Notas iniciais
Ren
Ela continuava me olhando, assustada e surpresa. Eu não sabia como reagir, como lhe dizer. Com medo da reação dela piorar, logo procurei explicar:
— Kelsey, sou eu, Ren.
Eu tentei chegar mais perto dela, mas bem rápido, ela estendeu o braço, como um ato de defesa. Fiquei magoado com isso, pois eu não iria machuca-la. Mas não sabia como expressar isto.
— O que? O que foi que você disse? — pergunta ela com a voz trêmula.
Eu estava com muito medo, estava sentindo que ela queria fugir. Eu tenho que fazer alguma coisa, como fazer ela acreditar em mim?Eu cheguei mais perto, pus a mão no peito e disse:
— Kelsey, não corra. Eu sou Ren. O tigre.
Levantei a mão, e lhe mostrei a coleira amarela que ela tinha amarrado em meu pescoço. Ela olhou para trás de mim, em direção a árvore onde tinha me deixado. Voltando seu olhar para mim, ela recuou alguns passos atrás. Ela estava com medo, não era isso que eu pensei que ia acontecer, não quero perde-la. Rapidamente, me imobilizei, deixando um tempo para ela raciocinar o que estava acontecendo.
Sem entender a situação, ela perguntou:
— Onde está Ren? Eu não compreendendo. Você fez alguma coisa com ele?
— Não. Eu sou ele.
Voltei a ir em sua direção, enquanto ela sacudia a cabeça, não acreditando.
— Não. Não pode ser.
Ela tentou dar mais um passo atrás e quase caiu sobre o muro. Eu sem pensar, a alcancei rapidamente, segurei-a pela cintura e perguntei preocupado:
— Você está bem? — ela quase se machucou por minha causa.
— Não! — respondeu ríspida.
Ela olhava minha mão, que nesse momento estava segurando a dela, para equilibrá-la.
— Kelsey? — Ela ergueu seus olhos castanhos para os meus — eu sou o seu tigre.
— Não — sussurrou. — Não! Não é possível. Como poderia ser? — disse baixo.
Eu tentei tranquiliza-la e fazer com que ela fique e espere eu explicar as coisas.
— Por favor, vamos entrar. O dono não está em casa agora. Você pode se sentar e relaxar, e eu vou tentar explicar tudo.
Ela não disse nada, então fez o que eu pedi. Eu segurava firme seus dedos, temendo que ela corresse. Guiei ela para dentro, abaixei a cabeça e também entrei.
A cabana continuava do mesmo jeito que Kadam me disse, tinha um só cômodo, com uma cama pequena e uma cortina que seria o banheiro.
Gesticulei para que ela se sentasse na cama, queria que ela descansasse, pois a noite na selva não foi tão boa para ela. Enquanto ela sentava, me encostei na parede ao lado da porta, ainda temendo que ela saísse por essa porta em direção à selva.
Nós nos encaramos por um momento, percebi que ela estava tentando entender a situação, nem eu mesmo sabia o que estava fazendo.
Depois de um momento, ela olha para mim, com desconfiança e pergunta com raiva:
— Então, o que você é? Um homem que se tornou tigre ou um tigre que se transformou em homem? Ou você é como um lobisomem? Se me morder, eu também vou virar um tigre?
Sinto muito por isso, mas deu vontade de rir. Mas, como não queria irritar mais ela, apenas inclinei a cabeça pro lado e olhei confuso. Interpretando mal minha ação, ela se mexeu desconfortavelmente e disse:
— Ren? Acho que eu ficaria mais à vontade se você se afastasse um pouco de mim enquanto discutimos esta situação.
Tudo bem, acho que ela não vai mais fugir. Suspiro, ando calmamente até um canto, sento-me em uma cadeira e me recosto na parede somente nas duas pernas de trás.
— Kelsey, vou responder a todas as suas perguntas. Só peço que tenha paciência comigo e me dê tempo para explicar — falei baixo e esperançoso.
— Muito bem. Explique — disse ela rápido.
