Draco dirigiu o mais rápido que pode, mesmo com a possibilidade de receber uma multa pelo excesso de velocidade e por passar os sinais vermelhos. Seu objetivo principal era levar Hermione ao hospital, encontrar Harry. É claro que ele sabia que poderia causar um acidente com a velocidade que seguia pela rua, mas não conseguia pensar com racionalidade. Apenas se preocupava com sua amada. E vê-la tão agoniada lhe era um martírio.

Assim que chegou, Hermione desembarcou do carro e correu para a recepção do hospital, pedindo pelo quarto em que estava internado Alvo Tiago Potter. A recepcionista apenas liberou a entrada de Hermione, pois Harry havia dito que ela viria. Draco, por respeito, ficou aguardando nas cadeiras do saguão. Ele também não iria impor sua presença a Harry, afinal, os dois não eram amigos.

Pensava no que poderia ter acontecido com o pobre garoto. E seu sangue gelou nas veias ao pensar em sua mãe. Ligou para casa, perguntando a quem fora a primeira pessoa a atender, se Narcisa estava em casa.

— Senhor Malfoy...- era a voz da governanta – Ela deve estar no quarto dela, senhor.

— Poderia passar o telefone para ela, por favor? – ele pediu, em tom impaciente.

— Um instante – ela disse, com a voz ofegante.

Ele aguardou, sentindo o coração bater de forma apressada. Escutou alguém conversando com a governanta, mas as palavras não era distinguíveis. Mas, o tom denunciava que algo não ia bem. Suas mãos começaram a suar e uma ideia estranha se formou em sua mente. Poderia ter sido sua mãe que atacara o menino Potter? Ele esperava fervorosamente que não.

— Senhor Malfoy – dessa vez, quem falava era o mordomo – Sinto dizer-lhe que sua mãe não está no quarto dela e nenhuma parte da casa.

Draco ferveu por dentro, por ouvir aquela voz monótona. Não era motivo para estar tão calmo. Ele não se sentia nem um pouco calmo. Mas, infelizmente, não instruíra seus empregados corretamente a lidar com sua mãe.

— Trate de encontrá-la – ele exigiu – Ela não pode ficar sozinha. Está mentalmente perturbada. Preciso que encontre ela em segredo. E instrua aos empregados a não comentarem nada sobre isso. E eu souber que alguém sequer fez uma menção sobre minha mãe, não medirei esforços para puni-lo. Fui claro?

— Sim, senhor. Irei encontrá-la – o mordomo disse em tom firme.

Draco desligou sem se despedir. Se suas conjecturas estivessem certas, sua mãe havia atacado o filho de Harry. Mas, por qual motivo?

*

Hermione estava esbaforida quando chegou ao quarto 402, no quarto andar do hospital. Ela bateu na porta, sentindo o coração bater rapidamente no peito. Harry abriu a porta e a fitou com pesar. Seus olhos estavam avermelhados, evidenciando o fato de ter chorado. Hermione ficou condoída por ele. Quando pode entrar, ela o abraçou, sem ao menos olhar para o ambiente do quarto. Ele se deixou envolver pelos braços dela, se forma hesitante, mas depois, começou a tremer. Foi então, que percebeu a presença de mais alguém no local. Era Gina.

A ruiva parecia tão pequena, sentada ao lado da cama do filho. O menino estava inconsciente, com a cabeça e o braço enfaixado. Havia sofrido uma contusão, por isso, estava inconsciente. Ginny segurava a mão do filho, como se aquele gesto pudesse aliviar a dor do garoto. Ela nem ao menos se incomodou com a presença de Hermione. Contudo, Hermione queria falar com sua velha amiga. Ela se desvencilhou de Harry, sussurrou:

— É seguro me aproximar de Gin?

— Tente – Harry disse, no mesmo tom.

Ele parecia muito abatido. Ela apertou a mão dele, um gesto solidário e depois se aproximou da cama, pousando uma mão no ombro de Gina. Ela se endureceu e não se virou para encarar Hermione. Talvez, fosse um gesto involuntário, ou deliberado, para que Hermione se afastasse. Mas, a castanha não estava disposta a desistir.

— Gina, eu sinto muito – ela disse, em voz baixa, retirando a mão do ombro da ruiva.

