A Maldição do Cisne

4 Encontro E Inferno


Mar estacou por um instante, em choque, seu primeiro pensamento sendo direcionado para Hellina: cadela. Óbvio que ela não teria nenhum interesse gratuito em Bastien. O filhinho de papai era da maldita família de Julien! Mar estreitou os olhos e empinou o nariz:

— Então você quer sair comigo… Porquê?

Bastien ergueu uma sobrancelha, surpreso com a mudança de atitude. Enquanto isso, Hell foi despertando do choque causado pelo convite inesperado.

— Venho te notando há dias; até tentei te chamar para sair antes, mas você estava muito ocupada esnobando todo mundo. — O sarcasmo encheu sua voz.

— Bast.. – Hellina tentou chamá-lo

— Não me diga que é um ativista que pensa que todos são iguais perante Deus e que ninguém é melhor do que ninguém – debochou Maríade, cortando a frase de Hellina.

— Não. Acho que alguns são melhores do que outros, sim, mas por ter mais oportunidades. Só não sei o que tem demais em você para esnobar a faculdade inteira. – Ele pareceu irritado, o que de certa forma animou a Cisne Negro. Era bem excitante quando alguém a desafiava.

— Bastian! – chamou Hell, segurando seu bíceps, tentando fazer com que ele prestasse atenção nela, enquanto Mar propositadamente ignorava as atitudes da prima e até se divertia com elas.

— Se é assim que vê as coisas, bonito, porque quer sair comigo? – Ela ergueu uma sobrancelha e seguiu provocando.

— Eu gosto de um desafio, chérie. – Hell mordia delicadamente os lábios, tentando achar uma forma de trazer o rapaz de volta para seu mundo, mas ele estava muito ocupado tentando convencer Mar a sair com ele, de um jeito muito tosco, diga-se de passagem.

Mar riu com gosto dos métodos do jovem francesinho. O cara era um otário mesmo. Nem um pouco o estilo de sua prima, que acreditava nos românticos incuráveis e nos heróis honrados dos contos de fadas. Só o pensamento a enchia de asco. Mas Bastien era quase como ela mesma, só que mais… humano. Bem, a Cisne não estava interessada de qualquer forma, contudo, só para ver o desespero da prima, aceitaria o convite:

— Nesse caso, te provarei que eu posso, sim, esnobar a todos, chérie. Eu aceito um café. Ao final disso, espero que tenha desistido de me procurar, querido. Não estou interessada em nenhum de vocês.

— Se detesta tanto as pessoas daqui, porque veio, afinal? – questionou ele.

Nesse momento, Hell estava quase chorando, certamente seu coraçãozinho estava disparado. Bastien tentava não ser rude, mas veementemente empurrava a mão da morena de si.

— Não lhe devo satisfações. – Mar rolou os olhos.

Seria totalmente inútil explicar seus motivos. Levaria a uma história sobre sua origem, o que, inclusive, era contra as regras. Além disso, Mar duvidava que houvesse um real interesse por trás da indagação.

— Que seja. Vamos?

Dito isso, os dois saíram andando, deixando uma Hell estática pela saída repentina para trás. Logo que ela realizou que os dois estavam partindo, saiu correndo para alcançá-los.

— Esperem! – Hellina tinha os olhos arregalados.

Maríade sorriu, resolvendo pisar mais em cima.

— Hell, querida, isso é um encontro, não percebeu? Encontros acontecem apenas entre duas pessoas. Eu não atrapalhava seus encontros com seu amado Julien, atrapalhava?

Hell prendeu a respiração; Mar quase pôde ouvir seu coração perder uma batida. O Cisne Branco estava prestes a chorar. Aproveitando o estado catatônico da prima, acenou de leve e seguiu caminho.

— A gente se vê, Hellina – se despediu Bastian, sem direcionar o olhar a ela.

…

— Okay, você fala seis línguas além do francês. Grande coisa. Ainda não é motivo para esnobar a todos, chérie. Muitas pessoas falam até mais línguas – eles estavam nessa discussão há umas duas horas.

Maríade até que estava se divertindo. Comeu pouco e mal ouviu a voz do outro; de vez em quando ele se pronunciava – sempre para contrariá-la – o que era estranhamente gratificante, uma vez que levava alguém às lágrimas antes da metade do tempo que o Sens havia aguentado. Ou, como no caso de Eleanora, ela saía da sala muito irritada para terminar qualquer conversa.

