A Maldição De Afrodite

21 Mais surpresas em nosso caminho


As coisas começaram a dar errado mais cedo do que eu imaginei. Não que isso fosse alguma surpresa, as coisas sempre dão errado quando eu estou por perto. Aliás, oi. Eu, Marco vou explicar o que aconteceu após entrarmos no centro de convenções. Eu acredito que Sarah saberia explicar melhor, mas ela geralmente fica muito brava quanto volta a pensar naquele dia.

Sarah levava seu arco em mãos, eu levava apenas uma pequena faca para emergências, mas estava pronto para usar minha magia caso precisasse. Após passarmos do saguão de entrada, entramos na parte interior do centro de convenções. O interior daquele lugar era lindo, cada sala tinha um tipo de decoração inovadora e colorida, passamos por alguns escritórios que me lembravam o interior dos prédios da Apple (já fiz uma missão junto de um semideus mais velho que trabalhava lá. Infelizmente ele morreu recentemente, acho que ser um semideus que vive cercado de computadores e celulares atrai o tipo errado de atenção.). Porém, todas as salas e escritórios estavam completamente vazios.

Após passarmos por uma porta giratória, chegamos a um galpão enorme que devia ocupar aproximadamente 80% do prédio. O teto era alto com uma iluminação forte produzida por grandes lâmpadas de LED que eram igualmente distribuídas pelo teto da estrutura, além das luzes também tinham ar condicionado gigantes espalhados com saídas pelas paredes, algumas pilastras de concreto maciço se estendiam periodicamente pelo galpão dando suporte para toda a estrutura. O local geralmente era usado para eventos de empresas, palestras e convenções de vendas, então a organização do local era extraordinária. Mesmo com toda a movimentação que acontecia dentro do galpão, o local ainda permanecia fresco e agradável. O interior do prédio estava com caixas e jaulas por todos os lados, havia empilhadeiras elétricas sendo pilotadas por semideuses para levar as caixas dentro de caminhões que após serem cheios, saiam em direção ao aeroporto. Não só monstros, mas dentro de jaulas se podiam ver criaturas mágicas como centimanos e pegasus também. Aparentemente Pierre havia passado a vender mais do que só monstros e semideuses.

Sarah e eu nos abaixamos e nos escondemos atrás de uma serie de caixas para analisar melhor a situação, até que eu vi algo que me assustou. – Droga, parece que eu estava errado... – Vi uma serie de ciclopes levantando jaulas e as colocando dentro dos caminhões logo ao lado das empilhadeiras, seus olhos brilhavam com um azul claro e tinha uma pequena marca em seus pescoços que brilhava na mesma cor. – Então Pierre tem uma forma de controlar monstros também, parece algum tipo de magia antiga que nem mesmo eu consigo identificar... Droga, o que exatamente é esse cara?

Pilotando as empilhadeiras estavam adolescentes e crianças. Eles pareciam ficar com medo ao passar do lado de monstros, mas os monstros não davam a mínima para aqueles jovens. Percebi que suas roupas estavam em farrapos e que eles tinham colares pretos em volta do pescoço ao invés das marcas em azul.

–Ali, Marco! Semideuses! Precisamos resgatar alguns o mais rápido possível.

A parte superior do galpão era monitorada por uma serie de Harpias, elas ficavam apoiadas nas caixas ou perto das pilastras supervisionando a situação, apesar de não estarem com os colares nem com as marcas azuis. – Vamos logo, seus imundos! Temos pouco tempo para levar tudo ate à pista do aeroporto! – De vez em quando uma delas dava um rasante na cabeça dos semideuses e saia voando e rindo alto com um tufo de cabelo preso em suas garras.

Decidi que estava na hora de agirmos. Comecei um incêndio perto de um dos caminhões que estava encostado perto de nós, ele estava vazio e não tinha ninguém dentro da cabine, de seu motor saia fumaça então imaginei que ele deveria estar inabilitado. Quando perceberam o fogo, as Harpias logo gritaram. – Vocês três, apaguem aquilo antes que o fogo se alastre!

