A Maravilhosa Loja de Argoluli — O Terrível
24 Um oásis
Notas iniciais

Enterraram o corpo de Razarthan nas areias do Grande tabuleiro.
Sacrifícios.
Sacrifícios sempre serão feitos em jornadas que realmente importam.
Depois cobriram sua cabeça de areia, a gosma que cobria seu corpo se misturando a tudo, só então pegaram a lâmina de uma adaga simples de fio único.
Laucel apontava a lâmina diretamente para seu rosto.
— Tome saia daí e raspe a areia do seu corpo com a parte cega da lâmina. — olhou-o bem nos olhos e disse seriamente. — Suponho que seria bom raspar essa cabeça, para evitar pragas e piolhos. Se quiser posso te ajudar.
— Só quero que me ajude a sair daqui. — disse Razarthan infeliz. — Nem sei porque me enterraram aqui.
— Estávamos considerando se o matava ou não. — disse Laucel serio, mas ao observar a expressão de espanto do ladino, riu-se. — Brincadeira, Razarthan. Relaxe. — respondeu começando a ajuda-lo a sair da areia. — Queríamos que a areia grudasse bem e que você saísse o mais impregnado de areia o possível para o que vai ter que fazer.
— Que é? — indagou Razarthan sem achar graça nenhuma.
— Raspar a areia misturada com essa gosma o máximo possível para economizar a água que você vai ter que usar para tirar o resto. — Olhou o cabelo empastado de areia do ladino. — Acredito que seria melhor mesmo você raspar a cabeça por precaução e ainda economiza mais água. — Olhou para os quinze cantis que conseguiram recuperar. — Cada cantil que utilizar é um sacrifício que estamos fazendo. Não sabemos onde vamos achar água de novo.
Razarthan teve que usar três cantis de água, raspar a cabeça e ainda estava fedendo. Além dos cantis, sacrificaram uma ode de vinho inteiro como perfume. Decidiram ser melhor ele feder a vinho barato do que a gosma de verme.
Tinham agora três cavaleiros, dois cavalos, doze cantis de água e três garrafas de vinho. Alguma ração de campanha, queijo e carne seca para talvez três dias, seis racionando. Cobertores para todos e uma tenda para Ester ter privacidade. Quatro metros de lona para se protegerem do sol caso tivesse que parar e descansar no deserto, suas próprias armas e armaduras, algumas moedas que lhe pareciam tão uteis no momento quanto mamilos numa armadura, de modo que nem contabilizaram.
Juntos o grupo agora era formado por seis pessoas, das vinte três que vieram, foi o que restou. Erick estava desaparecido e eles iam esperar até o amanhecer ou dá-lo como perdido.
Isso era preocupante de muitas formas, porque Erick desapareceu exatamente indo na direção que eles partiriam no dia seguinte, ao leste.
Na melhor expectativas a essa altura, Erick havia debandado, na pior, a morte os esperava.
***
Mais um dia raiou, Erick não retornou, o que restou da nata do Legado de Safira levantou acampamento e partiu, direção ao leste e a Torre Sem Sombra.
— Você foi muito corajoso. — disse Laucel sem preâmbulo á Razarthan. O ladino olhou para ele confuso e depois ao redor para confirmar se não estava falando com outro.
— Eu? — indagou incrédulo.
— Talvez eu tenha o superestimado. — respondeu Laucel. — Talvez tenha sido só estupidez mesmo. — retrucou o velho guerreiro exasperado. — Só aceite o elogio, pode ser?
— Será que vale um extra no pagamento? — Razarthan riu um sorriso de canto de boca. Laucel coçou a cabeça, a testa e suspirou fundo.
Caminharam quilômetros sem incidentes, encontros ou fenômenos naturais, ou não. Foi a caminhada em paz mais longa desde início da jornada e eles agradeceram a benção a todos os deuses bons e malignos do panteão Phracelo.
— Finalmente estamos chegando. — disse Ester.
Razarthan já notara, tirando Laucel, os outros cavaleiros olharam para sua líder confusos.
A alguns quilômetros a paisagem foi mudando sutil e progressivamente. O chão deixava de ser menos arenoso e mais argiloso, a umidade do ar se elevava e por fim eles viam reflexos do sol na areia a certa distância. Um oásis.
Todavia não um oásis comum, mas o Oasis Constante.
O maior e mais longevo oásis das Terras Escarlates. Alvo de disputas constantes entre as várias facções de atravessadores de vidro vermelho, companhias de mercenários e tribos de reptantes locais.
Também o lugar que marca a entrada da Torre sem sombra.
— E agora? — indagou Razarthan avistando o oásis como todos os outros. — Sabemos como isso funciona. — disse se aproximando de Ester que nesse momento estava em cima de um dos cavalos olhando em direção ao oásis compenetrada. — Tudo depende de quem governa o oásis agora. — olhou diretamente para Ester protegendo a vista do sol fazendo sombra com as mãos. — Quem é?
Ester simplesmente respondeu.
— Esse é um dos motivos porque você está conosco, Razarthan, o sem coração. — respondeu Ester sem olhar para ele e sem tirar os olhos do oásis. — Para descobrir quem está lá, quem nos aguarda e de preferência como passar sem ser notado.