Ginny respirou fundo. Era tão estranho para Hermione olhar para alguém de costas, mas a ruiva não nem ao menos se virou, o que demonstrava que evitava confronta-la.

— Eu não sei se você sabe o que sinto – Gina falou, com a voz entrecortada – Ou entende o que é ter um filho ferido, Hermione. Nunca soube dar valor para seus amigos.

O golpe das suas palavras deixaram Hermione sem fala. Sentia-se se reação. O que mais poderia dizer a Gina? Que sentia muito pelos anos que passou longe de Nova Esperança? Que queria seu perdão? Mas, como ela queria perdão, se nem ao menos conseguia perdoar os fantasmas do seu passado? E nem ao menos conseguia perdoar Draco? Era tão hipócrita pedir perdão, ela pensou.

— Eu não posso mudar o que fiz, Gina – Hermione disse, corajosamente – Eu gostaria de explicar minhas ações, ao menos. Mas, eu sei que não vai me ouvir. Eu fiquei anos sem dizer uma palavra, é claro. É compreensível que esteja ressentida de mim, pois nunca mantive contato. Não vou pedir perdão, porque não sei se pode me perdoar. E também, não quero força-la a isso. Apenas desejo que saiba que estou aqui, de qualquer forma. Mesmo sendo tarde para isso.

Gina respirava fundo, enquanto ouvia as palavras de Hermione. E finalmente se virou para a castanha, com o rosto avermelhado pelo choro. Seu olhar castanho era afiado, demonstrando que as palavras de Hermione não surtiram o efeito desejado.

— Quero que vá embora, Hermione. Não precisamos de você! – seu tom era duro e deixou Hermione desanimada. Ela não sabia o quanto seria difícil conquistar Gina. Quase esmoreceu diante dela.

— Gin...- ela sussurrou.

— Gina, por favor, pare com isso. Hermione veio como nossa amiga – Harry protestou.

— Então, saia junto com ela! Eu não quero vê-la, Harry. Já disse isso a você várias vezes! – Gina explodiu.

Harry entreabriu a boca, assustado. Olhou para Hermione, pedindo desculpas silenciosas. A castanha se afastou, com um semblante derrotado e seguiu para a porta, sem olhar para trás. Saiu do quarto e fechou a porta atrás de si, sentindo uma falta estranha de energia. Era como se Gina a tivesse drenado emocionalmente.

Ela seguiu para o elevador, apertando o botão para descer. Pensava que fora um erro estar ali, mas ao menos pode ver Harry. Era o que importava. Ele havia esquecido seus anos de silencio e parecia mais do que disposto em recuperar sua amizade. Antes que pudesse embarcar no elevador, uma porta atrás dela se abriu e fechou. Ela olhou por cima do ombro. Era Harry.

— Eu sinto muito – ele disse, com a voz baixa – Eu não esperava que ela estivesse tão irritada.

— Naturalmente, ela estaria Harry. Afinal, ela é mãe. E eu sou a amiga que nunca falou com vocês, durante anos – Hermione tentou não falar de forma irônica, mas era quase impossível para ela.

— Mione – ele disse, se aproximando dela e tocando seu ombro – Eu agradeço muito sua amizade. E obrigada por vir. Mas, não desista de Gina. Ela só está sensível. Eu sinceramente espero que nossa amizade não morra, Hermione. Então, por favor, vê se me liga, ok?

Hermione acabou rindo daquilo. Afinal, ela nunca ligou em anos. Por que faria isso agora? Mas, ela faria, dessa vez. Devia consertar os erros do seu passado.

— Tudo bem, Harry. Eu prometo ligar – ela disse.

— Obrigado – ele agradeceu – Você veio sozinha? Quer uma carona para casa? Não me importo de leva-la.

Hermione pensou que não seria bom ela dizer que veio com Draco. E nem deixar que Harry visse o rapaz.

— Er...obrigada Harry. Mas, não precisa. Eu vim com meu carro. Pode deixar que volto tranquilamente, Harry. Fique com sua família.

— Claro – ele assentiu – Bom, eu vou voltar para lá – ele apontou para a porta – Me deseje sorte.

— Boa sorte, Harry. Tenho certeza que vai dar tudo certo – ela disse, forçando um sorriso e apertou a mão dele.

