A Maldição De Afrodite
14 Parada para Muffins
A noite caia sobre nós quando chegamos novamente ao hotel. Subimos para nossos quartos novamente e demos o pen drive para Franky, ele o conectou ao notebook que ele levava dentro da mala, e pela primeira vez eu vi ele verdadeiramente concentrado em alguma coisa, sem falar nenhuma besteira ou fazer nenhuma piada. Fiquei tentado em tirar uma foto, mas não queria quebrar sua concentração.
Enquanto eu tomava banho, Sarah e Monet ficaram no quarto cuidando de Marco.
—Ele só está desmaiado – disse Monet com suas mãos perto do rosto de Marco, já emitindo uma luz branca. Para usar seus poderes, Monet juntava as duas mãos e elas emitiam uma luz branca que a fazia identificar qualquer problema que a pessoa tivesse (mesmo sentimental, coisa que me deixava desconfortável sempre que ela me curava, ela pode identificar mas não pode curar a dor sentimental das pessoas, conforme ela me curou mais vezes acabamos nos acostumando.). Após isso, ela podia emitir uma luz vermelha da mesma forma, essa luz era a parte de seu poder que curava as pessoas. Eram poderes incríveis, nem mesmo filhos de Apolo tinham tamanha capacidade com medicina. Mas isso vinha com o custo de não ter nenhum outro poder ou habilidade. – Algo o assustou a ponto de fazer ele se desmaiar. Daqui a pouco ele deve acordar de novo, seria bom se você estivesse por perto Sarah.
Sai do banho sem camisa para deixar ela esticada na varanda (queria cuidar do que havia sobrado de minha camisa após suas mangas pegarem fogo, era a única que eu tinha após ser roubado.). Quando passei pelo quarto ouvi Monet tomar um susto.
—E-essas cicatrizes... Elas são de agora? – Disse ela se aproximando de mim. – Se você está machucado eu posso te ajudar.
—Eu tenho essas cicatrizes de quando era criança. Minha irmã também deve ter cicatrizes parecidas, esse tipo de tortura na verdade foi algo bem normal na época, mas já faz tempo... Então não se preocupe. – Não sei lembrar as punições ou lembrar-se de minha irmã que me fez ficar um pouco triste, mas assim que Monet percebeu meu olhar ela pareceu inquieta. Novamente, ela não conseguia curar dor emocional, então ela sempre parecia se sentir incapaz quando via algo que não podia curar. Quando me virei para ela, ela viu que de meu peito saia uma luz roxa, assim que eu percebi seu olhar preocupado já tentei explicar. – Ah, isso é um marcador que o Sr. D colocou em mim, ele disse que se percebesse que eu tentei correr, ou se eu demorasse mais de um mês para voltar ao julgamento, ele saberia. Provavelmente deve ser uma bomba ou algo que possa permitir a ele me matar de longe, algo bem típico dele.
—Entendo... Queria poder te ajudar com essa dor que está sentindo, quem sabe... – Ela foi interrompida por Marco que acordou com um grito.
—LEN! PELO AMOR DOS DEUS ACORDA NÓS VAMOS MORRER!
Sarah o abraçou e passou a mão em sua cabeça tentando o acalmar. – Calma, já estamos no hotel de novo. – Dava pra ver claramente que ela estava tentando segurar a risada naquele momento.
—Ah... Len? O que aconteceu lá?
Expliquei para eles o que aconteceu lá na fabrica, como nós ficamos encurralados e quase fomos mortos por uma ilusão.
—Uma Hybris? Isso é estranho, porque uma criatura dessas se aliaria com Pierre? – disse Sarah enquanto organizava os poucos itens que ainda tínhamos – Isso é muito estranho... Quem exatamente é Pierre afinal?
Aquilo era uma boa pergunta, antes acreditávamos que ele era apenas um mortal que trabalhava com Kikuo, mas após eu lutar com ele, descobrimos que não só ele via através da nevoa, mas também que ele pode continuar com o negócio de Kikuo e ainda expandir o mesmo.