Razarthan engoliu em seco e sacudiu a cabeça de um lado para outro antes de responder.
— Primeiro temos que sair de vista antes que nos vejam, se é que ainda não nos viram, depois teremos que esperar a noite. — respondeu o ladino.
Assim eles recuaram para a última duna que atravessaram antes de avistar o oásis e se abrigaram atrás dela até anoitecer, como foram deixados em paz, assumiram que ninguém os notou até aquele momento. A sorte parecia estar do lado deles afinal.
Ao anoitecer, o ladino ajeitou suas roupas de couro batido escuro e seguiu sorrateiramente em direção ao oásis constante saber quem era o governante da vez.
A sorte ainda continuava a sorrir. Das três hipóteses mais esperadas, foi o menos perigoso que encontrou. Uma busca rápida mostrou predominar a presença humana nas redondezas e não havia nenhum estandarte erguido, isso excluía presença de grupos mercenários.
Razarthan não sabia como e nem, porque, mas atravessadores dominavam o local naquela vez.
As moedas que eles recuperaram afinal poderiam não ser tão inúteis. Talvez pudessem negociar passagem para o outro lado do oásis e ir direto para a entrada da Torre Sem Sombra sem que eles se dessem conta. Bem provável eles não sabiam nada da torre.
Assim, Razarthan voltou aonde os cavaleiros se recolheram e trouxe as novidades e seus projetos.
— Acredito que podemos passar sem problemas, finalmente. — disse dirigindo-se a Ester. — O local está ocupado por atravessadores de vidro. Preciso de metade do dinheiro para negociar com eles nossa passagem.
— Trinta moedas de prata serão suficientes? — indagou Ester desconfiada.
— Mais do que suficiente para essa gente. — respondeu o ladino abrindo um sorriso de orelha a orelha, o que parece ter reacendido as suspeitas de Laucel sobre o ladino.
— Quinze moedas de prata então. — declarou o cavaleiro. — Vou com ele, senhora. — não foi um pedido, foi uma declaração.
— Por quê? — indagou o ladino indignado. — Não precisa e você só vai me atrapalhar.
— São bandidos. — retrucou Laucel rispidamente. — Vão te roubar assim que mostrar as moedas. Você vai precisar de segurança.
Razarthan ousou rir em um momento muito inapropriado.
— E você vai... — Razarthan não terminou a frase quando viu, não, quando percebeu que a espada de sir Laucel saltou da bainha em chamas direto para seu rosto parando a centímetros de queimar seu nariz empinado de rapaz bem-nascido. Calou-se.
— Você dizia? — indagou o cavaleiro com uma sobrancelha arqueada e uma boca distorcida.
— Que vai ser uma honra ter sua companhia, sir Laucel. — Razarthan, duas mãos erguidas em rendição e um sorriso amarelo nos lábios.
Assim foi acertado e logo depois eles partiram.
As moedas abriram mesmo as portas, e o porte imponente e arisco de Laucel, manteve os atravessadores a relativa distância. As sentinelas ficaram desconfiadas da aproximação dos visitantes a princípio, mas não se sentiram ameaçados o bastante pelos dois homens que se aproximavam, a ponto de tomar atitudes drásticas.
Usando de sua lábia e conversa fácil, Razarthan, mais sociável que seu companheiro forte, silencioso e muito atento, conseguiu algumas informações.
— Havia um grupo mercenário aqui e antes disso uma tribo reptante. — disse-lhes o bandoleiro que se chamava Amarelo, talvez os dentes justificassem o apelido. — Parece que os mercenários arranjaram outro lugar mais interessante para arrumar dinheiro e matar o tédio e venderam o oásis para o chefe.
O “chefe” era quem eles estavam indo ver para fechar a negociação.
Estava na maior tenda do acampamento. Uma tenda extravagante, relativamente nova e colorida.
Guardada por dois brutamontes na entrada, e mais dois pares que ficavam rodeando a tenda alternadamente.
“Dois ao fundo” — calculava Razarthan. “Eu colocaria”
— Oito. — sussurrou ao que, Laucel assentiu em compreensão.
Fora outros espalhados pelo acampamento, Razarthan calculava de vinte a trinta bandoleiros. Nem de longe o suficiente para segurar uma tribo reptante, mas o bastante para eles dois.
Havia outras construções antigas de matéria mais solida que davam a impressão que em algum momento aquele foi um lugar influente no local, quiçá parte da rota comercial, porém com invasões constantes de tribos reptantes qualquer lugar se torna desvalorizado.
Tais construções pareciam não ver uma reforma a um bom tempo.
Do lado de dentro da tenda, um homem obeso, calvo e com o maior bigode que Razarthan já observara na vida, sentava-se atrás de uma mesa de carvalho sólido que por si só servia de barreira.
Ao seu lado um grande problema de dois metros e vinte de altura. Um ogro.
Atrás dele um problema maior ainda.
Um homem espancado e dilacerado, amarrado a uma cruz, que sussurrou.
— Sir... Sir Laucel? — Uma boca com dentes ausentes disseram essas palavras e um olho inchado em um rosto desfigurado, miravam o velho cavaleiro suplicante.
— Erick? — respondeu Laucel.
— Merda! — praguejou Razarthan.
Não haveria negociação.
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