A Maldição De Afrodite

8 Acertando contas


Voltando agora para o momento que eu decidi confrontar Kikuo. Como disse antes, eu sentia que podia vomitar a qualquer momento, minhas pernas tremiam e a espada parecia pesar toneladas em minhas mãos. Tentei deixar aqueles sentimentos de lado e me focar no que importava naquele momento, matar o homem que fez de minha vida um inferno nos últimos anos.

Após Sarah passar correndo, eu e ele ficamos nos encarando sem dizer uma palavra, apenas esperando alguém fazer o primeiro movimento. Encarávamos-nos com tanta intensidade que não era preciso dizer nenhuma palavra, nossos olhares já eram o bastante para demonstrar como nós queríamos nos matar.

Enfurecido e cansado de esperar, corro em sua direção levantando minha espada acima de minha cabeça, assim que ele estava em meu alcance, faço um arco com a espada visando acertar a cabeça de Kikuo, mas ele consegue se desviar sem problemas. Mesmo com a dose de adrenalina que corria por minhas veias, eu não conseguia usar uma espada tão pesada então meus movimentos acabavam sendo lentos e desordenados. Antes de conseguir recobrar meu equilibro, ele da um salto ele acerta suas duas patas em meu peito me lançando a aproximadamente 3 metros de distancia. O impacto é tão forte que eu acabo soltando minha espada aos pés dele, tento me levantar novamente mas eu estava tonto por conta do chute que recebido, meu corpo estava prestes a entrar em colapso por puro cansaço.

—É só isso? Um filho de ares que não consegue lutar... Deveria ter te matado quando tive a chance, você não tem valor nenhum. – diz ele enquanto pega sua espada do chão e vem mancando em minha direção lentamente.

Olho tonto para Kikuo e solto o peso da minha cabeça a deixando cair no chão... E começo a pensar... “Pra que lutar? qual o motivo disso? Sarah poderia muito bem cuidar dela mesma, se Rin ficasse com ela, ela também estaria segura... para que continuar desse jeito?”

Tento me levantar mais uma vez, mas não consigo reunir forças para isso, caio novamente soltando o peso de minha cabeça no chão. Sem eu perceber, pensamentos começam a invadir minha mente. – Eu não consigo fazer isso. Eu sou fraco. A essa altura, Sarah e Rin já devem estar em algum lugar seguro, elas podem se virar sozinha, Pelo menos se eu morrer agora, nunca mais teria que sofrer novamente.

—Só sabe falar... Você é uma vergonha... Não merece ter sangue divino correndo nas veias. – dizia Kikuo enquanto se aproximava de mim raspando a ponta da espada no chão

—Ele esta certo... – Pensei comigo mesmo. – Por favor, apenas acabe com isso tudo de uma vez...

Mesmo deitado, meu corpo tremia de dor. Todo aquele esforço que eu havia feito nesses últimos dias veio acumulando em meu corpo e agora ele implorava por descanso. Esses pensamentos são interrompidos por uma voz que invade minha mente, uma voz profunda de um homem que soava imponente e motivadora, eu a conhecia apesar de não saber a quem exatamente ela pertencia.

— Levante-se... Levante-se... LEVANTE-SE!

Por algum motivo, a dor parou de me incomodar, outros tipos de pensamentos começavam a me rodear. – Pode ser que eu morra, pode ser que eu seja mesmo um inútil e no final não consiga salvar nem uma vida. Mas se eu vou morrer, eu vou lutar até o final!

Começo a usar essa nova força para me levantar, eu olhava para Kikuo e rosnava de puro ódio por ele. Quando ele percebeu o que estava acontecendo parou de se mover. A mesma força que eu senti ao enfrentar aquele touro me invadia novamente. O que antes parecia ser uma ilusão, agora era claro como um dia! Uma espécie de vapor vermelho saia de minha pele. Consegui me apoiar em meu joelho, dou um soco no chão ao me levantar fazendo o chão a minha volta tremer.

—Te dou minha benção mais uma vez – Dizia a voz em minha mente. – Faça valer a pena!

—Benção de Ares?!? – exclama Kikuo – Não é normal um garoto de essa idade receber a benção de um Deus, alguns semideuses passam a vida inteira sem seu pai divino dar nenhuma atenção a ele... Bom, se Ares realmente está te dando algum tipo de tratamento especial por algum motivo, isso explicaria de onde saiu àquela força para enfrentar aquele touro na arena... – Kikuo parecia confuso e assustado ao mesmo tempo, ele tentava explicar o que estava acontecendo para si próprio, mas recuava aos poucos conforme eu me levantava.

Não me importei com o que ele dizia, levanto-me furioso encarando ele nos olhos. O vapor vermelho estava tão forte que eu parecia brilhar no escuro da noite, antes dele poder fazer algo eu disparo em sua direção, ele ergue sua espada e tenta me acertar com ela descrevendo um arco que passaria pelo meu pescoço, porém eu me desvio por puro instinto, meus reflexos estavam mais precisos que nunca, eu me sentia como se já tivesse participado de muitas lutas antes dessa e sabia exatamente tudo o que ele iria fazer antes dele me atacar. Ele se desequilibra ao errar seu golpe e antes que ele conseguisse recuperar seu equilibro, me adianto e chuto eu peito com a sola de meu pé fazendo seu corpo sair voando até acertar um caminhão que pertencia ao circo e estava estacionado ao lado da estrada. O impacto o faz soltar a espada e a flauta que caem longe de seu alcance. Ele respirava pesadamente e cuspia sangue, meu golpe aparentemente havia quebrado sua caixa torácica.

