A Maldição
2 Capitulo 2: Os Escudeiros 01! Reencontro.
Notas iniciais
O Reencontro
– Está na hora, não? Pergunta o velho ansioso.
– Sim, ele está atrasado. Mas porque ele marcou este encontro depois de tantos anos? Faz décadas que não o vejo. — responde-lhe o outro senhor que ali estava.
– Por Deus! Pensei que morreria sem tem que lidar com tudo isso novamente. — Diz o velho ainda ansioso.
Estão os dois velhos e aparentemente conhecidos senhores ali, ansiosos, um tanto quanto temerosos, parecendo muito aflitos. Esperando uma terceira pessoa que parece estar atrasada. Ainda confusos eles tentam entender o que está acontecendo.
– Quando você recebeu há convocação? Pergunta Waldemor.
– Faz dias, cerca de doze dias. Mas porque Nordek nos convocaria novamente? Faz mais de cinquenta anos que nada acontece, nenhum sinal, nenhuma palavra, nenhum encontro, nenhuma pista, nenhum discípulo, absolutamente nada acontece. Mas porque agora? Diga-me Izhair como você chegou aqui? Estou surpreso em vê-lo. Pensei que tinha sido você quem havia me convocado.
– Não Waldemor, não convoquei ninguém. — responde Izhair reflexivo. — Faz alguns dias. Estava andando com meu neto por um campo, na verdade caçávamos borboletas, espécies raras para sua coleção, quando de repente o menino me disse que não estávamos sós no campo.
– E quem estava lá? — Perguntou Waldemor curioso.
– Naquele momento eu ainda não sabia, porque por mais que eu forçasse minha visão por aquele campo ensolarado eu não enxergava nada além de grama, arvores e pássaros e um céu azul. Não via absolutamente nada, e estávamos num descampado enorme e extenso, e isso me intrigava porque ele olhava fixo para um determinado ponto e as vezes ria sem parar sozinho, fazia sinais parecendo estar a responder algo. Até que me pediu para poder aproximar-se do outro menino no intuito de lhe convidar para brincar.
– E então? — Interrompe Waldemar por demais de curioso.
– Bem. Eu não estava vendo absolutamente nada! Não havia um menino ali, não tinha ninguém ali que eu pudesse ver. Apenas um descampado com uma árvore solitária bem no meio. O que eu diria?
– Hora diga você o que disse? — Responde um Waldemor irritado e ansioso.
– Bem! Eu disse para ele ir lá e ele foi. Eu queria ver o que havia com aquele menino, o que de fato ele estava fazendo, até onde ia a sua imaginação. Pensei que se tratava apenas de mais um amigo imaginário.
– E então Izhair! O que aconteceu?
– Ele foi conversando com aquele outro garoto que eu não conseguia enxergar. Era tudo impressionante, pois não havia ninguém ali além de nós dois, porém ele interagia com uma terceira pessoa, com um garoto mais precisamente como se ele estivesse realmente ali. Ele esticou a mão, como se tivesse dando a mão ao garoto e saiu caminhando em direção a grande árvore que havia ali perto. Então ele fez a volta na árvore com a mão estendida como se tivesse trazendo alguém consigo, neste momento eu fui apressando meus passos para não perdê-lo de vista e então...- neste momento Waldemor o interrompe.
– Meu Deus Izhair! Já se passaram mais de quatro décadas e você esta cada vez melhor na arte de torturar. Diga-me logo o que tudo isso tem a ver com o fato de estar aqui agora? O que seu neto e seu amigo imaginário tem em relação a isso tudo?
– Calma Senhor! Parece que os anos o tornaram ainda mais impaciente. Tenha calma e saberás. — Contrariado com Izhair o velho Waldemor levantou-se agoniado e caminhou apoiado em sua bengala até a janela que dava para a vista de um lindo campo sombrio, muito extenso, rodeado de arvores que pareciam ser a entrada de uma floresta. Entre o campo e o início das árvores havia um enorme rio que parecia ser muito gelado especialmente naquela manhã cinzenta. E ali, diante daquela vista Waldemor ouviu atentamente o restante das palavras de Izhair até que um frio na barriga interrompeu o seu deslumbre por aquela vista encantadora e intrigante.
– Então apressei meus passos. — Continuou Izhair. — Estava ansioso, agoniado, havia uma sensação estranha no ar, estava arrepiado, inexplicavelmente confuso, aquele dia parecia ter algo diferente, tudo nele parecia mais intenso, a impressão que eu tinha era que estava num dia que tudo poderia ser possível novamente, entende? Waldemor, eu senti de novo aquela sensação!
Waldemor completamente irritado lançou lhe um olhar fulminante de impaciência que não foi preciso sequer pronunciar uma única palavra e Izhair entendeu o recado no mesmo instante, mas ainda assim, não deu eco ao incomodo do velho amigo.
