Ouço atentamente ao plano de Sarah. Quanto mais ela falava, mas a frase “Nós vamos morrer” se repetia em minha mente.

O plano era simples na verdade, tinha 3 partes apenas e seria iniciado a meia-noite, primeiro ela usaria seu charme para que o homem que estava nos vigiando(Pierre era o nome dele) pegasse as chaves do quarto de Kikuo e nos entregasse.

O plano era consideravelmente simples. De tarde iríamos para postos diferentes trabalhar e ajudar no circo, porém a meia-noite eu e ela nos encontraríamos novamente perto dos vagões onde os funcionários dormiam, apenas Pierre ficava acordado nessa hora como segurança noturno. A primeira parte do plano consistia em Sarah usar seu charme para fazer Pierre pegar as chaves do quarto de Kikuo e entrarmos lá enquanto ele dorme.

—O charme é perigoso – explicava ela – se eu pedir algo simples como as chaves de um quarto e mandar Pierre embora logo depois, acredito que ele não desconfiará de nada, em outras ocasiões quando eu tentei fugir com outros semideuses eu usei meu charme em Pierre também e ele nunca nos trouxe nenhum problema, por isso vamos o usar novamente. Como a primeira parte do plano envolve apenas entrar no quarto de Kikuo e pegar uma espada de bronze celestial que ele deixa em baixo de sua cama, acredito que ele não vai acordar de meu controle até ser tarde demais.

—Mas e após de pegarmos a espada?

—A espada é só uma garantia para o caso de algo dar errado, dentro do quarto de Kikuo você também vai encontrar uma escrivaninha onde está guardado um molho de chaves, esse é o seu principal objetivo! Com as chaves nós podemos ir à procura de sua irmã, assim que a acharmos nós podemos usar as chaves para liberá-la e correr para a estrada. O circo agora está acampado no acostamento de uma estrada então se a seguirmos nós eventualmente devemos encontrar alguma cidade... – Ela não parecia muito segura nessa ultima parte, mas decidi ter fé nela– Enquanto você está no quarto dele, eu vou correr até a jaula onde ficam presos os elefantes e recuperar um arco velho que fica guardado lá, com sorte devem ter flechas também. Eu aprendi a atirar com um arco quando meu amigo estava por perto, então caso meu charme não funcione eu posso te ajudar dessa forma também.

Então esperamos... Nós fomos fazer nosso trabalho diário assim como qualquer outro dia. Todos os vagões desse circo móvel estavam parados no acostamento de uma estrada no meio do nada, tudo que se podia ver a nossa volta eram desertos então imaginei que deveríamos estar em alguma parte do interior dos EUA. Enquanto eu ajudava o pessoal do circo a carregar equipamentos para seus respectivos lugares, Sarah limpava as jaulas dos animais que dormiam naquele momento após tomarem um tiro de tranqüilizante. Eu ficava com dó deles também, por mais que essa historia de circo fosse só uma desculpa para Kikuo poder viajar pelo país todo procurando semideuses sem levantar suspeitas, aqueles animais ainda eram tratados como escravos assim como nós. Queria poder fazer algo por eles. Mas infelizmente eu já tinha algo com me preocupar, passei o dia andando pelos vagões do circo e mesmo assim não vi Rin em lugar nenhum! Aquilo aumentava minha ansiedade de uma forma insuportável.

Assim a noite chegou, eu e ela fugimos de onde nós deveríamos estar dormindo e fomos até o local demarcado anteriormente – O truque é lavar a parte onde esta cortada logo depois do corte, assim demora menos tempo para cicatrizar, foi assim que eu consegui agüentar tanto tempo das torturas desse sátiro maluco.

—Queria ter pensado nisso antes, mas obrigado pela dica de qualquer forma. Você acha que esse plano vai funcionar, Sarah? E se der certo, após nós encontrarmos uma cidade... Como nós vamos encontrar o acampamento?

—Tem que funcionar... Se nós não conseguirmos agora é meu fim, já estou na idade de ser vendida e por ser uma filha de Afrodite, ser vendida seria a pior coisa do mundo. Geralmente nós somos vendidas para outros propósitos já que não temos muita habilidade natural em combate nem muita força para realizarmos trabalho braçal – Na época eu não entendi muito bem essa frase. Achava que semideuses só eram vendidos para serem usados como trabalhadores ou soldados. Só quando amadureci mais que consegui entender aquilo, vai saber o que alguém doente a ponto de comprar uma pessoa faria com uma garota linda como Sarah como sua escrava. – E dois semideuses juntos já atraem muita atenção, ainda mais quando um deles já tem 12 anos. Acredito que eventualmente um sátiro vai nos encontrar, nós só temos que esperar até lá...

