A Maldição de Pandora
3 Fotografia
Notas iniciais
É, eu não ia conseguir dormir e já estava conformada. Queria entender tudo isso, e acho que a única a me ajudar seria minha própria mãe. Sentei-me na cama e peguei meu celular dentro da mochila.
Apenas chamava e caia na caixa postal.
— Merda.
Tirei tudo de dentro da mochila para ver o que havia trazido. Três camisas, uma calça jeans, shorts, um par de chinelos, óculos de sol, um caderno, alguns lápis, meus desenhos e um livro. Nada muito útil no momento.
Guardei tudo novamente e verifiquei a hora no celular: meio dia em ponto. Guardei o eletrônico no meu bolso e senti minha barriga roncar. Estava tão dispersa que não ouvi baterem na porta. Jason e Sue entraram, minha irmãzinha tagarelando como nunca havia feito antes.
— Dianne? – Jason fechou a porta enquanto Sue pulava na cama e mexia em sua mochila – Achei que ia dormir.
— Não... Não consegui pregar os olhos. Sinto minha barriga roncar e eu não sei se é fome ou só ansiedade mesmo. – estralava os dedos.
— Olhe, o almoço sai daqui a pouco. Levei Sue em quase tudo, mas não pude levá-la nos chalés agora, só á noite, quando não estiverem tão movimentados.
— Você já ajudou muito, obrigada. De verdade. – sorri para ele – Sue se divertiu muito pelo o que parece, não é mesmo? – olhei para ela, que sorria feliz.
— É enorme, Anne! Tem até plantações de morangos!
Olhei para Jason, que deu de ombros sorrindo para Sue.
— Eu até comi uns!
— Olha só! – peguei Sue e a coloquei no meu colo, sentada — Acho que você que terá de me levar para conhecer o acampamento!
***
Sue e Jason foram almoçar primeiro. Apesar da fome, eu tive que ficar para arrumar a bagunça que tinha ficado no meu lado do chalé. Enquanto tirava meu livro da mochila, uma foto caiu. Acho que estava marcando a página que eu havia parado.
— Ótimo, agora vou ter que ler da página que eu acho que parei – peguei a foto e larguei o livro na cama. – Meu Deus.
Era uma foto em... Família. Estava eu, minha mãe, meu pai e Sue nos braços dele. Ver minha mãe mais jovem, me ver com 8 anos, ver meu pai com Sue em seus braços... Eu não sei o que estava sentindo, talvez um mix de saudade, raiva, decepção por aquela família feliz da foto não existir, somente nesse pedaço de papel. Agora sou eu, Sue e minha mãe apenas nos guiando.
Passo o dedão carinhosamente pelo rosto jovem de meu pai. Seus olhos azuis quase que queriam me dizer algo além de “eu te amo, minha flor”. Sua barba por fazer, o terno azul escuro...
— Eu não vou me afundar nessas lembranças. Eu já superei isso. – o eco do chalé me assustava.
Coloquei a foto novamente dentro do livro e parei ao ver uma enorme pintura do deus grego na parede do chalé.
— Como eu não vi isso antes?
Lá estava o mesmo homem da foto. Muito mais musculoso e com uma expressão que certamente nunca vi na face do meu pai. Segurava um raio, os olhos agora totalmente brancos, igualmente a sua barba e cabelos.
Cheguei mais perto e toquei a pintura.
— Porque não veio me ver? Visitar sua família! — falei alto – Espero que esteja me ouvindo de onde estiver agora – olhava para o rosto da pintura, com lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto e com o cenho franzido, talvez esperando uma suposta resposta que nunca viria – Mas eu senti a droga da sua falta quando você se foi!
E então dei um soco na pilastra mais próxima. Junto com o grito abafado e mais lágrimas, do lado de fora pude ouvir uma trovoada. Logo depois, a chuva pingava pelas janelas do chalé.
***
A enfermaria era um lugar bem agradável, devo admitir. Enquanto um rapaz moreno, a pele como chocolate, enfaixava habilmente minha mão quebrada, eu tomava uma espécie de suco ou batida com gelo.
— Eu tenho que beber isso? – dei mais um gole – Eu estava com fome, queria almoçar de verdade.
Seus olhos castanhos me fitaram enquanto pegava mais bandagem, e sorriu calorosamente; dentes tão brancos e perfeitos, que invejaria até mesmo as pessoas das propagandas de pasta de dente.
— Isso vai ajudá-la a se curar mais rápido – sentou-se ao meu lado na maca, segurando minha mão e enfaixando-a novamente, dessa vez prendendo no final – É néctar dos deuses.
Ele terminou o procedimento, colocou delicadamente minha mão em meu colo e me olhou, respirando fundo. Apesar do cansaço ser evidente, em nenhum minuto ficou aborrecido ou emburrado. É um rapaz muito simpático.
— Sente gosto de algo específico?
— Bom... Tem gosto de sorvete de creme. – tomei mais um gole – era para ter gosto de quê?
O belo garoto riu.
— De qualquer coisa que você quiser. Vai ter gosto de memórias, das comidas que te remetem á tempos bons e felizes.
Isso é verdade. Tomava sorvete de creme com meu pai e...
Eu quero esquecê-lo um pouco.
O gosto amargou um pouco, mas acho que foi só psicológico.
— Não sei seu nome – disse, colocando o copo meio cheio na bancada ao lado da maca.
— Poe. Poe Silver. – ele sorriu novamente e segurou minha mão – Se precisar de um amigo, estarei honrado em ajudá-la.
— Obrigada, Poe – sorri, apertando sua mão – Vou precisar.
Ele piscou e se despediu, indo ajudar outro campista.
Outro campista que eu conhecia.
— Leo Valdez? – ele estava deitado em uma maca mais a frente, com um corte na testa e com mais graxa pela roupa do que eu vi hoje mais cedo.
Ele resmungou. Deve ter achado que algum dos campistas trabalhando como enfermeiros deve ter falado com ele. Mesmo com alguns cortes pequenos do vidro que se quebrou sobre mim – que já estavam cicatrizados, por incrível que pareça – e da mão inchada, enfaixada e um pouco dolorida, me levantei e fui até o rapaz.
— Leo – me agachei ao lado da maca baixa em que ele estava deitado, de olhos fechados, e o cutuquei – Leo, é Dianne. A menina ruiva de hoje mais cedo.
Ele abriu os olhos devagar. Um cheiro engraçado emanava do rapaz.
— É estranho como os filhos do senhor dos céus fazem amizade comigo, não é?
Então o garoto apagou; deve ter sido uma pancada forte. Ele falou de maneira engraçada, devia estar se referindo a Jason ou a Thalia, talvez.
Levantei-me, bebi o resto do líquido e sai da enfermaria – na verdade, fui intimada a sair, já que precisariam do meu lugar para outros campistas. Já haviam se passado horas, mas eu ainda estava morta de fome. O dia se estendia de maneira lenta, e ainda precisava falar com a minha mãe e saber de Sue e Jason. Fui até o refeitório – perguntando a um e outro a localização do mesmo – e tive a sorte de ainda ter algumas frutas e sucos. Enquanto comia, alguns campistas me disseram para oferecer algo ao meu pai ou mãe olimpiano, como oferenda. Franzi o cenho e ele disse “novata, entendo”. Então retirou-se e eu fingi que nada havia acontecido.
Tentei comer com os olhos fechados, me imaginando em Boston, no nosso apartamento quentinho e confortável, onde toda essa maluquice nem mesmo se projetava nos meus sonhos mais fantasiosos.
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