Comecei a organizar meus pensamentos, tentando ver por onde eu começava a contar sobre a maldição, sobre acharmos que ela podia acabar com tudo. Mas num momento rápido, vejo que ela está olhando para mim, de cima a baixo. Seus olhos percorriam todo meu corpo. No começo fico desconfortável, mas depois acho graça, um homem-tigre é difícil de compreender.
Ela tentando mudar a situação, perguntou:
— E então, Ren? Estou ouvindo.
Suspirei, belisquei a ponta do meu nariz com o polegar e o indicador, passei a mão pelo cabelo , em um forma de me acalmar e deixei a mão descansando sobre meu colo, olhei pensativo para ela e disse:
— Ah, Kelsey. Por onde começar? São tantas coisas para lhe contar...
Ela ficou me olhando por todo o corpo novamente, pensando, possivelmente ainda tentando entender a situação. Então, peguei a deixa que ela estava distraída, e comecei e lhe examinar também. Ela realmente tinha cabelos lindos, e cheirosos, pois senti isso na noite anterior. Seus olhos estava mais castanhos que o normal e apreensivos. Ela tinha o rosto rosado, a pele bem branca, tinha o nariz afinado e pequeno, a boca bem rosa e pequena. Sua cintura ela delineada, reparei conforme sua calça jeans. Havia algo entre nós, não sei dizer se era uma simples atração ou algo mais. Quando ela percebeu que eu estava lhe olhando, eu soltei um sorriso malicioso e levantei minha sobrancelha.
Ela pigarreou e disse:
— Desculpe. O que foi que você disse?
— É tão difícil assim ficar parada ouvindo? — disse ainda achando graça.
— Não. É que você me deixa nervosa, só isso — disse rápido.
— Você não ficava nervosa perto de mim antes — falei com meu sorriso desaparecendo e ficando magoado.
— Bem, você não tem a mesma aparência de antes. Não pode esperar que eu tenha o mesmo comportamento na sua presença — explicou.
— Kelsey, tente relaxar. Eu nunca faria mal a você — falei com tom verdadeiro.
Eu nunca machucaria ela, isso era o que eu mais temia.
— Certo. Vou sentar em cima das mãos. Assim é melhor? — disse com tom irônico.
Eu não aguentei, sorri com esse comentário dela.
— Ficar quieto foi algo que tive que aprender como tigre. Um tigre precisa se manter imóvel por logos períodos. É preciso paciência e, para esta explicação, você vai precisar ser paciente também.
Como estava nervoso com o que eu estava prestes e dizer, retirei meu cordão do pescoço e fiquei enrolando e desenrolando em volta do dedo.
— Preciso ser breve. Posso assumir a forma humana durante apenas alguns minutos por dia... para ser exato, por 24 minutos a cada 24 horas. Portanto, como vou me transformar em tigre logo, quero aproveitar meu tempo com você. Tudo bem?
— Sim. Quero ouvir sua explicação. Por favor, prossiga — disse mais calma.
É agora. Respirei fundo e comecei:
— Você se lembra de história do príncipe Dhiren que o Sr. Kadam lhe contou no circo?
— Lembro. Espere aí. Você está dizendo... — ela não conseguiu terminar, sem acreditar.
— Aquela história era verdadeira, pelo menos a maior parte dela. Eu sou o Dhiren de quem ele falou. Eu era o príncipe do Império Mujulaain. É verdade que Kishan, meu irmão, e minha noiva me traíram, mas o fim da história é mentira. Eu não fui morto, como muitas pessoas foram levadas a acreditar. Meu irmão e eu fomos amaldiçoados em tigres. O Sr. Kadam vem fielmente mantendo nosso segredo por todos esses séculos. Por favor, não o culpe por trazê-la aqui. Foi culpa minha. Sabe, eu... preciso de você, Kelsey — disse o mais rápido possível, antes de perder a coragem e contar.
E isso era verdade, eu preciso realmente dela, não só para quebrar a maldição, preciso dela ao meu lado, ela me dá conforto e carinho. Percebi que sua boca ficou seca, ela se inclinou para frente e se desequilibrou um pouco. Limpou a garganta e arrumou a postura.