Decidimos que já estava tarde e que iríamos descansar um pouco. Franky continuou acordado procurando dados no computador e Marco ficou fazendo companhia a ele devido ao fato dele ter passado a tarde toda dormindo. O quarto era pequeno, tinha quatro camas, um banheiro e nada mais. Eu deixei Monet dormir na minha cama e dormi no chão apenas com um cobertor e usando a mala de Franky como travesseiro. (Claro que na manha seguinte acordei com um torcicolo, mas Monet deu um jeito nisso.)
No próximo dia acordei seis da manha. Monet, Sarah e Marco estavam dormindo tranquilamente (Sim ele caiu no sono de novo, dá pra acreditar?) e apenas Franky estava acordado, ele estava com olheiras que pareciam tão profundas quanto o próprio reino de Hades.
—Hey, você precisa descansar um pouco cara, vai passar mal desse jeito. – sussurrei com ele tentando não acordar os outros.
—Eu descanso quando estiver morto. – Disse ele sem tirar os olhos do computador. – Até lá, vou fazer o que prometi a vocês. Os dados que vocês pegaram são de varias vendas feitas desde o começo desse ano. Eu não encontrei nada com o nome de sua irmã, desculpe. Ela deve ter sido vendida antes disso, mas o que eu encontrei aqui é simplesmente perturbador.
Aproximei-me para olhar a tela do computador, Franky havia baixado um programa que passava todas as informações para grego antigo, então nós conseguíamos ler tudo sem ter que se preocupar com a dislexia. Lá tinham registros do nome do semideus ou monstro que tinha sido vendido, para quem, qual foi a forma de pagamento e para qual propósito. Essa foi a pior parte... Alguns casos da lista eram vendidos como escravos, essas vendas eram feitas pelo próprio EUA, mas existiam também vendas interessadas apenas em partes deles, como órgãos internos dos semideuses e dos monstros. Ou seja, eles provavelmente eram mortos antes de serem enviados. Aquilo me deu um frio na espinha, não só pelo fato daquela lista ser enorme (Mesmo sendo só desse ano.), mas também porque tinham casos onde a pessoa vendida era morta antes mesmo de ser encaminhada, se isso tivesse acontecido com Rin... Não, não queria pensar naquilo.
—Mais importante, as vendas vem de lugares diferentes, mas todos os pagamentos eram levados ao mesmo lugar. Pelo que está escrito aqui, o pagamento geralmente é feito em dracmas ou com algum tipo de item. Mas ele sempre tinha que ser feito diretamente com Pierre, para poderem negociar os valores e tudo o mais. – Então ele abriu outra guia no Google Maps. – Ou seja, temos a localização exata de onde Pierre está.
O mapa apontava para Atlanta, para o “Georgia International Convention Center”.
—Atlanta? Como nós vamos chegar lá? – O único motivo para eles estarem naquele lugar, deveria ser a proximidade ao maior aeroporto do país. Mas decidi não falar aquilo, já era ruim demais comentar sobre semideuses sendo vendidos pelos EUA, imaginar que eles poderiam estar sendo vendidos para fora do país pelo aeroporto apenas me deixou mais inquieto.
—Não faço idéia... Mas pelo menos agora sabemos para onde temos que ir. – Assim que terminou de falar, Franky encostou-se a sua cama e caiu no sono no mesmo momento. Decidi voltar a sentar no espaço entre as camas de Sarah e Monet.
Eu já havia me acostumado a ver Sarah dormir, seu rosto ficava amassado, ela babava muito, seu cabelo ficava bagunçado e ela costuma ficar com o corpo totalmente espalhado por onde estiver dormindo, seja em uma cama de solteiro ou encostado em baixo de uma ponte comigo, ela sempre ocupava o Maximo de espaço possível. Agora, quando vi Monet dormindo até fiquei um pouco assustado. Ela estava com o cabelo preso, abraçada com uma almofada e o cobertor estava enrolado perfeitamente em volta dela como um pequeno casulo, outra pessoa caberia naquela cama sem problemas, admito que fiquei tentado a tirar uma foto para poder guardar aquela imagem fofa pela eternidade. Decidi não tirar foto de pessoas adormecidas e ficar apenas esperando os outros acordarem enquanto lia um livro que comprei assim que cheguei à cidade, era um romance antigo escrito em grego, eu o deixava guardado na minha cama antiga no chalé de Ares e Sarah se lembrou de colocá-lo em nossa mala, por sorte eu esqueci esse livro no hotel então ele acabou não sendo roubado. Apesar da historia em si ser um pouco fraca, eu admirava a forma de escrita do autor, era bom conseguir ler algo para variar. Quando era criança eu tinha esse sonho besta de querer escrever minhas próprias historias, é um pouco ridículo já que eu tenho dislexia e não consigo ler nem escrever direito, mas uma criança pode sonhar certo?