Hermione entrou no elevador e pode ver Harry entrar no quarto 402, assim que as portas do elevador se fecharam. Pensou consigo mesma que seria difícil conseguir aquela velha amizade que tinha com Gina e Harry. Se era difícil conversar com Rony, Gina seria ainda mais complicado.

Ela saiu do elevador, indo para o saguão do hospital. Encontrou Draco andado de um lado a outro, gesticulando ao telefone. Ele parecia muito irritado.

— Eu vou interna-la. Não importa o que me diga – ele disse. Ele parou, por alguns segundos, parecendo ouvir o que a outra pessoa dizia – Não, Andrômeda. Sua irmã está instável. O que acha que devo fazer com ela? Não posso trata-la em casa – ele parou de falar, para logo em seguida dizer: — Ah, muito obrigado! Obrigado por me mandar para o inferno. Bom, se não há mais nada a dizer, querida tia, eu vou desligar. Passar bem!

Ele tirou o telefone da orelha e colocou no bolso, respirando profusamente. Hermione se aproximou dele, lentamente, avaliando a possibilidade de ele descontar sua raiva nela. Até mesmo recepcionista encarava Draco como se ele fosse um cão de três cabeças prestes a devora-la.

— Draco? – Hermione o chamou.

Ele se virou para ela e a fitou com um olhar intenso. Mas, que logo assumiu um olhar preocupado. Ele se aproximou dela, tocando seus ombros com suas duas mãos. Era tão diferente do homem que gesticulava com fúria ao telefone.

— Como está o menino? – ele perguntou.

— Parece estar estável. Mas, não pude ficar muito tempo – ela disse, soltando um muxoxo ao se lembrar de como fora tratada por Gina – Na verdade, Gina não me deixou ficar muito. Nossa amizade está acabada, realmente.

— Eu sinto muito – ele disse, levando uma mão ao rosto dela, alisando sua pele com seus dedos longos. Ela se sentiu segura com seu toque – Eu gostaria que não tivesse que passar por isso.

— Está tudo bem. Mas, vamos falar sobre você. Por que estava tão bravo ao telefone? O que houve?

O olhar de Draco ficou distante. Seus olhos cinzentos continham dúvidas e incertezas.

— Não é nada – ele respondeu, lhe oferecendo um sorriso forçado.

— Não há nada? Como quem estava falando ao telefone, então? – ela insistiu.

— Com minha tia. Andrômeda – ele respondeu, cansado – Na verdade, ela não concorda com a internação da minha mãe. Mas, eu não posso deixar minha mãe sozinha em casa. Ela poderia se ferir...

Ou ferir alguém, Hermione pensou, ao ver que ele não completaria a frase.

— Eu entendo. Mas, se é para o bem dela, é o melhor – Hermione disse, dessa vez, tocando o rosto dele, de forma involuntária.

Ele ficou surpreso pelo toque dela. Mas, seu olhar carregado suavizou e ele aproximou os lábios do rosto dela. Por um instante, Hermione acreditou que receberia um beijo em sua boca, mas ele apenas beijou sua testa. Ela não queria se sentir frustrada, mas sentiu isso. Um sentimento de rejeição. O que era ridículo, pois ela o rejeitou tantas vezes, sem conta.

— Vamos, eu vou leva-la para casa – Draco disse, afastando as mãos dela e se colocando ao lado dela, mas sem toca-la dessa vez.

— Er...acho que sem jantar hoje, então – Hermione deixou escapar.

Draco deixou uma risada gostosa escapar. E esse riso fez Hermione sentir todo seu corpo despertar. Fazia tantos anos que não ouvia aquela risada.

— Então, a senhorita ainda deseja minha companhia? Eu preciso gravar isso – ele sacou o celular do bolso – Diga de novo. Por favor. Em alto em bom tom.

— Draco – ela protestou – Pare com isso imediatamente.

— Ah, mas eu não quero. Eu quero ouvir que deseja minha companhia. Estou esperando por isso há tempo demais – ele provocou.

— Humf! Você é um convencido. Só me leve para casa – ela disse, se afastando dele e passando pelas portas automáticas do hospital.

Ele a acompanhou, rindo.

— Ok, vou leva-la para casa. Mas, o jantar ainda está de pé – ele disse, em tom humorado.

Talvez, um jantar não faço de todo mal, ela pensou. Poderia se distrair e retomar a amizade que tinham, ao menos. E esquecer por um segundo seus problemas.