— Sinceramente, adolescentes me enervam. Sempre achando que suas vidas são a maior tragédia porque os namorados transaram com uma estranha, ou porque estão sendo pressionados pelos pais ou simplesmente porque seus carros não são os mais caros do colégio. – Ela bufou. – Patético. A vida pode ser muito mais cruel e eles nem fazem ideia.

Bastien ergueu uma sobrancelha.

— Está falando isso por causa de seus pais? Também não é o fim do mundo perder os pais, ainda mais se tem uma irmã mais velha para cuidar de você.

— Primeiro: minha irmãzinha é o pior pé no saco que pode imaginar. Nada no mundo se compara a tortura de ter que olhar para a cara dela todos os malditos dias da minha vida. Exceto olhar para Hellina. – Maríade falou de forma ácida, soltando todo seu veneno. – Segundo: até parece que eu sentiria falta de meus pais. Meu papai querido nunca chegou perto de ser um homem de verdade e a minha mãe era uma babaca relapsa. Uma cadela, como Hellina.

Bastien ergueu uma sobrancelha, questionando com os olhos o desabafo e Mar finalmente se tocou. Falara demais. Bem, tanto faz; ele nunca descobriria que a mãe e a “irmã mais velha” dela eram a mesma pessoa ou qualquer vestígio de desumanidade no discurso. O máximo que faria seria questionar o ódio. O que ele obviamente fez:

— Uau. Você tem bastante problema com sua família. Era bem visível que não gostava da sua prima, se quer saber; mas parece bem mais um rancor… talvez inveja?

Mar abriu bem os olhos, sua cara estava assustadora, mas ela se segurava para não demonstrar o Cisne em sua face. Subitamente ela agarrou-o pelo colarinho, aproximando seus rostos, (e) sussurrou em sua cara ameaçadoramente:

— Nunca mais repita isso. Eu não tenho inveja. Não preciso ter inveja dessa coisinha ridícula e digna de pena. Sou muito melhor que ela. – O Cisne o soltou, percebendo o movimento discreto que Imogen, que a estava vigiando, fez em direção a eles.

Bastien estava mais do que surpreso com o ataque repentino, mas tentou reprimir a reação.

— Tudo bem. Desculpe. Também não acho que haja qualquer coisa para se ter inveja dela. Pelo que pude perceber, Hellina é o tipo de pessoa que só acredita no bem maior e etcetera. Esse tipinho sempre se dá mal. – Ele bufa. – Mas não consigo entender exatamente o relacionamento de vocês…

— Não tente transformar minha vida em seu novo projeto psicológico, Bastien. Não sou sua paciente e jamais serei.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo. Bastien pareceu incomodado e quebrou o silêncio:

— Sinceramente, Maríade, a sua prima me tira do sério. Mon Dieu! Ela é grudenta! Muito romântica e doce, cheia de papos estranhos do século passado. Parece sempre esperar algo de mim. Não faço absolutamente o estilo dela, nem por fora. Pareço romântico pra você? – Quando ele olhou, Mar riu da hipótese. O francês sem dúvidas tinha cara de mulherengo. – Pois é. Será que pode pedir, mandar ou ameaçar ela para me deixar em paz? Ela afasta todas as outras mulheres de mim com um sorriso doce de desculpas e isso me enoja.

Mar riu mais alto.

— Não prometo nada, chérie. Quando Hell gruda, só a morte separa. Ou alguém sem nenhum caráter, segundo Eleanora. – Era uma piada cheia de verdade, mas ele jamais saberia.

— Tipo você, chérie? – Bastien gargalhou.

O Cisne não respondeu, mas também não se fez de ofendida, dando um discreto sorriso maquiavélico. Ao olhar para o lado de fora, se tocou de que estava ficando tarde. Logo seria o pôr do sol e ela precisava estar em casa. Olhou para Bastien, lamentando por dentro ter que acabar uma das únicas tardes acompanhadas em que ela não quis arrancar os próprios ouvidos ou os olhos.

— Tenho que ir, chérie.

Bastien sorriu de lado e levantou, pagando a conta.

— Ué, não vai reclamar pra pagar a conta? Todo o papo de “direitos iguais” – ele desdenhou.

— Claro que não. Você convidou; você paga.

Logo os dois estavam saindo, indo em direção à casa antiga que abrigou mais de uma geração de Cisnes. Não era um caminho muito curto, porém a cidade era pequena. Foi um momento incrivelmente agradável, até mesmo melhor do que sentados no café. Não havia estranheza entre eles, porém Mar acreditava que aquilo era mesmo parte da personalidade dele. Bastien com certeza escolhera a profissão certa.