E então meia-noite chegou e o plano se iniciou. Eu e Sarah fomos até os dormitórios improvisados que tinham sido montados naquele local. Apenas Pierre estava fora dos vagões, sentado em uma cadeira de praia. Só naquele momento que eu reparei como ele era diferente, todos os mortais que trabalhavam no circo eram geralmente ex-fazendeiros ou pessoas que simplesmente não tinham para onde ir. Ele poderia se passar muito bem por um rapaz da cidade que parecia ter perto de 23 anos, usava calças jeans e camisas pretas junto com um boné de caminhoneiro que ele quase nunca retirava, seus olhos eram um pouco puxados e seu cabelo era preto raspado. Apesar de ele estar vigiando os vagões enquanto os outros dormiam, ele mesmo estava a ponto de cair no sono.

Aproximamos-nos dele e Sarah sussurrou algo em seu ouvido, o fazendo cair no sono imediatamente. Peguei as chaves dos quartos e encontrei o vagão de Kikuo sem muita dificuldade.

—Isso vai ser moleza. – Disse para mim mesmo enquanto entrava no vagão tomando cuidado para não fazer nenhum barulho. Nesse momento Sarah já havia saído correndo em busca do arco que ela tinha mencionado antes.

Fui aos poucos procurando a escrivaninha dele, o quarto estava muito escuro e eu não tinha nenhuma fonte de luz para usar. Por sorte, bati o dedo mindinho do meu pé direito na escrivaninha, abafei um xingamento e localizei o molho de chaves e os enfiei no meu bolso.

—Quíron... Droga... – Balbuciou ele enquanto dormia e depois se virou e voltou a roncar alto. Agora só encontrar a espada.

Encontro uma pequena luz saindo de baixo de seu colchão. Aproximo-me e consigo sentir a base de uma espada, ao puxar ela sua lamina ficou visível e uma luz fraca era emitida dela mesmo no escuro. Kikuo para de roncar no mesmo momento e meu coração disparar me fazendo congelar na hora. Mas ele não se mexe então decido que ele ainda está adormecido. Quando a espada fica totalmente visível em minhas mãos sinto alguém agarrar meu pulso com força.

—Ora, ora. O que nós temos aqui? – Disse Kikuo enquanto levantava de sua cama, me puxando para perto – O que está fazendo aqui, filo de Ares? Não me diga que você também foi enganado por aquela filha de Afrodite?

—M-Me solta! – Tentava me soltar dele mas suas mãos me seguravam com força – Eu e ela vamos fugir juntos daqui com minha irmã, você não pode nos impedir!

—Pense um pouco, seu idiota. Se esse é o caso porque ela não está aqui contigo? O que a impediria de fugir agora que eu estou distraído com você? Parece que alguém foi feito de tolo! – Disse ele soltando uma gargalhada. – Aquela semideusa não se importa com ninguém a não ser ela mesma, mesmo quando eu matei a pessoa que ela amava, ela não parecia se importar nem um pouco. Porque raios você acha que ela se importaria com você e sua irmã?

De certa forma ela tinha razão, o que a impedia de fugir agora? Tentei ignorar aqueles pensamentos e focar minha atenção a ele. – Minha irmã, onde ela está?!?

—Pode ser que ela já tenha sido vendida, ou que ela esteja presa junto de algum animal, quem sabe? Você vai morrer aqui então não tenho porque te responder nada! – Disse ele enquanto apertava minhas mãos com mais força agora.

Uma onda de raiva me consome e com um pulo dou uma cabeçada em seu nariz fazendo ele me soltar, aproveitei a chance e usei a espada para tentar o de captar, mas a espada era pesada demais e até eu conseguir juntar forças para atacá-lo, ele consegue desviar e a lamina acerta somente sua orelha. – NÃO, VOCÊ ARRANCOU MINHA ORELHA SEU MALDITO! – Disse ele se contorcendo no chão, me virei e corri pela porta a procura de Sarah que não parecia estar em lugar nenhum.

Quase nem tive tempo de raciocinar quando uma cadeira passou voando ao meu lado. Kikuo estava segurando um pano velho com uma mão tentando parar o sangramento que vinha de onde costumava ser sua orelha. – Vou arrancar suas tripas, seu maldito! – e então eu saio em disparada, ele era muito mais rápido que eu naturalmente mesmo quando não estou carregando algo pesado como aquela espada então rapidamente ele me alcançou.