– Enfim. — prosseguiu Izhair. — Quando estava me aproximando da árvore fui surpreendido pelo meu neto voltando e ao me encontrar ele me entregou isso e disse: — Vovô, meu amigo pediu-me para lhe entregar esse desenho. — Nesse momento Izhair puxou do seu bolso um papel envelhecido, amassado, amarelado e com escritas que pareciam terem sido desenhadas com uma tinta ainda não conhecida, pois parecia que o papel já nasceu com aquelas escritas. E disse:
– Passei os olhos naquela folha e um arrepio tomou conta do meu corpo, corri para trás daquela arvore para ver quem estava ali e quando cheguei apenas vi um vulto, na verdade não sei se vi, senti, pressenti, não sei, o que sei é que senti a presença de um menino que saiu correndo a me ver chegar e antes de desaparecer olhou-me sorridentemente, mas não foi um sorriso amistoso.
Então Waldemor quebra o silêncio à medida que dá as costas para a intrigante paisagem, e escorasse na janela como se precisasse repousar seu corpo cansado e atônico pelo que acabara de ouvir:
– Um Índigo! Deus! Izhair seu neto teve contato com um menino Índigo.
Antes mesmo que Izhair pudesse responder é interrompido por uma voz cortante, desafiadora, provocante e inconfundível.
– Espero sinceramente que os Senhores tenham uma justificativa plausível para me fazer viajar por três dias e três noites assim, deste jeito. Quem dos idiotas que vejo em minha frente acionou a tabula de Salomão? Ou foi as duas bestas juntas?
Bem, ai estava ele. O sempre temperamental e mal humorado Nordek. E o que já se suspeitava parece ser de fato uma realidade, o tempo só fez piorar o seu humor.
– Bom. Na verdade esperávamos que você tivesse esta explicação meu nobre e tão renomado Senhor Nordek. — Disse Waldemor em tom curioso. Em seguida os três se olharam fixamente, incrédulos, desconfiados e agora já confusos.
– Mas antes de mais nada, espero que tenha feito uma boa viagem e sim nós até então estamos indo bem, apesar de tudo a vida foi generosa conosco e obrigado por perguntar, não precisa de toda esta formalidade, afinal de contas vivemos muitas coisas intensas juntos, não? — Ironicamente Izhair provoca Nordek.
Então Nordek controlando sua fúria treme os lábios de raiva, sua expressão muda, fica vermelho, caminha com dificuldades em direção a Izhair, pois está cansado da viagem, afinal foi uma viagem longa para um Senhor com mais de setenta anos de idade. Ao chegar à frente de Izhair o olha profundamente em seus olhos, poucos instantes, e ali naquele momento um duelo de olhares carregados de magoas travaram por instantes mais uma luta. Talvez aquele silêncio foi carregado de lembranças e despejado como uma metralhadora de pensamentos e ofensas pensadas mas até então não ditas. Então Nordek, desiste do duelo e segue em direção a mesma janela que Waldemor se encontra. E fitando a mesma paisagem fala agora um tanto mais calmo.
O Pergaminho
– Mas se não foi vocês que me chamaram aqui. Quem foi então?
Um silêncio ensurdecedor toma conta do ambiente. Izhair senta-se no primeiro local que percebe que pode confortar seu corpo velho e cansado. Waldemor faz o mesmo e franze sua testa, passando a coça-la com as unhas de sua mão direita. Um gesto familiar para os dois amigos que há muito tempo não conviviam. Ao ver esta cena após virar-se novamente para o interior da sala Nordek dispara.
– Não admiraria ver um buraco em sua testa ao em vez de rugas meu caro Senhor. — Fala um amargo e provocador Nordek. Waldemar da de ombro e ignora a provocação, porém não se silencia.
– O que está acontecendo? Somente nós três temos o conhecimento sobre tudo, quem nos convocou? — Nisso Waldemor foi interrompido por Izhair.
– Ei! Espere. Como foi que você foi convocado para estar aqui Nordek?
– Eu recebi isso? — Fala Nordek mostrando o pergaminho em sua mão, e continua: — Há Tabula de Salomão. — responde Nordek demonstrando novamente certa irritação com a pergunta, pois já que ali estava era porque havia sido convocado pelo único meio possível para juntar os Três Legados: Há Tabula de Salomão.
– Isso nós já deduzimos Nordek! O que quero saber é como a Tabula de Salomão chegou a suas mãos, quem lhe entregou? — Esclarece um Izhair curioso e ansioso pela resposta.
– Havia um menino que brincava com O filho do meu vizinho todas as tardes, mais precisamente no final da tarde antes do anoitecer. E há uns dias atrás o filho do meu vizinho entregou-me isso dizendo ser um presente deste tal menino.
– E você viu este menino Nordek? — Pergunta o intrigado Waldemor.
