A Maldição do Corvo.
3 Armadilha.
Notas iniciais
Uma semana depois.
Três dias se passaram desde a última vez que meu tio contou a história da Menina-Corvo pra mim.
Três dias se passaram desde a última vez que fui com Harry até meu tio para pedirmos a ele que contasse uma história para nós.
Três dias se passaram desde a última vez que tive que sair de casa para fazer alguma coisa que não fosse ir até a floresta e ficar o dia lá. Sozinha.
Claro que Harry sabia onde eu estava e foi até a floresta, mesmo com o medo que ele sente deste lugar, pra tentar me fazer sair de lá, mas não conseguiu. A única coisa que conseguiu foi três arranhões no braço. E a culpa foi toda minha. Eu tive um surto de agressividade, que veio simplesmente do nada. Foi terrível. É como se eu tivesse perdido controle de mim. Do meu corpo. E machuquei meu próprio amigo.
Isso aconteceu quatro dias atrás e no dia seguinte do ocorrido, Harry tentou falar comigo mais uma vez e depois de uma briga horrível, pedi que ele nunca mais me procurasse. Tenho medo de agredi-lo mais uma vez. Harry acatou o meu pedido e nunca mais vi meu amigo.
Neste momento estou na floresta, onde passo todos os dias. Estou de joelhos, debaixo da sombra da árvore que marca o limite com uma faixa vermelha.
A mesma ideia na cabeça: E se eu passar o limite? O que acontece? Quantos passos consigo andar até ser morta por não sei o que? Será que posso dar uma pequena explorada e conseguir voltar pra casa?
–Tenho certeza que você vai acabar passando o limite. – Uma voz falou atrás de mim.
–Harry... perdão. – E comecei a chorar.
–De fato, alguma coisa está acontecendo com você. E... francamente Emi! Eu já desculpei você! Sabe disso. – Veio até mim e me abraçou.
–Eu vou embora Harry.
–Como assim? Do que você está falando?
–Aqui não é meu lugar. Sinto isso.
–E seu lugar é aonde? Lá? – Perguntou apontando em direção a parte da floresta que é proibida.
–Sim. – Disse convicta.
–Você é louca Emilly? O que tem na cabeça? Isso é loucura. – Disse com uma expressão horrorizada. – Total falta de juízo, mas isso você já ouviu né? E muitas vezes!
–Eu preciso ir. Desculpe Harry. – Nunca disse nada com tanta certeza. – Preciso saber o que tem lá.
–Precisa? Precisa mesmo?
–Sim. – Disse séria.
–Então vá Emilly! Explore! Mas se você puder, volte! Também quero saber o que tem lá! – Disse com um sorriso no rosto.
Então, me posicionando para ver seu rosto direito, percebi que ele estava chorando. Harry sabia que eu nunca iria voltar.
Despedi de meu amigo com um abraço. Nenhum de nós dois disse mais nada.
Assim que passei pela primeira vez da árvore que marca o limite, instantaneamente senti um arrepio. Um arrepio forte. Ignorei e comecei a andar, sempre em frente, sem olhar uma única vez para trás.
Dois meses depois.
Dois meses se passou desde que Emilly ultrapassou o limite.
Emy nunca mais voltou. Sinto falta de minha amiga. Tio Robert também sente, embora não demonstre. Maria, mãe de Emilly, chorou do começo ao fim, um mês depois foi encontrada morta em sua casa. Nós, que vivemos na vila, fizemos uma pequena cerimônia e agora ela descansa em paz ao lado do túmulo que fizeram por Emilly em sinal de respeito.
Será que ela ainda está viva?
•••
Andei sem parar até o fim daquele dia e depois de andar o que pareceram dez metros, é como se eu estivesse em outra floresta totalmente diferente. Um local muito mais fechado. Nenhum feixe de luz era capaz de passar por entre as árvores.
Perdi totalmente a noção do tempo. Quantos dias estou aqui? Ou serão meses?
Como minha mãe está? Confesso que eu e minha mãe não tínhamos uma boa relação, mas eu a amo. Sinto um aperto no coração só de pensar nela.
Como tio Robert está? Será que ainda está vivo ou já morreu de tanto beber?
E Harry? Ah Harry! O que será que ele está fazendo neste momento? Acho que de todos aqueles que são importantes pra mim, Harry é de quem mais sinto saudades.
Meus pensamentos foram instantaneamente interrompidos quando avisto uma cabana um pouco a frente, cerca de cinco metros.
Engraçado... Não me lembro de ter visto essa cabana a cinco segundos atrás enquanto caminhava.
Corri para chegar mais rápido até lá. Será possível ter alguém vivendo ali?
Cheguei perto o suficiente e me surpreendi ao ver que, na realidade, não é uma cabana mas sim um barraco totalmente destruído.
Parei a dois metros de distancia da porta e comecei a observar aquela construção.
Parecia que tinham derrubado algumas árvores para limpar um pouco a área e poder construir aquele casebre.
Comecei a perceber algumas marcas nas placas de madeira que formam a fachada. Havia marcas também na porta. Pareciam marcas feitas por garras. Há duas janelas e ambas estavam quebradas.
Algo chamou minha atenção e meu olhar foi desviado das garras para as janelas.
Aquilo são olhos? Céus! Da janela, estou sendo observada por um par de olhos semelhantes de... corvos.
‘’Há boatos de que a menina tinha encontrado um monstro dentro da floresta, que vivia além dos limites, um terrível monstro em forma de corvo... ’’
De repente um vento forte passou. Comecei a olhar ao me redor e me assustei quando ouvi um barulho parecido a alguém tentando abrir uma porta trancada. Assim que ouvi o barulho, automaticamente voltei minha atenção ao casebre e dei um berro quando a porta foi bruscamente aberta.
Um vulto negro passou por mim.
"A floresta esconde um segredo. A floresta esconde um terrível monstro’’.
Dei alguns passos na direção em que eu acho que aquele vulto tomou e alguma coisa me empurrou. Uma barreira invisível, será possível?
Quando tentei me levantar uma pressão dentro da minha cabeça me impediu. Uma dor terrível que parece não ter fim. E um grito impossível de ser evitado, capaz de desesperar qualquer um que estivesse em minha volta no momento, saiu de minha boca.
Com dificuldade ergui minha cabeça e a impressão que tive era a de que as árvores e tudo mais ao me redor passavam por mim como se eu estivesse correndo em alta velocidade. Comecei a ficar zonza por causa disso.
Em seguida senti uma dor escruciante. Era como se eu estivesse sendo cortada em vários lugares. Como se várias facas saíssem de dentro do meu corpo de uma vez só. De dentro pra fora.
Passei minha mãos pelos meu braços e senti uma textura diferente. Com dificuldade, olhei pelos meus braços e pude ver o que estava causando essa diferença.
Penas negras nasciam de mim. Penas de corvo.
...
Óh! Pobre Menina-Corvo
Que por tanta curiosidade
Numa armadilha terrível caiu
Óh! Pobre Menina-Corvo
Que uma dor terrível sentiu
Essa dor sempre estará com ela
Até a próxima vítima cair na armadilha
E assim, Liberdade terá de novo.
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