Paro de correr e viro-me apontando a espada para o peito dele, no mesmo instante ambos paramos de se mover. Ficamos nos encarando por alguns momentos, ambos muito nervosos e respirando pesadamente pela perseguição.

—Onde você pensa que vai com isso, filho de Ares?

—Embora desse inferno! E você não vai me deter! – Grito em tom desafiador

—Eu não deixarei nenhum semideus escap... – Kikuo de repente é interrompido por um homem que pula em cima dele o derrubando, era Pierre que ainda parecia em um estado de sonambulismo enquanto segurava Kikuo no chão. Então uma voz gritou para mim

—Len! Vamos embora! – Disse Sarah que veio correndo em minha direção, ela estava com o arco em sua mão esquerda e uma alveja de flechas em suas costas, com sua mão livre ela entrelaça seus dedos com os meus – o efeito do charme vai logo passar e eu não tenho condições de usar isso de novo, vamos embora! – E então saímos em disparada deixando Kikuo gritando atrás de nós.

—Mas e a Rin?! – Grito enquanto corremos

—Tenho um plano, apenas me siga!

—Qual?!

—Ér... Correr pelo circo até encontrarmos ela. Cuidado!

No mesmo momento eu me viro e uso a espada para cortar uma caixa que veio voando em nossa direção. Kikuo vinha mancando atrás de nós, o lenço estava amarrado ao lado de sua cabeça em uma tentativa de parar o sangramento e com sua mão direita ele segurava sua flauta velha. Não conseguia ver Pierre em lugar nenhum e as mãos de Kikuo estavam completamente manchadas de sangue.

—NÃO VÃO ESCAPAR! – Kikuo estava furioso, ele tentava tocar sua flauta desesperadamente, porém o sangue que estava em suas mãos e rosto o impedia.

—Maldito... – Passamos por dentro de um vagão com ele nos perseguindo, eu e Sarah começamos a derrubar tudo o que estava dentro do vagão assim atrapalhando o avanço de Kikuo, eram caixas, vassouras e prateleiras com itens pessoais dos outros funcionários.

Corremos sem rumo até acabarmos saindo do acampamento improvisado onde todos os pertences do circo estavam e encontramos a estrada. Paramos no meio da estrada para retomar nosso fôlego. – Droga... Precisamos voltar... Rin... – Assim que recuperei parte de meu fôlego, me virei para voltar ao circo, porém Kikuo já estava atrás de nós e vinha lentamente em nossa direção. Mas que cara insistente.

—Fim... Da linha... Semideuses... – Sua aparência estava horrível, havia sangue por toda sua camisa. O pano que estava em volta de sua cabeça já estava completamente vermelho assim como suas mãos. Aparentemente o corte que arrancou sua orelha estava começando a sangrar menos.

—Sarah. – A chamei. – Volte ao circo e encontre minha irmã.

—Sozinha? Mas e você?!?

—Vou terminar com isso de uma vez por todas.

Ela me encarou com um olhar preocupado, mas ao mesmo tempo parecia ver um fio de esperança vindo de minha idéia.

—Mas Len... Você não pode se arriscar assim!

—Por favor, Sarah. Eu imploro, salve a minha irmã e volte aqui com ela. Eu vou acabar com esse monstro de uma vez por todas. Não sei lutar, mas mesmo uma criança como eu pode acabar com alguém ferio como ele. – Disse encarando Kikuo com toda a coragem que eu poderia reunir. Eu estava tremendo, minhas pernas pareciam gelatina e eu me sentia a ponto de vomitar. Mesmo após ter perdido tanto sangue, Kikuo ainda parecia incrivelmente assustador, a única coisa que me dava forças para continuar em frente era o pensamento de poder recuperar minha irmã.

Sarah me encarou novamente e disse – Ok eu vou achar sua irmã, eu prometo! –. E voltou correndo para o circo, passando ao lado de Kikuo. Ele não parecia nem um pouco preocupado com ela, mas me olhava como se eu tivesse o insultado severamente. Bom... Talvez eu tenha mesmo.

—Quem você pensa que é? – dizia Kikuo enquanto tentava limpar sua flauta com a camisa.

—Eu sou Hanson Len, filho de Ares e aquele que vai acabar com você de uma vez por todas!

Então segurei o cabo de minha espada com as duas mãos, e disparei em sua direção, sentia como se estivesse correndo ao encontro a um monstro pior do que qualquer minotauro, mas não hesitei por nenhum momento, estava pronto para matar aquele que tinha feito de minha vida um inferno até aquele momento, ou morrer tentando.