Então três semideuses vieram correndo com extintores de incêndio na mão com uma Harpia voando por cima deles, gritando ordens. Sarah esperou esse grupo se separar do resto dos trabalhadores para acertar uma flecha na Harpia que acompanhava os semideuses. – Hey, vocês três, corram aqui! – Disse Sarah, sinalizando para eles.

Eles ficaram excitantes por alguns momentos, mas vieram correndo após apagar o fogo. Eram três semideuses, uma garota de oito anos e os outros dois garotos de 13 anos. Os dois mais velhos usavam camisas e calças velhas, seus pés estavam descalços e o colar preto pesava em volta de seus pescoços. A garota usava uma camisa marrom que ia até suas canelas que também estava aos farrapos, os três semideuses pareciam não ter uma boa refeição há meses. Os dois mais velhos eram irmãos gêmeos, sua pele era morena e seus cabelos eram longos e cacheados formando algo próximo a um Black Power, mas estavam tão mal lavados que isso tirava qualquer beleza que eles poderiam ter. Quanto à garota... Eu já havia visto muitas coisas horríveis nas outras missões que eu fui, mas ver aquela garota de perto tirou meu fôlego. Ela era uma criança com a pele tão pálida quanto à de Len, seus longos cabelos cinzentos iam até sua cintura, mas esses também estavam mal lavados e em más condições. Seus olhos eram de um cinza claro, quase prateado e seu rosto levava uma expressão sem vida, como se ela fosse apenas uma casca sem sentimentos. Em sua pele havia marcas de queimaduras por toda parte. Parecia ser queimaduras vindas de produtos químicos, elas se estendiam por parte de seus braços, pernas e até mesmo seu rosto.

–Rápido, quais seus nomes? Quem são seus pais divinos? – Disse Sarah usando a chave de Franky para tirar os colares dos semideuses, fiquei feliz ao descobrir que a chave encaixava perfeitamente.

Os irmãos quase choraram de felicidade quando tiramos os colares deles. – Meu nome é Andrew e esse é meu irmão, Nathan. – Disse o semideus que era ligeiramente mais alto que seu irmão. – Nós somos filhos de Apolo.

–E você, garotinha? – Perguntei da forma mais gentil possível para a criança. – Qual seu nome? Você já sabe que é seu pai ou mãe divino?

–Silvia. Não sei. – Disse ela, sem mudar sua expressão. Ela não me olhava diretamente nos olhos quando falava, mesmo quando tirei o colar de seu pescoço ela não disse nada.

–Entendo... Não se preocupe Silvia. Nós vamos te tirar daqui. – Novamente, sem resposta.

–Venham aqui. – Disse Sarah, reunindo os três semideuses. – Precisamos da ajuda de vocês. Nós viemos de um lugar que é seguro para semideuses como eu e vocês, então se nos ajudarem, podemos todos voltar para esse lugar. Primeiro, estamos procurando uma semideusa de 14 anos, ela é loira e incrivelmente pálida, tem olhos azuis e seu olho esquerdo tem uma pequena mancha marrom. Deve ter perto de 1,75 de altura, vocês já a viram por aqui?

Após pensarem por alguns momentos, o irmão gêmeo que era ligeiramente mais baixo que seu irmão disse. – Acho que sei de quem você esta falando. Lembro de ter visto alguém assim quando fui à casa de Pierre uma vez... O nome dela era... Jim?

–Rin! – Exclamou Sarah. – Deve ser ela mesma! Onde você a viu?

–Na casa de Pierre... Algumas semideusas são levadas para lá. Ao invés de serem usadas para trabalhos braçais ou serem vendidas. Esses semideuses são treinados como uma espécie de guarda pessoal dele. Além disso, elas também são usadas como serviçais em sua casa, ou até mesmo... – Ele olhou para o chão, com medo de continuar.