– Não, nunca o vi. Para ser sincero, ninguém nunca o viu a não ser o filho do meu vizinho. — Responde um Nordek confuso e atordoado.
– Outro menino Índigo! — Afirma Izhair.
– Ou o mesmo. — Complementa Waldemor.
– Não pode ser! Não, não tem sentido! Não depois de tanto tempo! — Contesta Nordek.
– Ora Nordek! E porque não faria sentido? Nós estamos velhos, mas o mundo ainda é um jovem e selvagem potro a ser domado. Nós sempre soubemos que corríamos o risco de isso acontecer em nossa geração. — Profetiza Waldemor.
– Mas agora? Justo agora, quando estamos mais para lá do que para cá? Meu Deus! Eu mal consigo andar dez metros sem antes ter que me sentar e tomar um ar, como poderei lutar nesta batalha? — Pergunta para si mesmo um velho, destemido e contrariado Nordek.
– Talvez esta batalha não seja para nós Nordek, Já pensou nisso? — Pergunta Izhair reflexivo e prossegue. — Já pensou que o nosso grande papel nesta jornada foi simplesmente manter o segredo protegido e preparar o fiel escudeiro, o herdeiro, e dar continuidade no legado? Suspeito que esta batalha deva ser lutada por eles, nossos diamantes.
Nordek sentou-se em cima de uma caixa que estava ali bem próxima de onde estava. Passou as mãos no seu curto cabelo branco, desfez o nó da gravata, olhou para o teto e deu um suspiro um tanto quanto sofrido. Os dois homens imediatamente fitaram seus olhos para Nordek, que estava ali imóvel olhando para cima como se estivesse buscando forças para continuar o que pretendia fazer e logo depois trocaram olhares entre si, como se estivessem selando um pacto, um combinado que deixariam que Nordek falasse por si só, no seu tempo, sem insistência nem de um ou de outro. E o contrato estabelecido pelo olhar silencioso teve seu resultado. Depois de intermináveis minutos de silêncio Nordek o quebrou intempestivamente com uma bomba.
– Eu não tenho um Escudeiro. — Esta revelação, naquele momento, diante daquele contexto elevou os ânimos e deixou Izhair completamente transtornado.
– Como assim você não tem o seu Escudeiro? — Gritou Izhair furioso e inquisitivo.
– Você é burro? Surdo? Ou está com os ouvidos sujos? — Ironicamente Nordek se defende atacando.
– Sim Nordek! Devo ser burro sim, muito burro na verdade, por acreditar que você faria sua parte como nós fizemos. — Contra tacou agressivamente Izhair enquanto caminhava apressadamente em direção de Nordek.
Neste momento Woldemor se levantou da cadeira no qual estava sentado e se posicionou entre os dois velhos e nervosos amigos.
– Calma! Calma. — E afasta Izhair o empurrando para trás. — Izhair! Vá para lá. Chega desta bobice. — E neste momento vira-se para Nordek e desfere o seu veneno há tanto tempo guardado. — E você seu velho teimoso e orgulhoso. Até mesmo quando faz uma cagada não consegue se livrar desta sua empáfia insuportável? Agora respire, recolha suas armas e nos diga calmamente o que aconteceu.
Ainda com muita raiva Izhair interrompe Woldemor e desafia Nordek mais uma vez.
– Ora o que ele fez? Não fez nada, absolutamente nada! Já era de se prever. Passou a vida em roda do seu próprio umbigo, não é de se espantar que tenha falhado. Burros somos nós dois Woldemor, nós dois, você e eu. Que confiamos nesta besta e deixamos de acompanhá-lo. Por isso que você desapareceu, não é? Eu sabia! Eu Sabia! — Nordek então solta um urro de raiva.
– Mmmmmmmmmmmmmmmeerrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrdddddddddddddaaaaaa!!!- Woldemor e Izhair que discutiam ferozmente um com o outro pararam imediatamente diante do berro atordoado de Nordek. Que logo em seguida continuou a falar enquanto se debruçava inconsolavelmente em suas pernas com as suas duas mãos amparando a cabeça.
– Eu fiz de tudo. Tudo o que podia ter feito. Tentei até o último momento eu tentei-lhe persuadir, mas ele não me deu ouvidos e renegou o Escudo e depois disso eu nunca mais o vi. — Falou um Nordek visivelmente emocionado, enxugando as lagrimas. Ainda assim foi questionado por um de seus velhos conhecidos.
– Porque ele renegou o Escudo? Nordek, nós sabemos que isso nunca antes aconteceu, nunca. — Perguntou Woldemor.
– Ele simplesmente disse que queria distância de qualquer coisa que tivesse alguma relação comigo. E acho que ele falava sério, pois faz muitos anos que não o vejo, sequer sei por onde ele anda. — Nordek faz este relato com dificuldades, sua voz embarga, ele recusa as palavras, mas elas parecem ter vontade própria e saem de sua boca uma a uma.
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