As ruas estavam parcialmente vazias, os poucos olhares que recebiam eram ignorados, Bastien não parecia muito preocupado de ser visto com a patricinha que cursava artes. Por um breve momento, Mar se sentiu ridícula, entretanto, deu de ombros. Ele continuava a ser apenas um aluno, um ninguém que rendeu momentos satisfatórios, como alguns outros, e logo seria esquecido, então se deixou aproveitar o resto da caminhada.

Quando chegaram à esquina, avistaram em frente à porta, para infelicidade de Maríade, Eleanora e Hellina, as duas esperando cheias de expectativa. Merde, pensou o Cisne Negro.

— Então tchau, Bastien – ela se despediu dele antes de chegarem à calçada.

Ele, notando as duas esperando à porta, logo entendeu, e agarrou-a de surpresa beijando-a com ardor. Seu beijo era molhado e sua boca ainda tinha sabor de chocolate. Os braços estavam firmes ao redor da cintura dela, enquanto os dela seguravam os cabelos levemente compridos dele. Mar não pôde deixar de pensar em como ele era gostoso, ao mesmo tempo em que em algum lugar pequeno em sua mente ria da cara que as duas deveriam estar fazendo para a cena.

Depois de um bom tempos apreciando, ele a soltou, um pouco ofegante e com os lábios inchados; Mar sabia que não estava muito diferente:

— Nos vemos amanhã, Maríade. Espero que esteja inteira depois do interrogatório.

E ele foi embora.

…

— Qual o problema de vocês – rosnou Maríade.

— Qual o seu problema, Maríade – retrucou Eleanora. – Já disse que temos que ser discretas, passar despercebidas e você faz um show na frente do campus. Deixe Hellina em paz com aquele garoto. Nós todos vamos ganhar com isso.

Mar não aguentou e finalmente deixou o Cisne preencher seu rosto, a penugem cobrindo a testa e as maçãs da face; os olhos vermelhos.

— Essa vadiazinha está tramando alguma coisa, Eleanora – acusou, apontando para Hell, que estava parada com os olhos delicadamente vermelhos e cheios de lágrimas. – O maldito é descendente de Julien Sens.

O Cisne mais velha respirou fundo, se preparando para o confronto. Teria que ser rápido, pois o sol já quase havia desaparecido no horizonte.

— Eu serei direta, Maríade. Não. Interfira. Nisso. Hellina está apenas tentando quebrar a maldição. E, para isso, ela precisa do garoto Sens. Entendeu?

— O que?! – O Cisne Negro estava chocada. – Quebrar a maldição? Isso é possível?

— Não no meu caso, Mar. A maldição funciona por gerações. Se uma geração a quebra, as outras não são afetadas. O caso é que sei que odeia ser um Cisne. Hell pode ajudar nisso, então não interfira.

— E como ela pode ajudar? – Mar estava completamente indignada. – Ela só estraga tudo! Quem garante que a situação não vai apenas piorar? Onde Bastien se encaixa nisso?

Eleanora balançou a cabeça, esgotada. A transformação estava começando.

— A maldição será quebrada quando a Cisne prejudicada, a Branca, no caso, retomar a história de onde começou; com um descendente de seu amado. Hellina precisa ter um filho com Bastien.

Mar deu dois passos para trás, estarrecida.

— O que?

— Isso mesmo – a voz de Hellina penetrou o ambiente. Ela tinha um lenço branco nas mãos, assoando o nariz. – Bastien é nossa chance, Mar.

— Nem pensar. – Maríade rosnou, mas quando foi atacar a prima, a transformação se completou e o imenso Cisne surgiu.

Era lindo. Tão negro que parecia absorver toda a luz ao redor. Sua beleza era assustadora, pois os olhos vermelhos traduziam todo o ódio que ia em seu coração; sua ira por saber que sua chance estava sendo tomada.

Maríade ignorou o outro Cisne presente. Quando passou deslizando por entre os móveis antigos para a rua, ouviu apenas um lamento vindo de sua mãe e um borrão azul escuro, tão belo e assustador quanto o primeiro.

Porquê? Pensou Mar, ressentida. Ela teve tudo. Teve o amor dos pais, inclusive dos meus; teve a beleza, a classe, a doçura, as habilidades. Quando sobra algo para mim, me é tirado sem piedade. Justo quando finalmente toco alguém, quando sou preferida.

Pela primeira vez em quase um século, Maríade se deixou tomar pela leve tristeza que a acompanhava desde o fatídico dia da transformação. Decidiria de forma egoísta, como sempre. Porém, no fundo, sentia que depois disso, jamais alcançaria o real “felizes para sempre”.