— Como assim, precisa de mim? — perguntou confusa.
— O Sr. Kadam e eu acreditamos que você é a única que pode quebrar a maldição. De certa forma, você já me libertou de meu cativeiro — expliquei.
— Mas não fui eu quem o libertou. Foi o Sr. Kadam quem comprou sua liberdade — disse sem entender.
— Não. O Sr. Kadam não tinha meios de comprar minha liberdade até você surgir. Quando fui capturado, não poderia mais mudar para minha forma humana ou recuperar minha liberdade até que alguma coisa, ou, melhor dizendo, alguém especial aparecesse. Esse alguém especial é você.
Comecei a enroscar meu cordão no dedo novamente, enquanto pensava no que acabava de dizer, ainda não sei como Kelsey fez aquilo. Olhei para a janela, para o sol que estava se ponto no momento. Espero que ela aceite ficar aqui, pelo menos até Phet chegar.
— Certo — gaguejou. — Para que você precisa de mim? — perguntou casualmente.
Virei meu rosto para ela, e a vi me encarando.
— Viemos a esta cabana por uma razão. O homem que mora aqui é um xamã e é quem poderá lhe explicar seu papel nisso tudo. Ele não quis adiantar nada antes que a encontrássemos e a trouxéssemos aqui. Nem eu sei porque você é a escolhida. O xamã também insiste em falar conosco a sós e foi por isso que o Sr. Kadam ficou para trás.
Ainda com um medo dentro de mim, me inclinei para frente pedi:
— Você vai ficar aqui comigo até ele voltar e vai pelo menos ouvir o que ele a dizer? Se depois decidir que quer voltar para casa, o Sr. Kadam cuidará disso.
Tenho medo de ouvir-la dizer que quer voltar, preciso dela, muito mesmo.
Ela olha para baixo:
— Dhiren...
— Por favor, me chame de Ren — digo, eu amo que ela me chame assim.
Vi ela corar e fitou meus olhos.
— Está certo, Ren. Sua explicação é impressionante. Não sei o que dizer.
— Muito bem. Vou esperar e falar com seu xamã, mas estou com calor e com fome, cansada, suada precisando de um bom banho e, francamente, não sei se confio em você. Acho que não aguento mais uma noite dormindo na selva. — disse depressa.
Suspirei aliviado, pelo menos senti que ela não iria sair correndo daqui. Lhe dirigir um sorriso e disse:
— Obrigado — disse. — Lamento que esta parte da viagem tenha sido desconfortável para você. O Sr. Kadam e eu divergimos nessa questão de atrair você para a selva. Ele achava que devíamos simplesmente lhe contar a verdade, mas eu não tinha certeza se você viria. Pensei que, se passasse um pouco mais de tempo comigo, aprenderia a confiar mais em mim e eu poderia lhe revelar quem eu era à minha maneira. Era isso que estávamos discutindo quando você nos viu perto do caminhão. — expliquei.
— Então era você! Deviam ter me contado a verdade. O Sr. Kadam estava certo. Poderíamos ter evitado toda essa caminhada na selva e vindo até aqui de carro — disse depressa.
Suspirei, e expliquei:
— Não. Precisaríamos ter atravessado a selva de qualquer forma. Não há como entrar tanto assim no santuário de carro. O homem que mora aqui prefere que seja assim.
Ela cruzou o braço e resmungou:
— Bem, ainda assim vocês deviam ter me contado.
Retorci o cordão no meu dedo e disse:
— Sabe, dormir ao ar livre não é tão ruim assim. Você pode olhar as estrelas e sentir a brisa fresca soprando o seu pelo depois de um dia quente. O cheiro da grama é doce e — olhei-a nos olhos — o do seu cabelo também.
Isso era verdade. O cabelo dela tinha um cheiro muito bom, um cheiro doce. Que deixa qualquer homem louco.
Ela corou com o elogio e resmungou baixo:
— Bem, fico feliz que alguém tenha gostado.
