“I might be nervous, but I'm an optimist.

It's an adventure, ready to take the risk

Looking for monsters, looking for family

Could this be what I've been waiting for?”

(Coming Out of the Dark)



Aproximadamente três anos atrás



Teresa



— Vamos Tess! Se arrume logo. Estamos atrasadas.

Laurel vestia uma espécie de "tubinho" preto de alças finas e uma sandália de saltinho, nude. Seus cabelos eram castanhos escuros claros com mechas violetas que destacavam sua pele amarronzada. Sua mãe era inglesa e seu pai espanhol, de onde herdou a maioria de seus traços.

Peguei uma camiseta do Pink Floyd e a vesti com um short jeans rasgado bastante curto. Calcei meu coturno surrado e ajeitei minhas tranças em um coque. Passei um blush rosado nas minhas bochechas, um batom vermelho e encarei o espelho.

— Meu Deus. Preciso pegar mais sol. Minha melanina sumiu.

— Como sempre exagerada! Não estou vendo nada de diferente em você. Aliás, se for mesmo o sol um problema, podemos resolver sábado de manhã no clube de sempre.

Minha pele é negra. Totalmente o oposto de minha mãe. Meu pai era negro e inglês. Mesmo nos anos 2000 as pessoas estranharam quando viam os dois juntos. O racismo persistia desde os primórdios da escravidão. Muitas vezes, apesar de na maioria serem situações bem dissimuladas, eu também sentia na pele o que era ser uma mulher negra.

Já não era fácil ser mulher. Ter que lidar com assédio e o medo de que o tempo todo algo ruim poderia me acontecer ou que eu sofreria algum tipo de violência. Adicione em tudo isso o racismo.

— Vamos! A Bia está nos esperando na área vip com o pessoal.

Bia e Laurel eram minhas amigas de ensino médio. Era um encontro de aniversário de um de nossos amigos, Scott. Tínhamos ganhado pulseirinhas vips dos pais de Lucas, outro amigo nosso, e esperávamos poder curtir a noite toda.

Enviei uma mensagem para minha mãe dizendo que dormiria na casa de Laurel, o que era parcialmente verdade, já que depois eu voltaria para dormir. Só não seria durante a noite. Minha mãe, que não era boba nem nada, respondeu dizendo que era para eu tomar cuidado e não beber.

Pedimos um táxi que não demorou muito a chegar. Oito minutos depois estávamos na Neverland club, uma nova boate clandestina, psicodélica, e que era a sensação do momento. Ia ter uma banda cover do Pink Floyd e depois um DJ que tocaria música eletrônica até o entorno das 4h da manhã. Eu estava para lá de animada. Seria a primeira vez que Laurel entraria na boate sem documentação falsa, por conta de sua maioridade recente. Havia pouco tempo que eu tinha feito dezessete anos, então era de se esperar que eu, sim, estivesse entrando por meios ilícitos.

E antes que me julguem, eu nunca disse que era uma pessoa honrosa ou heroína dessa história.

Meu pai morreu quando eu tinha doze anos, foi uma época decisiva para eu terminar de moldar minha adolescência. A qual não me orgulho muito.

O som estava alto e eu não conseguia ouvir o que Laurel gritava. Fomos em direção à área vip e Lucas me puxou pelo pulso para colocar minha pulseira e me deu um beijo sexy na bochecha.

— Oi para você também! – disse Laurel a Lucas.

Eu já tinha ficado com ele diversas vezes, mas nunca quisemos ser exclusivos ou ter algum tipo de compromisso. Eu sentia que às vezes Laurel tinha ciúmes ou uma quedinha por ele. O mesmo eu percebia em Meredith, prima de Scott, que tinha uma queda por Laurel. Enquanto isso, Scott e Bia diziam estar em um relacionamento aberto. Algo que Laurel desdenhava às vezes, pois não acreditava que um relacionamento assim poderia dar certo.

Eu pouco me importava quem gostava de quem, quem ficava com quem. Pois eu não queria me envolver sentimentalmente com absolutamente ninguém. Para mim, amar era uma arma que se apontava direto para a própria cabeça.