—Não sabia que gostava de ler... – Disse Monet, me observando de cima da cama, por cima do travesseiro que estava junto dela. Ela falada lentamente e arrastando as palavras por ter acabado de acordar. –Muito menos que gostava de romances... – disse com uma risadinha no final, só para me deixar com vergonha.
—Não é que eu gosto, eu só gosto da escrita desse autor. Mas admito que seja bom escapar desse dia-a-dia doido e frenético que nós vivemos com um livro. –Disse olhando para ela, ela apenas assentiu com um leve “uhum” e voltou a dormir por mais alguns minutos. Mesmo depois de tanto tempo com ela, eu ainda sentia um pouco de vergonha ao falar com ela, principalmente depois da conversa que tivemos na frente de seu pai.
Conforme todos foram acordando aos poucos, começamos a nos arrumar para sair novamente e procurar algum meio de ir para Atlanta, apenas Franky e Marco eram maiores de idade então não poderíamos ir por meios convencionais como avião por exemplo. Esperávamos que Franky tivesse alguma solução, mas ele simplesmente nos respondeu;
—Vocês superestimam minhas habilidades, mas é compreensível quando se convive com um cara incrível como eu. – disse ele enquanto escovava os dentes e trocava de roupa nos mostrando sua incrível cueca de porquinho. – Não consigo criar nada com o que tenho aqui, se estivéssemos no acampamento quem sabe, mas só o que tenho na mala não nos levaria nem a metade do caminho.
Decidimos ir comer em um restaurante local enquanto pensamos em algo, por sorte Monet havia trazido bastante dinheiro mortal então nós pudemos pelo menos tomar um café da manha decente com muffins e café ao leite. Ao sentarmo-nos à mesa, logo começamos a conversar e eu quase me senti como se nós fossemos apenas um grupo de adolescentes normais como qualquer outro que se podia ver andando na rua. Comemos tranquilamente e falamos um pouco sobre assuntos diversos, fui obrigado a ouvir Franky e Sarah rindo de mim ao mesmo tempo (se tem uma coisa que me arrependo foi de apresentar esses dois, era impressionante como eles eram bons em criar piadas sobre mim e fazer eu me sentir desconfortável quando estavam juntos.) apesar de eu me sentir um pouco culpado pelo fato de Rin não poder estar ali conosco, eu não me sentia tão tranquilo daquela forma já havia meses.
O choque de realidade veio quando eu fui ao balcão do restaurante pedir mais um café (odeio passar o dia me sentindo sonolento), quando um homem chamou minha atenção.
Eu não havia reparado nele antes, ele estava de costas para nossa mesa e a única coisa que eu poderia reparar nele era sua jaqueta de couro. Quando me aproximei de onde ele sentava, ele terminou seu copo de cerveja e disse;
—Parece que você está se divertindo bastante, Len. Não é como se sua irmã estivesse em perigo ou se você tivesse menos de um mês para encontrá-la, certo?
Fiquei surpreso com o fato dele saber de tudo aquilo, quando me aproximei dele já estava com a mão no cabo de minhas espadas. – E quem exatamente é você? Eu realmente não quero nenhuma confusão agora, mas você parece estar sedento para descobrir qual o sabor dos meus punhos.
Ele soltou uma gargalhada alta e levantou, ao mesmo tempo puxando minha camisa e me encarando por cima de seus óculos escuros. – Você é mais idiota do que eu esperava Len! Ou como eu poderia te chamar, filho.
Vi uma chama acender dentro de seus olhos confirmando que eu tinha acabado de insultar o próprio Deus da guerra, meu pai. A única coisa que eu conseguia pensar naquele momento era “Droga.”.
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