, vou garantir que seu corpo nunca seja encontrado.
Engoli em seco. Eu sabia que viajar para outro país no meio do ano letivo sem informar o pai dela não era uma boa ideia. Mas a Rebeca era tão teimosa...
O único problema foi que, um mês antes do que devia – coincidentemente, um dia antes da volta de Rebeca, o pai dela resolveu voltar. Bem, não resolveu, digamos mais que ele foi obrigado. Houve um problema em Praga e todo o resto da viagem foi cancelado. Ao chegar em casa, Sr. Cortez não encontrou sua filha querida, então ligou pra escola, que lhe disse que o próprio Sr. Cortez havia enviado um bilhete através do aluno Lucas Medeiros informando que sua filha, a aluna Rebeca Cortez, o acompanharia em uma de suas viagens de trabalho – imagino que a diretora nunca tenha informado a coordenação que descobriu a farsa, por causa do suborno, provavelmente.
A conclusão é: Rebeca não tem nenhum amigo chamado Lucas, além de mim – aliás, nenhum amigo além de mim. – Bom, chegando a casa de Lucas, eu, o Sr. Cortez, pai da Rebeca, pediu satisfações em relação a localização da filha, alegando saber que eu falsifiquei a assinatura dele. Sem escapatória fui obrigado a contar a história inteira e ligar para ela. Ah, e no viva-voz. Ou seja, Sr. Cortez ouviu tudo que James tinha a me dizer e, como o emprego dele implica em viajar o mundo inteiro, Sr. Cortez sabe falar inglês e muito bem.
Resumindo o resumão:
Eu estou morto, Rebeca está de castigo para o infinito e além, e Sr. Cortez perseguirá James pela eternidade até encontrá-lo e matá-lo lenta e dolorosamente por tratar a doce e inocente Rebeca como objeto sexual – palavras do próprio homem. E sim, aquilo foi uma referência ao “I’m fucking your sweet Rebeca”.
-Não se preocupe, o voo só deve estar atrasado. – eu disse.
-A mãe dela morreu num acidente de avião. – falou, me encarando de maneira tão séria que chegava a ser ameaçadora.
-Eu sei, senhor.
-Se Rebeca partir do mesmo jeito, você é um homem morto.
-Então se ela chegar viva eu sobrevivo?
-Não. Só morre mais rápido.
Decepcionado – para não dizer apavorado –, voltei a procurar Rebeca com o olhar. As pessoas do voo dela começavam a chegar – sim, um alívio –, imaginei que ela fosse aparecer em breve.
E ela apareceu. Acompanhada de um cara.
-Aquele é o tal James com quem você conversou aquele dia? – perguntou Sr. Cortez.
-Bem... Eu não sei...
Eu não ia com a cara do James por ter me chamado de slut – que aliás, eu ainda não sabia o que significava, mas sabia que era um xingamento -, mas, mesmo assim, senti pena dele por ter vindo com Rebeca. Em breve ele seria um homem morto. Estripado. E possivelmente deteriorado em ácido.
-Rebeca! – chamei acenando. Ela acenou em resposta, sorrindo, quando me encontrou com o olhar. Correu em minha direção, mas parou bruscamente ao identificar a figura séria de seu pai ao meu lado.
-Pai?! – exclamou empalidecida de surpresa.
-Surpresa! – ele disse ironicamente – Se divertiu fugindo para outro país?
-Bem...
-Você está ciente que eu vou ter que te punir severamente por isso, certo?
Ela apenas abaixou a cabeça em resposta, murmurando um fraco “Sim, papai.”
James se aproximou hesitante. Sr. Cortez sorriu.
-Oh, you must be the guy who is “fucking Lucas’s sweet Rebeca”, am I correct?
-Oh, holy hell. You’re her father. – respondeu James – And you heard that.
O pai de Rebeca apenas sorriu.
Eu não fazia ideia do que eles estavam falando, mas ri, imaginando que o pai de Rebeca estava usando ironia para repreender James pelo que me disse ao telefone – fosse o que fosse.
Eu precisava aprender inglês urgentemente agora que as coisas estavam ficando interessantes.
-Pai! – Rebeca exclamou, enrubescida. Seu rosto estava tão vermelho que não pude conter meu riso. Claro que, como sempre, ela me bateu.
Gritei de dor.
Nerdzinha mais agressiva a minha, hein?
Peraí, o tapa dela não doía antes...
-Você andou tomando anabolizantes em Londres? Quase arrancou meu braço com esse tapa!