— Parabéns Scott! — O cumprimentei com um abraço. Ele segurava uma lata de energético na mão e quase a derrubou na minha camisa.

— Perdão. Que bom que veio. Vamos nos divertir!

Scott era loiro, de olhos castanhos claros, forte, com ombros largos e um pouco só maior que eu. Seus pais eram donos de uma empresa de venda de carros de luxo. Ele tinha mania de se achar o maioral às vezes, mesmo a família de Lucas sendo bem mais rica. Scott me puxou para a pista de dança enquanto o DJ remixou músicas do momento antes do show da banda começar. Laurel nos seguiu com Lucas e Bia com Meredith.

Dancei com Scott até sentir um fio de suor escorrer pela minha testa. Nós seguíamos o ritmo um do outro. Ele colocava os braços em meus ombros e eu em seu peitoral. Eu nunca tinha chegado tão perto dele daquela forma antes, pois Lucas sempre estava me cercando. Laurel estava nos olhando com curiosidade e Bia estava concentrada em Meredith.

Passei a encarar Scott nos olhos enquanto a música diminuía o ritmo para entender qual era a intenção dele. Seguir em frente ao que parecia estar prestes a acontecer ou se era apenas uma impressão minha.

— Vou pegar bebidas para a turma. Vai querer o quê? — Cortando totalmente o clima.

— Pode ser um Pirate Death, por favor.

Meu drink favorito. Refrigerante de cola com rum, canela, leite de coco, extrato de guaraná, hortelã e pimenta. Uma mega variação do Cuba Libre. E o Neverland era o lugar que criou a receita. Os drinks de lá eram todos temáticos. Tinham inspiração assim como o clube, em mitologias nórdicas, celtas e uma pegada de Piratas do Caribe. Laurel pediu um Fairy Dust, uma mistura de abacaxi, com vodka e outras especiarias, incluindo uma boa quantidade de glitter comestível. Bia pediu o tradicional da casa, HookBlood, feito de frutas vermelhas e que se assemelhava ao sangue. E os meninos Crocodile Guts, famoso tripa de crocodilo que tinha uma cor esverdeada.

— Se fosse eu, nem precisava ter perguntado. Sei que é o seu favorito — disse Lucas se aproximando depois que Scott foi até o bar.

— Me espionando agora, Senhor Jones?

— Claro que não.

— Não foi o que pareceu — falei ao sorrir, implicando-o.

— Não começa com provocação. Vou lá buscar minha bebida.

— Sim, Senhor.

Mas antes de se afastar ele me deu um beijo na minha mão direita e depois deu uma piscadela. Estaria com ciúmes?

— Aqui, do jeito que você gosta. Com duas doses de rum. — Scott me entregou a taça e voltou para o palco. Pois o show estava para começar.

Eu não encontrei nenhum dos meus amigos enquanto a banda tocava. Na metade do show, Scott foi ao banheiro e fiquei sozinha. Acompanhada de Breathe, tomei o último gole do drink. Alguém chegou atrás de mim e colocou as mãos na minha cintura. Estava escuro, então tentei olhar para trás para saber se eu tinha ou não que dar um soco no cara. Era Scott, pelo menos eu achava, já que o rum tinha agido rapidamente em meu corpo. Passei a mão em seus cabelos loiros e sussurrei:

— Não me provoque. Pode se arrepender depois.

Ele não disse nada, apenas alargou o sorriso e descansou a cabeça próximo ao meu pescoço. Senti um arrepio na mesma hora. Eu não estava fora de mim, para estar inconsciente e não saber o que estava prestes a acontecer. Se eu quisesse sair daquela situação, tinha saído. Porém, o rum fez meu desejo se incendiar ainda mais.

— Eu não quero complicar as coisas entre nós. Que fique claro que o que acontecer, aconteceu.

Ele colocou o indicador em meus lábios para que eu me calasse. Beijou o meu pescoço até chegar em meus ombros. Desci a camiseta do ombro para ele saber que eu queria mais. Ele girou minha cintura e ficou de frente a mim. Seus olhos tinham um brilho diferente, que hipnotizava. Seu corpo estava quente assim como o meu. Ele colocou sua mão em minha nuca e puxou meu rosto para mais perto. Acariciou minha pele com seu polegar enquanto meu sangue pulsava.

