A Maldição do Instinto

1 Primeiro contato visual


— Será que eu deveria deixar uma carta de despedida...?Nah, já estou aqui, foda-se. – Falo comigo mesmo, começando a me achar realmente louco por estar conversando sozinho, o vento frio me fazendo sorrir, um sorriso verdadeiro. Minha temperatura corporal sempre foi relativamente alta, então tempos frios não me afetavam muito, pelo contrário, me deixavam feliz. Pelo menos vou morrer numa época linda... Solto um espirro.

Estava caminhando por uma trilha que levava para a floresta, devia ser umas 7 horas da manhã. Já fazia três dias que havia vindo passar as férias no sitio do meu pai. Minha madrasta, que estava grávida, me tratava na base do "tenho algumas coisas contra você, mas nada a favor" que eu não me importava, não queria dar mais sorrisos forçados e ter amizades superficiais, já bastava ter que agir assim na cidade, onde morava com minha mãe.

Finalmente estava livre da escola, havia terminado o ensino médio esse ano e fugi o mais rápido que pude da formatura, não aguentava mais ver a cara daquelas pessoas. O sitio foi uma boa escolha, meu pai trabalha o dia todo e a noite fica cansado demais pra bate-papo, então eu tinha o dia inteiro para andar pelos alqueires, as vacas não gostavam da minha presença por algum motivo, e sempre fugiam, agradecia por isso.

Mesmo tendo várias coisas por agradecer, não mudava o fato de que teria que voltar para a cidade, para os braços da minha mãe. Poderia morar no sitio, mas não acho que daria muito certo. Sou gay assumido, só esse motivo já fez meu próprio pai enrugar o nariz, imagina as outras pessoas do sitio? Se descobrissem, eu provavelmente seria morto por um radical qualquer. E mesmo que não fosse, meu pai não deixaria, volta e meia ele acaricia a barriga da minha madrasta falando coisas como: "Um homem macho está vindo", "Esse peão vai ser meu orgulho" ou até mesmo "Ele vai ser cuidado pelas minhas próprias mãos e vai crescer um homem", esse último me dando o pensamento "Quem foi que nos abandonou? Hm? E mesmo se eu fosse criado por você não mudaria nada".

Já estava aguentando por muito tempo, nada me faria mudar de ideia.

— O que eu faço agora? Deveria ter pensado mais cuidadosamente antes... — Me sento em um barranco de terra seca, olhando para a floresta a minha frente, meu queixo descansando sobre minha mão. – Afogamento? Não, eu sei nadar. Talvez devesse subir uma arvore e cair dela? – Olho para uma arvore alta ali perto, mas uma coisa branca ao seu pé me chamou a atenção. Levanto-me e vou em direção a aquela coisa. Quando percebi que não era uma coisa, mas sim um ser vivo, me surpreendi. Uma cobra branca... Ela deve ter quase um metro... Espera... — Perfeito!

Descuidadamente me aproximei dela e me agachei, estava prestes a tocá-la quando voltei minha mão.

— Minhas últimas palavras, quase esqueço. – Respiro fundo, o ar frio me fazendo tossir um pouco. – Quero que todo mundo se foda e vá para o inferno. – Voltei a aproximar minha mão, tocando e acariciando as suas belas escamas frias, lisas e brancas como a neve. Ela, que parecia estar simplesmente me ignorando um momento atrás, virou sua cabeça para mim bruscamente, me olhando com seus olhos vermelhos. Arrependi-me do que fiz no momento que nossos olhos se encontraram. Eu usei ela. Eles vão mata-la. Não quero isso. Não quero mete-la no meio.

Esses pensamentos atravessaram minha mente em um segundo, antes de ela se rastejar rapidamente para o meu corpo. Por instinto tentei me levantar, mas minhas pernas ficaram dormentes e acabei caindo de costas no chão. Cadê ela? Pensei rapidamente antes de sentir algo frio em minha barriga. Ela havia entrado na minha camiseta, me fazendo ficar tenso e sem me mexer por um bom tempo, só esperando a picada. Depois de quase 10 minutos, perdi a paciência e me levantei.

Ela estava enrolada em um circulo sobre meu peito, mas com o movimento brusco e a minha posição agora vertical, ela começou a escorregar pelo meu tronco, me trazendo cocegas, mas rapidamente segurei a parte de baixo de minha blusa, evitando de faze-la cair e a aconchegando. Ela realmente não vai me morder? Talvez eu devesse deixá-la em algum tronco longe daqui. Um vento frio passa por mim, me fazendo sorrir de novo, mas a cobra em minha barriga se encolheu, me fazendo entender tudo. Eu sou burro? Como eu não pude perceber, ela está com frio! Se eu deixa-la por ai, ela provavelmente vai hibernar, a deixando indefesa caso os fazendeiros a encontrem e a tentem a matar. Ela provavelmente estava prestes a hibernar, por isso não reagiu com o meu cheiro ou com o barulho que estava fazendo.

Eu morava no extremo sul do país, e agora que estava no interior, estava fazendo ainda mais frio. Na verdade hoje começaria uma temporada de extremo frio, a mais baixa desde 20 anos.

— Você realmente é incrível. Como conseguiu sobreviver por aqui? Será que alguém excêntrico cuida de você? Deve ser por isso que você é tão amável. Não se preocupe, quando seu dono perceber que você sumiu ele vai vim te procurar. – Vou falando com ela enquanto subia um morro, voltando para a casa do meu pai.

Era um fato: Meu ponto fraco são os animais, ainda mais os exóticos.