—Que tal isso, desgraçado!?! – furioso, corro até sua direção e piso em sua flauta com toda minha força, não só a flauta foi destruída, como também rachaduras começaram a se formar em volta de onde meu pé estava.

Kikuo junta suas ultimas forças, pega um apito que estava guardado em seu bolso e o sopra. Era como um apito de cachorro, eu vi que ele apitava, mas não ouvia som nenhum.

Logo começo a sentir cheiro de fumaça. As rachaduras que eu havia feito na estrada começam a se alargar, não entendendo o que estava acontecendo eu me abaixo e pego a espada que Kikuo havia deixado cair e me afasto. Então de repente com um barulho de explosão, um pequeno terremoto começa a acontecer na estrada em que estávamos e fogo sai do chão, o tremor era tão forte que eu não conseguia manter meu equilíbrio e cai de joelhos no chão.

Um forte calor é emitido daquele fogo, parecia mais forte do que qualquer fogo que eu já havia presenciado antes. Cinco cachorros negros saem do fogo latindo e rosnando para mim, eles eram enormes, quase do tamanho de um cavalo adulto. Seus olhos eram tão vermelhos quanto ao fogo de onde eles saíram. O fogo cessou e eles começaram a me cercar, apesar de grandes eles eram incrivelmente ágeis então eu não conseguia manter todos em minha visão, eu mantinha minha espada levantada em frente de mim, após receber a benção de Ares ela não pesava mais como antes

—E então filho de Ares!?! – ouço Kikuo gritar para mim de longe, sua voz estava fraca e ele tossia enquanto falava – Nem alguém com a benção de um dos 12 grandes conseguiria enfrentar cinco cães infernais ao mesmo tempo! Eu sabia que esse apito que eu recebi quando ainda trabalhava para os deuses seria útil um dia.

— Cães infernais? Bom... Isso explica de onde eles saíram.

Antes que pudesse pensar em qualquer plano de ataque, dois deles avançam sobre mim ao mesmo tempo. Meus reflexos decorrentes da benção de Ares reagem e eu me abaixo quando um deles voa sobre mim tentando me morder, porém o outro já estava de frente comigo e seu focinho já se abria na tentativa de arrancar meu braço esquerdo. Foi como se tudo estivesse em câmera lenta, eu sabia exatamente o que devia fazer.

Quando ele estava a centímetros de meu braço, eu jogo meu corpo para trás adiando o golpe do cão infernal por mais alguns segundos, aproveito o tempo conquistado e antes que ele me alcance eu enfio a lamina de minha espada em sua garganta. Minha espada atravessa seu corpo o transformando em uma espécie de pó dourado e ele desaparece. Meu braço esquerdo estava com alguns arranhões somente.

Aproveito a oportunidade e disparo em direção ao cão infernal que havia passado por cima de mim, assim que ele se virou para minha direção eu uso minha nova força para pular por cima dele (alcançando perto de 1 metro de altura nesse pulo e deixando o chão atrás de mim destruído), pouso atrás dele e enfio minha espada em seu corpo, o transformando em pó assim como o outro.

Encaro os outros cães infernais e decido disparar novamente em direção ao que estava mais perto, mas ouço um barulho vindo de minha perna direita. Aparentemente meu corpo não agüentaria muito mais tempo com aquele poder. Ignoro a dor que começava a crescer e forço meu corpo a correr na direção do cão que estava mais próximo de mim, ele avança e tenta me morder, o deixo acertar meu braço e concentro toda minha força em meu braço direito, uso o punho da espada eu bato em sua cabeça o fazendo desmaiar e conseqüentemente virar pó também.

Devido a meus ferimentos eu me movia muito mais devagar que antes, então não vi a aproximação do outro cão, apenas senti seus dentes perfurarem meu ombro direito e com um grito de dor eu caio no chão de vez.

—HAHAHA! É O FIM! – exclama Kikuo com animação

—Não... AINDA NÃO!

Uso minhas ultimas forças para trocar a espada ao meu braço esquerdo e enfio-a na garganta do cão infernal, ela o atravessa como se fosse feito de papel e ele também se transforma em pó dourado. Porém meu corpo não aguentava mais, meus dois braços estavam agora inutilizados, ajoelhei no chão de dor e percebi que minha perna esquerda agora também não se moveria mais não importa o quanto eu tentava, lentamente o ultimo cão se aproximava de mim, olhei para minha pele e o vapor vermelho estava fraco agora, quase impercebível.

—Não me importo comigo Kikuo... A esta hora Sarah e Rin já devem estar longe daqui... Eu fui vitorioso afinal!

Kikuo se levanta aos poucos, sangue escorria de sua boca, porém ele sorria como podia – Não me importo com mais nada, apenas o fato de que eu vou poder ver seu corpo ser dilacerado na minha frente já me deixa alegre... Você – ele aponta para o ultimo cão infernal – ataque!

Rezei aos deuses para que Rin e Sarah estivessem bem e me preparei para minha morte da maneira que pude, desabei no meio da estrada devido ao cansaço de meu corpo e fechei os olhos esperando receber o golpe final. Porém ele nunca veio. Eu apenas ouvi um barulho de motor se aproximar junto de um grito agudo.

—PELOS DEUSES ONDE ESTA O FREIO?!

Um caminhão branco com a frente amassada e um pneu furado vinha em toda velocidade passando por cima das rachaduras e espalhando o pó dourado por toda parte, antes que eu conseguisse imaginar o porque de Sarah estar dirigindo, eu vi o caminhão atropelar o ultimo cão infernal o reduzindo a pó e frear em minha frente

—Hm... Sarah? Graças aos deuses...

A imagem dela correndo em minha direção foi a ultima coisa que vi antes de tudo ficar preto.