–São usadas para satisfazer os convidados de Pierre. – Disse a garota rispidamente, ainda olhando para o nada. – Isso nem sempre inclui favores sexuais em si, todo tipo de gente esquisita compra coisas de Pierre. Eu sou levada lá às vezes, tem um comprador em especial que gosta de me ouvir gritando. O próprio Pierre não faz esse tipo de coisa conosco, a menos que nos comportemos mal.

Imaginei que suas cicatrizes deviam vir de lá. Pelo jeito que ela falava, era algo comum de se acontecer por lá. – Entendo... E onde que essa casa fica?

–Continue seguindo em frente que você vai encontrar uma escadaria que leva ao subterrâneo. Ele construiu sua casa lá com a ajuda de ciclopes da terra e filhos de Hefesto escravizados. A escada é a única forma de entrada, mas essa entrada é guardada pelos mesmos ciclopes que o ajudaram a construir sua casa. – Disse Nathan, ele estava visivelmente ansioso.

–Ok, vamos fazer assim então. – Sarah entregou um dracma para os semideuses mais velhos. – Vocês, saiam daqui por aquela porta sem chamar atenção, encontrem uma fonte de água e mandem uma mensagem de Iris para Quíron. Vocês sabem fazer isso certo? – Eles assentiram com a cabeça. – Diga a ele que nós precisamos do numero Maximo de semideuses que ele puder mandar. – Então ela deu um sorriso travesso daqueles que eu aprendi a amar tanto. – Nós vamos atacar esse lugar antes que Pierre tenha uma chance de se mandar.

Todos nós ficamos surpresos quando ela disse aquilo (Menos a garotinha, é claro.). Mas eu entendi bem o porquê daquilo, após ver a condição daqueles semideuses, senti vontade de resgatá-los também junto de todos os outros e queimar esse lugar até não sobrar nada.

E então nós partimos, os três saíram juntos. Rezei para que eles conseguissem reforços e então parti junto de Sarah pelo galpão. Com toda aquela movimentação de caixas e jaulas, não foi muito complicado conseguir passar sem chamar atenção nem mesmo das Harpias. Mas levamos um bom tempo até conseguir localizar a entrada, olhei rapidamente pela janela e vi que a noite já havia chegado quando finalmente localizamos a entrada. Era uma simples porta de madeira, na sua frente estavam dois ciclopes com as mesmas marcas no pescoço e olhos brilhantes que os outros, eles seguravam espadas de bronze celestial, mas em suas mãos parecia mais uma adaga. Ambos tinham aproximadamente 2,5 metros de altura.

O plano era simples, nós iríamos tentar derrubar os dois ciclopes sem ninguém ver, e correríamos escada abaixo antes que as harpias percebessem o porquê de agora ter dois montes de pó dourado onde antes costumava ter dois ciclopes. Encostei-me a um pilar que ficava perto de onde os ciclopes estavam enquanto Sarah se escondia em uma caixa do lado oposto ao meu. Eu iria colocar fogo nos pés deles, eles entrariam em pânico e Sarah os mataria com flechas antes que os ciclopes conseguissem reagir. Parece um bom plano certo? Realmente seria, se eu não estivesse envolvido nele. Lembrem-se, eu sou o semideus mais azarado que já existiu. NUNCA os planos que envolvem minha participação dão certo.

O maior problema foi que quando os pés dos ciclopes pegaram fogo, eles nem se mexeram. Sarah se virou e acertou uma flecha no pescoço de um deles, mas ele também não reagiu. Só então percebi que a hipnose que escravizava eles, os fazia imune a dor também. Ambos os ciclopes olharam em direção de onde a flecha veio e ergueram suas espadas com intenção de atacar. Eu fiz o que tive que fazer, deixei de lado nosso plano discreto e pulei nas costas do ciclope mais próximo. Tampei ambos de seus ouvidos com minhas mãos e invoquei fogo mágico para queimar sua cabeça por dentro. Funcionou perfeitamente e logo ele não passava de monte de pó em minha frente. Sarah rolou para o lado desviando de um ataque do ciclope que foi atingido antes e conseguiu acertar outra flecha em seu olho, o reduzindo também a pó dourado.