Ele parecia me olhar, esperando que eu assentisse. Balancei a cabeça em afirmativa e aguardei. Meus cachos estavam soltos e ele os tirou de minha bochecha. Mirou os olhos em meus lábios e se aproximou com os seus. Ele queria me torturar, mas me segurei. Então ele me beijou. Com ferocidade. Não era um beijo de apreciação e sim de desejo. Nossos corpos se uniam e o beijo se aprofundava.

Nossas línguas se encontraram e tudo parecia irreal. Pois de onde eu ia esperar isto vindo do Scott. Esvaziei a minha mente e aproveitei cada segundo. A música continuava ao nosso redor, as pessoas cantavam junto da banda enquanto nós dois estávamos em um canto nos pegando. Ele se afastou arfando e aproveitei para respirar. Não queria que ele se afastasse. Ele me deu outro beijo breve e um passo para longe de mim. Segurei seu braço pedindo para ele ficar. Ele pôs seus lábios próximos ao meu ouvido e sussurrou:

— Não vai faltar oportunidade, Darling. — E desapareceu na multidão.

Fiquei atordoada. Aquele não era o Scott. Aquele timbre sedutor e desconhecido não era do meu amigo. Foi quando me dei conta de que tinha beijado um completo estranho e que tinha gostado.

Por alguma razão, comecei a me sentir estranha, talvez por ter comido pouco antes de sair e fui até a saída de emergência que dava para um corredor escuro atrás do clube. Sentei-me no chão e esperei o mal-estar passar. Eu comecei a ter pequenas crises de ansiedade aos catorze anos. Fazia tratamento na psicóloga e psiquiatra, mas os tratamentos não impediam que as crises continuassem. Havia uma escuridão dentro de mim que eu não conseguia me livrar. Mesmo com todas as loucuras que eu fazia, era algo que continuava a me assombrar. Um vazio, uma dor.

Eu estava respirando fundo, quando um cara saiu pela porta do clube para fumar. Ele me ofereceu um trago e me recusei. Depois cheirou um pó de um frasco que carregava no bolso e tornou a me oferecer. Dessa vez não resisti. Eu sabia o que havia naquele pequeno vidro e tinha experimentado somente uma vez. Quando peguei o frasco, acabei deixando-o cair, minhas mãos estavam trêmulas. O homem se enfureceu. Partiu para cima de mim.

— Você acha que só porque é uma belezinha pode desperdiçar assim as minhas coisas…

— Eu não quis…

Ele colocou a mão em mim e tapou minha boca. Me olhou de uma forma que meu estômago enjoou na mesma hora. Tentei gritar, mas ele me segurou pelos pulsos com sua outra mão e colocou ainda mais força em minha boca. Me senti sufocada com a falta de ar.

— Vocês, garotas, fazem de tudo para nos provocar…

Foi quando uma garrafa de vidro acertou a cabeça do abusador, que caiu inconsciente sobre meus pés. Um cara de roupas pretas e cabelos ainda mais pretos foi quem o atingiu. Fiquei apavorada. Não entendia o que estava acontecendo e fiquei ainda mais ofegante.

— Calma. Eu não vou lhe fazer nenhum mal. Respira.

Ele não se aproximou.

— Eu devia ter imaginado que esse traste faria uma grande merda hoje. Onde estão os seus amigos?

— Eu não sei — gaguejei. — Desculpa, eu não sei.

Como ele sabia que eu estava com meus amigos?

— Respire, respire. Se ficar mais nervosa, não terei como te ajudar.

— Quem é você?

— Eu me chamo Jamie, e você?

— Teresa.

— Então, Teresa. Vamos entrar e procurar seus amigos.





*

"Posso estar nervoso, mas sou otimista.

É uma aventura, pronto para correr o risco

À procura de monstros, à procura de família

Será que era isso que eu estava esperando?"







Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.