Seus olhos se arregalaram um pouco e tive a leve impressão de vê-los assumir, mesmo que momentaneamente, um tom avermelhado. Um calafrio percorreu minha espinha.
-Não acho que seu namorado seja judeu. – disse Sr. Cortez, assumindo uma postura mais preocupada – E também não acho que esse livro seja o Tanakh. – Rebeca sorriu pesarosa. Seu pai respirou fundo – Venha, vamos para a casa.
Confuso, apenas segui a todos. No estacionamento, antes de entrarmos todos no carro do Sr. Cortez, senti que estávamos sendo observados.
-Rebeca... – chamei.
-Quê?
-Eu acho que tem alguém nos observando.
Ela revirou os olhos.
-Paranoia. Típico do Lucas. – murmurou para si.
-É sério!
Ela olhou em volta – Não tem ninguém aqui, Lucas. Agora entre no carro.
Entrei, apesar de que meus sentidos acusassem que eu estava certo – estávamos sendo observados.
Chegamos a casa de Rebeca. Enquanto Sr. Cortez tinha uma conversa séria com James na sala, eu estava com Rebeca em seu quarto.
-Você me deve uma história. – eu disse.
Ela suspirou.
-Certo. Como explicar que eu sou um ser que gera sua imortalidade através de assassinatos e passei um mês preenchido de mortes, perseguições e quase mortes em Londres e que esse mês pareceu um ano e que eu descobri que minha avó estava viva e era mais bonita que eu?
...
-Lucas? Lucas. Lucas! Pai, o Lucas entrou em coma vegetativo! – gritou desesperada.
James e o pai de Rebeca entraram no quarto em alguns minutos, mas eu ainda não conseguia me mover. Estava em choque.
-Lucas? – chamou-me James.
-Lucas, se você não responder logo eu vou ter que declarar seu óbito e te cremar no meu fogão.
-Não, obrigado, eu tô vivo! – gritei, repentinamente recobrando os sentidos – Não é à toa que a Rebeca é do mal, puxou o pai. – Rebeca e seu pai me lançaram um olhar mortal – Família psicopata.
James parecia desconfortável por não entender nada que estava acontecendo. Ele e Sr. Cortez voltaram para a sala para continua qualquer que fosse a conversa deles.
Rebeca explicou-me com calma tudo o que aconteceu nas últimas semanas. Desde a coceira no pulso até a morte de Marie.
Ao fim da explicação, ela tentava conter as lágrimas em seus olhos. Puxei-a para um abraço forte.
-Bom, o pior já passou. – foram as únicas palavras que encontrei para rconfortá-la.
Já era noite quando voltei para casa e fui obrigado a levar James até seu hotel.
-Obrigado. – ele disse.
-Seu sotaque é engraçado. – falei.
-What? Damn, I need to learn Portuguese...
-O quê? Cara, eu tenho que aprender inglês... Enfim, good night.
-Boa noite.
Peguei um ônibus para voltar para casa, rindo em mente do sotaque dele. Era engraçado. Talvez, se ele aprendesse português e eu inglês, nós pudéssemos ser amigos. Desci no ponto mais próximo a minha casa – que por sinal não era tão próximo assim – e fui andando pelas ruas mal iluminadas até meu apartamento. No caminho, senti mais uma vez que alguém estava me observando. Na verdade, eu tinha essa sensação constantemente, desde os onze anos. Quando eu tinha onze anos meus pais se divorciaram e a mãe da Rebeca morreu, talvez a paranoia fosse resultado do trauma...
Ignorei a sensação, lembrando que todas as outras vezes que eu disse isso, Rebeca não vira ninguém a nossa volta.
Então provavelmente não havia ninguém agora.
Continuei seguindo minha rota. Faltava um quarteirão para chegar em casa quando ouvi os passos. Minha reação natural foi correr, fugir de quem quer que fosse. Olhei para trás para ver meu perseguidor, mas não havia ninguém ali. Esbarrei em alguém.
-Desculpa. – disse.
Virei para frente, deparando-me com uma loira alta e magra, vestindo um vestido curto preto e saltos da mesma cor. Seus olhos azul safira me encaravam com certa inocência infantil e contrastavam com o delicado sorriso nos lábios cobertos por um batom vermelho. Senti que já havia visto aquela garota antes, mas não consegui lembrar onde nem quando.
-Lucas, certo? Eu queria mesmo falar com você. – ela disse enquanto seus olhos safira assumiam um tom vermelho sangue.
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