Eu sorri, divertido. Pois realmente tinha gostado. Aliás, seu rosto fica ainda mais belo corado.
— Eu gostei — disse
— Ouça, Ren, você está mudando de assunto. Não gostei da forma como me manipulou para chegar aqui. O Sr. Kadam devia ter me contado no circo — disse.
Meu sorriso sumiu, ela ainda está com raiva? O que eu mais temia. Sacudi a cabeça. Não.
— Achamos que você não fosse acreditar nessa história. Ele inventou a viagem para a reserva de tigres com o intuito de traze-la para a Índia. Imaginamos que, com você aqui, eu poderia assumir a forma humana e esclarecer tudo.
— Provavelmente você tem razão — admitiu. — Se tivesse se transformado em homem lá, talvez eu não tivesse vindo — disse.
Eu precisava perguntar isso.
— Por que você veio?
— Eu queria ficar mais tempo com... você. Você saber, o tigre. Eu iria sentir saudade dele. Quer dizer, de você — disse, um pouco envergonhada, mas sincera.
Ela enrubesceu, e eu lhe dirigir um sorriso torto.
— Eu também teria sentido saudade de você — disse com muita sinceridade.
Ela torceu a bainha da própria blusa, e eu acho que ela estava nervosa com tudo, indecisa. A pesar do plano ter dado certo, Kelsey estava triste. Eu disse, pedindo desculpas:
— Kelsey, sinto muito, de verdade, pela decepção. Se houvesse outra maneira...
Ela ergueu os olhos para mim, e pareceu relaxar um pouco.
— Quando você vai se transformar novamente em tigre? — pergunta.
— Logo — respondo um pouco decepcionado.
— Dói? — pergunta.
— Não tanto quanto antes — respondo.
— Você entende o que eu digo quando está na forma de tigre? Ainda poderei falar com você? — pergunta automaticamente.
— Sim, consigo ouvir e compreender o que você fala — digo.
Eu amo ouvir a voz dela, seu tom quando conta alguma de suas histórias dos livros ou poemas.
Ela respira fundo e fala:
— Está bem. Vou ficar aqui até o xamã voltar. Mas ainda tenho muitas perguntas para você.
Isso quer dizer que ela ainda quer ficar ao meu lado? O ruim é que vou ter que esperar mais algumas malditas horas, até amanha para poder conversar com ela novamente.
— Eu sei. Vou tentar responde-la da melhor forma possível, mas terá que guarda-la para amanhã, quando serei novamente capaz de falar com você. Podemos passar a noite aqui. O xamã deve voltar ao anoitecer — expliquei à ela.
— Ren? — me chama.
— Sim? — respondo preocupado.
— A selva me assusta e esta situação também — responde.
Largo automaticamente o cordão de minha mão e olho-a nos olhos.
— Eu sei — penso em como ela deve está se sentindo, não deve ser uma situação boa.
— Ren? — me chama novamente.
— Sim?
— Não... me deixe, O.k? — pede.
Naquele momento vi o quanto eu era responsável pela segurança dela. Eu que a trouxe aqui. Ela precisava de mim. Nunca vou deixá-la.
— Asambhava (Tradução: Impossível). Não vou deixar você.
Ela correspondeu o meu sorriso, mas de repente senti meu braço tremer. Fechei meus punhos, por causa da dor. Desabei no chão, à frente da cadeira, derrubando-a quando caí. Vi Kelsey estender o braço para me segurar, mais nesse momento meu corpo se metamorfoseou em tigre. Meu sacudir de raiva, pois queria muito mais tempo com ela, e não podia. Me aproximei de sua mão estendida e me esfreguei nela. Senti o calor de suas mãos em meu pelo, e isso me deu mais conforto, aquilo a que ela sempre me conduzia sem perceber.
Agora ela sabia a verdade, e felizmente ela aceitou ficar aqui. Para minha felicidade.
Agora era esperar Phet chegar e nos explicar tudo. Tudo aquilo que poderíamos fazer para que eu possa ter uma vida novamente.
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