— Vamos logo, Sarah! – disse enquanto abria a porta que levava a uma escadaria.

Sarah correu até chegar à porta, mas parou. De repente, vi lagrimas escorrerem de seus olhos, ela sussurrava enquanto chorava. –Não... Marco, não...

—Oi? Sarah? Eu estou aqui! –Eu a balançava, mas nada trazia efeito, ela parecia estar em outro mundo.

—Ela não pode te ouvir, covarde. – Ouvi uma voz infantil se aproximando de mim, apesar de ter a aparência e a voz de uma criança, sua voz tinha um tom grave por trás como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo e ela parecia ter se banhado em petróleo, pois ela era completamente preta, até seus olhos eram do tom mais escuro de preto. Duas asas de morcego saiam de suas costas e ela parecia usar um vestido da mesma cor de seu corpo. – Parece que vou ter uma segunda chance de te devorar. – Disse Hybris com um sorriso no rosto.

—Você de novo... As coisas vão ser diferentes dessa vez! Len me contou como lidar com você, eu não tenho mais medo de suas ilusões!

—Pobre semideus. – Disse ela se aproximando de Sarah. – Ele acha que pode me enganar. Eu posso ver dentro de você, sei quais são seus maiores medos. E sei muito bem que você esta mentindo agora! – E então usou suas garras para cortar a garganta de Sarah, que caiu de joelhos em minha frente.

Fiquei tentado a correr até ela e ficar desesperado, explodir em chamas e matar a Hybris da forma mais cruel que eu poderia pensar. Mas então me lembrei do que Len havia me dito... A Hybris não tem esse poder. Ela não conseguiria matar Sarah! E de fato, assim que olhei para Sarah novamente eu vi que ela ainda estava parada em minha frente, ainda chorando como antes. Imaginei que ela deveria estar tendo a ilusão em que eu morria, mas não sabia lidar com isso devido a essa ser a primeira vez que ela enfrenta a Hybris.

Mas ao mesmo tempo, eu ainda morria de medo de ver Sarah morta sem eu poder fazer nada. Parecia que havia duas imagens em minha frente ao mesmo tempo, a de Sarah sendo morta e a de Sarah chorando em desespero. Meu cérebro estava quase entrando em combustão, eu sentia que iria ficar louco se passasse muito tempo encarando aquela imagem. Ouvia de longe a risada de Hybris. – Fique louco e apodreça, semideus imundo! Antes que as harpias nos ouçam e o faça em pedacinhos! Seu inútil! Seu monte de... – Então sua fala foi interrompida, junto de sua ilusão. Fazendo eu e Sarah cair em nossos joelhos e a imagem de Sarah ser morta parar de se repetir em minha frente. Ela parecia tão confusa quanto eu, quando olhei novamente vi que a Hybris havia sido transformada em uma pilha de pó dourado por uma garota. Ela usava um adorável uniforme de empregada azul claro parecido com aqueles que você vê em animes (Hey, eu tenho meus hobbies ok?), ele tinha uma saia grande que ia até o joelho, meia ¾ branca e um grande laço nas costas. O cabelo era curto e parecia ser incrivelmente macio, sua saúde parecia estar muito melhor que a dos outros semideuses que encontramos anteriormente. Um grande laço branco estava preso na parte de cima de sua cabeça e uma presilha branca prendia sua franja loira para o lado, deixando seus olhos azuis em evidencia.

A garota se virou para Sarah enquanto segurava a espada deixada pelo ciclope que matamos antes de sermos encurralados pela Hybris. Pela sua pose, julguei que ela tinha acabado de cortar a criatura no meio enquanto conversávamos. – Nossa como eu odiava a voz daquela coisa... Enfim, Sarah! Sentiu minha falta? – Disse Rin, mostrando um sorriso arrogante idêntico ao que seu irmão dava quando vencia suas batalhas.